Shabbat 103a dá continuidade direta à sugya de 102b, ainda dentro do Perek Yud-Bet, HaBoneh. A folha abre com o conteúdo da prova ‘venha e ouça’ anunciada no final de 102b: a própria mishná ensina que quem perfura qualquer quantidade fica obrigado, o que se ajusta bem à posição de Rav, mas parece difícil para Shmuel, que exige a conclusão da obra; a Guemará resolve, explicando que se trata de quem perfurou com um prego de ferro e o deixou dentro do buraco, o que é considerado conclusão da obra. Em seguida, a Guemará explica o que a frase ‘esta é a regra’ vem incluir: quem talha, num bloco grande, apenas a capacidade de um kefitza (meio-cav), quando o bloco seria apto para um cav inteiro. Sobre a afirmação de Rabán Shimon ben Gamliel de que quem golpeia o malho sobre a bigorna fica obrigado, Rabá e Rav Yossef explicam que é porque ele adestra a mão; os filhos de Rachavá objetam com o caso de quem apenas observa um ofício e aprende; Abaye e Rava respondem que se trata de uma prática real dos laminadores das placas do Tabernáculo, confirmada por uma baraita. A folha então passa a uma nova Mishná: a medida mínima de quem lavra, capina, decota e apara é qualquer quantidade, e quem recolhe lenha ou erva é medido conforme sua finalidade — consertar o terreno, alimentar um animal, ou servir de combustível. A Guemará explica que lavrar qualquer quantidade serve para semear uma única semente de abóbora, com paralelo, no Tabernáculo, num único talo de plantas usadas para tinturas; uma baraita detalha as medidas de quem arranca chicórias e decota varas; e a Guemará discute a aparente redundância da cláusula sobre embelezar o terreno, distinguindo pantanal de campo comum, e a questão da intenção quando se trabalha em terra alheia. A folha termina com outra nova Mishná, sobre quem escreve duas letras no Shabat — com a mão direita ou esquerda, do mesmo nome ou de dois nomes diferentes, com duas tintas, em qualquer língua — e as posições de Rabi Yosei (que fala em mera marca, como nas tábuas do Tabernáculo) e Rabi Yehuda (que fala em nome pequeno contido dentro de um nome grande). A Guemará pergunta por que escrever com a esquerda também obriga, respondendo com o caso do canhoto e, por fim, do ambidestro; atribui a mishná inteira a Rabi Yosei; questiona se Rabi Yehuda exige duas letras de nomes diferentes; e cita uma baraita sobre a expressão ‘de uma’ no versículo do líder que peca por engano, cujo desfecho — se até uma única letra, um único fio, ou um único ponto de peneira bastam — fica para o daf 103b.
"Quem perfura qualquer quantidade — está obrigado." Está bem, segundo Rav — parece como quem cava um buraco para fins de construção; mas segundo Shmuel — não é conclusão da obra! A Guemará responde: aqui, com que estamos tratando? Com o caso em que ele o perfurou com um prego de ferro e o deixou dentro dele — e isso é conclusão da obra.
Confirmado via Sefaria: aqui, no início de 103a, chega finalmente o conteúdo da prova anunciada pela fórmula "venha e ouça" ao final de 102b. A prova é a própria mishná que abre o Perek Yud-Bet, citada antes por inteiro: "quem perfura qualquer quantidade — está obrigado", sem qualquer condição adicional. Essa formulação se ajusta perfeitamente à posição de Rav, para quem perfurar já é, em si, uma forma de construir — de modo que qualquer buraco, por menor que seja, já constitui construção completa. Mas, para Shmuel, que sustenta que perfurar não é, por si, conclusão de obra (pois um buraco só se completa quando algo é inserido nele, como uma estaca), a formulação simples da mishná — sem menção a qualquer inserção — parece difícil: como poderia haver responsabilidade por qualquer quantidade, se a obra ainda não está concluída? A Guemará resolve a dificuldade explicando que a mishná trata, na verdade, de um caso específico: alguém que perfurou um buraco com um prego comprido de ferro e deixou o próprio prego cravado dentro do buraco, sem removê-lo. Nesse caso, mesmo Shmuel concorda que há conclusão da obra, pois o prego cumpre exatamente a função de uma estaca inserida — não há mais nada a fazer.
"'Quem perfura'" — e todo aquele que perfura com a intenção de preencher (o buraco depois), é para cravar nele uma estaca; e quando não é para preencher, chama-se "quem faz um buraco" (nokev). "'Está bem, segundo Rav'" — que disse que um buraco já é construção, também este é construção, de qualquer quantidade, e ainda que venha a preenchê-lo depois, já foi útil para a construção o fato de ter perfurado o buraco. "'Cavou um buraco'" — perfurou um buraco. "'Mas segundo Shmuel'" — que disse que perfurar não é construir; está bem quanto ao buraco de um galinheiro, pois pode-se dizer que fica obrigado por golpear com o martelo; mas este, que está destinado a ser vedado, não é conclusão de obra. "'Que o perfurou com um prego de ferro'" — com um prego comprido de ferro. "'E o deixou dentro dele'" — para arrancá-lo dali quando precisar.
"Esta é a regra." "Esta é a regra" vem para incluir o quê? Vem para incluir quem talha a capacidade de um kefitza (meio-cav) num bloco apto para um cav inteiro.
A Guemará examina a fórmula geral com que a mishná resume a categoria de construção: "esta é a regra: todo aquele que realiza uma obra, e sua obra permanece no Shabat, está obrigado." Como já ficou estabelecido que qualquer quantidade de construção obriga, essa frase parece supérflua — o que ela vem, então, acrescentar? A Guemará responde que ela vem incluir um caso específico: alguém que talha, num bloco bruto de madeira grande o bastante para nele esculpir um recipiente com a capacidade de um cav inteiro, apenas a capacidade de meio-cav (um kefitza), deixando o restante do bloco intocado. Como o resultado de seu trabalho — o pequeno recipiente de meio-cav — já é uma medida útil e permanece como está, mesmo que ele pretenda, no futuro, ampliar o entalhe para completar o cav inteiro, ele já fica obrigado por essa obra parcial, pois ela já produziu algo que permanece.
"'Talha um kefitza num cav'" — num bloco bruto grande, apto para nele talhar (a capacidade de) um cav, talhou (a capacidade de) três login (um kefitza, isto é, meio-cav); e embora esteja destinado a acrescentar ao entalhe depois, há quem mantenha assim sem completar.
"Rabán Shimon ben Gamliel diz: também quem golpeia com o malho sobre a bigorna" etc. O que ele faz com esse golpe? Rabá e Rav Yossef, ambos disseram: porque adestra sua mão. Os filhos de Rachavá objetaram a isso: mas então, se alguém observou um ofício sendo realizado no Shabat e aprendeu a praticá-lo por meio dessa observação, também assim ficaria obrigado? Antes, Abaye e Rava, ambos disseram: pois assim fazem os que laminam as placas de metal do Tabernáculo. Também assim foi ensinado numa baraita: Rabán Shimon ben Gamliel diz: também quem golpeia com o malho sobre a bigorna no momento da obra — está obrigado, pois assim fazem os que laminam as placas do Tabernáculo.
A Guemará retoma a última cláusula da mishná de abertura do perek, onde Rabán Shimon ben Gamliel acrescenta que também quem golpeia com um malho sobre a bigorna, no momento de realizar uma obra, fica obrigado. À primeira vista, esse golpe não parece produzir nada diretamente — ele atinge a bigorna, não a peça que está sendo trabalhada — por isso a Guemará pergunta: o que exatamente ele realiza com esse golpe? Rabá e Rav Yossef respondem que o propósito é adestrar a mão: o artesão golpeia a bigorna para calibrar a força e a precisão do golpe antes de aplicá-lo à peça propriamente dita, e esse ajuste é considerado parte da obra. Os filhos de Rachavá objetam com uma comparação reveladora: se bastasse "adestrar a mão" para gerar responsabilidade, então alguém que meramente observasse um artesão trabalhando no Shabat e, através dessa observação passiva, aprendesse a praticar o ofício, também deveria ficar obrigado — o que é absurdo, pois observação não é ação. Abaye e Rava respondem então com uma explicação diferente e mais concreta: o golpe sobre a bigorna não é um mero exercício de treino, mas uma prática documentada e real dos artesãos que, no Tabernáculo, laminavam placas finas de metal para revestir as tábuas — eles golpeavam repetidamente sobre a placa e, de vez em quando, golpeavam também a própria bigorna, para alisar e ajustar o malho, evitando que a placa fina se rachasse. Uma baraita confirma essa explicação, citando a mesma opinião de Rabán Shimon ben Gamliel com a justificativa explícita: "pois assim fazem os que laminam as placas do Tabernáculo".
"'Adestra sua mão'" — habitua-a e a ajusta ao golpe apropriado para a obra, um golpe grande ou um golpe pequeno. "'Os que laminam as placas do Tabernáculo'" — para revestir as tábuas. "'Fazem assim'" — golpeiam três vezes sobre a placa e uma vez sobre a bigorna, para alisar o malho, para que a placa, que é fina, não se rache; e eu vi que os cunhadores de moedas em nosso lugar fazem assim.
MISHNÁ. Quem lavra qualquer quantidade, e quem capina, e quem decota, e quem apara qualquer quantidade — está obrigado. Quem recolhe lenha: se para consertar a árvore ou o terreno — qualquer quantidade; se para combustível — o suficiente para cozinhar um ovo fácil de cozinhar. Quem recolhe ervas: se para consertar — qualquer quantidade; se para alimentar um animal — a boca cheia de um cabrito.
Confirmado via Sefaria: uma nova mishná se abre aqui, ainda dentro do Perek Yud-Bet, HaBoneh, que segue explorando as medidas mínimas de diversas obras proibidas no Shabat. Esta mishná trata das obras agrícolas: quem lavra a terra — mesmo uma quantidade mínima — fica obrigado; o mesmo vale para quem capina ervas daninhas, quem decota galhos secos de uma árvore, e quem apara ramos verdes em excesso, todos por qualquer quantidade. Já quem recolhe lenha ou erva do chão, sem cortá-la diretamente da planta, tem sua responsabilidade medida de forma diferente, conforme o propósito: se o objetivo é consertar ou embelezar a árvore ou o terreno (removendo entulho ou vegetação indesejada), qualquer quantidade obriga, pois até o menor gesto já cumpre esse propósito; mas se o objetivo é usar a lenha como combustível, é necessário recolher uma quantidade equivalente à que seria usada para cozinhar um ovo fácil de cozinhar (uma medida padrão usada em várias sugyot do Shabat); e se o propósito é recolher erva para alimentar um animal, a medida é a boca cheia de um cabrito — a quantidade que um cabrito consegue abocanhar de uma vez.
"'MISHNÁ: quem capina'" — corta ramos secos de uma árvore, para consertá-la. "'Decota'" — corta ramos verdes e novos deste ano, que às vezes são numerosos e enfraquecem a árvore, e outros secam, e ele os corta dela. "'Se para consertar'" — a árvore ou o terreno, e os cortou do que está preso à terra. "'Ovo fácil'" — uma quantidade como uma figada seca, do ovo de galinha, que é o mais fácil de cozinhar entre todos os ovos.
GUEMARÁ. Para que uso serve lavrar qualquer quantidade? Serve para semear ali uma semente de abóbora. O correspondente, quanto ao Tabernáculo: pois é apto para plantar um único talo de plantas de tinturas.
Seguindo o padrão já estabelecido nesta sugya, a Guemará pergunta para que serve, na prática, uma quantidade tão mínima de lavra que ainda assim obriga. A resposta: uma área de terra lavrada, por menor que seja, já é suficiente para nela plantar uma única semente de abóbora — e como essa semente única realmente cresce e produz fruto naquele pequeno espaço lavrado, considera-se que a lavra teve um propósito real e útil, e não foi um gesto vão. O paralelo no Tabernáculo: uma área equivalente de terra seria suficiente para plantar um único talo de plantas usadas para preparar as tinturas com que se coloriam os fios das cortinas. A nota de Rashi acrescenta uma distinção importante em relação a uma sugya anterior (Shabat 90b), sobre a medida mínima para o ato de retirar (transportar) sementes de abóbora no domínio público, onde se ensinou que a medida mínima é de duas sementes, e não uma — porque uma pessoa não se dá ao trabalho de carregar sementes de abóbora de uma em uma. Essa consideração, explica Rashi, aplica-se apenas ao ato de retirar, pois quando alguém carrega duas sementes, carrega-as juntas, e não se importaria em transportar apenas uma sozinha; mas quanto à lavra, cada buraco de plantio é cavado individualmente, de modo que mesmo uma única semente já justifica plenamente a lavra de seu próprio buraco.
"'Para semear uma semente de abóbora'" — para semear nela um único grão de abóbora; e embora tenhamos ensinado (acima, Shabat 90b), quanto ao ato de retirar, que a medida é duas sementes de abóbora, pois uma pessoa não se dá ao trabalho de transportar por um único grão — isso vale para o ato de retirar, pois quando retira duas, retira-as juntas, já que não semeia uma só sozinha; mas quanto à lavra, cada buraco de plantio ele faz por si mesmo, separadamente.
"Quem capina, e quem decota, e quem apara." Ensinaram os Sábios numa baraita: quem arranca chicórias, e quem decota varas — se o faz para comer, a medida é o tamanho de uma figada seca. Se o faz para alimentar um animal — a boca cheia de um cabrito. Se o faz para combustível — o suficiente para cozinhar um ovo fácil de cozinhar. Se o faz para embelezar o terreno — qualquer quantidade.
A Guemará cita uma baraita que expande a categoria de "quem capina, e quem decota, e quem apara" da mishná, detalhando as medidas exatas conforme a finalidade de quem arranca chicórias silvestres (uma erva que cresce como planta daninha) ou decota varas de um tipo de caniço. Se o propósito é o consumo humano direto, a medida mínima é o tamanho de uma fig-secada (grogueret), a medida-padrão para alimentos sólidos em muitas áreas da halachá do Shabat; se o propósito é alimentar um animal, a medida é a boca cheia de um cabrito, repetindo a medida já dada na mishná; se o propósito é usar como combustível, a medida é a quantidade necessária para cozinhar um ovo fácil de cozinhar; e se o propósito é simplesmente embelezar o terreno — removendo vegetação indesejada, independentemente de qualquer uso posterior do material removido — qualquer quantidade já obriga, pois o próprio ato de embelezamento já se realiza plenamente.
"'Chicórias'" — erva chamada, em língua estrangeira, crispel (uma espécie de chicória silvestre). "'Varas'" — são um tipo de caniço; e enquanto ainda tenras, decotam-nas para alimento humano; endurecidas um pouco, são aptas para alimento de animal; secas, servem para combustível.
Mas, acaso todos estes casos anteriores não são também eles para embelezar o terreno , tornando a última cláusula redundante? Rabá e Rav Yossef, ambos disseram: ensinaram isso num pântano , onde arrancar erva não embeleza o terreno. Abaye disse: mesmo que digas que se trata de um campo que não é pântano, é possível também, num caso em que não teve essa intenção. Mas não disseram Abaye e Rava, ambos, que Rabi Shimon concorda no caso de "corta-se-lhe a cabeça, mas não morrerá?" Isto é, quando o resultado é inevitável, a falta de intenção não isenta. A Guemará responde: não é necessário recorrer a essa objeção, pois trata-se antes de quando alguém faz isso na terra do seu próximo.
A Guemará levanta uma objeção natural contra a última cláusula da baraita: se arrancar chicórias ou decotar varas "para embelezar o terreno" obriga por qualquer quantidade, essa cláusula parece redundante, pois, em certo sentido, todo ato de remover vegetação — mesmo quando feito para comer, alimentar um animal, ou obter combustível — também embeleza o terreno como efeito colateral; cada planta removida deixa o solo mais limpo. Rabá e Rav Yossef respondem que a baraita, ao mencionar especificamente "embelezar o terreno" como categoria própria, refere-se a um pântano, onde o solo não é cultivado e remover vegetação silvestre não é normalmente percebido como embelezamento — de modo que só se aplicaria essa cláusula quando essa fosse realmente a intenção declarada. Abaye propõe uma resposta alternativa, que não depende de restringir o caso a um pântano: mesmo num campo comum, a cláusula pode se referir a alguém que, ao arrancar as plantas, não tinha a intenção de embelezar o terreno (talvez estivesse apenas testando a terra, ou agindo sem propósito claro). A Guemará então objeta contra Abaye com o princípio de Rabi Shimon sobre ações sem intenção: mesmo Rabi Shimon, que geralmente isenta de responsabilidade quem realiza uma ação sem ter a intenção proibida (davar she'eino mitkaven), concorda que há responsabilidade quando o resultado proibido é absolutamente inevitável — a fórmula clássica é "corta-se-lhe a cabeça, mas não morrerá?", ou seja, um resultado certo não pode ser genuinamente "não intencional". Como embelezar o terreno é um resultado inevitável de arrancar vegetação, a falta de intenção específica não deveria isentar. A Guemará resolve harmonizando as duas respostas: a explicação de Abaye era necessária apenas para o caso em que a pessoa realiza essa obra na terra de outra pessoa — nesse caso, como ela mesma não tem qualquer interesse ou benefício em embelezar uma terra que não é sua, o resultado, embora fisicamente inevitável, não lhe é atribuído como propósito, e por isso não fica obrigada.
MISHNÁ. Quem escreve duas letras, quer o faça com sua direita, quer com sua esquerda; quer sejam do mesmo nome, quer de dois nomes; quer o faça com duas tintas; em qualquer língua — está obrigado. Disse Rabi Yosei: não obrigaram por duas letras senão por causa de marca, pois assim escreviam sobre as tábuas do Tabernáculo, para saber qual era o seu par. Disse Rabi Yehuda: encontramos um nome pequeno dentro de um nome grande — "Shem" , de duas letras, de Shimon e de Shmuel; "Nôach" de Nachor; "Dan" de Daniel; "Gad" de Gadiel.
Confirmado via Sefaria: abre-se aqui outra nova mishná, ainda dentro do Perek Yud-Bet, agora sobre a medida mínima da melacha de escrever. Escrever duas letras — a menor unidade de escrita com significado — já obriga no Shabat, independentemente de uma longa lista de variáveis: se foi feito com a mão direita ou com a esquerda; se as duas letras pertencem à mesma palavra ou a duas palavras diferentes; se foram escritas com dois tipos de tinta diferentes (por exemplo, uma letra com tinta preta e outra com almagre vermelho); e em qualquer língua ou sistema de escrita, não apenas hebraico. Rabi Yosei propõe uma base diferente para essa responsabilidade: segundo ele, duas letras só obrigam porque, no Tabernáculo, os artesãos costumavam fazer marcas simples (não necessariamente letras completas) nas tábuas de madeira, para saber qual tábua correspondia a qual, ao desmontar e remontar a estrutura entre as viagens do povo no deserto — de modo que mesmo uma marca simples, sem significado linguístico, já seria suficiente para gerar responsabilidade. Rabi Yehuda acrescenta um princípio diferente: mesmo que alguém pretendesse escrever uma palavra longa e tenha escrito apenas as duas primeiras letras, ele já fica obrigado, desde que essas duas letras, por si só, constituam um nome válido menor, contido dentro do nome maior pretendido — como "Shem" (composto pelas duas primeiras letras de "Shimon" ou "Shmuel"), "Nôach" (de "Nachor"), "Dan" (de "Daniel"), ou "Gad" (de "Gadiel").
"'MISHNÁ: quer do mesmo nome'" — ambas as letras são álef. "'De dois nomes'" — álef e bet. "'Com duas tintas'" — uma com tinta e uma com almagre. "'Em qualquer língua'" — de todas as escritas e formas de letra de todo povo e nação. "'Por causa de marca'" — sinal que faziam nas tábuas do Tabernáculo, porque as desmontavam, e para que, ao remontá-las, não trocassem a ordem das tábuas; e veio Rabi Yosei dizer que, mesmo que não tenha escrito, mas apenas marcado dois traços simples como sinal, está obrigado. "'Encontramos um nome pequeno etc.'" — isto vem ensinar-nos que, segundo Rabi Yehuda, ainda que sua obra não tenha sido concluída — pois tinha a intenção de escrever uma palavra grande e escreveu apenas parte dela, e essa parte é, por si, uma palavra que permanece com sentido próprio em outro lugar — ele já está obrigado.
GUEMARÁ. Está bem, quanto à mão direita, que fique obrigado, porque essa é a forma costumeira de escrever; mas quanto à mão esquerda, por quê deveria ficar obrigado? Eis que não é a forma costumeira de escrever assim! Disse Rabi Yirmeya: ensinaram isso quanto a um canhoto. Mas então sua mão esquerda seria como a mão direita de todo o mundo, e pela esquerda dele é que deveria ficar obrigado, e pela direita dele não deveria ficar obrigado! Antes, disse Abaye: trata-se de quem domina com ambas as mãos.
A Guemará questiona a primeira cláusula da mishná: por que escrever com a mão esquerda também gera responsabilidade, se essa não é a forma costumeira de escrever, e a halachá em geral exige que a ação seja realizada da maneira habitual para gerar responsabilidade plena? Rabi Yirmeya propõe que a mishná trata de um canhoto, para quem a mão esquerda é, na prática, a mão dominante e costumeira de escrever. Mas a Guemará imediatamente aponta uma dificuldade nessa resposta: se o canhoto usa a esquerda como sua mão "costumeira", então, para ele, seria de se esperar o oposto do que a mishná diz — deveria ficar obrigado por escrever com a esquerda (sua mão habitual) e isento por escrever com a direita (sua mão incomum) — mas a mishná menciona ambas as mãos como igualmente obrigando, sem fazer essa distinção. Abaye oferece então uma resposta diferente, que resolve a dificuldade: a mishná não trata de um canhoto comum, mas de uma pessoa ambidestra, que domina igualmente bem as duas mãos, de modo que escrever com qualquer uma delas é, para essa pessoa específica, uma ação costumeira e plenamente responsável.
Rav Yaakov, filho da filha de Yaakov, disse: esta mishná, de quem é a opinião? É de Rabi Yosei, que disse: não obrigaram por duas letras senão por causa de marca. A Guemará pergunta: mas, do fato de a última cláusula ser segundo Rabi Yosei, segue que a primeira cláusula não é segundo Rabi Yosei! A Guemará responde: toda ela é segundo Rabi Yosei.
Rav Yaakov, filho da filha de Yaakov, resolve a dificuldade anterior de outra maneira, atribuindo a mishná inteira à opinião de Rabi Yosei: como Rabi Yosei ensina que a responsabilidade por escrever duas letras decorre apenas da noção de marca (e não de escrita formal e precisa), não é necessário que a mão esquerda escreva de forma tão exata quanto a direita — basta que ela produza algo reconhecível como marca, o que qualquer pessoa, canhota ou destra, consegue fazer com qualquer uma das mãos. A Guemará objeta: se assim for, por que atribuir apenas a última cláusula da mishná (a opinião explícita de Rabi Yosei) a ele, implicando que a primeira cláusula (sobre a mão direita e esquerda) seguiria uma opinião diferente e anônima? A Guemará responde que essa implicação não é necessária: a mishná inteira, do início ao fim, reflete a posição de Rabi Yosei, e o fato de sua opinião ser citada explicitamente apenas na parte final serve apenas para dar ênfase e nomear a fonte, sem indicar que a primeira parte seja de outra autoria.
"'GUEMARÁ: esta, de quem é? É de Rabi Yosei'" — pois não requer uma escrita formal, mas apenas uma marca simples; e com sua esquerda, ao menos uma marca há.
Voltamos à cláusula: "disse Rabi Yehuda: encontramos." A Guemará pergunta: mas então, será que Rabi Yehuda só torna obrigado por duas letras que são as iniciais de dois nomes diferentes, mas por duas letras que são a totalidade de um único nome curto — não torna obrigado?
A Guemará examina os limites exatos da opinião de Rabi Yehuda. Ele ensinou que alguém que pretendia escrever uma palavra longa, mas escreveu apenas suas duas primeiras letras — e essas duas letras já formam, por si, um nome próprio válido e menor — já fica obrigado, mesmo sem completar a palavra original. Todos os quatro exemplos que ele cita ("Shem", "Nôach", "Dan", "Gad") são casos em que as duas letras escritas coincidem com as duas primeiras letras de um nome maior e diferente. A Guemará questiona: será que essa é uma condição necessária da opinião de Rabi Yehuda — que as duas letras completem um nome diferente do nome originalmente pretendido — de modo que, se alguém escrevesse apenas duas letras que já formassem, por si mesmas, um nome curto e completo (sem nenhuma intenção de continuar escrevendo algo maior), ele não ficaria obrigado, já que não haveria ali a mesma estrutura de "nome pequeno dentro de nome grande"? Essa pergunta prepara o terreno para a baraita citada a seguir, que trará uma fonte bíblica mais ampla sobre a responsabilidade por obra parcial.
"'E são as iniciais de dois nomes'" — como aqueles que a mishná menciona, que não são letras repetidas e iguais entre si. "'Mas duas letras que são a totalidade de um único nome'" — como "shesh" , de "sheshach", ou "tat" , de "tatnan", ou "chach" , de "chachim" — não torna obrigado, visto que Rabi Yehuda não mencionou nenhum destes.
E não foi ensinado numa baraita: "e fez" — basta uma parte da obra, para ficar obrigado. Poder-se-ia pensar que a obrigação só se dá até que escreva todo o nome, e até que teça toda a peça de roupa, e até que faça toda a peneira por inteiro — por isso o texto ensina, dizendo: "de uma."
A Guemará traz uma baraita que fundamenta, com uma fonte bíblica independente, o princípio geral de que a responsabilidade por uma obra proibida no Shabat não exige a conclusão total dessa obra — basta realizar uma parte dela. A fonte é o versículo sobre o líder (nasi) que peca por engano (Vayikra 4:2, 22): a Torá emprega a expressão "e fez... de uma delas" ao descrever a transgressão que gera a obrigação de trazer uma oferta pelo pecado. Sem essa palavra adicional "de uma" (me'achat), poder-se-ia pensar que a pessoa só se torna responsável quando completa inteiramente a obra proibida que pretendia realizar — por exemplo, somente quando termina de escrever o nome completo que tinha em mente, somente quando termina de tecer a peça de roupa inteira, ou somente quando termina de fazer a peneira inteira. A palavra "de uma" vem ensinar que isso não é necessário: basta realizar uma parte da obra — a parte mínima e significativa dela — para já ficar obrigado, mesmo que a obra maior pretendida permaneça incompleta.
"'Uma'" — inclui toda a obra, mesmo parcial. "'Todo o nome'" — a palavra é chamada "nome".
Se se ensina "de uma", poder-se-ia pensar que, mesmo que não tenha escrito senão uma única letra, e não tenha tecido senão um único fio, e não tenha feito senão uma única casa de malha na peneira , já ficasse obrigado —
Confirmado via Sefaria (Shabbat 103a:13): o texto do daf 103a termina exatamente neste ponto, em pleno andamento de uma nova dificuldade levantada pela própria baraita, sem resolvê-la. A palavra "de uma" (me'achat), que a baraita anterior usou para ensinar que basta uma obra parcial (e não a conclusão total) para gerar responsabilidade, agora parece exigir demais na direção oposta: se realmente basta qualquer parte, por menor que seja, da obra pretendida, então poderia parecer que já bastaria escrever uma única letra (em vez de duas letras completas, como a mishná exige), tecer um único fio (em vez de um trecho substancial do tecido), ou fazer uma única "casa" de malha na peneira (a menor unidade estrutural do entrelaçamento de uma peneira de junco) — reduzindo a exigência de "obra parcial" a um limiar praticamente inexistente. A frase é interrompida exatamente aqui, sem a resposta que a Guemará certamente trará (com base no restante do versículo) para restabelecer um limite mínimo razoável. Essa resposta, e a continuação direta desta sugya sobre a medida mínima da melacha de escrever, ficarão para o início do daf 103b.
"'Uma casa na peneira'" — depois de dispor os ramos que servem de urdidura, faz, no tecer da trama, um ramo por baixo e um por cima; e estes são chamados "casas", e eles atam a urdidura, à maneira de seu entrelaçamento, e o tecido se sustenta; e uma única "casa" não se mantém sozinha; e, como não são fios, chamam-nas "casa", como as "casas dos liços", que não têm outras "casas de liços" iguais a elas.