Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Bet · Halachá 1 (abertura do capítulo)
שַׁבָּת

HaBoneh: quanto se deve construir para ser culpado

Perek Yud-Bet, HaBoneh, Halachá 1 (abertura do capítulo), no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Primeira halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, que abre o décimo segundo capítulo, HaBoneh. A Mishná ensina que quem constrói no Shabat é culpado por qualquer quantidade, e também quem talha a pedra, quem golpeia com o martelo e com o formão e quem perfura; e dá a regra: é culpado todo aquele cujo trabalho permanece. Rabban Shimon ben Gamliel acrescenta quem golpeia com o malho sobre a bigorna na hora do trabalho. A guemará pergunta que construção havia no Mishkan, as tábuas postas sobre as bases, e por que ela conta como permanente; traz a baraita da pedra e da argamassa, com Rabi Yossi; trata de quem talha rochedos e mós, da cama de montar e da mesa de peças que Rav Hamnuna permitiu ao exilarca, e da baraita das tábuas e dos pés da mesa que não se recolocam no Shabat; do chifre curvo e dos braços do candelabro de Rabi Simai e Rabi Elazar beRabi Shimon; das portas de correr das lojas que Beit Hillel permitem recolocar no Yom Tov; da opinião de Rabi Shimon, para quem só o trabalho completo torna culpado; e termina explicando a palavra de Rabban Shimon ben Gamliel pela de Rabi Yehudá sobre quem bate os fios do tecido. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 102b.

Abre-se Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat · HaBonehהַבּוֹנֶה

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַבּוֹנֶה כַּמָּה יִבְנֶה וִיהֵא חַיָיב. הַבּוֹנֶה כָל שֶׁהוּא. הַמְסַתֵּת וְהַמַּכֶּה בַפַּטִּישׁ וּבַמַּעֲצָד הַקּוֹדֵחַ כָּל שֶׁהוּא חַיָיב. זֶה הַכְּלָל כָּל הָעוֹשֶׂה מְלָאכָה וּמְלַאכְתּוֹ מִתְקַיֶּמֶת בַּשַּׁבָּת חַיָיב. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר אַף הַמַּכֶּה בַקּוּרְנָס עַל הַסַּדָּן בִּשְׁעַת מְלָאכָה חַיָיב מִפְּנֵי שֶׁהוּא כִמְתַקֵּן מְלָאכָה:

Mishná: Quem constrói no Shabat, quanto deve construir para ser culpado? Quem constrói qualquer quantidade é culpado. Quem talha a pedra, e quem golpeia com o martelo, dando ao objeto o acabamento final, e com o formão, e quem perfura qualquer quantidade, é culpado. Esta é a regra: todo aquele que faz uma melachá (trabalho proibido), e o seu trabalho permanece, no Shabat, é culpado. Rabban Shimon ben Gamliel diz: também quem golpeia com o malho sobre a bigorna na hora do trabalho é culpado, porque é como quem aperfeiçoa o trabalho do artífice.

A Halachá · הֲלָכָה א

01Que construção havia no Mishkan
Yerushalmi · Shabbat 12:1
הַבּוֹנֶה כַּמָּה יִבְנֶה וִיהֵא חַיָיב כול׳. מַה בִּנְיָין הָיָה בַמִּשְׁכָּן. שֶׁהְיוּ נוֹתְנִין קְרָשִׁים עַל גַּבֵּי אֲדָנִים. וְלֹא לְשָׁעָה הָיְתָה. אָמַר רִבִּי יוֹסֵה. מִכֵּיוָן שֶׁהָיוּ נוֹסְעִים וְחוֹנִים עַל פִּי הַדִּיבֵּר כְּמִי שֶׁהוּא לְעוֹלָם. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן. מִכֵּיוָן שֶׁהִבְטִיחָן הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא שֶׁהוּא מַכְנִיסָן לָאָרֶץ כְּמִי שֶׁהוּא לְעוֹלָם. הָדָא אָמְרָה. אֲפִילוּ מִן הַצַּד. הָדָא אָמְרָה. אֲפִילוּ נָתוּן עַל גַּבֵּי דָּבָר אַחֵר. הָדָא אָמְרָה. בִּינְיָין עַל גַּבֵּי כֵלִים בִּנְיָין. אֲדָנִים בַּקַּרְקַע הֵן.

“Quem constrói, quanto deve construir para ser culpado” etc. Que construção havia no Mishkan (o Tabernáculo)? Que punham as tábuas sobre as adanim (as bases das tábuas). E não era uma construção passageira? Disse Rabi Yossi: uma vez que partiam e acampavam conforme a palavra divina, é como algo que dura para sempre. Disse Rabi Yossi beRabi Bun: uma vez que o Santo, bendito seja, lhes prometeu que os faria entrar na Terra, é como algo que dura para sempre. Isto quer dizer: mesmo construir de lado é construção. Isto quer dizer: mesmo o que é posto sobre outra coisa é construção. Isto quer dizer que construção sobre utensílios é construção? Responde-se: as bases estão no solo.

02A pedra e a argamassa; a fiada de pedras
Yerushalmi · Shabbat 12:1
תֵּנֵּי. אֶחָד מֵבִיא אֶת הָאֶבֶן וְאֶחָד מֵבִיא אֶת הַטִּיט. הַמֵּבִיא אֶת הַטִּיט חַיָיב. רִבִּי יוֹסֵה אוֹמֵר. שְׁנֵיהֶן חַיָיבִין. סָבַר רִבִּי יוֹסֵי. אֶבֶן בְּלֹא טִיט בִּנְיָין. הַכֹּל מוֹדִין שֶׁאִם נָתַן אֶת הַטִּיט תְּחִילָּה וְאַחַר כָּךְ נָתַן אֶת הָאֶבֶן שֶׁהוּא חַיָיב. הַבַּנַּאי שֵׁיִּישֵׁב אֶת הָאֶבֶן בְּרֹאשׁ הַדִּימוֹס חַיָיב. לְמִי נִצְרְכָה. לְרַבָּנִן. וְהָהֵן דַּעֲבַד דַּפִּין וְהָהֵן דַּעֲבַד סַפְיָין. חַיָיב מִשּׁוּם בּוֹנֶה.

Ensina-se numa baraita: “Um traz a pedra e outro traz a argamassa, o que traz a argamassa é culpado. Rabi Yossi diz: ambos são culpados.” Rabi Yossi pensa que pedra sem argamassa é construção. Todos concordam que, se um pôs a argamassa primeiro e depois outro pôs a pedra, ele, o da pedra, é culpado. “O pedreiro que assentou a pedra no alto do dimos (a fiada de pedras) é culpado.” Para quem foi necessário dizê-lo? Para os rabanan (os sábios). E aquele que fez dapin (paredes de tábuas), e aquele que fez safyan (paredes de taipa), é culpado por causa de boneh (construir).

03O talhar, a cama desmontável e a mesa do exilarca
Yerushalmi · Shabbat 12:1
וְהָהֵן דְּנָקַר כֵּיפִין כַּפִּין עֲמוּדִין רֵחַיִין. מְקַטֵּעַ פְּסֵפָס. מְקַטֵּעַ בּוּלִין. חַיָיב מִשּׁוּם מְסַתֵּת. רַב יִרְמְיָה בְשֵׁם רַב. הַמַּרְכִּיב מִיטָּה שֶׁלְּגִילָה חַיָיב מִשׁוּם בּוֹנֶה. אָמַר רִבִּי זְעוּרָא. אֵינוֹ אֶלָּא כְנוֹטֵל מַלְבֵּן וְנוֹתְנוֹ עַל גַּבֵּי לְבֵינִים בַּשַּׁבָּת.

E aquele que escava keifin (rochedos), kapin (cavidades), colunas, mós; aquele que corta pesifas (pedrinhas de mosaico); aquele que corta bulin (blocos de pedra): é culpado por causa de mesatet (talhar a pedra). Rav Yirmeyá em nome de Rav: quem monta uma mitá shel guilá (uma cama de montar, de sentido incerto) é culpado por causa de boneh. Disse Rabi Zeira: ele não é senão como quem toma um tijolo e o põe sobre outros tijolos no Shabat.

רַב הַמְנוּנָא הוֹרֵי לְרֵישׁ גָּלוּתָא לְהַתִּיר שׁוּלְחָן שֶׁלִּפְרָקִים בַּשַּׁבָּת. אָמַר. רַב חוּנָה בַּר חִיָיה הֲוָה עִימֵּיהּ. שָׁמַע רַב יְהוּדָה וְאָמַר. מָאן דְּהוֹרֵי לֵיהּ לָא יְלִף וְלָא שִׁימֵּשׁ. אָמַר רִבִּי שַׁמַּי. מָאן דְּהוֹרֵי לֵיהּ כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל הוֹרֵי לֵיהּ. דְּתַנֵּי. לְוָוחִים שֶׁבַּסְּפִינָה וְשֶׁבָּעֲרִיסָה וְנַקְלִיטֵי הַמִּיטָּה וְרֶגֶל הַשֻּׁלְחָן וְיַד הַסַּכִּין שֶׁבְּרֹאשׁוֹ הֲרֵי זֶה לֹא יַחֵזִיר. אִם הֶחֱזִיר הֲרֵי זֶה פָטוּר. וְאִם תָּקַע הֲרֵי זֶה חַיָיב. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר. אִם הָיוּ רָפִים נוֹטֵל וּמַחֲזִיר.

Rav Hamnuna instruiu o Resh Galuta (o exilarca) a permitir uma mesa de peças desmontáveis no Shabat. Disse: Rav Chuna bar Chiya estava com ele. Ouviu Rav Yehudá e disse: quem lhe instruiu isso não aprendeu nem serviu aos sábios. Disse Rabi Shamai: quem lhe instruiu, conforme Rabban Shimon ben Gamliel lhe instruiu, pois se ensina: “As tábuas que estão no barco e na arissá (o berço), e os naklitei hamitá (os postes da cama), e o pé da mesa, e o cabo da faca que está na sua ponta: eis que não os recoloque no Shabat; se os recolocou, eis que é isento; e, se os encaixou firmemente, eis que é culpado. Rabban Shimon ben Gamliel diz: se estavam frouxos, retira-os e recoloca-os.”

תַּנֵּי. תְּקוּעִים חִיבּוּר לְטוּמְאָה וּלְהַזָּיָיה. קְּבוּעִים חִיבּוּר לְטוּמְאָה וְאֵינוֹ חִיבּוּר לְהַזָּאָה. הַנּוֹטְלִין וְהַנּוֹתְנִין אֵינָן חִיבּוּר לֹא לְטוּמְאָה וְלֹא לְהַזָּיָיה. וְהָכָא אַתְּ אָמַר הָכֵין. תַּמָּן דַּרְכָּן לְקֶבַע. לֹא לְקֶבַע אֵינָן חִיבּוּר. בְּרַם הָכָא תְּקִיעָתָן הִיא גְּמַר מְלַאכְתָּן.

Ensina-se: “As peças encaixadas são conexão para a impureza e para a aspersão; as fixadas são conexão para a impureza e não são conexão para a aspersão; as que se retiram e se põem não são conexão nem para a impureza nem para a aspersão.” E aqui tu dizes assim, que o encaixar torna culpado? Lá, o seu caminho é serem fixadas; se não estão fixadas, não são conexão. Mas aqui o seu encaixar é o término do seu trabalho.

04O chifre curvo e os braços do candelabro
Yerushalmi · Shabbat 12:1
תַּנֵּי. רִבִּי סִימַיי אוֹמֵר. הַמַּרְכִּיב קֶרֶן עֲגוּלָה חַיָיב. קֶרֶן פְּשׁוּטָה פָטוּר. רִבִּי אֶלְעָזָר בֵּירִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר. קְנֵי מְנוֹרָה חַיָיב. קָנֶה שֶׁלְּצַיָידִין (שֶׁלְּסַיָידִין) פָּטוּר. קְנֵי מְנוֹרָה לָמָּה הוּא חַיָיב. רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן וְרַב חוּנָה תְּרֵיהוֹן אָמְרִין. מִשּׁוּם בּוֹנֶה. קָנֶה שֶׁלְּצַיָידִין לָמָּה הוּא פָּטוּר. מִפְּנֵי שֶׁהוּא מִלְּמַעֲלָן לְמַטָּן. הָתִיבוּן. הֲרֵי הַחוֹפֵר בַּחוֹלוֹת הֲרֵי מִלְּמַעֲלָן לְמַטָּן הוּא. וְאַתְּ אָמַר. חַיָיב. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר יוּדָן. כָּאן לְשָׁעָה כָאן לִשְׁהוֹת.

Ensina-se: “Rabi Simai diz: quem monta um keren (chifre) curvo é culpado; se é um chifre reto, é isento. Rabi Elazar beRabi Shimon diz: quem monta os braços do candelabro é culpado; a haste dos caçadores, quem a monta é isento.” Por que é culpado pelos braços do candelabro? Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan, e Rav Chuna, ambos dizem: por causa de boneh. Por que é isento pela haste dos caçadores? Porque é montada de cima para baixo. Objetaram: eis que quem escava nas areias, eis que é de cima para baixo, e tu dizes que é culpado! Disse Rabi Shmuel bar Yudan: aqui, é feito por um momento; ali, para durar.

05As portas de correr das lojas no Yom Tov
Yerushalmi · Shabbat 12:1
שְׁמוּאֵל אוֹמֵר. הַמַּלְחִים אֵת הַתִּירְצִין חַיָיב מִשּׁוּם בּוֹנֶה. וְקַשְׁיָא. דָּבָר שֶׁאִילּוּ עֲשָׂאָהּ בַּשַּׁבָּת חַיָיב חַטָּאת בֵּית הִלֵּל מַתִּירִין אַף לְהַחֲזִיר. רִבִּי חֲנַנְיָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. הִתִּירוּ סוֹפוֹ מִפְּנֵי תְחִילָּתוֹ. שֶׁאִם אֹמֵר אַתְּ שֶׁלֹּא יַחֲזִיר. אַף הוּא אֵינוֹ פּוֹתֵחַ. וְלֹא יִפְתַּח. אַף הוּא מְמָעֵט בְּשִׂמְחַת יוֹם טוֹב. אָמַר רִבִּי אָחָא. מַחֲזִיר. בִּלְבַד שֶׁלֹּא יַחֲזִיר כָּל צָרְכוֹ. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בַּר בּוּן. כְּשֶׁאֵין שָׁם פֶּתַח. אֲבָל אִם יֵשׁ שָׁם פֶּתַח מִשְׁתַּמֵּשׁ כְּנֶגֶד הַפֶּתַח.

Shmuel diz: quem encaixa firmemente as tiretzin (as portas de correr das lojas) é culpado por causa de boneh. E é difícil: uma coisa que, se a fizesse no Shabat, seria culpado de uma chatat (oferta de expiação), Beit Hillel (a escola de Hillel) permitem até recolocar no Yom Tov (dia festivo)? Disse Rabi Chananiá em nome de Rabi Yochanan: permitiram o fim por causa do início, pois, se tu disseres que não recoloque, também não abrirá a loja. E que não abra! Mas assim também diminui a alegria do Yom Tov. Disse Rabi Achá: recoloca, contanto que não recoloque tão firmemente quanto precisa. Disse Rabi Yossi bar Bun: isto é quando não há ali uma porta; mas, se há ali uma porta, serve-se da loja diante da porta.

06Rabi Shimon: só o trabalho completo
Yerushalmi · Shabbat 12:1
מַתְנִיתָא דְרִבִּי שִׁמְעוֹן. דְּתַנִּי. הַגּוֹרֵד הַקּוֹדֵחַ הַקּוֹצֵץ כָּל שֶׁהוּא בַשַּׁבָּת חַיָיב. רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר. הַגּוֹרֵד עַד שֶׁיִּגּוֹר כָּל צוֹרְכוֹ. הַקּוֹדֵחַ עַד שֶׁיִּקְדַּח כָּל צָרְכוֹ. הַקּוֹצֵץ עַד שֶׁיְּקַצֵּץ כָּל צָרְכוֹ. הָעוֹבֵד אֶת הָעוֹר עַד שֶׁיְּעַבֵּד כָּל צוֹרְכוֹ. וְאָמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא. לֹא אַתְיָא אֶלָּא כְּרִבִּי שִׁמְעוֹן. דְּרִבִּי שִׁמְעוֹן לֹא עָבַד מִקְצַת מְלָאכָה כְכוּלָּהּ. וְרַבָּנִן עָבְדִין מִקְצַת מְלָאכָה כְכוּלָּהּ.

A matnita (a Mishná) é de Rabi Shimon, pois se ensina: “Quem raspa, quem perfura, quem corta qualquer quantidade no Shabat é culpado. Rabi Shimon diz: quem raspa, não é culpado até que raspe tudo o que precisa; quem perfura, até que perfure tudo o que precisa; quem corta, até que corte tudo o que precisa; quem curte o couro, até que curta tudo o que precisa.” E disse Rabi Yaakov bar Achá: isto não vem senão conforme Rabi Shimon, pois Rabi Shimon não fazia de parte de um trabalho como o trabalho inteiro, e os rabanan fazem de parte de um trabalho como o trabalho inteiro.

07Rabban Shimon ben Gamliel e o golpe na bigorna
Yerushalmi · Shabbat 12:1
וְקַשְׁיָא עַל דְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל. אִילּוּ נָטַל לִקְצוֹר וְלֹא קָצַר שֶׁמָּא כְלוּם הוּא. אָמַר רִבִּי אָדָא. אַתְיָא דְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל כְּרִבִּי יְהוּדָה. דְתַנֵּי. הַשׁוֹבֵט וְהַמְקַטְקֵט עַל הָאָרִיג הֲרֵי זֶה חַיָיב מִפְּנֵי שֶׁהוּא כִמְיַישֵּׁב בְּיָדוֹ. וְהָכָא מִפְּנֵי שֶׁהוּא כִמְיַישֵּׁב בְּיָדוֹ.

E é difícil para a palavra de Rabban Shimon ben Gamliel: se tomou a foice para ceifar e não ceifou, porventura é algo? Disse Rabi Adá: a palavra de Rabban Shimon ben Gamliel vem conforme Rabi Yehudá, pois se ensina: “Quem shovet (bate os fios da trama) e quem mekatket (alisa os fios com a mão) sobre o tecido, eis que é culpado, porque é como quem ajusta o tecido com a sua mão.” E aqui, quem golpeia a bigorna é culpado porque é como quem ajusta o trabalho com a sua mão.

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 12:1 da Mishná avulsa, que vai de “quem constrói, quanto deve construir para ser culpado?” até “porque é como quem aperfeiçoa o trabalho”. A Mishná seguinte, Shabbat 12:2, que começa com “quem ara qualquer quantidade” (הַחוֹרֵשׁ כָּל שֶׁהוּא), é a da halachá 12:2, como antecipou a nota final da halachá 11:6. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “hamessatet”, “quem talha”, sem a conjunção “e”, que a Mishná avulsa tem; escreve “ubamaatzad” e “bakurnas” com outra vocalização; e escreve “bashabat”, “no Shabat”, com o artigo, onde a avulsa escreve “beshabat”. O Bavli, em Shabbat 102b, lê “vechen Rabban Shimon ben Gamliel”, “e assim também Rabban Shimon ben Gamliel”, palavra que falta no Yerushalmi e na Mishná avulsa. As demais diferenças são de grafia, como “chayav” com dois yods e “chol” sem daguesh. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os sete seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 07 é o oitavo. O quinto segmento, que é longo, foi dividido em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção 03. O Sefaria marca, no início da seção 01, a coluna 13c da edição de Veneza; no meio da seção 03, o início da folha 68b da edição de Vilna; e, no meio da seção 06, o início da folha 69a de Vilna; tiramos esses marcadores, que não fazem parte do texto. Na seção 04, o hebraico do Sefaria traz “shel tzayadin”, “dos caçadores”, seguido entre parênteses de “shel sayadin”, “dos caiadores”; traduzimos o texto principal e registramos aqui a variante.

Referências conferidas. A seção 01 e a seção 02 têm paralelo quase literal no Yerushalmi Shabbat 7:2, sobre a Mishná das trinta e nove melachot (Mishná Shabbat 7:2), onde estão “o que constrói” e “o que golpeia com o martelo”. Lá o hebraico diz “no Mikdash” em vez de “no Mishkan”; diz “acampavam e partiam”, na ordem inversa; tem uma frase a mais, “isto quer dizer: construção passageira é construção”; e termina com “as bases são como o solo” (כְּקַרְקַע), onde aqui se lê “estão no solo” (בַּקַּרְקַע). No Bavli, a Mishná está em Shabbat 102b, e a guemará começa ali: Rabi Yirmeyá explica para que serve construir qualquer quantidade, como o pobre que cava uma cova para guardar as suas moedas; Shmuel diz que quem assenta a pedra de lado é culpado, e o Bavli traz a mesma baraita da seção 02, “um traz a pedra e outro traz a argamassa: o que traz a argamassa é culpado”, mas ali Rabi Yossi diz “mesmo que a tenha erguido e posto sobre um dimos de pedras, é culpado”; e Rav e Shmuel discutem se quem talha a pedra é culpado por construir ou por golpear com o martelo. Em Shabbat 103a, Rabá e Rav Yossef explicam a palavra de Rabban Shimon ben Gamliel “porque exercita a mão”, e Abayê e Rava “porque assim faziam os que laminavam as placas do Mishkan”. Em Shabbat 47a e 47b, o Bavli traz a baraita “quem recoloca a haste do candelabro no Shabat é culpado de chatat; a haste dos caiadores não a recoloque, e, se a recolocou, é isento”, com Rabi Simai sobre o chifre curvo e o reto; e a baraita das molduras e dos pés da cama e das tábuas, que não se recolocam, “e não as encaixe, e, se as encaixou, é culpado de chatat; Rabban Shimon ben Gamliel diz: se estava frouxo, é permitido”. Na mesma folha, Rav Yehudá diz, em nome de Rav e de Shmuel, que quem recoloca a cama dos tarsiyim no Shabat é culpado de chatat, contra Rabi Aba e Rav Huna bar Chiya, que o haviam permitido; e, em Shabbat 47b, conta-se que na casa de Rav Chama havia uma “mitá guelalnita” que montavam no Yom Tov, e Rava explica que segue Rabban Shimon ben Gamliel. Guggenheimer remete a cama da seção 03 a Shabbat 46b; a passagem está em 47b, e corrigimos. A Tosefta Shabbat 12:14, na numeração Lieberman, ensina: “Rabi Elazar beRabi Shimon diz: quem monta a haste do candelabro é culpado, e a dos caiadores é isento. Rabi Simai diz: o chifre curvo, é culpado, e o reto, é isento”; a Tosefta lê “caiadores”, como a variante entre parênteses. A Tosefta Kelim Bava Metzia 8:1, na numeração do Sefaria (Guggenheimer a cita como 8:4), ensina que a moldura da cama e do berço, os postes da cama, as tábuas, os pés da mesa e o cabo da faca, quando fixados, são conexão para a impureza e para a aspersão, e, quando se retiram e se põem, não são conexão; ela não distingue entre encaixados e fixados, como a seção 03.

A Mishná Beitzah 1:5 ensina que Beit Shamai dizem que não se retiram as portas de correr no Yom Tov, e Beit Hillel permitem até recolocá-las. No Bavli Beitzah 11b, Ula diz que são as portas das lojas, e que é uma das três coisas cujo fim se permitiu por causa do início; e Rabi Shimon ben Elazar diz que a divergência é só sobre recolocar, e quando têm dobradiça. A seção 05 tem paralelo no Yerushalmi Beitzah 1:5, onde se lê “quem encaixa firmemente as portas de correr no Yom Tov”, “Rabi Chananiá” e “serve-se pelo caminho da porta”; Guggenheimer observa que, aqui em Shabbat, o trecho não é do copista do manuscrito, mas foi acrescentado pelo primeiro corretor a partir de outro manuscrito. A seção 06 tem paralelo no Yerushalmi Pesachim 6:1, onde a baraita é dita em nome de “Rabi Shimon ben Elazar”, e não de “Rabi Shimon”. A Tosefta Shabbat 11:3, na numeração Lieberman, traz a mesma baraita: “quem perfura, quem raspa e quem corta qualquer quantidade é culpado; Rabi Shimon diz: até que perfure tudo, até que raspe tudo, até que corte tudo”, e acrescenta quem desenha, quem tinge e quem curte o couro. A baraita da seção 07 está no Bavli Shabbat 75b: “Rabi Yehudá acrescenta o shovet e o medakdek”, e os sábios lhe respondem que o shovet está incluído no urdir, e o medakdek no tecer; o Bavli lê “medakdek” onde o Yerushalmi lê “mekatket”. E a Mishná Shabbat 7:2 conta “quarenta menos uma” melachot, entre elas “o que constrói” e “o que golpeia com o martelo”.

Observações de leitura. Na seção 01, “isto quer dizer” tira consequências do fato de as tábuas serem só postas sobre as bases: construir de lado e pôr sobre outra coisa também é construir. A última pergunta, se construção sobre utensílios é construção, é recusada pela resposta: as bases estavam no chão, e não sobre utensílios; esta é a nossa leitura. Na seção 02, a primeira opinião da baraita supõe que a pedra sem argamassa não é construção, e por isso só é culpado o que traz a argamassa; Rabi Yossi pensa que a pedra sozinha já é construção. “Para quem foi necessário” entendemos assim: para os sábios, que exigem argamassa, é preciso dizer que a pedra posta no alto da fiada, que não leva argamassa, torna culpado. O sentido de “dapin” e de “safyan” não é certo; Guggenheimer traduz “planks” e “adobe walls”. Na seção 03, “keifin” e “kapin” são lidos por Guggenheimer como “cliffs” e “cavities”; “pesifas” é a palavra grega para a pedrinha de mosaico. “Mitá shel guilá” é de sentido incerto; Guggenheimer, seguindo Rabbinovicz, entende uma cama que se monta sem ferramentas, como a “mitá guelalnita” do Bavli. Rabi Zeira responde a Rav Yirmeyá que montar uma cama é como pôr um tijolo sobre outros: não há construção em utensílios. “Instruiu o Resh Galuta a permitir uma mesa de peças” é a tradução literal de “lehatir”; Guggenheimer entende “desmontar” a mesa. “Disse: Rav Chuna bar Chiya estava com ele” não diz quem fala; deixamos a frase como está. Rabi Shamai explica que Rav Hamnuna seguiu Rabban Shimon ben Gamliel, para quem as peças frouxas podem ser retiradas e recolocadas. A baraita da impureza distingue as peças encaixadas, que formam uma só peça, das fixadas, que são presas, e das que se retiram; a pergunta “e aqui tu dizes assim?” estranha que, no Shabat, o encaixar torne culpado, e a resposta é que, para o Shabat, o encaixar é o término do trabalho, isto é, o golpear com o martelo.

Na seção 04, o “chifre” é, segundo Guggenheimer, um instrumento musical feito de partes; o curvo exige artífice, e o reto qualquer um monta. A haste dos caçadores, ou dos caiadores, é a vara que se alonga para alcançar o alto, montada de cima para baixo; a objeção é que quem escava nas areias também trabalha de cima para baixo e é culpado, e Rabi Shmuel bar Yudan responde que a diferença é entre o que é feito por um momento e o que é feito para durar. Na seção 05, a dificuldade é que Shmuel faz do encaixar as portas uma construção, e Beit Hillel permitem recolocá-las no Yom Tov; Rabi Chananiá responde que se permitiu o fim, o recolocar, por causa do início, o abrir a loja para vender comida, e que proibir o abrir diminuiria a alegria da festa. Rabi Achá limita a permissão a recolocar sem apertar por completo; Rabi Yossi bar Bun a limita ao caso em que não há outra porta. Na seção 06, a frase de abertura pode também ser lida como pergunta, “a Mishná é de Rabi Shimon?”; a nossa Mishná diz “quem perfura qualquer quantidade é culpado”, que não é a opinião de Rabi Shimon na baraita. Guggenheimer sugere que Rabi Yaakov bar Achá fala da regra “todo aquele cujo trabalho permanece”: para Rabi Shimon, só permanece o trabalho que não precisa ser refeito. Na seção 07, a dificuldade é que quem golpeia a bigorna vazia não produz nada, como quem toma a foice e não ceifa; Rabi Adá responde que Rabban Shimon ben Gamliel segue Rabi Yehudá, que também declara culpado quem ajusta o tecido com a mão, embora não acrescente nada a ele. O hebraico escreve “Rabi Zeura”, que é Rabi Zeira, e “Rabi Yossi bar Bun” na seção 05, onde em outros lugares se lê “beRabi Bun”; seguimos o hebraico, com a grafia habitual deste site para Rabi Zeira.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “maatzad” por “hatchet”; seguimos o Bavli de Shabbat deste site e a nota da halachá 11:6, com “formão”. Na seção 01, ele traduz “as bases são como o solo”, como no paralelo de 7:2; o hebraico daqui diz “estão no solo”. Ele escreve “Rebbi Zeˋura”, “Rebbi Shammai”, “Rebbi Simai”, “Rebbi Eleazar ben Rebbi Simeon”, “Rebbi Samuel bar Yudan” e “Rabban Simeon ben Gamliel”; mantivemos “Rabi Zeira”, “Rabi Shamai”, “Rabi Simai”, “Rabi Elazar beRabi Shimon”, “Rabi Shmuel bar Yudan” e “Rabban Shimon ben Gamliel”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. Onde o hebraico diz “Rabi Chananiá”, ele escreve “Rebbi Ḥinena”; onde diz “Rabi Yossi bar Bun”, ele escreve “Rebbi Yose ben Rebbi Abun”; e onde diz “Rabi Yaakov bar Achá”, ele escreve “Rebbi Jacob bar Ada”, embora a sua nota diga “bar Aḥa”; seguimos o hebraico. A palavra “ferramentas”, que ele põe entre colchetes na seção 07, corresponde ao nosso “a foice”, em itálico.

Com esta halachá, abre-se o Perek Yud-Bet de Massechet Shabbat, HaBoneh (הַבּוֹנֶה).