Terceira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek. A Mishná ensina que quem lança um objeto a quatro côvados contra a parede, se ele bate acima de dez palmos, é como quem lança no ar, e, se bate abaixo de dez palmos, é como quem lança no chão; e que quem lançou para dentro de quatro côvados, e o objeto rolou para fora deles, é isento, mas quem lançou para fora de quatro côvados, e o objeto rolou para dentro deles, é culpado. A guemará explica que a Mishná fala de uma parede sem buraco, porque, se há um buraco, entra a divergência de Rabi Meir e dos sábios; pergunta como um objeto pode ficar parado numa parede, e responde com Rav Chisda, que fala de uma parede inclinada, e com Rabi Yochanan, que fala de uma develá gorda que fica grudada; compara a parede à encosta do socalco das leis de kilayim; e termina com Rabi Yochanan, que explica o objeto que rola com um lugar em declive e exige que o objeto tenha pousado. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 100a.
Mishná: Quem lança um objeto a quatro côvados contra a parede: se bate acima de dez palmos, é como quem lança no ar; se bate abaixo de dez palmos, é como quem lança no chão; e quem lança no chão a quatro côvados é culpado. Se lançou para dentro de quatro côvados, e o objeto rolou para fora de quatro côvados, é isento; se lançou para fora de quatro côvados, e rolou para dentro de quatro côvados, é culpado.
Nossa Mishná trata do caso em que não há ali um buraco na parede; mas, se há ali um buraco, é a divergência de Rabi Meir e dos sábios. Segundo a opinião de Rabi Meir, quer haja nele quatro por quatro palmos, quer não haja nele quatro por quatro palmos, tu vês a parede como gamum (escavada). Segundo a opinião dos rabinos, se há nele quatro por quatro, tu vês a parede como escavada; e, se não há, não vês a parede como escavada, mas como fechada.
Rav Chisda disse: trata-se de uma parede que se estende em lochsan (diagonal). E não acabará por descer? Rabi Chiya em nome de Rabi Yochanan: explica-o no caso em que era uma develá (bolo prensado de figos secos) gorda, e ela ficou grudada na parede.
Rabi Chagai perguntou diante de Rabi Yossi: isto não diz que a encosta de uma madregá (socalco) é como o que está embaixo? Disse-lhe: lá, as sementeiras se beneficiam do socalco; mas aqui é costume das pessoas roçarem nela ao passar, e ela cai. Se ele tivesse dito: trata-se do caso em que havia ali um buraco, e ela se beneficia do buraco, assim como as sementeiras se beneficiam do socalco, então estaria certo.
Rabi Yossi, Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: trata-se do caso em que o lugar era monderan (em declive), como aquilo que ensinamos: “Se lançou para fora de quatro côvados, e o objeto rolou para fora de quatro côvados, é culpado.” Veio Rabi Chizkiyá e disse: Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: isto vale desde que tenha pousado.
Esta é a terceira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:3 da Mishná avulsa, que vai de “hazorek arbá amot bakotel”, “quem lança quatro côvados contra a parede”, até “se lançou para fora de quatro côvados e rolou para dentro de quatro côvados, é culpado”. A Mishná seguinte, Shabbat 11:4, “quem lança no mar quatro côvados é isento”, é a da halachá 11:4. No Bavli, esta Mishná é dividida em duas, ambas em Shabbat 100a: a primeira trata da parede, e a segunda, que começa em “lançou para dentro de quatro côvados”, do objeto que rola. Há pequenas diferenças de redação entre o Yerushalmi e a Mishná avulsa. O hebraico do Sefaria escreve aqui “arbatz”, com tsadi, onde a Mishná avulsa e o Bavli escrevem “arbá”, “quatro”, com ayin; é evidentemente um erro de cópia, e o conservamos tal como está no hebraico, traduzindo “quatro”. O Yerushalmi escreve “bakotel”, com vav, onde a Mishná avulsa escreve “bakotel” sem vav; escreve “vehazorek baaretz”, “e quem lança no chão”, com a conjunção, onde ela escreve “hazorek baaretz”; e escreve “chayav” com dois yod, onde ela escreve com um só. O sentido é o mesmo. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os dois seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 02 é o terceiro. O segmento da seção 01 foi dividido em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção. O Sefaria marca, na seção 01, na palavra “kegamum”, o início da folha 66b da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Na seção 02, a citação da Mishná diz “lançou para fora de quatro côvados e rolou para fora de quatro côvados, é culpado”, ao passo que a Mishná diz “e rolou para dentro de quatro côvados”; Guggenheimer considera a citação evidentemente errada. Traduzimos o hebraico como está.
Referências conferidas. No Bavli, em Shabbat 100a, a guemará pergunta, sobre a primeira Mishná: “mas ele não pousou!”, e Rabi Yochanan responde: “é sobre uma develá gorda que aprendemos”, a mesma resposta que a seção 01 traz em nome de Rabi Yochanan. Na mesma folha, Rav Yehuda, em nome de Rav, em nome de Rabi Chiya, diz que, se alguém lançou acima de dez palmos, e o objeto pousou num buraco de qualquer tamanho, chegamos à divergência de Rabi Meir e dos rabinos: para Rabi Meir, que diz que se escava para completar, é culpado; para os rabinos, que dizem que não se escava para completar, não é culpado; e uma baraita ensina o mesmo. É a divergência a que se refere a seção 01. Ainda em Shabbat 100a, Rav Yehuda, em nome de Rav, fala do monte que sobe até dez palmos dentro de quatro côvados: quem lançou e o objeto pousou sobre ele é culpado. Sobre a segunda Mishná, a do objeto que rola, a guemará pergunta outra vez: “mas ele não pousou!”, e Rabi Yochanan responde: “isto vale desde que tenha pousado sobre alguma coisa”, que corresponde à palavra de Rabi Chizkiyá na seção 02; em Shabbat 100b, a discussão continua, e Mareimar responde a Ravina que o que rola não tem como fim pousar. Em Shabbat 7b, a guemará traz outra vez a resposta de Rabi Yochanan sobre a develá gorda, e a guemará, segundo a posição de Abaye, responde às vezes que a Mishná fala de uma parede que não tem buraco, porque, se tivesse, o objeto teria pousado no buraco; é o que diz a primeira frase da seção 01. Em Shabbat 5b, Rava responde, sobre um livro que rolou do telhado, que se trata de uma parede inclinada; Guggenheimer aproxima essa resposta da de Rav Chisda. Na Tosefta Shabbat 10:9, na numeração de Lieberman, ensina-se: “quem lança contra a parede acima de dez palmos, e o objeto foi pousar num buraco de quatro por quatro palmos, é culpado”, que é a opinião dos rabinos na seção 01. Toda a passagem de Rav Chisda até “estaria certo” está também no Yerushalmi Kilayim 6:2, introduzida pela citação desta Mishná, com pequenas diferenças de grafia e de vocalização, como na palavra “lochsan” e no nome de Rabi Chiya, escrito lá com alef final, e não com he. Lá ela vem depois da discussão sobre a Mishná Kilayim 6:2, em que Rabi Eliezer diz que, se alguém planta uma fileira de videiras no chão e outra num socalco, e o socalco é alto de dez palmos, uma não se soma à outra; o Yerushalmi Kilayim pergunta se a encosta do socalco conta como o que está embaixo ou como o que está em cima, e é a essa discussão que se refere a pergunta de Rabi Chagai.
Observações de leitura. Na seção 01, a Mishná diz que o objeto que bate na parede acima de dez palmos é como o que foi lançado no ar, isto é, não pousou num domínio; a guemará explica que isso vale para uma parede sem buraco. Se há um buraco acima de dez palmos, Rabi Meir considera a parede como escavada, de modo a completar o buraco até quatro por quatro palmos, e então o buraco é um domínio privado e quem lança é culpado; os rabinos só o consideram assim se o buraco já tem quatro por quatro. “Escavada” traduz “gamum”, e “fechada” traduz “satum”; a explicação de que se escava para completar é a do Bavli. A pergunta seguinte é como um objeto pode ficar parado numa parede abaixo de dez palmos. A resposta de Rav Chisda é difícil: “bemoded lochsan” foi traduzido por nós, com Guggenheimer, como “uma parede que se estende em diagonal”; ele entende “moded” como “estender-se”, e não como “medir”, e rejeita a correção dos comentadores clássicos para “bemored”, “num declive”; o sentido é que a parede é inclinada, e o objeto pode parar nela. A objeção “e não acabará por descer?” leva à resposta de Rabi Yochanan, de que se trata de uma develá gorda, que gruda na parede. Rabi Chagai pergunta se daqui não se aprende que a encosta de um socalco conta como o chão de baixo, já que o objeto grudado na parede abaixo de dez palmos é como o que pousou no chão; Rabi Yossi responde que lá, nas leis de kilayim, as plantas se beneficiam do socalco, mas aqui as pessoas roçam na develá ao passar e ela cai, de modo que não se pode comparar; a comparação só caberia se a Mishná falasse de um buraco, de que a develá se beneficia como as plantas do socalco. “Ao passar” e “então estaria certo” são a nossa leitura; o sujeito de “se ele tivesse dito” não é nomeado no texto. Na seção 02, Rabi Yochanan, por meio de Rabi Abahu, explica o caso do objeto que rola por um lugar em declive; “monderan” foi traduzido, com Guggenheimer, por “em declive”. A versão de Rabi Chizkiyá acrescenta que o lançador só é culpado se o objeto pousou, como no Bavli. Na seção 01, a primeira frase fala de “Rabi Meir e os sábios”, “chachamim”, e a seguinte, de “rabanan”, “os rabinos”; são os mesmos, e mantivemos a diferença das palavras.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer chama esta Mishná de “Mishná 4”, na sua numeração; na Mishná avulsa do Sefaria, ela é a Shabbat 11:3. Ele traduz “kegamum” por “carved out”, “bemoded lochsan” por “if it extends slanting”, e “develá shemená” por “soft fig cake”; traduzimos “gorda”, que é o sentido literal de “shemená”. Traduz “shipua madregá kilmatan” por “the declivity of a terrace belongs to the level below”, e “monderan” por “inclined”. Ele escreve “Rebbi Meïr”, “Rav Ḥisda”, “Rebbi Ḥiyya”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Ḥaggai”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Abbahu” e “Rebbi Ḥizqiah”; mantivemos “Rabi Meir”, “Rav Chisda”, “Rabi Chiya”, “Rabi Yochanan”, “Rabi Chagai”, “Rabi Yossi”, “Rabi Abahu” e “Rabi Chizkiyá”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site.