Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר

Nova Mishná sobre lançar e lembrar-se depois; a Guemará explica a mishná através de Rav Kahana, Rava e Rav Ashi; a disputa Rabá/Rava sobre dois côvados por engano, intencionalmente e por engano; e o princípio de que a intenção cria um lugar — encerrando o Perek Yud-Alef com o hadran

Shabbat 102a · continuação de 101b · Perek Yud-Alef (HaZorek), até o hadran

102a abre o Perek Yud-Alef, HaZorek, com uma nova Mishná: quem lança, por engano, um objeto de um domínio a outro em Shabat, e se lembra — depois que o objeto já saiu de sua mão — que estava violando uma proibição, fica isento se outro o apanhou, se um cão o apanhou, ou se foi queimado antes de pousar; da mesma forma, quem lançou uma pedra para ferir uma pessoa ou um animal, e se lembrou antes que a ferida fosse feita, fica isento. A Mishná fecha com o princípio geral: todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado só o são se o início e o fim de seu ato forem por engano; se o início foi por engano e o fim intencional, ou o início intencional e o fim por engano, ficam isentos. A Guemará abre perguntando: por inferência, se o objeto pousa, o lançador está obrigado — mas não se lembrou antes de pousar, e a própria mishná exige que início e fim sejam por engano? Rav Kahana resolve que a última cláusula da mishná se refere a um caso especial, o de um trinco amarrado a uma corda que se segura na mão, permitindo reverter o lançamento até o último instante. A Guemará objeta que, nesse caso, não há lançamento nenhum, pois o objeto está preso à mão; Rava responde que o caso é de quem pretendia ferir alguém — mas isso já a própria mishná ensina explicitamente sobre ferir! Rava propõe então que a mishná ensina duas matérias distintas, sem relação direta com "esta é a regra". A Guemará, ainda insatisfeita, observa que "esta é a regra" segue diretamente o caso de ferir, e por isso deveria referir-se ao lançar — mas se assim for, como pode um simples lançador ser isento pela lembrança, se depois que o objeto sai da mão nada mais pode ser feito? Rava responde, então, que "esta é a regra" veio para incluir o caso de quem transporta um objeto quatro côvados no domínio público, pois esse sim pode parar quando se lembra. Rav Ashi, por fim, propõe que a mishná está incompleta e deve ser lida com uma cláusula implícita: quem lança e se lembra depois que o objeto saiu de sua mão fica isento se foi apanhado ou queimado — mas, por inferência, se pousou, fica obrigado; e isso vale apenas quando a pessoa voltou a esquecer antes do pouso, pois, se não esqueceu de novo, fica isento, já que todos os responsáveis por oferendas pelo pecado só o são se início e fim forem por engano. A folha passa então a uma disputa entre amoraim: alguém carregou um objeto no domínio público dois côvados por engano, dois côvados intencionalmente (tendo se lembrado no meio) e mais dois côvados por engano (tendo voltado a esquecer) — é essa uma transgressão cujo início e fim são por engano? Rabá diz que está isento; Rava diz que está obrigado. Rabá explica que sua posição vale mesmo segundo Rabán Gamliel, que nega que haja efeito de conhecimento para metade da medida: ali, a medida se completa por engano; aqui, completa-se intencionalmente — e por isso trata-se necessariamente do caso de quem transporta, não de quem lança, pois quem lança já é isento pela lembrança mesmo sem essa distinção. Rava, inversamente, explica que sua posição vale mesmo segundo os Sábios, que afirmam haver efeito de conhecimento para metade da medida apenas quando o resultado ainda está no poder da pessoa — e por isso, no caso oposto, deve tratar-se de quem lança, já que quem transporta sempre tem o poder de parar. A folha segue com um novo ensinamento de Rabá: quem lança um objeto que pousa na boca de um cão ou na boca de um forno fica obrigado — o que pareceria contradizer a isenção da própria mishná para o caso de o cão apanhar o objeto; a resposta distingue pela intenção: ali, o lançador não pretendia que o cão o apanhasse; aqui, pretendia lançá-lo exatamente ali. Rav Beivai bar Abaye traz apoio dessa distinção de uma mishná sobre quem come uma única porção do tamanho de uma azeitona e se torna responsável por quatro oferendas pelo pecado e uma oferenda pela culpa — o caso do impuro que comeu gordura proibida, sendo ela sobra de carne consagrada, no Dia da Expiação. Rabi Meir acrescenta que, se também fosse Shabat e a pessoa a tivesse carregado em sua boca de um domínio a outro, seria responsável por uma quinta oferenda, por carregar; os Sábios discordam, dizendo que essa oferenda não seria da mesma categoria — não por comer, mas por carregar. A Guemará pergunta por que haveria responsabilidade por carregar, já que carregar na boca não é a forma costumeira de fazê-lo; a resposta, que fecha a folha, é o mesmo princípio já estabelecido: como a pessoa tinha essa intenção, seu pensamento transforma a boca num lugar apto para depósito — e o mesmo vale para o caso do cão, cuja boca se torna, pela intenção do lançador, um lugar de pouso válido. Com isso conclui-se toda a sugya, e a folha termina com o hadran, a fórmula que encerra o Perek Yud-Alef, HaZorek. Confirmado via Sefaria: o daf 102a pertence, do início ao fim (incluindo o hadran), ao Perek Yud-Alef; o Perek Yud-Bet, HaBoneh, começa apenas em 102b, cuja mishná de abertura ainda não foi publicada.

Nova Mishná: quem lança e se lembra depois que o objeto saiu de sua mão; quem lança para ferir · הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר מֵאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ

340Mishná: quem lança e se lembra depois que o objeto saiu de sua mão fica isento se foi apanhado ou queimado; quem lança para ferir fica isento se se lembrou antes da ferida; a regra geral: início e fim precisam ser por engano
Mishná
מַתְנִי׳ הַזּוֹרֵק, וְנִזְכַּר מֵאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ, קְלָטָהּ אַחֵר, קְלָטָהּ כֶּלֶב אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה — פָּטוּר. זָרַק לַעֲשׂוֹת חַבּוּרָה, בֵּין בְּאָדָם וּבֵין בַּבְּהֵמָה, וְנִזְכַּר עַד שֶׁלֹּא נַעֲשֵׂית חַבּוּרָה — פָּטוּר. זֶה הַכְּלָל: כׇּל חַיָּיבֵי חַטָּאוֹת — אֵינָן חַיָּיבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה. תְּחִלָּתָן שְׁגָגָה וְסוֹפָן זָדוֹן, תְּחִילָּתָן זָדוֹן וְסוֹפָן שְׁגָגָה — פְּטוּרִין, עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִילָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה.

MISHNÁ. Quem lança um objeto, por engano, de um domínio a outro em Shabat, e se lembrou que estava violando uma proibição depois que o objeto saiu de sua mão, se outro a apanhou, se um cão a apanhou, ou se foi queimada — está isento. Se alguém lançou uma pedra para fazer uma ferida, seja em pessoa seja em animal, e se lembrou antes que a ferida fosse feita — está isento. Esta é a regra: todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado não são responsáveis a menos que seu início e seu fim sejam por engano. Se seu início foi por engano e seu fim foi intencional, ou se seu início foi intencional e seu fim foi por engano — estão isentos, até que seu início e seu fim sejam por engano.

Nota — abre-se a mishná do Perek Yud-Alef sobre lançar e esquecer

Depois de encerrar, em 101b, toda a sugya sobre barcos amarrados e partições feitas no Shabat, a Guemará retorna à mishná principal do Perek Yud-Alef (ensinada já em 96a) para explorar um novo aspecto do lançar: o caso de quem se lembra da proibição depois que o objeto já deixou sua mão, mas antes que ele pouse. A mishná ensina que, nesse caso — seja porque outra pessoa apanhou o objeto no ar, seja porque um cão o apanhou, seja porque foi queimado antes de tocar o chão —, o lançador fica isento, pois o objeto nunca chegou a "pousar" (a completar a melacha de lançar). Paralelamente, quem lança uma pedra com a intenção de ferir alguém — pessoa ou animal, uma transgressão distinta que também exige uma oferenda pelo pecado — e se lembra antes que a ferida seja de fato causada, também fica isento. A mishná fecha com o princípio geral que rege toda responsabilidade por oferendas pelo pecado no Talmud: a transgressão só gera responsabilidade se, do início ao fim do ato, a pessoa permaneceu em estado de engano (sem saber que estava violando uma proibição); se em algum momento — no início ou no fim — ela teve consciência de que estava transgredindo, fica isenta da oferenda, ainda que continue sujeita a outras consequências.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "matni' hazorek", "venizkar", "me'achar sheyatzta" e "keltah acher"
מתני' הזורק - בשוגג: ונזכר - שהוא שבת: מאחר שיצתה - האבן מידו וקודם שתנוח: קלטה אחר - קס"ד לאחר שנזכר זה קלטה אחר הוו להו שנים שעשאוה וכגון שנעקר ממקומו וקבל או שקלטה כלב בפיו דלא הויא הנחה דבעינן מקום ד' פטור:

"'MISHNÁ: quem lança'" — por engano. "'E se lembrou'" — que é Shabat. "'Depois que saiu'" — a pedra de sua mão, e antes que pousasse. "'Outro a apanhou'" — vinha à mente pensar que, depois que este se lembrou, outro a apanhou, e seriam dois que a fizeram juntos, cada um responsável apenas por parte da ação; e trata-se, por exemplo, de quando o outro se moveu de seu lugar e a recebeu, ou de quando um cão a apanhou em sua boca — pois isso não constitui pouso, já que necessitamos de um lugar de quatro palmos para que haja pouso válido — está isento.

A Guemará questiona: se pousou é obrigado, apesar da lembrança? Rav Kahana: a última cláusula fala do trinco e da corda · לַכְתָּא וּמִתְנָא

341A Guemará infere: se pousou, é obrigado? Mas ele se lembrou! E a mishná exige início e fim por engano! Rav Kahana: a última cláusula fala do trinco e da corda
A Guemará; Rav Kahana
גְּמָ׳ הָא נָחָה — חַיָּיב? וַהֲלֹא נִזְכָּר, וּתְנַן: כׇּל חַיָּיבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָּיבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה?! אָמַר רַב כָּהֲנָא: סֵיפָא אֲתָאן לְלַכְתָּא וּמִתְנָא.

GUEMARÁ. Por inferência da mishná: se o objeto pousou — está obrigado? Mas não se lembrou ele, antes de pousar,? E aprendemos: todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado não são responsáveis a menos que seu início e seu fim sejam por engano?! Rav Kahana disse: quanto à última cláusula, chegamos a falar de um trinco e uma corda.

Nota

A Guemará abre com uma inferência lógica sobre a primeira cláusula da mishná: se, quando o objeto é apanhado por outro, por um cão, ou é queimado antes de pousar, o lançador fica isento — então, por inferência, se o objeto de fato pousa (sem nenhuma dessas interrupções), o lançador deveria estar obrigado a trazer uma oferenda pelo pecado. Mas a Guemará objeta: a mishná descreve um caso em que a pessoa se lembrou da proibição depois que o objeto saiu de sua mão — ou seja, antes do pouso, já havia consciência da transgressão. E a própria mishná, na sua cláusula final, exige explicitamente que tanto o início quanto o fim do ato sejam por engano para que haja responsabilidade; aqui, o fim (o momento do pouso) ocorre depois que a pessoa já se lembrou, portanto com consciência — o que deveria isentá-la, e não obrigá-la! Rav Kahana resolve a dificuldade limitando o alcance da última cláusula da mishná (a que trata do princípio geral de início e fim): ela não se refere ao caso simples de lançar uma pedra ou objeto solto, mas a um caso especial e mais restrito — o de um trinco de madeira amarrado a uma corda, que o lançador segura em sua mão o tempo todo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "guemará, ufarchinan hana necha", "sipa" e "atan lelachta umitna"
גמ' ופרכינן הא נחה - לסוף ד' ברה"ר חייב ואע"ג דנזכר בין עקירה להנחה והא קתני סיפא זה הכלל כו': סיפא - דקתני עד שתהא תחלתן וסופן שגגה: אתאן ללכתא ומיתנא - לכתא עץ קטן שכפול ראשו וצריך לחמורים נושאים דרדורים של יין שתוחבין אותו בשני עקלים שהדרדורים תלויין בהן משני צידי החמור ומחברים בו הדרדורים שיחזיק זה את זה: ומתנא - חבל כלומר לא מיתוקמא סיפא אלא בזורק לכתא הקשור בחבל קטן כדרכו ואוחז החבל בידו וכשנזכר היה בידו לאחוז החבל ולעכב זריקת הלכתא שלא תנוח הלכך תחילתו שוגג וסופו מזיד ופטור אבל זרק צרור וחפץ שכשנזכר אין בידו לעכבו כוליה שוגג הוא ונזכר דקתני ברישא אשמעינן רבותא דאף על גב דנזכר לא מיפטר מחטאת אא"כ קלטה אחר או כלב:

"'GUEMARÁ: e perguntamos: se pousou'" — ao final de quatro côvados no domínio público, está obrigado — e isso ainda que se tenha lembrado entre o levantar e o pousar; mas não ensina a última cláusula "esta é a regra" etc.? "'A última cláusula'" — que ensina "até que seu início e seu fim sejam por engano". "'Chegamos a um trinco e uma corda'" — um trinco é um pequeno pedaço de madeira, com a ponta dobrada, necessário para os burros que carregam barris de vinho: enfia-se esse trinco em duas cordas, das quais os barris ficam pendurados dos dois lados do burro, e liga-se com ele os barris, para que um sustente o outro. "'E uma corda'" — corda; isto é, a última cláusula só se estabelece no caso de quem lança o trinco amarrado a uma corda pequena, como é seu costume, e segura a corda em sua mão; e quando se lembrou, estava em seu poder segurar a corda e impedir que o trinco fosse lançado, para que não pousasse; por isso, seu início é por engano e seu fim é intencional, e está isento. Mas quem lançou uma pedra ou um objeto solto, quando se lembrou já não está em seu poder impedi-lo — é tudo por engano; e "se lembrou", que a primeira cláusula ensina, ensina-nos algo notável: que, ainda que se tenha lembrado, não fica isento da oferenda pelo pecado, a menos que outro a tenha apanhado, ou um cão.

342Desafio: o trinco está preso na mão, não há lançamento! Resposta: trata-se de ferir — mas isso já se ensina! Rava: trata-se de quem transporta
A Guemará; Rava
לַכְתָּא וּמִתְנָא אוֹגְדוֹ בְּיָדוֹ הוּא! כְּגוֹן שֶׁנִּתְכַּוֵּין לַעֲשׂוֹת חַבּוּרָה. הָא נָמֵי תְּנֵינָא: הַזּוֹרֵק לַעֲשׂוֹת חַבּוּרָה, בֵּין בָּאָדָם בֵּין בַּבְּהֵמָה, וְנִזְכַּר עַד שֶׁלֹּא נַעֲשֵׂית חַבּוּרָה — פָּטוּר! אֶלָּא אָמַר רָבָא: בְּמַעֲבִיר.

Um trinco e uma corda — ele o está segurando em sua mão o tempo todo, e não há aí lançamento algum! Trata-se, respondem, por exemplo de quando pretendeu fazer uma ferida com o trinco lançado a distância, preso à corda. Mas isso também já aprendemos na própria mishná: quem lança para fazer uma ferida, seja em pessoa seja em animal, e se lembrou antes que a ferida fosse feita — está isento! Mas Rava disse: a última cláusula trata de quem transporta.

Nota

A Guemará objeta imediatamente à resposta de Rav Kahana: se o trinco está amarrado a uma corda que a pessoa segura o tempo todo em sua mão, então não houve, em momento algum, um verdadeiro ato de lançar — o objeto nunca deixou completamente o controle do lançador, e por isso não haveria responsabilidade alguma, mesmo sem qualquer lembrança. A resposta ajusta o caso: trata-se de alguém que pretendia usar o trinco amarrado à corda para ferir uma pessoa ou animal a distância — lançando-o com força suficiente para causar a ferida, mas mantendo a corda na mão para poder puxá-lo de volta caso se lembrasse a tempo. Mas a Guemará replica: esse caso exato — lançar para ferir, com isenção por lembrança antes que a ferida ocorra — já está explicitamente ensinado na segunda cláusula da própria mishná; não haveria necessidade de recorrer ao caso do trinco e da corda para explicar a última cláusula geral. Rava propõe, então, uma solução diferente: a última cláusula da mishná — "esta é a regra: todos os responsáveis por oferendas pelo pecado..." — não se refere ao lançar (nem no seu sentido simples, nem no caso de ferir), mas ao caso de quem transporta um objeto quatro côvados no domínio público, um tipo de melacha diferente, na qual a pessoa, ao se lembrar, ainda tem o poder de parar de caminhar antes de completar a distância proibida.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "ufarchinan lachta umitna ogdo beyado", "kegon shenitkavein" e "ha behedia katni la"
ופרכינן לכתא ומתנא אוגדו בידו - ואפילו כוליה מילתא שוגג לא מיחייב דאין כאן זריקה: כגון שנתכוין לעשות חבורה - בתחלתו בשגגת שבת ונזכר עד שלא נעשית החבורה ולעולם בלכתא ומיתנא וכגון שנתכוין לעשות חבורה כו' דהאי משום זכירה הוא דמיפטר שהיה בידו להחזיר נמצא סופו זדון הא לא נזכר חייב ואע"ג דאגדו בידו דחיוביה לאו משום זריקה הוא אלא משום חבורה: הא בהדיא קתני לה - במתניתין וזה הכלל ע"כ למילתא אחריתי אתא: אלא אמר רבא - זה הכלל למעביר ארבע אמות ברה"ר ונזכר קודם שהעבירו ד' אמות אתא שהיה בידו לעמוד במקום שנזכר אבל זורק לא מיפטר בזכירה:

"'E perguntamos: um trinco e uma corda — ele o está segurando em sua mão'" — e mesmo que todo o caso fosse por engano, não estaria obrigado, pois não há aqui lançamento verdadeiro. "'Por exemplo, quando pretendeu fazer uma ferida'" — em seu início, por esquecimento do Shabat, e se lembrou antes que a ferida fosse feita; e trata-se sempre do trinco e da corda, e por exemplo de quando pretendeu fazer uma ferida etc., pois é por causa da lembrança que fica isento, já que estava em seu poder puxá-lo de volta — resulta que seu fim é intencional. Mas se não se lembrou, está obrigado; e ainda que o esteja segurando em sua mão, sua responsabilidade não é por causa do lançamento, mas por causa da ferida. "'Mas isso já ensinamos explicitamente'" — na mishná; portanto, "esta é a regra" veio, por força, para outra coisa. "'Mas Rava disse'" — "esta é a regra" veio para o caso de quem transporta quatro côvados no domínio público e se lembrou antes de os ter transportado, pois estava em seu poder parar no lugar em que se lembrou; mas quem lança não fica isento pela lembrança nesse sentido geral.

343Novo desafio: "esta é a regra" segue o caso de ferir, logo fala de lançar! Rava: a mishná ensina duas matérias distintas
A Guemará; Rava
וְהָא ״זֶה הַכְּלָל״ דְּקָתָנֵי, אַזְּרִיקָה קָתָנֵי. אֶלָּא אָמַר רָבָא, תַּרְתֵּי קָתָנֵי: הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר מֵאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ, אִי נָמֵי לֹא נִזְכַּר וּקְלָטָהּ אַחֵר אוֹ קְלָטָהּ כֶּלֶב אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה — פָּטוּר.

Mas "esta é a regra", que a mishná ensina, sobre o lançar ela ensina , já que segue imediatamente o caso de ferir por lançamento! Mas Rava disse: duas matérias ela ensina: quem lança e se lembrou depois que o objeto saiu de sua mão — fica isento; ou então, não se lembrou, e outro a apanhou, ou um cão a apanhou, ou foi queimada — está isento.

Nota

A Guemará insiste: gramaticalmente, "esta é a regra" segue de imediato o caso de lançar para ferir, e por isso deveria naturalmente referir-se ao lançar em geral — e não ao caso, introduzido de fora, de quem transporta. Mas se assim for, retorna-se à dificuldade original: como pode um simples lançador (não amarrado a uma corda) ser isento apenas por se lembrar, se depois que o objeto sai de sua mão ele não tem mais nenhum poder sobre o resultado? Rava oferece então uma leitura estrutural diferente da mishná inteira: a primeira cláusula não descreve um único caso, mas duas situações distintas e paralelas, ambas resultando em isenção, mas por razões diferentes. A primeira: quem lança e se lembra depois que o objeto saiu de sua mão — aqui a isenção decorre precisamente do fato de que, tecnicamente, não há um "fim" da ação com consciência plena, pois o lançador já perdeu todo o controle assim que o objeto deixou sua mão; o "fim por engano" é entendido de modo mais amplo, cobrindo qualquer caso em que a pessoa não tinha mais poder de agir. A segunda, uma situação alternativa e independente: mesmo que a pessoa não tenha se lembrado em momento algum, se o objeto foi interceptado por outra pessoa, por um cão, ou foi queimado antes de pousar, o lançador também fica isento — simplesmente porque o ato de lançar nunca se completou (o objeto nunca pousou no destino pretendido). Assim, "esta é a regra" (o princípio de início e fim por engano) permanece ligado ao contexto do lançar, mas entendido com a nuance de que, para o lançador, "o fim" se refere ao momento em que ele perde o controle, e não necessariamente ao pouso físico.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "veha ki katni ze hakelal azrika tani la" e "ela amar rava"
והא כי קתני זה הכלל אזריקה תני לה - דאיירי לעיל מיניה בזורק לעשות חבורה ואי סתם זורק לא מיפטר בזכירה היכי מתני גבי זה הכלל: אלא אמר רבא - רישא מילי מילי קתני לה ותרתי קתני הזורק ונזכר אי נמי לא נזכר וקלטה אחר כו' והדר תני כללא לאתויי מעביר:

"'Mas, quando ensina 'esta é a regra', ensina-a sobre o lançar'" — pois trata, imediatamente antes, de quem lança para fazer uma ferida; e se quem lança sem mais não fica isento pela lembrança, como ensinaria a mishná "esta é a regra" a respeito disso? "'Mas Rava disse'" — a primeira cláusula ensina assuntos separados, e ensina duas coisas: "quem lança e se lembrou", fica isento por uma razão; ou então, "não se lembrou e outro a apanhou" etc., fica isento por outra razão; e depois a mishná ensina a regra geral para incluir também quem transporta.

344Rav Ashi: a mishná está incompleta; reconstrução completa — isento se apanhado ou queimado, obrigado se pousou, e apenas quando voltou a esquecer
Rav Ashi
רַב אָשֵׁי אָמַר: חַסּוֹרֵי מְחַסְּרָא, וְהָכִי קָתָנֵי: הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר מֵאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ, קְלָטָהּ אַחֵר אוֹ קְלָטָהּ כֶּלֶב אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה — פָּטוּר. הָא נָחָה — חַיָּיב. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים — שֶׁחָזַר וְשָׁכַח, אֲבָל לֹא חָזַר וְשָׁכַח — פָּטוּר, שֶׁכׇּל חַיָּיבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָּיבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה.

Rav Ashi disse: a mishná está faltando algo, e assim ela ensina: quem lança e se lembrou depois que o objeto saiu de sua mão, se outro a apanhou, ou um cão a apanhou, ou foi queimada — está isento; mas se pousou — está obrigado. Em que caso se disse isso? Quando voltou e esqueceu antes do pouso; mas se não voltou e esqueceu — está isento, pois todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado não são responsáveis a menos que seu início e seu fim sejam por engano.

Nota

Rav Ashi propõe uma terceira abordagem, diferente tanto da de Rav Kahana quanto da de Rava: a mishná, tal como está formulada, é incompleta, e deve ser lida como se tivesse uma cláusula adicional implícita. A leitura completa seria: quem lança e se lembra depois que o objeto saiu de sua mão fica isento se foi apanhado por outro, por um cão, ou se foi queimado — mas, por inferência lógica (e agora sim, corretamente), se o objeto pousou sem nenhuma dessas interrupções, o lançador está obrigado, apesar de ter havido um momento de lembrança no meio do processo. Rav Ashi então qualifica essa inferência: essa responsabilidade — apesar da lembrança intermediária — só se aplica quando a pessoa, depois de se lembrar, voltou a esquecer antes que o objeto pousasse; nesse caso, o esquecimento final cobre novamente todo o processo, e tanto o início (antes da primeira lembrança) quanto o fim (depois do segundo esquecimento) ficam sob o guarda-chuva do engano, satisfazendo plenamente a exigência da última cláusula da mishná. Mas se a pessoa não voltou a esquecer — se permaneceu consciente da transgressão até o momento do pouso —, então o fim do ato não foi por engano, e ela fica isenta, exatamente como a última cláusula da mishná exige. Com essa leitura, Rav Ashi reconcilia todas as partes da mishná sem precisar recorrer a casos especiais como o trinco e a corda, ou a uma leitura fragmentada em duas matérias separadas.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "chisurei mechasra" e "shechazar veshachach"
חסורי מחסרא וכו' - ולעולם חדא קתני: שחזר ושכח - קודם שתנוח דהוה ליה תחילתו וסופו שגגה ואשמעינן נזכר דתנא בה לרבותא דאע"ג דהואי ידיעה בינתיים מיחייב דאין ידיעה לחצי שיעור דהיינו כאין בידו להחזיר:

"'Está faltando algo' etc." — e na verdade a mishná ensina uma coisa , ainda que precise ser completada. "'Que voltou e esqueceu'" — antes que pousasse, de modo que seu início e seu fim são por engano; e ensina-nos "se lembrou" como algo notável: que, ainda que tenha havido conhecimento no meio, fica obrigado, pois não há efeito de conhecimento para metade da medida, isto é, equivale a não estar em seu poder puxá-lo de volta.

Disputa entre Rabá e Rava: dois côvados por engano, dois intencionalmente, dois por engano · שְׁתֵּי אַמּוֹת בְּשׁוֹגֵג, שְׁתֵּי אַמּוֹת בְּמֵזִיד

345Foi dito: dois côvados por engano, dois intencionalmente, dois por engano — Rabá: isento; Rava: obrigado
Amoraim
זֶה הַכְּלָל: כׇּל חַיָּיבֵי חַטָּאוֹת כּוּ׳. אִיתְּמַר: שְׁתֵּי אַמּוֹת בְּשׁוֹגֵג, שְׁתֵּי אַמּוֹת בְּמֵזִיד, שְׁתֵּי אַמּוֹת בְּשׁוֹגֵג — רַבָּה אָמַר: פָּטוּר. רָבָא אָמַר: חַיָּיב.

"Esta é a regra: todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado" etc. Foi dito: alguém carregou dois côvados por engano, dois côvados intencionalmente, e dois côvados por engano — Rabá disse: está isento. Rava disse: está obrigado.

Nota

Voltando ao princípio geral da mishná — que a responsabilidade por uma oferenda pelo pecado exige que início e fim do ato sejam por engano — a Guemará cita uma disputa entre dois grandes amoraim babilônicos sobre um caso intermediário e mais complexo: alguém carrega um objeto no domínio público, começando por dois côvados por engano (sem saber que era proibido, ou sem saber que era Shabat), depois se lembra e continua carregando mais dois côvados intencionalmente (sabendo que está transgredindo), e então volta a esquecer e carrega mais dois côvados finais por engano — completando, ao todo, a distância de quatro côvados que gera responsabilidade por carregar no domínio público. A questão é: esse caso conta como uma transgressão cujo início e fim são por engano (já que os dois primeiros côvados e os dois últimos são por engano), ou o trecho intencional no meio "quebra" a continuidade, tornando o ato como um todo não qualificado para a isenção? Rabá sustenta que a pessoa está isenta; Rava sustenta que está obrigada. A Guemará passa a explicar a lógica de cada posição.

346Rabá explica: isento mesmo segundo Rabán Gamliel, pois ali a medida se completa por engano; aqui, intencionalmente — e por isso trata-se de quem transporta
Rabá; a Guemará
רַבָּה אָמַר פָּטוּר, אֲפִילּוּ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל דְּאָמַר אֵין יְדִיעָה לַחֲצִי שִׁיעוּר, הָתָם הוּא דְּכִי קָא גָמַר שִׁיעוּרָא — בְּשׁוֹגֵג קָא גָמַר, אֲבָל הָכָא דִּבְמֵזִיד — לָא. וּבְמַאי? אִי בְּזוֹרֵק — שׁוֹגֵג הוּא! אֶלָּא בְּמַעֲבִיר.

Rabá disse que está isento, mesmo segundo Rabán Gamliel, que disse: não há efeito de conhecimento para metade da medida — ali é isento apenas porque, quando completou a medida, completou-a por engano; mas aqui, onde a completou intencionalmente — não há responsabilidade. E em que caso se disse isso? Se trata-se de quem lança — é tudo por engano , já que uma vez lançado nada mais pode ser feito! Mas trata-se de quem transporta.

Nota

Rabá esclarece que sua posição — que a pessoa está isenta — é válida mesmo segundo a opinião mais rigorosa, a de Rabán Gamliel (citada adiante, no Perek HaBoneh, a respeito de quem escreve duas letras em dois momentos separados de esquecimento), segundo a qual não há efeito de "conhecimento para metade da medida": isto é, mesmo que a pessoa tenha tido um momento de consciência entre a primeira metade e a segunda metade de um ato que, somado, atinge a medida mínima de responsabilidade, essa consciência intermediária não interrompe a contagem, e a pessoa continua obrigada. Rabá explica a distinção: Rabán Gamliel disse isso apenas no caso em que, quando a medida se completa (no seu ponto final), ela se completa por engano — como no caso das duas letras, em que a segunda letra, que completa a medida mínima de duas letras, é escrita também por engano. Mas aqui, no caso dos dois côvados finais, quando a medida de quatro côvados se completa (nos dois côvados finais), ela se completaria, nessa hipótese, intencionalmente — e por isso, mesmo Rabán Gamliel concordaria em isentar. A Guemará então pergunta: a que caso exatamente Rabá se refere? Se fosse o caso de quem lança um objeto (não de quem carrega caminhando), todo o ato seria necessariamente por engano, pois, uma vez que o objeto deixa a mão, o lançador não tem mais nenhum poder sobre ele — não haveria sentido em falar de um "meio intencional" que completa a medida de forma consciente. Portanto, o caso de Rabá deve ser, necessariamente, o de quem transporta um objeto caminhando, pois só nesse caso a pessoa mantém o controle contínuo sobre a ação, podendo, a cada passo, decidir conscientemente continuar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hagi shechol chayavei chatot", "itmar", "derabán gamliel", "hatam dechi gamar shiura" e "ela bema'avir"
ה"ג שכל חייבי חטאות כו': איתמר ב' אמות בשוגג ב' אמות במזיד ב' אמות בשוגג רבה אמר פטור רבא אמר חייב. שתי אמות במזיד שנזכר לאחר שתי אמות ראשונות וחזר ושכח בב' האחרונות: דר"ג - לקמן בפרק הבונה: התם דכי גמר שיעורא בשוגג גמר - הכותב ב' אותיות בב' העלמות דמחייב בה ר"ג באות השניה נגמר השיעור ואף הוא בשוגג אבל הכא בשתי אמצעיות שהן במזיד נגמר השיעור כדמפרש ואזיל לה במעביר ושתי אמצעיות מזיד: שוגג הוא - שהרי אין בידו לעכבה וכיון שחזר ושכח חייב דלא נגמרה מלאכה עד שעת הנחה שהיא לסוף ובשוגג: אלא במעביר - וכיון דבידו לעמוד בסוף ב' אמות האמצעיות אשתכח דגמר שיעורא במזיד:

Assim é a versão correta: "pois todos os que são responsáveis por oferendas pelo pecado" etc. "'Foi dito: duas amot por engano'" etc. — as duas amot intencionais são quando se lembrou depois das duas primeiras amot, e voltou e esqueceu nas duas últimas. "'De Rabán Gamliel'" — adiante, no Perek HaBoneh. "'Ali é porque, quando completou a medida, completou-a por engano'" — refere-se a quem escreve duas letras em dois momentos de esquecimento, pelo qual Rabán Gamliel o responsabiliza: na segunda letra completa-se a medida, e também ela é por engano; mas aqui, nas duas amot intermediárias, que são intencionais, completa-se a medida — como a Guemará passa a explicar, que se trata de quem transporta, e as duas amot intermediárias são intencionais. "'É por engano'" — pois não está em seu poder impedi-lo; e já que voltou e esqueceu, está obrigado, pois a obra não se completa senão no momento do pouso, que é no final, e por engano. "'Mas trata-se de quem transporta'" — e, já que está em seu poder parar ao final das duas amot intermediárias, resulta que completou a medida intencionalmente.

347Rava explica: obrigado mesmo segundo os Sábios, pois ali a isenção vale só quando está em seu poder; aqui não está — e por isso trata-se de quem lança
Rava
רָבָא אָמַר חַיָּיב, וַאֲפִילּוּ לְרַבָּנַן דְאָמְרִי יֵשׁ יְדִיעָה לַחֲצִי שִׁיעוּר, הָתָם הוּא דִּבְיָדוֹ, אֲבָל הָכָא דְּאֵין בְּיָדוֹ — לָא. וּבְמַאי? אִי בְּמַעֲבִיר — הֲרֵי בְּיָדוֹ! וְאֶלָּא בְּזוֹרֵק.

Rava disse que está obrigado, e mesmo segundo os Sábios, que dizem: há efeito de conhecimento para metade da medida — ali é isento apenas porque está em seu poder interromper; mas aqui, onde não está em seu poder — não há isenção. E em que caso se disse isso? Se trata-se de quem transporta — eis que está em seu poder parar! Mas trata-se de quem lança.

Nota

Rava, por sua vez, explica que sua posição — que a pessoa está obrigada — é válida mesmo segundo a opinião mais leniente, a dos Sábios (que discordam de Rabán Gamliel e sustentam que há efeito de conhecimento para metade da medida, ou seja, que a consciência intermediária de fato interrompe a contagem e isenta a pessoa). Rava distingue: os Sábios disseram isso apenas nos casos em que, no momento da consciência intermediária, ainda está em poder da pessoa interromper ou reverter a ação — como no caso de quem escreve duas letras, em que, depois de escrever a primeira e se lembrar, está em seu poder simplesmente não escrever a segunda. Mas aqui, no caso oposto ao de Rabá, onde não está em poder da pessoa reverter a ação no momento da lembrança, mesmo os Sábios concordariam que ela permanece obrigada, pois a consciência intermediária não tem o mesmo peso quando a pessoa não pode fazer nada com ela. A Guemará pergunta então a que caso Rava se refere: se fosse o caso de quem transporta caminhando, certamente estaria em seu poder simplesmente parar de andar ao se lembrar — não se encaixando na categoria descrita por Rava. Portanto, o caso de Rava deve ser, necessariamente, o oposto do de Rabá: o de quem lança um objeto, pois, uma vez que o objeto sai da mão do lançador, mesmo que ele se lembre da proibição, nada mais está em seu poder fazer para impedir o pouso.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "hatam hu debiyado" e "aval hacha ein beyado"
התם הוא דבידו - שלא לחזור ולכתוב השניה הלכך כי חזר ושכח הויא לה שגגה אחריתי ולא גמרה לקמייתא: אבל הכא אין בידו - להחזיר כשנזכר כדמפרש ואזיל בזורק הלכך כולה חדא שגגה היא ומר אמר חדא ומר אמר חדא ולא פליגי:

"'Ali é porque está em seu poder'" — não voltar a escrever a segunda letra; por isso, quando voltou e esqueceu, é um novo ato de esquecimento, e não completa o primeiro. "'Mas aqui não está em seu poder'" — puxá-lo de volta quando se lembrou, como a Guemará passa a explicar, que se trata de quem lança; por isso, tudo é um engano; e um mestre disse uma coisa e o outro mestre disse outra coisa, cada um a respeito de um caso diferente, e não discordam de fato.

Rabá: lançado na boca do cão ou do forno é obrigado, quando essa era a intenção · בְּפִי הַכֶּלֶב אוֹ בְּפִי הַכִּבְשָׁן

348Rabá: lançou e pousou na boca do cão ou do forno — obrigado; a mishná isenta apenas quando não havia essa intenção
Rabá; a Guemará
אָמַר רַבָּה: זָרַק וְנָחָה בְּפִי הַכֶּלֶב אוֹ בְּפִי הַכִּבְשָׁן — חַיָּיב. וְהָאֲנַן תְּנַן: קְלָטָהּ אַחֵר אוֹ קְלָטָהּ הַכֶּלֶב אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה — פָּטוּר! הָתָם דְּלָא מְכַוֵּין, הָכָא דְּקָא מְכַוֵּין.

Rabá disse: se alguém lançou e o objeto pousou na boca do cão ou na boca do forno — está obrigado. Mas não aprendemos na mishná: se outro a apanhou, ou o cão a apanhou, ou foi queimada — está isento! Ali é o caso em que não tinha essa intenção; aqui é o caso em que tinha essa intenção.

Nota

Rabá introduz um novo ensinamento, aparentemente contradizendo a própria mishná com que a folha abriu: se alguém lança um objeto e ele pousa exatamente na boca de um cão, ou na boca aberta de um forno aceso, a pessoa está obrigada a trazer uma oferenda pelo pecado — como se o objeto tivesse pousado em qualquer superfície sólida. A Guemará objeta imediatamente: a própria mishná ensinou que, se um cão apanha o objeto lançado, o lançador fica isento! Rabá e a Guemará resolvem a aparente contradição distinguindo pela intenção do lançador: o caso da mishná, em que há isenção, refere-se a uma situação em que o lançador não pretendia que o cão apanhasse o objeto — um cão surgiu inesperadamente e interceptou o objeto no ar, frustrando a intenção original do lançador (que talvez pretendesse que o objeto pousasse no chão, num ponto de quatro palmos de área). Nesse caso, como a boca do cão não era o destino pretendido, ela não conta como um "lugar" válido para efeitos de pouso, e o lançador fica isento, pois seu ato original não se completou como planejado. Já o novo caso de Rabá refere-se a uma situação em que o lançador pretendia, desde o início, lançar o objeto exatamente para dentro da boca do cão (ou do forno) — nesse caso, como a intenção do lançador foi plenamente realizada, a boca do cão passa a contar como um "lugar" válido para efeitos de pouso, e ele fica obrigado.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "befi hakivshan" e "hacha deka michavein"
בפי הכבשן - ונשרפה בשלהבת: הכא דקא מיכוין - מחשבתו משויא ליה מקום דהא אחשביה:

"'Na boca do forno'" — e foi queimada pela chama. "'Aqui, onde tinha essa intenção'" — seu pensamento faz dela , a boca, um lugar, pois ele a considerou apta para isso.

349Rav Beivai bar Abaye traz apoio de uma mishná: quatro oferendas pelo pecado e uma pela culpa por uma única refeição — o impuro que comeu gordura proibida, sobra consagrada, no Dia da Expiação
Rav Beivai bar Abaye; uma mishná
אָמַר רַב בִּיבִי בַּר אַבָּיֵי, אַף אֲנַן נָמֵי תְּנֵינָא: יֵשׁ אוֹכֵל אֲכִילָה אַחַת וְחַיָּיב עָלֶיהָ אַרְבַּע חַטָּאוֹת וְאָשָׁם אֶחָד. הַטָּמֵא שֶׁאָכַל חֵלֶב, וְהוּא נוֹתָר מִן הַמּוּקְדָּשִׁין, בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים.

Rav Beivai bar Abaye disse: também nós aprendemos essa distinção, apoiando Rabá,: há quem come uma única porção do tamanho de uma azeitona, numa só refeição, e é responsável por ela por quatro oferendas pelo pecado e uma oferenda pela culpa: é o caso do impuro que comeu gordura proibida, sendo ela sobra de carne consagrada, no Dia da Expiação.

Nota

Rav Beivai bar Abaye traz um apoio indireto à distinção estabelecida por Rabá, extraído de uma mishná (Massechet Keritot 3:2) que, à primeira vista, trata de um tema completamente diferente: a multiplicação de responsabilidades por um único ato. Essa mishná ensina que existe um caso em que uma única refeição — o consumo de uma porção do tamanho de uma azeitona — gera responsabilidade por não menos que quatro oferendas pelo pecado distintas, mais uma oferenda pela culpa: o caso de uma pessoa ritualmente impura que come gordura proibida (chelev, cujo consumo é proibido em qualquer circunstância), sendo essa gordura também "sobra" (notar, carne de um sacrifício que passou do prazo permitido para ser consumida), proveniente de um animal consagrado ao Templo, e o ato ocorre no Dia da Expiação (quando comer é proibido). Cada um desses quatro elementos — a impureza do corpo de quem come, a proibição de comer gordura, a proibição de comer notar, e a proibição de comer no Dia da Expiação — gera, separadamente, uma obrigação de oferenda pelo pecado; e o próprio ato de comer algo consagrado gera ainda uma oferenda pela culpa por apropriação indevida de bens consagrados (me'ilah). A relevância dessa mishná para o caso de Rabá aparecerá no próximo passo, com a adição de Rabi Meir.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "achila achat", "arba chatot" e "ve'asham me'ilot"
אכילה אחת - זית אחד: ד' חטאות - משום חלב משום נותר משום אכילת יוה"כ משום טומאת הגוף ואכל קדש: ואשם מעילות - דאפילו הוא כהן גבי אימורים זר הוא:

"'Uma refeição'" — uma porção do tamanho de uma azeitona. "'Quatro oferendas pelo pecado'" — por causa da gordura proibida, por causa da sobra, por causa de comer no Dia da Expiação, por causa da impureza do corpo, tendo comido algo consagrado. "'E uma oferenda pela culpa de apropriação indevida'" — pois, mesmo sendo ele sacerdote, quanto às partes queimadas no altar, é como um estranho a elas, já que sua impureza o impede de servi-las.

350Rabi Meir: também por carregar na boca em Shabat, uma quinta oferenda; os Sábios discordam quanto à categoria; resolve-se pelo princípio de que o pensamento faz da boca um lugar — como no caso do cão
Rabi Meir; os Sábios; a Guemará
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: אַף אִם הָיְתָה שַׁבָּת וְהוֹצִיאוֹ [בְּפִיו] — חַיָּיב. אָמְרוּ לוֹ: אֵינוֹ מִן הַשֵּׁם. וְאַמַּאי? הָא אֵין דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בְּכָךְ! אֶלָּא: כֵּיוָן דְּקָא מִיכַּוֵּין — מַחְשַׁבְתּוֹ מְשַׁוְּיָא לֵיהּ מָקוֹם. הָכָא נָמֵי, כֵּיוָן דְּקָא מִיכַּוֵּין — מַחְשַׁבְתּוֹ מְשַׁוְּיָא לֵיהּ מָקוֹם.

Rabi Meir diz: mesmo se fosse Shabat e o carregasse de um domínio a outro em sua boca — está obrigado por uma quinta oferenda, além das quatro já mencionadas. Disseram-lhe: essa oferenda não é da mesma categoria que as demais. E por quê estaria obrigado por carregar? Não é essa a forma costumeira de carregar , pela boca! Mas: já que teve essa intenção — seu pensamento faz dela , a boca, um lugar apto para depósito. Aqui também: já que teve essa intenção — seu pensamento faz dela , a boca do cão, um lugar apto para depósito.

Nota — a folha termina aqui

Rabi Meir acrescenta ao caso da mishná de Keritot uma quinta possibilidade de responsabilidade: se, além de todas as circunstâncias já mencionadas, também fosse Shabat, e a pessoa tivesse carregado essa porção de gordura proibida em sua própria boca, de um domínio a outro — ela estaria obrigada também por uma oferenda pelo pecado de carregar no Shabat, totalizando cinco oferendas pelo pecado por um único ato de comer (a oferenda pela culpa permanece a mesma). Note-se que, segundo Rashi, Rabi Meir não conta aqui uma oferenda adicional pelo Dia da Expiação por causa do carregar, pois entende que não há proibição de eiruv nem de carregar objetos no próprio Dia da Expiação — apenas no Shabat. Os Sábios reagem a essa adição de Rabi Meir dizendo que essa quinta oferenda "não é da mesma categoria" (eino min hashem) que as outras quatro: as quatro primeiras são todas por causa do ato de comer, ao passo que a quinta seria por causa do ato de carregar — uma melacha completamente diferente, ainda que ligada ao mesmo evento. A Guemará então questiona o próprio fundamento da posição de Rabi Meir: por que, afinal, ele consideraria que há responsabilidade por carregar nesse caso, já que carregar um objeto na boca não é a forma costumeira e reconhecida de carregar (a melacha de carregar normalmente exige que o objeto seja transportado na mão, ombro, ou de modo semelhante, não na boca)? A resposta, que fecha definitivamente a folha, aplica exatamente o mesmo princípio já estabelecido no caso do cão: como a pessoa, nesse caso, precisava comer a porção proibida enquanto caminhava (talvez para escondê-la ou consumi-la disfarçadamente), ela teve a intenção deliberada de usar sua própria boca como lugar de transporte para esse ato de carregar — e essa intenção, por si só, transforma a boca num "lugar" válido para efeitos da melacha de carregar. A Guemará conclui, em seguida, que o mesmo princípio vale igualmente para o caso da boca do cão, discutido acima por Rabá: como o lançador tinha a intenção de que o objeto pousasse ali, seu pensamento transforma a boca do cão num lugar de pouso válido, e ele fica obrigado. Com essa conclusão simétrica — unindo os dois casos pelo mesmo princípio de que a intenção cria um "lugar" —, encerra-se toda a sugya aberta com a Mishná no início da folha. A folha termina aqui, com o hadran, encerrando o Perek Yud-Alef, HaZorek. Confirmado via Sefaria (Shabbat 96a:4–102a:13): o daf 102a pertence inteiramente, do início ao fim, ao Perek Yud-Alef, incluindo a própria fórmula do hadran; o Perek Yud-Bet, HaBoneh ("o que constrói"), começa apenas em 102b:1 — não neste daf, ao contrário do que se poderia supor.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre "af im hayta shabat", "eino min hashem", "ve'amai" e "machshavto"
אף אם היתה שבת כו' - ומשום יוה"כ לא מיחייב בהוצאה דקסבר אין עירוב והוצאה ליוה"כ: אינו מן השם - אין חטאת זו משום אכילה אלא משום הוצאה: ואמאי - מיחייב משום הוצאה לדברי הכל הא אין דרך להוציא בפה: מחשבתו - שצריך לאוכלה בהליכתו ואחשבה להוצאה זו בפיו:

"'Mesmo se fosse Shabat' etc." — e por causa do Dia da Expiação não fica obrigado por carregar, pois Rabi Meir entende que não há proibição de eiruv nem de carregar no Dia da Expiação. "'Não é da mesma categoria'" — esta oferenda pelo pecado não é por causa de comer, mas por causa de carregar. "'E por quê'" — estaria obrigado por causa de carregar, segundo todos, se não é essa a forma costumeira de carregar, pela boca? "'Seu pensamento'" — pois precisa comê-la enquanto caminha, e a considerou apta para este ato de carregar em sua boca.

Fim do Perek Yud-Alef · HaZorekהַדְרָן עֲלָךְ הַזּוֹרֵק
Nota sobre a transição

Com a conclusão do princípio de que o pensamento transforma um lugar em depósito válido — aplicado tanto ao caso de carregar na boca quanto ao caso de lançar na boca de um cão —, encerra-se todo o Perek Yud-Alef, HaZorek ("quem lança"), aberto ainda dentro do daf 96a com a Mishná sobre quem lança de propriedade privada para pública. Ao longo de mais de seis folhas, o perek percorreu a disputa entre Rabi Akiva e os Sábios sobre lançar de um domínio privado a outro com a via pública no meio, o serviço dos levitas com as carroças e vigas do Tabernáculo, a explicação da razão de Rabi Akiva e dos Sábios, a discussão sobre alçapões e buracos na parede, a extensa sugya sobre partições — reais e suspensas —, a mishná dos barcos amarrados um ao outro, a baraita completa sobre amarrar, cortar e recolocar barcos e esteiras, o ensinamento de Rav Nachman sobre lançar e carregar, o ensinamento de Shmuel sobre o fio de um manto e a distinção entre os requisitos de impureza e de Shabat — e, por fim, nesta própria folha, o retorno à mishná de abertura do perek sobre quem lança e se lembra, a disputa entre Rabá e Rava sobre dois côvados por engano, dois intencionalmente e dois por engano, e o princípio de que a intenção cria um lugar de pouso ou de depósito válido. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach HaZorek" ("Retornaremos a você, HaZorek"), dita ao concluir o estudo de um capítulo.

הַדְרָן עֲלָךְ הַזּוֹרֵק
Retornaremos a você, HaZorek — encerra-se o Perek Yud-Alef de Massechet Shabat.
Nota — sobre o próximo daf

Confirmado via Sefaria (índice de capítulos de Massechet Shabat): o Perek Yud-Bet, HaBoneh ("o que constrói"), começa em Shabbat 102b:1, e não neste daf — o daf 102a pertence inteiramente ao Perek Yud-Alef, incluindo a própria fórmula do hadran com que termina. Note-se, também, que o nome tradicional do Perek Yud-Bet, segundo o índice de capítulos de Sefaria, é HaBoneh ("o que constrói"), e não "Amar Rabi Akiva" como se poderia supor de uma tradição alternativa de nomeação — a mishná de abertura do Perek Yud-Bet trata da medida mínima de construção no Shabat, já publicada em 102b. Massechet Shabat, além disso, tem ao todo vinte e quatro perakim; o Perek Yud-Bet está, portanto, apenas na metade do tratado, não sendo de forma alguma o último capítulo.