Com o hadran de 102a, encerrou-se o Perek Yud-Alef, HaZorek; 102b abre o Perek Yud-Bet, chamado HaBoneh ("o que constrói"), com uma nova Mishná: quanto deve alguém construir no Shabat para ficar obrigado? A resposta é: qualquer quantidade — e o mesmo vale para quem talha pedra, quem golpeia com martelo ou com enxó, e quem perfura qualquer quantidade. A regra geral: todo aquele que realiza uma obra proibida cujo resultado permanece no Shabat fica obrigado. Rabán Shimon ben Gamliel acrescenta que também quem golpeia com o malho sobre a bigorna, no momento da obra, fica obrigado, porque esse golpe é como um aperfeiçoamento da obra. A Guemará pergunta: uma quantidade tão mínima de construção — para que serve? Rabi Yirmeya responde que o pobre cava um pequeno buraco no chão de sua casa para nele esconder suas moedas, com paralelo, no Tabernáculo, nos costureiros das cortinas que cavavam buracos para esconder suas agulhas; Abaye objeta que as agulhas enferrujariam e por isso não faziam assim, propondo em vez disso o pobre que faz pés de um fogão pequeno para sustentar uma panela pequena, com paralelo nos que cozinhavam tinturas para as cortinas, quando faltava um pouco para completar o tingimento. Rav Acha bar Yaakov objeta que não há pobreza em lugar de riqueza — no Tabernáculo tudo era feito com fartura — e propõe, em vez disso, o dono de casa que veda um pequeno buraco em seu palácio, com paralelo na tábua do Tabernáculo perfurada por uma broca, vedada derramando-se chumbo dentro dela. Segue a disputa de Shmuel: quem assenta uma pedra de lado fica obrigado; a Guemará objeta de uma baraita segundo a qual apenas quem coloca a argamassa fica obrigado, não quem apenas coloca a pedra; mas a última cláusula dessa mesma baraita, segundo Rabi Yosei, obriga mesmo quem apenas coloca a pedra sobre uma fileira, sem argamassa — o que leva à resposta de que há três tipos de construção: a fileira inferior, que requer assentamento de lado e terra; a fileira média, que requer também argamassa; e a fileira superior, que se contenta com a mera colocação. A folha passa então à categoria de quem talha: Rav e Shmuel discordam se o responsável fica assim por causa de construir ou por causa de golpear com o martelo, e a mesma disputa se repete em dois outros casos — quem faz um buraco num galinheiro, e quem insere uma cunha no cabo de uma enxada; a Guemará explica por que os três casos precisam ser ensinados separadamente, já que nenhum deles poderia ser inferido dos outros dois. A folha termina com Rav Natan bar Oshaya perguntando a Rabi Yochanan sobre a categoria de quem talha — que responde, com um gesto da mão, que é por causa de golpear com o martelo; a Guemará objeta que a própria mishná distingue quem talha de quem golpeia com o martelo, como dois casos separados, e responde que se deve entender a mishná de outra forma: quem talha é (equivalente a) quem golpeia com o martelo. A folha se encerra com a abertura de uma nova prova — "venha e ouça" — cujo conteúdo ainda não foi revelado e ficará para o daf 103a.
MISHNÁ. Quem constrói — quanto deve construir para ficar obrigado? Quem constrói qualquer quantidade, e quem talha, e quem golpeia com o martelo ou com a enxó, e quem perfura qualquer quantidade — está obrigado. Esta é a regra: todo aquele que realiza uma obra, e sua obra permanece no Shabat — está obrigado. E assim também Rabán Shimon ben Gamliel diz: também quem golpeia com o malho sobre a bigorna no momento da obra — está obrigado, porque é como quem aperfeiçoa a obra.
Confirmado via Sefaria: com o hadran de 102a encerrou-se o Perek Yud-Alef, HaZorek, e aqui, em 102b, começa o Perek Yud-Bet, chamado HaBoneh ("o que constrói"), o décimo segundo dos vinte e quatro perakim de Massechet Shabat. A nova Mishná trata da medida mínima da melacha de construir: ao contrário de muitas outras obras proibidas, que só geram responsabilidade a partir de uma quantidade mensurável (como um certo volume ou peso), a construção — e as atividades a ela relacionadas, como talhar pedra, golpear com martelo ou enxó, e perfurar — obriga por qualquer quantidade, por menor que seja. A mishná fecha com o princípio geral que rege essa categoria: toda obra cujo resultado permanece de fato no Shabat (isto é, não é desfeita ou removida logo em seguida) gera responsabilidade. Rabán Shimon ben Gamliel acrescenta um caso adicional: quem golpeia com um malho pesado sobre a bigorna, no momento de realizar uma obra de metalurgia, também fica obrigado — não porque o golpe em si construa algo diretamente, mas porque, segundo sua explicação, esse golpe funciona como um aperfeiçoamento da obra que está sendo feita, e a Guemará adiante explicará exatamente o que esse golpe aperfeiçoa.
"'MISHNÁ: quem constrói'" — que mencionaram entre as obras principais: quanto deve construir etc. "'Quem talha'" — esquadria a pedra e a acerta, tudo conforme o lugar; há lugares onde costumam alisá-la, e há lugares onde costumam entalhar nela sulcos e mais sulcos, na terra de Ashkenaz. "'Quem golpeia com o martelo'" — também esta é uma das obras principais, e é, em língua estrangeira, uma picareta, com a qual se despedaça a pedra da rocha: depois de talhar a pedra ao redor e separá-la um pouco do monte, golpeia-se com o martelo um golpe grande, e ela se solta e cai — e este é o acabamento da obra dos cavadores de pedra; e todo aquele que, no Shabat, dá acabamento a uma obra, é uma derivação de golpear com o martelo. "'Enxó'" — também ela é como um malho grande de ferro, para construção de ferro. "'E quem perfura'" — fura madeira ou pedra numa parede. "'Qualquer quantidade'" — refere-se a todos eles: quem talha, quem golpeia com o martelo, com a enxó, e quem perfura. "'Todo aquele que realiza uma obra, e sua obra permanece'" — pois há quem, à semelhança dela, permanece, e não se acrescenta a ela. "'No Shabat'" — refere-se a "realiza uma obra". "'Sobre a bigorna'" — em língua estrangeira, bigorna. "'Malho'" — martelo. "'Porque é como quem aperfeiçoa a obra'" — e embora não golpeie sobre a própria peça, mas sobre a bigorna; e na Guemará se explica o que ele aperfeiçoa.
GUEMARÁ. Qualquer quantidade — para que serve? Disse Rabi Yirmeya: pois assim o pobre cava um buraco para nele esconder suas moedas. O correspondente, quanto ao Tabernáculo: assim os que costuravam as cortinas cavavam um buraco para nele esconder suas agulhas. Abaye disse: já que as agulhas enferrujam, não faziam assim. Antes, pois assim o pobre faz pés de um fogão pequeno para colocar sobre ele uma panela pequena. O correspondente, quanto ao Tabernáculo: os que cozinhavam as tinturas para tingir as cortinas, cuja obra estava faltando, faziam pés de um fogão pequeno para colocar sobre ele uma caldeira pequena.
A Guemará abre com uma pergunta natural: se qualquer quantidade de construção obriga, mesmo a menor delas, para que serviria, na prática, uma construção tão diminuta? Rabi Yirmeya propõe um primeiro exemplo: um pobre, que não tem cofre nem lugar seguro, cava um pequeno buraco no chão de sua casa para nele esconder suas moedas — um ato de construção mínimo, mas real e útil. A Guemará busca, como faz costumeiramente nesta sugya, um paralelo dentro da construção do Tabernáculo, já que as trinta e nove categorias de obra proibida derivam justamente das atividades realizadas ali: o paralelo proposto é o dos artesãos que costuravam as cortinas do Tabernáculo, que também cavavam pequenos buracos no chão para esconder suas agulhas quando não as estavam usando. Abaye objeta a esse paralelo: agulhas de metal enferrujariam se fossem enterradas na terra, e por isso os costureiros do Tabernáculo certamente não faziam assim — invalidando o paralelo, ainda que não necessariamente o exemplo do pobre isoladamente. A Guemará propõe então um segundo exemplo, mais consistente: o pobre que constrói pequenos suportes (pés) para um fogão pequeno, sobre o qual coloca uma panela igualmente pequena — construção mínima, mas de uso genuíno. O paralelo no Tabernáculo, desta vez, funciona bem: os artesãos que cozinhavam as tinturas vegetais para tingir as cortinas às vezes descobriam, ao final do processo, que a quantidade de tintura preparada era insuficiente para completar o trabalho, e precisavam preparar rapidamente um pouco mais; para isso, construíam um fogão pequeno com pés pequenos, adequado a cozinhar apenas essa quantidade adicional numa caldeira pequena.
"'Guemará: já que enferrujam'" — as agulhas criam ferrugem. "'Pés'" — pernas do fogão, uma espécie de utensílio de ferro, chamado tripé, que sustentam o fogão de barro. "'Os que cozinhavam tinturas para tingir, cuja obra estava faltando'" — pois calcularam a lã de sua tintura e faltou algo à sua obra, e precisaram voltar a cozinhar tinturas e tingir um pouco. "'Caldeira pequena'" — é essa a versão correta aqui.
Rav Acha bar Yaakov disse: não há pobreza em lugar de riqueza. Antes, pois assim o dono de casa que tem um buraco em seu palácio o veda; o correspondente, quanto ao Tabernáculo: assim a tábua em que caiu uma broca — verte-se dentro dela chumbo e a veda.
Rav Acha bar Yaakov rejeita, por um princípio diferente, tanto o exemplo de Rabi Yirmeya (ainda que já enfraquecido por Abaye) quanto qualquer exemplo baseado na pobreza: o Tabernáculo, ensina ele, era um empreendimento de fartura e riqueza, financiado pelas doações generosas de todo o povo de Israel — "não há pobreza em lugar de riqueza", ou seja, não é razoável buscar paralelos no Tabernáculo a partir de atos tipicamente associados à escassez e à pobreza, como esconder moedas num buraco. Em vez disso, Rav Acha bar Yaakov propõe um exemplo de construção mínima associado à riqueza: o dono de uma bela residência (bira), cuidadoso com sua aparência, que veda um pequeno buraco ou defeito visível na parede com argamassa, por mero cuidado estético, não por necessidade estrutural. O paralelo no Tabernáculo: uma das tábuas de madeira que formavam as paredes do Tabernáculo era, ocasionalmente, atacada por uma broca (um verme que perfura madeira), deixando um pequeno buraco; para reparar esse dano sem substituir a tábua inteira, derramava-se chumbo derretido dentro do buraco, que esfriava e o vedava completamente — um ato de construção mínimo, mas realizado com os recursos de quem não precisa economizar.
"'Não há pobreza em lugar de riqueza'" — não fizeram nada com parcimônia, mas tudo, desde o início, era suficiente e sobrava. "'Em seu palácio'" — um palácio agradável, onde come e dorme; é cuidadoso quanto a um pequeno buraco nele, se é feio, e o veda com argamassa. "'Broca'" — verme.
Shmuel disse: quem assenta a pedra de lado, firmando-a em seu lugar — está obrigado. Objetaram: se um coloca a pedra e outro coloca a argamassa — quem coloca a argamassa está obrigado , e não quem coloca apenas a pedra!
Shmuel ensina que a melacha de construir se aplica já ao simples ato de assentar uma pedra de lado, firmando-a bem em seu lugar na base de uma construção — mesmo sem o uso de argamassa, esse assentamento cuidadoso já constitui construção de qualquer quantidade, e portanto obriga. A Guemará objeta com uma baraita que descreve uma construção realizada em cooperação por duas pessoas: uma coloca a pedra em posição, e outra, em seguida, aplica a argamassa que a fixa definitivamente; a baraita ensina que apenas quem coloca a argamassa fica responsável pela melacha de construir, implicando que quem apenas posiciona a pedra — sem fixá-la com argamassa — não é responsável. Essa baraita parece contradizer diretamente a posição de Shmuel.
E segundo teu raciocínio, diz então a última cláusula dessa mesma baraita: Rabi Yosei diz: e mesmo que alguém tenha levantado e colocado uma pedra sobre uma fileira de pedras — está obrigado! Antes, há três tipos de construção: inferior, média, e superior. A inferior requer assentamento de lado e terra. A média requer também argamassa. A superior, com mera colocação já é suficiente.
A Guemará vira a própria objeção contra si mesma: se a intenção fosse mostrar que apenas a colocação de argamassa gera responsabilidade, como explicar a última cláusula da mesma baraita, onde Rabi Yosei ensina que até mesmo levantar uma pedra e simplesmente colocá-la sobre uma fileira já construída (sem qualquer argamassa) já obriga? A resposta harmoniza as três posições — a de Shmuel, a primeira cláusula da baraita, e a de Rabi Yosei — reconhecendo que existem, na verdade, três níveis distintos dentro da melacha de construir, correspondentes a três posições diferentes numa parede de pedra: a fileira inferior (o alicerce), assentada diretamente sobre a terra, para a qual basta o assentamento cuidadoso de lado (o caso de Shmuel), junto com terra ao redor para dar sustentação; a fileira média, que exige, além do assentamento de lado, também argamassa entre as pedras (o caso da primeira cláusula da baraita); e a fileira superior, a última de todas, onde já não há mais peso a sustentar por cima, de modo que basta a mera colocação da pedra, sem qualquer cuidado adicional (o caso de Rabi Yosei).
"'Quem assenta a pedra'" — coloca-a e a assenta de lado até que se firme bem na base do alicerce da construção; por assentá-la de lado, ele a prepara por baixo e a coloca na terra — está obrigado; e mesmo que não tenha colocado argamassa, é construção de qualquer quantidade, pois há quem mantenha assim, sem argamassa. "'Quem coloca a argamassa está obrigado'" — mas quem coloca a pedra está isento. "'Fileira'" — uma fileira de pedras do muro; logo, com mera colocação está obrigado, mesmo que não tenha assentado de lado — e isso é ainda mais rigoroso do que a posição de Shmuel. "'Antes'" — não há dificuldade; há três tipos de construção. "'Inferior'" — o alicerce do muro, a parte de baixo, onde se colocam pedras sobre a terra sem argamassa, com assentamento de lado e terra; todo o seu propósito é apenas assentar a pedra de lado, para que fique nivelada e não se incline para um lado ou outro, e haja terra ao redor dela para sustentá-la; e foi sobre esse caso que Shmuel disse sua palavra. E a baraita, na parte média — toda a construção, desde o alicerce até a fileira superior — requer também argamassa, junto com o assentamento de lado. "'Superior'" — a fileira de cima, sobre a qual não há mais nenhuma fileira; não importa se a pedra se inclina para um lado; por isso, basta a mera colocação — e essa é a posição de Rabi Yosei.
E voltando à mishná: "quem talha". Quem talha, por causa de quê fica obrigado? Rav disse: por causa de construir; e Shmuel disse: por causa de golpear com o martelo. Quem faz um buraco num galinheiro — Rav disse: por causa de construir; e Shmuel disse: por causa de golpear com o martelo. Quem insere uma cunha no cabo de uma enxada — Rav disse: por causa de construir; e Shmuel disse: por causa de golpear com o martelo.
A Guemará retorna à mishná para examinar, com mais profundidade, a categoria de "quem talha" — mencionada ali junto com "quem golpeia com o martelo" como se fossem duas categorias distintas dentro das obras principais. Rav e Shmuel discordam sobre a raiz exata dessa responsabilidade: Rav sustenta que quem talha uma pedra fica obrigado por causa da melacha de construir (já que talhar pedras é parte do processo de erguer uma construção de pedra); Shmuel sustenta que fica obrigado por causa da melacha de golpear com o martelo (o acabamento final de qualquer processo produtivo). A mesma disputa exata se repete em dois outros casos aparentemente distantes da construção de paredes: quem faz um buraco de ventilação num galinheiro de madeira, e quem insere uma pequena cunha no buraco do cabo de uma enxada, para fixar o cabo firmemente à lâmina de metal.
"'Por causa de quê'" — de qual derivação, dentre as obras principais, se trata. "'Golpear com o martelo'" — é acabamento de obra, pois o lugar onde entalhou este sulco não voltará a entalhar. "'Galinheiro'" — é de madeira e fechado, e ele o perfura para que saia o cheiro dos excrementos e não os prejudique. "'Por causa de golpear com o martelo'" — pois é o acabamento da obra do galinheiro; e tudo que é acabamento de obra torna obrigado por causa de golpear com o martelo, como dissemos no capítulo "Regra Geral" (Shabat 75b). "'Insere uma cunha no cabo da enxada'" — a cunha é uma pequena estaca que se enfia dentro do cabo da enxada, estando no buraco do ferro, para apertá-lo, para que não saia — chamada cavilha. "'Cabo'" — é o buraco na ponta da enxada. "'Enxada'" — instrumento de cavar em língua estrangeira.
E é necessário ensinar todos os três casos; pois, se nos ensinasse apenas o primeiro caso, o de talhar — diríamos que foi apenas nele que Rav falou, porque é a forma costumeira de construir; mas quanto a quem faz um buraco num galinheiro, que não é a forma costumeira de construir — diríamos que ele concorda com Shmuel. E se nos ensinasse apenas neste caso — diríamos que foi apenas neste que Rav falou, porque se assemelha à construção, pois o faz para ventilação,
A Guemará explica por que era necessário que a Guemará (ou a tradição amoraica) registrasse a disputa entre Rav e Shmuel separadamente em cada um dos três casos, em vez de mencioná-la apenas uma vez e deixar os outros casos serem inferidos por analogia. Se apenas o caso de talhar pedra tivesse sido ensinado, poder-se-ia pensar que Rav só sustentou que a responsabilidade decorre de "construir" naquele caso específico, precisamente porque talhar pedra é uma forma reconhecida e típica de construção; mas no caso do buraco no galinheiro, que não é uma forma típica de construção (é antes uma abertura utilitária), poder-se-ia pensar que até Rav concordaria com Shmuel, atribuindo a responsabilidade a "golpear com o martelo". E, inversamente, se apenas o caso do galinheiro tivesse sido ensinado, poder-se-ia pensar que Rav só disse "construir" ali porque fazer um buraco de ventilação se assemelha, de certo modo, à construção — já que também nas casas normais se fazem aberturas para ventilação, como janelas e frestas.
mas quanto à cunha no cabo da enxada, que não é a forma costumeira de construir — diríamos que Rav concorda com Shmuel. E se nos ensinasse apenas neste caso da cunha — diríamos que foi apenas neste que Shmuel falou; mas quanto àqueles dois outros casos — diríamos que ele concorda com Rav. Por isso, ensinar os três casos é necessário.
A Guemará completa a explicação com o terceiro caso, o da cunha inserida no cabo da enxada: como esse ato também não é uma forma típica de construção (é antes um reparo de ferramenta), poder-se-ia pensar que, ali, até Rav concordaria com Shmuel, atribuindo a responsabilidade a "golpear com o martelo" (o acabamento final da ferramenta). E, na direção oposta, se apenas o caso da cunha tivesse sido ensinado, poder-se-ia pensar que Shmuel só disse "golpear com o martelo" naquele caso específico — mas, nos dois outros casos (talhar pedra e o buraco no galinheiro), talvez até Shmuel concordasse com Rav que a responsabilidade decorre de "construir". Por essas três possibilidades de inferência equivocada, cada uma bloqueada apenas pelo ensino explícito e separado de cada caso, conclui-se que era de fato necessário registrar a disputa entre Rav e Shmuel nos três casos.
Rav Natan bar Oshaya perguntou a respeito disso a Rabi Yochanan: quem talha, por causa de quê fica obrigado? Ele lhe indicou com a mão: por causa de golpear com o martelo. Mas não aprendemos na mishná: quem talha, e quem golpeia com o martelo , como dois casos distintos? Diga então: quem talha — é como quem golpeia com o martelo.
Rav Natan bar Oshaya traz a mesma pergunta diretamente a Rabi Yochanan, uma autoridade da geração seguinte, buscando resolver a disputa entre Rav e Shmuel. Rabi Yochanan responde, mas não com palavras — apenas com um gesto da mão, golpeando o punho contra a palma, como quem simula o golpe de um martelo — indicando que, em sua opinião, quem talha fica obrigado por causa da melacha de golpear com o martelo, concordando com Shmuel. A Guemará objeta imediatamente com base no próprio texto da mishná que abre a folha: ali, "quem talha" e "quem golpeia com o martelo e com a enxó" aparecem lado a lado, como duas categorias claramente distintas dentro da lista de obras que obrigam por qualquer quantidade — o que sugere que são duas melachot diferentes, e não uma única. Como, então, entender a resposta de Rabi Yochanan, que parece identificá-las? A Guemará resolve a dificuldade propondo uma leitura sintática diferente da mishná, sem alterar seu texto: em vez de ler "quem talha, e quem golpeia com o martelo" como uma lista de dois itens separados pela conjunção "e", deve-se ler "quem talha (é) quem golpeia com o martelo" — isto é, a mishná está explicando, e não somando: "quem talha" é definido, é explicado, como um caso específico de "golpear com o martelo". Com essa leitura, a mishná já ensinava, desde o início, a posição de Shmuel e de Rabi Yochanan.
"'Indicou com a mão'" — golpeando com o punho sobre a palma, como quem golpeia com o martelo. "'Diga: quem talha (é) quem golpeia com o martelo'" — e isto a mishná quer dizer: quem talha, que fica obrigado por causa de golpear com o martelo, fica obrigado por qualquer quantidade.
Venha e ouça uma prova:
Confirmado via Sefaria (Shabbat 102b:10): a Guemará, ainda insatisfeita com a leitura proposta para harmonizar a mishná com a posição de Rabi Yochanan (e de Shmuel), anuncia que trará uma prova adicional — introduzida pela fórmula padrão "venha e ouça" — para decidir definitivamente a questão. O texto do daf 102b termina exatamente neste ponto, com a fórmula de abertura da prova, sem que seu conteúdo seja revelado; a citação em si, e a conclusão da disputa entre Rav e Shmuel sobre a categoria de "quem talha", ficarão para o início do daf 103a, que dará continuidade direta a esta sugya sobre a melacha de construir, ainda dentro do Perek Yud-Bet, HaBoneh.