Terceira halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh. A Mishná ensina que quem escreve duas letras no Shabat é culpado, com a mão direita ou com a esquerda, sejam iguais ou diferentes, em qualquer língua; Rabi Yossi diz que a culpa vem da marca, pois assim marcavam as tábuas do Mishkan para saber qual era o par de cada uma; e Rabi Yehudá diz que encontramos um nome pequeno tirado de um nome grande, como Shem de Shimon e Gad de Gadiel. A guemará atribui a Rabi Yossi a palavra “sinais”; explica que “qualquer língua” inclui alef e alfa; pergunta por que as tábuas não precisavam de um sinal só, e responde com as penas de cana, as argolas e a escrita em diagonal, e com Rabi Imi, para quem cada tábua tem o seu lugar fixo; aplica esse mesmo versículo à ordem dos que saudavam o Nassi; conta das duas famílias de Tzipori e do ensino de Rabi Yochanan, de que o mamzer sábio precede o Sumo Sacerdote inculto; e termina com as letras retas e curvas, a opinião de Rabi Yudá e dos rabinos, e a pergunta sobre a sua linha invertida. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 103a.
Mishná: Quem escreve duas letras, seja com a sua mão direita, seja com a sua esquerda, seja de um só nome, seja de dois nomes, seja de dois simaniyot (sinais), em qualquer língua, é culpado. Disse Rabi Yossi: não se tornaram culpados por duas letras senão por causa de uma marca, pois assim marcavam sobre as tábuas do Mishkan (o Tabernáculo), para saber qual delas é o seu par. Disse Rabi Yehudá: encontramos um nome pequeno tirado de um nome grande: Shem de Shimon e de Shmuel, Noach de Nachor, Dan de Daniel, Gad de Gadiel.
Quem ensinou simeyonot (sinais)? Rabi Yossi. O que é o que a Mishná diz: “em qualquer língua”? Mesmo alef e alfa (uma letra hebraica e uma grega). E não se deve temer que talvez ponha a ponta de baixo em cima, a de cima embaixo? Eram feitas como uma espécie de kulmusin (penas de cana). E não se deve temer que talvez ponha o lado de dentro fora e o de fora dentro? As argolas provavam qual era o lado.
E não se deve temer que talvez troque uma tábua pela outra? Disse Rabi Achá: o sinal estava escrito sobre elas em lochsan (diagonal). E se trocar? Disse Rabi Imi: “E erguerás o Mishkan conforme o seu mishpat (a sua regra)” (Shemot 26:30). E acaso há mishpat para as madeiras? Mas a tábua que mereceu ser posta no lado norte, seja posta no norte; a que mereceu ser posta no sul, seja posta no sul.
Os da casa de Rabi Hoshaya e os da casa de bar Pazi costumavam perguntar pela paz do Nassi (o Patriarca) a cada dia. E os de Rabi Hoshaya entravam primeiro e saíam primeiro. Foram os de bar Pazi e aparentaram-se pelo casamento com a nessiutá (a casa do Patriarca). Vieram e quiseram entrar primeiro. Foi perguntado isso a Rabi Imi. Disse-lhes Rabi Imi: “E erguerás o Mishkan conforme o seu mishpat.” E acaso há mishpat para as madeiras? Mas a tábua que mereceu ser posta no lado norte, seja posta no norte; a que mereceu ser posta no sul, seja posta no sul.
Duas famílias havia em Tzipori, os bouleutai (os conselheiros da cidade) e os pagani (os do campo). Costumavam perguntar pela paz do Nassi a cada dia. E os bouleutai entravam primeiro e saíam primeiro. Foram os pagani e adquiriram mérito na Torá. Vieram e quiseram entrar primeiro. Foi perguntado isso a Rabi Shimon ben Lakish. Rabi Shimon ben Lakish perguntou-o a Rabi Yochanan. Entrou Rabi Yochanan e expôs-o na casa de estudo de Rabi Benaia: “Mesmo se forem um mamzer (filho de união proibida) talmid chacham (erudito da Torá) e um Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) am haaretz (inculto), o mamzer talmid chacham precede o Cohen Gadol am haaretz.” Pensavam dizer: isso vale para resgatar, para vestir e para manter vivo; mas para o sentar, não. Disse Rabi Avin: também para o sentar. Qual é a razão? “Ela é mais preciosa que peninim (pérolas)” (Mishlei 3:15): mais preciosa mesmo do que este que entra lifnai lifnim (ao interior do interior).
Ensina-se: “E Gad de Gadiel.” Objetam a Rabi Yehudá: e não são estas letras peshutim (retas) e aquelas kefufim (curvas)? Ensina-se em nome de Rabi Yudá: se escreveu duas letras iguais e elas são um nome, é culpado, como שש, תת, גג, רר, חח. E os rabinos dizem: duas letras tornam culpado em qualquer caso.
Resulta que dizes: há leniência e rigor na palavra de Rabi Yudá, leniência e rigor na palavra dos rabinos. Leniência na palavra de Rabi Yudá: se escreveu duas letras iguais e elas são um nome, segundo a opinião de Rabi Yudá é culpado, segundo a opinião dos rabinos é isento. Leniência na palavra dos rabinos: duas letras de qualquer modo, ainda que não sejam um nome, segundo a opinião dos rabinos é culpado, segundo a opinião de Rabi Yudá é isento.
Invertida está a linha de Rabi Yudá, pois se ensina: “Poderia pensar que não é culpado até que escreva o nome inteiro, até que teça a roupa inteira, até que faça a peneira inteira; diz o versículo: ‘de uma’. Se ‘de uma’, poderia pensar que é culpado mesmo se escreveu uma letra, mesmo se teceu um fio, mesmo se fez uma malha na nafá (peneira fina) ou na kevará (peneira grossa); diz o versículo: ‘e fizer uma’. Como assim? Até que faça um trabalho cujo semelhante permanece.” E aqui ele diz: “Quem shovet (bate os fios da trama) e quem mekatket (alisa os fios com a mão) sobre o tecido, eis que é culpado, porque ajusta o tecido com a sua mão.”
Esta é a terceira halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:3 da Mishná avulsa, que vai de “quem escreve duas letras” até “Gad de Gadiel”. A Mishná seguinte, Shabbat 12:4, que começa com “quem escreve duas letras numa só distração” (הַכּוֹתֵב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת בְּהֶעְלֵם אֶחָד), é a da halachá 12:4, cujo primeiro segmento no Sefaria é essa mesma Mishná. Há diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “mishnei simaniyot”, “de dois sinais”, onde a Mishná avulsa escreve “mishnei samaniyot”, “de duas tintas”, e o Bavli “mishtei samaniyot”; seguimos o hebraico daqui, e é por isso que a guemará pergunta quem ensinou “sinais”. Escreve também “nitchayevu”, “tornaram-se culpados”, onde a avulsa escreve “chiyevu”, “tornaram culpado”; “hayu roshmin”, “marcavam”, onde a avulsa escreve “hayu chotvin”, “escreviam”; “ei zehu”, onde ela escreve “eizo”; “umiShmuel”, “e de Shmuel”, onde ela escreve “uShmuel”; e “amar Rabi Yehudá”, onde a avulsa do Sefaria escreve só “amar Rabi”, enquanto o Bavli lê “amar Rabi Yehudá”, como aqui. As demais diferenças são de grafia e de vocalização. O sentido é o mesmo, exceto em “sinais” e “tintas”, e conservamos o hebraico como está. “De um só nome” e “de dois nomes” querem dizer, segundo Guggenheimer, a mesma letra duas vezes ou duas letras diferentes. Guggenheimer observa que a guemará pressupõe uma Mishná sem a frase “Gad de Gadiel”, que por isso é trazida como ensino à parte no início da seção 04; no manuscrito de Leiden ela é um acréscimo do copista na margem, e falta também na Mishná do Yerushalmi editada por Lowe e no manuscrito de Munique do Bavli. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os quatro seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 04 é o quinto, e nenhum segmento foi dividido entre seções. O segundo segmento foi dividido em dois pares de hebraico e português dentro da seção 01, e o quinto em três pares dentro da seção 04. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá: 3”, que tiramos, como nas outras halachot; Guggenheimer anota, no início do quinto segmento, “aqui começa a discussão da Mishná 3”, na sua numeração própria. O Sefaria marca, no meio da seção 01, antes de “e não se deve temer que talvez ponha o lado de dentro fora”, o início da folha 69b da edição de Vilna; no início da seção 04, a coluna 13d da edição de Veneza; e, no meio da seção 04, antes de “invertida está a linha”, o início da folha 70a de Vilna; tiramos esses marcadores, que não fazem parte do texto. Não há neste trecho sinais editoriais entre colchetes ou parênteses no hebraico.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 103a, e a guemará sobre ela vai até 104b, onde começa a Mishná seguinte. Em 103a, Rabi Yirmeyá explica a mão esquerda como a do canhoto, e Abayê como a de quem domina as duas mãos; e Rav Yaakov, filho da filha de Yaakov, diz: “esta, de quem é? É de Rabi Yossi”, e o Bavli conclui que “toda ela é de Rabi Yossi”, como a pergunta “quem ensinou sinais?” da seção 01. Entre 103a e 103b, o Bavli traz a baraita: “‘e fizer uma’: poderia pensar até que escreva o nome inteiro, até que teça a roupa inteira, até que faça a peneira inteira; diz o versículo: ‘de uma’”, que termina, na versão anônima, com “até que escreva um nome pequeno de um nome grande: Shem de Shimon e de Shmuel, Noach de Nachor, Dan de Daniel, Gad de Gadiel”; Rabi Yehudá diz: “mesmo que não tenha escrito senão duas letras, e elas são um só nome, é culpado, como shesh, tet, rar, gag, chach”; Rabi Yossi diz: “é acaso culpado por causa de escrever? Não é culpado senão por causa de marcar”, e por isso quem risca um só risco sobre duas tábuas é culpado; e é Rabi Shimon quem diz “até que faça um trabalho cujo semelhante permanece”, palavras que a seção 04 traz sem nome. Também o Bavli vê ali uma contradição de Rabi Yehudá, e a resolve dizendo que uma é a sua palavra e a outra a do seu mestre, pois Rabi Yehudá diz isso em nome de Rabban Gamliel. Em 103b, o Bavli pergunta, como a seção 04: “é acaso semelhante? O mem de ‘Shem’ é fechado, e o mem de ‘Shimon’ é aberto!”; Rav Chisda responde que daí se aprende que a letra fechada que se fez aberta é válida, e a discussão continua em 104a, com o mem e o samech das Tábuas e as letras finais “ditas pelos profetas”. A Tosefta Shabbat 11:6, na numeração Lieberman, ensina: “quem risca um risco sobre duas tábuas juntas é culpado”, e atribui a Rabi Akiva, e não a Rabi Yossi, a palavra “não tornaram culpado por duas letras senão por causa de marca, pois marcam sobre as tábuas do Mishkan para saber qual é o seu par”. O Sifra, Vayikra, Dibbura deChovah, capítulo 1, itens 4 a 6, na numeração do Sefaria, traz as mesmas baraitot do Bavli, com o mesmo exemplo de Rabi Yehudá e a mesma palavra de Rabi Shimon. O versículo de Rabi Imi é Shemot 26:30; “de uma” é Vayikra 4:2, sobre quem peca sem querer, e “e fizer uma” é Vayikra 4:22, sobre o príncipe que peca; “ela é mais preciosa que pérolas” é Mishlei 3:15, onde o texto escrito traz uma grafia sem o segundo nun, e a leitura é “mipeninim”. As seções 02 e 03 têm paralelo quase literal no Yerushalmi Horayot 3:5, na numeração do Sefaria (Guggenheimer o cita como 3:7); lá se lê “os de bar Pazi e os de bar Hoshaya”, “vieram e perguntaram a Rabi Imi”, sem “disse-lhes Rabi Imi”, “resgatar, manter vivo e vestir”, nessa ordem, e “Rabi Avun” em vez de “Rabi Avin”. O ensino de Rabi Yochanan é a Mishná Horayot 3:8: “o sacerdote precede o levita, o levita o israelita, o israelita o mamzer”, e, quando o mamzer é sábio e o Sumo Sacerdote é inculto, o mamzer sábio precede; e a Mishná Horayot 3:7 ensina que o homem precede a mulher para manter vivo e para devolver o achado, e a mulher precede o homem para vestir e para resgatar do cativeiro.
Observações de leitura. Palavras gregas e latinas: “simeyonot” é o grego “sēmeion”, “sinal”, no plural, e a Mishná daqui escreve “simaniyot”, da mesma raiz; “alfa” é a primeira letra grega, ao lado do alef hebraico; “kulmusin” é o grego “kalamos”, a cana de escrever; “lochsan” é o grego “loxon”, “oblíquo”, como na halachá 11:3; “bouleutai” é o grego “bouleutai”, os membros da “boulē”, o conselho da cidade; e “pagani” é o latim “pagani”, os da aldeia, os do campo. Na seção 01, a guemará pergunta por que não bastava uma só letra em cada tábua, para indicar o alto e o baixo, o dentro e o fora; Guggenheimer explica que as tábuas eram como penas de cana, grossas embaixo e finas em cima, que as argolas por onde passavam as travessas ficavam todas do mesmo lado, e que os sinais de duas tábuas vizinhas estavam escritos em diagonal, de modo que só se encontravam numa linha quando as tábuas estavam no lugar certo. Rabi Imi responde que nem se podiam trocar as tábuas, pois cada uma tinha o seu lugar fixo. Na seção 02, o mesmo versículo decide a precedência: quem entrava primeiro continua a entrar primeiro, mesmo que os outros se tenham aparentado com o Nassi. Na seção 03, “o sentar” é a ordem dos lugares diante dos sábios; Guggenheimer traduz “for the Academy”. “Lifnai lifnim”, “o interior do interior”, é o Santo dos Santos, onde só o Sumo Sacerdote entra, e é jogo de palavras com “peninim”, “pérolas”. Na seção 04, “retas” e “curvas” são as letras finais e as do meio da palavra: o mem de “Shem” é final, e o de “Shimon” não; o nun de “Dan” é final, e o de “Daniel” não; a guemará não responde à objeção. O hebraico diz “leniência” nas duas frases que explicam “leniência e rigor”; Guggenheimer observa que nelas seria preciso ler “rigor”, pois cada frase mostra um caso em que uma das opiniões é mais rigorosa; seguimos o hebraico. A “linha invertida” de Rabi Yudá é que ele exige um nome inteiro para escrever, mas, na baraita de quem bate os fios do tecido, que Rabi Adá atribui a Rabi Yehudá na halachá 12:1, seção 07, torna culpado por um ato pequeno; “ele”, em “e aqui ele diz”, é Rabi Yehudá. O texto não traz resposta, e deixamos a pergunta como está.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer escreve “Rebbi Yose”, “Rebbi Jehudah”, “Rebbi Aḥa”, “Rebbi Immi”, “Rebbi Hoshaia”, “Sepphoris”, “Rebbi Simeon ben Laqish”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Benaiah” e “Rebbi Abbin”; mantivemos “Rabi Yossi”, “Rabi Yehudá”, “Rabi Achá”, “Rabi Imi”, “Rabi Hoshaya”, “Tzipori”, “Rabi Shimon ben Lakish”, “Rabi Yochanan”, “Rabi Benaia” e “Rabi Avin”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site; onde o hebraico escreve “Rabi Yudá”, com yod, conservamos essa forma, e “Rabi Yehudá” onde escreve com he. Na Mishná, ele junta “whether two signs of any language”; separamos, como o hebraico, “de dois sinais” e “em qualquer língua”. Na seção 03, ele acrescenta entre colchetes “knowledge in” e “of the Sanctuary”; traduzimos o hebraico sem colchetes e deixamos a explicação para esta nota. No fim da seção 04, ele acrescenta “and here because he equalizes with his hand”, que não está no hebraico deste segmento, mas na halachá 12:1; seguimos o hebraico.