Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Alef · Halachá 4
שַׁבָּת

Quem lança no mar e o rekak de água

Perek Yud-Alef, HaZorek, Halachá 4, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Quarta halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek. A Mishná ensina que quem lança um objeto a quatro côvados no mar é isento; mas, se havia um rekak, uma água rasa de menos de dez palmos, por onde passa o domínio público, quem lança dentro dele a quatro côvados é culpado. A guemará acrescenta que não só quatro côvados no mar, mas mesmo quem lança por todo o mar é isento, porque todo o mar é chamado karmelit; e pergunta por que a Mishná ensina o rekak duas vezes, e responde com Rabi Chananyá, em nome de Rabi Pinchas, que fala de dois rekakim: um por onde o público passa, e outro por onde só passa quando está em aperto, e que também este é domínio público. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 100b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַזּוֹרֵק בַּיָּם אַרְבַּץ אַמּוֹת פָּטוּר. אִם הָיָה רְקָק מַיִם וּרְשׁוּת הָרַבִּים מְהַלֶּכֶת בּוֹ הַזּוֹרֵק בְּתוֹכוֹ אַרְבַּץ אַמּוֹת חַיָיב. וְכַמָּה הוּא רְקָק מַיִם פָּחוֹת מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים. רְקָק מַיִם וּרְשׁוּת הָרַבִּים מְהַלֶּכֶת בּוֹ הַזּוֹרֵק בְּתוֹכוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת חַיָיב:

Mishná: Quem lança um objeto no mar a quatro côvados é isento. Se havia um rekak (água rasa) de água, e o domínio público passa por ele, quem lança um objeto dentro dele a quatro côvados é culpado. E quanto é a profundidade de um rekak de água? Menos de dez palmos. Se há um rekak de água, e o domínio público passa por ele, quem lança dentro dele a quatro côvados é culpado.

A Halachá · הֲלָכָה ד

01Todo o mar é karmelit
Yerushalmi · Shabbat 11:4
ד׳. לֹא סוֹף דָּבָר אַרְבַּע אַמּוֹת בַּיָּם. אֶלָּא אֲפִילוּ זָרַק בְּכָל הַיָּם פָּטוּר. שֶׁכָּל הַיָּם נִקְרָא כַרְמְלִית.

Não somente quem lança quatro côvados no mar; mas, mesmo se lançou por todo o mar, é isento, pois todo o mar é chamado karmelit (domínio intermediário).

02Por que o rekak é ensinado duas vezes
Yerushalmi · Shabbat 11:4
וְלָמָּה תְנִינָתָהּ תְּרֵין זִימְנִין. רִבִּי חֲנַנְיָה בְשֵׁם רִבִּי פִינְחָס. בְּשֶׁהָיוּ שְׁנֵי רְקָקִים. אֶחָד הָרַבִּים מְהַלְּכִין בּוֹ וְאֶחָד אֵין הָרַבִּים מְהַלְּכִין בּוֹ אֶלָּא כְשֶׁהֵן נִדְחָקִין. שֶׁלֹּא תֹאמַר. הוֹאִיל וְאֵין הָרַבִּים מְהַלְּכִין בּוֹ אֶלָּא כְשֶׁהֵן נִדְחָקִין אֵינוֹ רְשׁוּת הָרַבִּים אֶלָּא רְשׁוּת הַיָּחִיד. לְפוּם כֵן צָרַךְ מֵימַר. רְשׁוּת הָרַבִּים הוּא.

E por que o ensinamos duas vezes na Mishná? Rabi Chananyá em nome de Rabi Pinchas: trata-se do caso em que havia dois rekakim, um pelo qual o público passa, e um pelo qual o público não passa senão quando as pessoas estão em aperto. Ensinou-o outra vez para que não digas: já que o público não passa por ele senão quando as pessoas estão em aperto, esse rekak não é domínio público, mas domínio privado; por isso foi preciso dizer que é domínio público.

Nota

Esta é a quarta halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:4 da Mishná avulsa, que vai de “hazorek bayam arbá amot”, “quem lança no mar quatro côvados”, até “um rekak de água pelo qual passa o domínio público, quem lança dentro dele quatro côvados é culpado”. A Mishná seguinte, Shabbat 11:5, “quem lança do mar para a terra seca e da terra seca para o mar”, é a da halachá 11:5. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 100b, e a discussão vem logo em seguida, na mesma folha. Há pequenas diferenças de redação entre o Yerushalmi e a Mishná avulsa. O hebraico do Sefaria escreve aqui duas vezes “arbatz”, com tsadi, onde a Mishná avulsa e o Bavli escrevem “arbá”, “quatro”, com ayin; é evidentemente um erro de cópia, como já na halachá 11:3, e o conservamos tal como está no hebraico, traduzindo “quatro”; na última frase da Mishná, o mesmo hebraico escreve “arbá” corretamente. Na primeira vez, o Yerushalmi escreve “betocho”, “dentro dele”, onde a Mishná avulsa e o Bavli escrevem “letocho”, “para dentro dele”; e escreve “chayav” com dois yod, onde a Mishná avulsa escreve com um só. O sentido é o mesmo. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro.

Referências conferidas. A seção 01 está também no Yerushalmi Shabbat 1:1, onde Rav Yossef diz que todos os exemplos de karmelit já estão ensinados na Mishná, e cita, para o mar, esta Mishná, “quem lança no mar quatro côvados é isento”, seguida das mesmas palavras: “não somente quatro côvados no mar, mas mesmo quem lança por todo o mar é isento, pois todo o mar é chamado karmelit”; lá o texto diz “zorek”, “lança”, onde aqui diz “zarak”, “lançou”. No Bavli, em Shabbat 100a, uma baraita ensina que quem lança do mar para a estrada, ou da estrada para o mar, é isento, e que Rabi Shimon diz: se no lugar onde lançou há uma profundidade de dez palmos e uma largura de quatro, é culpado. A Tosefta Shabbat 10:13, na numeração de Lieberman, ensina o mesmo: quem lança da estrada para o mar é isento, e Rabi Shimon diz que, se no lugar onde lançou há uma profundidade de dez palmos, é culpado. Em Shabbat 100b, um dos sábios diz a Rava que se entende que a Mishná diga “passa” duas vezes, porque ensina que a passagem em aperto se chama passagem, mas pergunta por que diz “rekak” duas vezes. Rava responde que um é nos dias de verão e o outro nos dias de chuva; Abaye responde que, sem a repetição, se pensaria que vale só para o rekak que não tem quatro côvados, porque o mais largo as pessoas o contornam; e Rav Ashi responde que se pensaria que vale só para o que tem quatro palmos, porque o mais estreito as pessoas o atravessam com um passo. O Bavli dá, portanto, outras respostas, mas a ideia de que a passagem em aperto conta como passagem é a mesma da resposta de Rabi Chananyá na seção 02.

Observações de leitura. O mar é karmelit, isto é, nem domínio público nem domínio privado, de modo que quem lança dentro dele não é culpado, por mais longe que lance; a explicação de que ninguém anda pelo mar, e por isso ele não é domínio público, é a de Guggenheimer, no Yerushalmi Shabbat 1:1. A Mishná ensina a seguir que o rekak, a água rasa de menos de dez palmos de profundidade, quando o domínio público passa por ele, é domínio público, e quem lança dentro dele a quatro côvados é culpado. A pergunta da seção 02, “e por que o ensinamos duas vezes?”, refere-se às duas frases da Mishná sobre o rekak pelo qual passa o domínio público; o objeto do verbo não é nomeado no texto. Rabi Chananyá, em nome de Rabi Pinchas, responde que a Mishná fala de dois rekakim diferentes: um por onde o público passa normalmente, e outro por onde o público só passa quando está em aperto; e a segunda frase vem ensinar que também este é domínio público. “Em aperto” traduz “nidchakin”, “quando são apertados”; Guggenheimer entende “only in case of emergency”, isto é, quando as pessoas não têm outro caminho. O texto diz que, sem a segunda frase, se pensaria que o rekak usado só em aperto “não é domínio público, mas domínio privado”; Guggenheimer anota que evidentemente deveria dizer “karmelit”, e não “domínio privado”, porque um rekak aberto não pode ser domínio privado. Traduzimos o hebraico como está. “Na Mishná”, “Ensinou-o outra vez” e “esse rekak” são a nossa leitura para completar a frase.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer chama esta Mishná de “Mishná 5”, na sua numeração; na Mishná avulsa do Sefaria, ela é a Shabbat 11:4. Ele traduz “bayam” por “in the ocean”, e “rekak mayim” por “a shallow spot in the water” e, na última frase, por “shallow water”, entendendo que esta última frase fala de águas rasas fora do mar; traduzimos as duas do mesmo modo, como “um rekak de água”, porque o hebraico é o mesmo. Traduz “rashut harabim mehalechet bo” por “a public thoroughfare passed through it”; traduzimos “o domínio público passa por ele”. Ele escreve “Rebbi Ḥananiah” e “Rebbi Phineas”; mantivemos “Rabi Chananyá” e “Rabi Pinchas”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. A glosa de rekak, “água rasa”, é a mesma usada no Bavli Eruvin 43a deste site, e a de karmelit, “domínio intermediário”, a mesma das halachot anteriores deste tratado.