Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Alef · Halachá 6 (última do perek)
שַׁבָּת

Quem lança e se lembra antes que o objeto saia da mão

Perek Yud-Alef, HaZorek, Halachá 6, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat — encerramento do capítulo

Sexta e última halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek. A Mishná ensina que quem lança um objeto e se lembra antes que ele saia da sua mão, e outro o apanha, um cão o apanha ou ele se queima, é isento; que quem lança para ferir um homem ou um animal e se lembra antes que a ferida seja feita é isento; e a regra: só se está obrigado a uma chatat quando o início e o fim do ato são por erro. A guemará corrige a leitura da Mishná para “e agiu com intenção”, porque, como na flecha disparada para matar, o mero arrepender-se não muda o ato; Rabi Yossi ben Chanina e Rabi Yehoshua ben Levi discutem se o erro e a intenção se medem pelo mandamento negativo ou pela extirpação, e Rabi Shimon ben Yochai apoia o segundo com o versículo do que afronta o Eterno; Rabi Abahu, em nome de Rabi Yochanan, fala de quem errou quanto ao sebo; e uma baraita ensina que quem age sem intenção de fazer o ato é isento no Shabat, mas culpado nas gorduras proibidas e nas relações proibidas. Com ela se encerra o Perek Yud-Alef, HaZorek; o tratado continua no Perek Yud-Bet, HaBoneh. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 102a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר עַד שֶׁלֹּא תֵצֵא מִיָּדוֹ קְלָטָהּ אַחֵר קְלָטָהּ כֶּלֶב אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה פָּטוּר. זָרַק לַעֲשׂוֹת חַבּוּרָה בֵּין בָּאָדָם בֵּין בַּבְּהֵמָה וְנִזְכַּר עַד שֶׁלֹּא נַעֲשֵׂית חַבּוּרָה פָּטוּר. זֶה הַכְּלָל כָּל חַיָיבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָיבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה. תְּחִילָּתָן שְׁגָגָה וְסוֹפָן זָדוֹן תְּחִלָּתָן זָדוֹן וְסוֹפָן שְׁגָגָה פְּטוּרִין עַד שֶׁתְּהֵא תְחִילָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה:

Mishná: Quem lança um objeto e se lembra de que é Shabat antes que o objeto saia da sua mão, e depois outro o apanhou, um cão o apanhou, ou ele se queimou, é isento. Quem lançou para fazer uma ferida, seja num homem, seja num animal, e se lembrou antes que a ferida fosse feita, é isento. Esta é a regra: todos os que estão obrigados a chatat (oferta de expiação) não estão obrigados até que o início e o fim do ato sejam shegagá (erro). Se o início foi erro e o fim, zadon (intenção), ou o início foi intenção e o fim, erro, são isentos, até que o início e o fim do ato sejam erro.

A Halachá · הֲלָכָה ו

01A leitura da Mishná e a flecha disparada
Yerushalmi · Shabbat 11:6
ו׳. כֵּינִי מַתְנִיתָא. וְהֵזִיד. וְקַשְׁיָא. אִילּוּ יָרָה חֵץ לַהֲרוֹג בּוֹ אֶת הַנֶּפֶשׁ וְהִתְרוּ בוֹ וְחָזַר בּוֹ. שֶׁמָּא כְלוּם הוּא. הֲוֵי סוֹפָךְ מֵימַר. וְהֵזִיד.

Assim é a leitura da Mishná: “e agiu com intenção”. E é difícil: se alguém disparou uma flecha para matar com ela uma pessoa, e o advertiram, e ele se arrependeu enquanto a flecha voava, acaso isso é alguma coisa para isentá-lo? Por fim, terás de dizer que a leitura é: “e agiu com intenção”.

02Erro e intenção: mandamento negativo ou extirpação
Yerushalmi · Shabbat 11:6
רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָה אָמַר. בְּשׁוֹגֵג בְּלֹא תַעֲשֶׂה. וּבְמֵזִיד בְּלֹא תַעֲשֶׂה. רִבִּי יְהוֹשֻׁע בֶּן לֵוִי אָמַר. בְּשׁוֹגֵג בְּהִיכָּרֵת. וּבְמֵזִיד בְּהִיכָּרֵת. תַּנֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יוֹחַי מְסַיֵיעַ לְרִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. אֶת יְי הוּא מְגַדֵּף וְנִכְרְתָה. הַגַּע עַצְמָךְ. אֲפִילוּ מֵזִיד בְּהִיכָּרֵת מַתְרִין בּוֹ וְלוֹקֶה וּמֵבִיא קָרְבָּן. רִבִּי אַבָּהוּ בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. הַשּׁוֹגֵג בְּחֵלֶב וּמֵזִיד בַּחַטָּאת מַתְרִין בּוֹ וְלוֹקֶה וּמֵבִיא קָרְבָּן.

Rabi Yossi ben Chanina disse: trata-se de quem é shogeg (por erro) quanto ao lo taasse (mandamento negativo) e mezid (intencional) quanto ao lo taasse. Rabi Yehoshua ben Levi disse: trata-se de quem é shogeg quanto à karet (extirpação) e mezid quanto à karet. Rabi Shimon ben Yochai ensinou uma baraita que apoia Rabi Yehoshua ben Levi: “Ao Eterno ele afronta, e será extirpada aquela alma”. Pensa por ti mesmo: então, mesmo quem é mezid quanto à karet, advertem-no, e ele é açoitado, e traz uma oferta? Rabi Abahu, em nome de Rabi Yochanan: quem é shogeg quanto ao chelev (sebo) e mezid quanto à chatat, advertem-no, e ele é açoitado, e traz uma oferta.

03Quem age sem intenção, no Shabat, nas gorduras e nas relações proibidas
Yerushalmi · Shabbat 11:6
תַּנֵּי. אֵין מִתְעַסְּקִין לֹא בַחֲלָבִים וְלֹא בָעֲרָיוֹת. הַמִּתְעַסֵּק בַּשַּׁבָּת פָטוּר. בַּחֲלָבִים וּבָעֲרָיוֹת חַיָיב. הֵיךְ עֲבִידָא. אָמַר. הֲרֵי אֲנִי קוֹצֵר חֲצִי גְּרוֹגֶרֶת. וְקָצַר כִּגְרוֹגֶרֶת פָּטוּר. הֲרֵי אֲנִי אוֹכֵל חֲצִי זַיִת. וְאָכַל כְּזַיִת חַיָיב. הֲרֵי אֲנִי מִתְחַמֵּם בָּהּ. וְהֶעֱרָה בָהּ חַיָיב.

Ensinou-se: não se aplica a isenção de quem é mitasek (quem age sem intenção de fazer o ato) nem às chalavim (gorduras proibidas) nem às arayot (relações proibidas). O mitasek no Shabat é isento; nas chalavim e nas arayot, é culpado. Como é isso? Se alguém disse: “Eis que colho o equivalente a meio grogeret (figo seco)”, e colheu o equivalente a um figo seco, é isento. Se disse: “Eis que como o equivalente a meia azeitona”, e comeu o equivalente a uma azeitona, é culpado. Se disse: “Eis que me aqueço com ela”, e teve com ela o contato inicial, é culpado.

Nota

Esta é a sexta e última halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:6 da Mishná avulsa, na numeração do Sefaria, que vai de “quem lança e se lembra” até “até que o início e o fim sejam erro”, e que é também a última Mishná do capítulo: a Mishná avulsa tem seis mishnayot no Perek Yud-Alef, e o Yerushalmi, seis halachot. Há uma diferença de leitura importante: o Yerushalmi diz “ad shelo tetzé miyado”, “antes que saia da sua mão”, onde a Mishná avulsa diz “leachar sheyatzetá miyado”, “depois que saiu da sua mão”, como também a Mishná do Bavli, em Shabbat 102a, “meachar sheyatzetá miyado”; a nota da halachá 11:5 citou esta Mishná pela leitura da avulsa. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização: o Yerushalmi escreve “baadam… babehemá”, onde a avulsa escreve “beadam… bivhemá”; “naasseit”, onde a avulsa escreve “naassá”; “chayavei” e “chayavin” com dois yods; e “techilatan” com yod na segunda e na última vez. O hebraico do Sefaria abre a guemará com o marcador “vav”, a sexta, que conservamos; Guggenheimer anota ali “aqui começa a discussão da Mishná 9”, na sua numeração própria. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os três seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 03 é o quarto. No meio da seção 03, depois de “nem às arayot”, o Sefaria marca o início da folha 68a da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto.

Referências conferidas. Em Shabbat 102a, o Bavli pergunta sobre a Mishná: se o objeto pousou, é culpado? Mas ele se lembrou, e a regra diz que só se é obrigado quando o início e o fim são por erro! Rav Kahana, Rava e Rav Ashi propõem leituras diferentes; Rav Ashi diz que falta algo no texto: se pousou, é culpado, quando voltou a esquecer, mas, se não voltou a esquecer, é isento. O Yerushalmi resolve a mesma dificuldade de outro modo, na seção 01, lendo “e agiu com intenção”. Na mesma folha, Rabah e Rava discutem os dois côvados por erro, dois com intenção e dois por erro, e ali termina, no Bavli, o capítulo HaZorek. O versículo citado por Rabi Shimon ben Yochai na seção 02 é Bamidbar 15:30: “e a alma que agir com mão erguida… ao Eterno ela afronta, e será extirpada aquela alma do meio do seu povo”; Guggenheimer o dá como Bamidbar 15:31, e corrigimos. Em Shabbat 68b e 69a, o Bavli traz o ensino que Rabi Yehoshua ben Levi lia ao seu filho: “uma só Torá haverá para vós, para quem faz por erro” (Bamidbar 15:29), junto com “e a alma que agir com mão erguida” (Bamidbar 15:30); toda a Torá é comparada à idolatria, e só se traz chatat por aquilo cuja intenção é punida com karet e cujo erro obriga a chatat; o mesmo ensino está em Yevamot 9a e em Horayot 8a. Em Shabbat 69a, Rabi Yochanan diz que é shogeg quem errou quanto à karet, ainda que tenha agido com intenção quanto ao mandamento negativo, e Resh Lakish diz que é preciso ter errado quanto ao mandamento negativo e quanto à karet; é a discussão mais próxima da seção 02. Em Keritot 19b e em Sanhedrin 62b, Rav Nachman diz em nome de Shmuel: “o mitasek nas chalavim e nas arayot é culpado, porque tirou proveito; o mitasek no Shabat é isento, porque a Torá proibiu o trabalho intencional”, que é a mesma regra da baraita da seção 03, com a razão; e em Keritot 19a a isenção do mitasek é aprendida de “asher chata bah”, “em que pecou”. Não encontramos esta baraita na Tosefta.

Observações de leitura. Na Mishná, segundo a leitura do Yerushalmi, quem se lembra antes que o objeto saia da mão e, depois, o objeto não chega a pousar, porque outro o apanhou, um cão o apanhou ou ele se queimou no ar, é isento; Guggenheimer explica que a chatat exige que o mesmo homem levante, transporte e pouse. Na seção 01, a dificuldade é esta: quem disparou uma flecha para matar, depois de advertido, e se arrependeu enquanto ela voava, continua culpado; assim também, o simples lembrar-se no meio do ato não deveria mudar nada. Por isso a guemará lê na Mishná “e agiu com intenção”: depois de se lembrar, ele aceitou o que fazia. Guggenheimer anota que a ordem da pergunta, “advertiram-no e ele se arrependeu”, não é exata, porque a advertência vem antes do disparo. Na seção 02, as duas opiniões definem o que é erro e o que é intenção para a chatat; Guggenheimer entende que, para Rabi Yossi ben Chanina, se o ato por erro é só um mandamento negativo e o ato com intenção também, não há chatat, e que Rabi Yehoshua ben Levi exige que tanto o erro quanto a intenção digam respeito à karet, que é a opinião corrente. O hebraico diz “hikaret” para extirpação; traduzimos por karet, como nas halachot anteriores deste tratado. A frase “pensa por ti mesmo” é uma objeção, que entendemos como pergunta: quem é açoitado por ter agido com intenção, depois de advertido, já não é punido com karet, e não se ouviu dizer que traga ainda uma oferta. A frase de Rabi Abahu diz no hebraico “shogeg quanto ao sebo e mezid quanto à chatat”; Guggenheimer propõe ler o inverso, “mezid quanto ao sebo e shogeg quanto à chatat”, isto é, quem sabia que o sebo é proibido mas não sabia que obriga a uma oferta; mantivemos o hebraico. Na seção 03, mitasek é quem faz o ato sem intenção de fazê-lo, como quem pensava colher o equivalente a meio figo seco e colheu o equivalente a um inteiro; nas chalavim e nas arayot é culpado, porque, como diz o Bavli, tirou proveito. “Eis que me aqueço com ela” é dito da mulher proibida; “teve com ela o contato inicial” traduz “heerá bah”, o primeiro estágio da relação. As palavras em itálico são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “mitasek” por “one who experiments” e “heerá bah” por “touched her”; traduzimos “quem age sem intenção de fazer o ato” e “teve com ela o contato inicial”. Na frase de Rabi Abahu, a tradução dele não tem as palavras “e traz uma oferta”, que estão no hebraico; mantivemo-las. Ele escreve “Rebbi Yose ben Ḥanina”, “Rebbi Joshua ben Levi”, “Rebbi Simeon ben Yoḥai”, “Rebbi Abbahu” e “Rebbi Joḥanan”; mantivemos “Rabi Yossi ben Chanina”, como diz aqui o hebraico, “Rabi Yehoshua ben Levi”, “Rabi Shimon ben Yochai”, “Rabi Abahu” e “Rabi Yochanan”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. As glosas de chatat, “oferta de expiação”, de shegagá, “erro”, de zadon, “intenção”, de shogeg, “por erro”, de mezid, “intencional”, de karet, “extirpação”, de chelev, “sebo”, de chalavim, “gorduras proibidas”, de arayot, “relações proibidas”, e de grogeret, “figo seco”, são as mesmas das halachot anteriores deste tratado e do Bavli de Shabbat deste site.

A Mishná seguinte, Shabbat 12:1, abre o Perek Yud-Bet, HaBoneh: “הַבּוֹנֶה כַּמָּה יִבְנֶה וִיהֵא חַיָיב…”, “quem constrói, quanto deve construir para ser culpado? Quem constrói qualquer quantidade; quem talha a pedra e quem bate com o martelo e com o formão, quem perfura qualquer quantidade, é culpado”. No Bavli, essa Mishná está em Shabbat 102b, onde começa o capítulo HaBoneh.

Com esta halachá, encerra-se por completo o Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek (הַזּוֹרֵק).