Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Bet · Halachá 2
שַׁבָּת

O arar, o capinar e as medidas da lenha e das ervas

Perek Yud-Bet, HaBoneh, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh. A Mishná ensina que quem ara no Shabat qualquer quantidade é culpado, e também quem arranca as ervas daninhas, quem desbasta e quem poda a árvore; quem recolhe lenha para melhorar a terra é culpado por qualquer quantidade, e, se é para queimar, pelo bastante para cozinhar um ovo leve; quem recolhe ervas para melhorar, por qualquer quantidade, e, se é para o animal, por quanto enche a boca de um cabrito. A guemará pergunta que arar havia no Mishkan, e responde que se arava para plantar as plantas dos corantes; traz Rabi Matanyá e Rabi Ba em nome de Rav sobre quanto se deve arar, o bastante para um alho-poró ou para o broto do trigo; lembra a Mishná das sementes de pepino e de abóbora e a baraita do trigo da Média, com a palavra de Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira; e termina perguntando para que a Mishná precisa das medidas do melhorar e da boca do cabrito. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 103a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַחוֹרֵשׁ כָּל שֶׁהוּא הַמְנַכֵּשׁ וְהַמְקַרְסֵם וְהַמְזָרֵד כָּל שֶׁהוּא חַיָיב. הַמְלַקְּט עֵצִים לְתַקֵּן כָּל שֶׁהֵן. אִם לְהַסִּיק כְּדֵי לְבַשֵּׁל בֵּיצָה קַלָּה. הַמְלַקֵּט עֲשָׂבִים לְתַקֵּן כָּל שֶׁהֶן אִם לַבְּהֵמָה כִּמְלוֹא פִי גְדִי:

Mishná: Quem ara qualquer quantidade, quem menakesh (arranca as ervas daninhas), quem mekarsem (desbasta os ramos secos) e quem mezared (poda os ramos novos) qualquer quantidade é culpado. Quem recolhe lenha para melhorar é culpado por qualquer quantidade; se para queimar, por quanto basta para cozinhar uma beitzá kalá (um ovo leve). Quem recolhe ervas para melhorar, por qualquer quantidade; se para o animal, por quanto enche a boca de um cabrito.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Que arar havia no Mishkan, e quanto se deve arar
Yerushalmi · Shabbat 12:2
ב׳. מַה חֲרִישָׁה הָיְתָה בַמִּשְׁכָּן. שֶׁהָיוּ חוֹרְשִׁין לִיטַּע סִימְמָנִין. וְכַמָּה יַחֲרוֹשׁ וִיהֵא חַיָיב. רִבִּי מַתַּנְיָה אָמַר. כְּדֵי לִיטַּע כְּרֵישָׂה. רִבִּי בָּא בְשֵׁם רַב. כְּדֵי לִיטַּע זִכְרוּתָהּ שֶׁלְּחִיטָּה.

Que arar havia no Mishkan (o Tabernáculo)? Que aravam para plantar simemanin (as plantas dos corantes). E quanto deve arar no Shabat para ser culpado? Rabi Matanyá disse: o bastante para plantar um alho-poró. Rabi Ba em nome de Rav: o bastante para plantar o broto do trigo.

02As sementes de pepino e o trigo da Média
Yerushalmi · Shabbat 12:2
תַּמָּן תַּנִּינָן. זֶרַע קִישּׁוּאִין שְׁנַיִם. זֶרַע דִּילוּעִין שְׁנַיִם. תַּנֵּי. חִטִּים מָדִיּוֹת שְׁתַּיִם. רִבִּי שְׁמוּאֵל בְשֵׁם רִבִּי זְעוּרָה. חִטִּין עַל יְדֵי שֶׁהֵן חֲבִיבוֹת עָשׂוּ אוֹתָן כִּשְׁאַר זֵירְעוֹנֵי גִינָּה שֶׁאֵינָן נֶאֱכָלִין.

Lá ensinamos na Mishná, sobre quem leva para fora no Shabat: “Semente de kishuin (pepinos), duas; semente de abóboras, duas.” Ensina-se numa baraita: “Chitim madiyot (trigo da Média), dois grãos.” Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira: o trigo, por ser estimado, fizeram-no como as demais zeronei guiná (sementes de horta), que não se comem.

03Para que a Mishná precisa destas medidas
Yerushalmi · Shabbat 12:2
לָמָּהָ לִי לְתַקֵּן כָּל שֶׁהוּא. לָמָּה לִי כִּמְלוֹא פִי גְדִי.

Para que preciso que se ensine “para melhorar, qualquer quantidade”? Para que preciso que se ensine “quanto enche a boca de um cabrito”?

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:2 da Mishná avulsa, que vai de “quem ara qualquer quantidade” até “se é para o animal, quanto enche a boca de um cabrito”, incluindo a lenha e as ervas. A Mishná seguinte, Shabbat 12:3, que começa com “quem escreve duas letras” (הַכּוֹתֵב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת), é a da halachá 12:3, cujo primeiro segmento no Sefaria é essa mesma Mishná. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “hamelaket etzim letaken”, sem o “im”, “se”, que a Mishná avulsa tem antes de “letaken”, tanto na lenha como nas ervas; escreve “lehasik”, “para queimar”, onde ela escreve “lehesek”, “para combustível”; nas ervas, escreve “kol shehen”, no plural, onde ela escreve “kol shehu”; escreve “labehemá”, com o artigo, onde ela escreve “livehemá”; e “kimlo fi gedi”, sem o artigo, onde ela escreve “kimlo fi hagedi”. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 03 é o quarto, e nenhum segmento foi dividido. O Sefaria abre a guemará com o rótulo “halachá: 2”, que tiramos, como nas outras halachot; não há neste trecho marcadores de folha nem sinais editoriais entre colchetes ou parênteses.

Referências conferidas. As seções 01 e 02 têm paralelo quase literal no Yerushalmi Shabbat 7:2, sobre a Mishná das trinta e nove melachot, onde “o que ara” é uma delas; lá o hebraico diz “samemanin” em vez de “simemanin”; diz “Rabi Achá bar Rav” onde aqui se lê “Rabi Ba em nome de Rav”; cita a Mishná das sementes com “é culpado” e com uma terceira semente, “semente de fava egípcia, duas”; escreve “Rabi Zeira” em vez de “Rabi Zeura”; e continua com a lista de tudo o que é “para benefício do solo” e torna culpado por causa de “o que ara”. A Mishná citada na seção 02 é a Mishná Shabbat 9:7, sobre as medidas de quem leva para fora: “sementes de horta, menos que um figo seco; Rabi Yehudá ben Beteirá diz: cinco; semente de pepinos, duas; semente de abóboras, duas; semente de fava egípcia, duas”; o ensino do trigo da Média, com a palavra de Rabi Shmuel em nome de Rabi Zeira, está também no Yerushalmi Shabbat 9:7. Não encontramos a baraita do trigo da Média na Tosefta nem no Bavli. A medida “quanto enche a boca de um cabrito”, da seção 03, é a das ervas na Mishná Shabbat 7:4, sobre quem leva para fora: “ervas, quanto enche a boca de um cabrito”; Guggenheimer observa que essas palavras da Mishná nada ensinam que não se pudesse deduzir de lá. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 103a, e a guemará sobre ela está toda na mesma folha: o arar de qualquer quantidade serve para uma semente de abóbora, e, no Mishkan, para um só talo de plantas de corantes; uma baraita ensina que quem arranca endívias ou poda ramos, se é para comer, é culpado pela medida de um figo seco; se é para o animal, pela boca cheia de um cabrito; se é para queimar, pelo bastante para cozinhar um ovo leve; e, se é para embelezar o solo, por qualquer quantidade; e Rabá e Rav Yossef dizem que a baraita fala de um pântano, onde o arrancar não melhora o solo. Rashi, em Shabbat 103a, explica que “mekarsem” é cortar os ramos secos da árvore para consertá-la; que “mezared” é cortar os ramos verdes novos do ano, que às vezes são muitos e enfraquecem a árvore; que “para melhorar” é a árvore ou o solo; e que o ovo leve é o ovo de galinha, o mais fácil de cozinhar. A Tosefta Shabbat 9:16, na numeração Lieberman, ensina que “quem cava, quem ara e quem abre vala” fazem um só trabalho.

Observações de leitura. Na Mishná, “para melhorar” não diz o quê; seguimos Rashi, para quem se trata da árvore ou do solo, e por isso quem recolhe para melhorar é culpado por qualquer quantidade, como quem ara. Na seção 01, “simemanin” são as plantas de que se faziam os corantes dos fios das cortinas do Mishkan. O hebraico “zichrutá shel chitá”, que traduzimos “o broto do trigo”, quer dizer ao pé da letra “a masculinidade do trigo”; Guggenheimer traduz “a wheat sprout”. Rabi Matanyá e Rabi Ba em nome de Rav discutem o tamanho mínimo da terra arada para que o arar seja um trabalho, isto é, quanto basta para plantar alguma coisa. Na seção 02, a Mishná das sementes, que trata do levar para fora, parece citada porque a medida do arar é o bastante para plantar, e as sementes que se levam para plantar se medem por duas; e a palavra de Rabi Zeira explica por que o trigo, que normalmente se mede como alimento, foi medido aqui como semente de horta, que não se come: os seus grãos são estimados. Esta é a nossa leitura. Na seção 03, a guemará pergunta para que a Mishná ensina as duas medidas, se uma se deduz da regra do arar e a outra da Mishná 7:4; o texto não traz resposta, e deixamos a pergunta como está.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Onde o hebraico diz “Rabi Ba em nome de Rav”, Guggenheimer escreve “Rebbi Aḥa bar Rav”, como no paralelo de 7:2; seguimos o hebraico. Ele escreve “Rebbi Mattaniah”, “Rebbi Samuel” e “Rebbi Zeˋira”; mantivemos “Rabi Matanyá”, “Rabi Shmuel” e “Rabi Zeira”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. O hebraico escreve “Rabi Zeura”, com a letra he no fim, que é Rabi Zeira; seguimos a grafia habitual deste site. Na seção 02, ele traduz “two green melon seeds make liable”, acrescentando “make liable”, que o hebraico daqui não tem, mas que está no paralelo de 7:2; traduzimos “kishuin” por “pepinos”, como na halachá 9:7. Na Mishná, ele observa que é preciso acrescentar “é culpado” depois da lenha e das ervas; fizemo-lo em itálico.