Segunda halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek. A Mishná explica, com “como assim?”, o caso da halachá anterior: quem passa com a mão ou lança um objeto entre duas varandas, uma em frente à outra, sobre o domínio público, é isento; se estão no mesmo andar, quem passa com a mão é culpado, e quem lança é isento, porque assim era o serviço dos levitas, que passavam as tábuas do Mishkan de uma carroça para outra; e quem tira algo da borda do poço ou da rocha, altas de dez palmos e largas de quatro, ou põe algo sobre elas, é culpado. A guemará traz Rav, para quem o “isento” da Mishná quer dizer “permitido”, e a opinião contrária de Shmuel; discute se o domínio público precisa rodear o domínio privado por todos os lados; explica por que aqui dois que fazem juntos são culpados; ensina, com Rabi Yochanan, que a parte sólida e o vão se somam para os quatro palmos; pergunta de que caso fala o “menos do que isso”; e termina com os três casos da Mishná de Eduyot em que Rabi Yochanan lê “permitido” onde se diz “isento”. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 99a.
Mishná: Como assim? Se há duas guezuztraot (varandas), uma em frente à outra, sobre o domínio público, quem passa um objeto com a mão ou quem o lança de uma para a outra é isento. Se ambas estavam num mesmo diyotei (o andar da casa), quem passa com a mão é culpado, e quem lança é isento, pois assim era o serviço dos levitas. Duas carroças, uma atrás da outra, no domínio público: passam-se as tábuas de uma para a outra, mas não se lançam. Quanto à chulyat habor (a borda em volta do poço) e à rocha que são altas de dez palmos e largas de quatro, quem tira algo delas ou põe algo sobre elas é culpado; se são menos do que isso, é isento.
Rav disse: não há aqui “isento”, mas “permitido”. Segundo a opinião de Rav, acima de dez palmos é permitido; segundo a opinião de Shmuel, acima de dez palmos é proibido. Rabi Ila em nome de Rabi Shimon ben Lakish: isto vale desde que o domínio público o rodeie, ao domínio privado, por todos os lados. Rabi Yaakov bar Achá em nome de Rabi Yochanan: mesmo que o rodeie por um só lado. Aprende-se destas carroças; e as carroças não estão acima de dez palmos?
Rabi Achá em nome de Rabi Maisha: é culpado somente por meio de dois, um que passa e outro que recebe. Em todo lugar em que se fala do Shabat dizes: dois que fizeram juntos uma melachá são isentos; e aqui dizes: dois que fizeram são culpados? É diferente, pois assim era o serviço dos levitas no Ohel Moed (a Tenda do Encontro). Qual era o serviço dos levitas no Ohel Moed? “Duas carroças, uma atrás da outra, no domínio público: passam-se as tábuas de uma para a outra, mas não se lançam.” Ensinou Bar Kapara: não as lançavam para não tratar as tábuas com desprezo.
Disse Rabi Yochanan: o omed (a parte sólida) e o chalal (o vão) se somam para completar quatro palmos, desde que a parte sólida seja maior do que o vão. Rabi Zeira perguntou: é preciso que a parte sólida daqui e a parte sólida dali sejam, cada uma, maiores do que o vão? Disse Rabi Yossi: é evidente para Rabi Zeira que a parte sólida de um só lado não se soma; é evidente para ele que não basta que a parte sólida de um só lado seja maior. A pergunta não é necessária senão quanto a se também a segunda parte sólida deve ser maior.
“A chulyat habor e a rocha que são altas de dez e largas de quatro.” De que caso tratamos? Se são altas de dez e a sua largura é de quatro, é um domínio por si mesmo, um domínio privado. Se são altas de dez e não são largas de quatro, isto é o que disse Rav Chisda em nome de Issi: um caniço fincado no domínio público, alto de dez palmos, é permitido usá-lo para cá e permitido para lá, contanto que não troque objetos de um domínio para o outro através dele. Mas assim tratamos delas: quando não são nem largas de quatro nem altas de dez.
Não disse assim Chiya, filho de Rav: tudo o que impede o pisar no domínio público é chamado karmelit (domínio intermediário)? Disse Rabi Yudan: o que disse Chiya, filho de Rav, vale no meio do domínio público; mas, ao lado, o domínio público a anula, essa condição de karmelit.
Disse Rabi Yochanan: não há aqui “isento”, mas “permitido”. Lá ensinamos na Mishná: “Quem fura uma mursa (abscesso) no Shabat, se é para lhe fazer uma abertura, é culpado; se é para tirar dela o líquido, é isento.” Disse Rabi Yochanan também ali: não há aqui “isento”, mas “permitido”.
Lá ensinamos: “Quem caça uma serpente no Shabat, se o faz ocupando-se dela para que não o morda, é isento; se é para remédio, é culpado.” Disse Rabi Yochanan: não há aqui “isento”, mas “permitido”. Lá ensinamos: “E sobre os lefasim ironiyot (pratos de barro rústicos), que são puros na tenda do morto e impuros pelo carregar do zav (o homem com fluxo).” Disse Rabi Zeira: e isso está certo. Se é por uma necessidade, isto é o que ensinamos: “se é para remédio, é culpado”. Eis que não há aqui “isento”, mas “permitido”.
Esta é a segunda halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:2 da Mishná avulsa, que vai de “keitzad”, “como assim?”, até “se são menos do que isso, é isento”, incluindo a borda do poço e a rocha. A Mishná seguinte, Shabbat 11:3, “quem lança quatro côvados contra a parede”, é a da halachá 11:3. Como já dizia a nota da halachá 11:1, na Mishná avulsa o “keitzad” abre esta Mishná, ao passo que no Bavli ele continua a Mishná anterior. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “shnei guezuztraot” e “shneihen”, no masculino, onde a Mishná avulsa escreve “shtei” e “shteihen”; escreve “bidyaiti” onde ela escreve “bidyota”, e por isso usamos o termo “diyotei”, já usado neste tratado; escreve “et hakerashin”, com a partícula “et”, onde ela escreve “hakerashim”; e “urechavin arbaá”, “e largas de quatro”, onde ela escreve “verochban arbaá”, “e a sua largura é de quatro”. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os quatro seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 04 é o quinto. Os segmentos das seções 01, 03 e 04 foram divididos em dois pares de hebraico e português dentro da mesma seção. O Sefaria marca, no fim da seção 02, o início da folha 66a da edição de Vilna; tiramos esse marcador, que não faz parte do texto. Há três sinais editoriais no hebraico, que conservamos. Na seção 02, a palavra “laasará”, “para dez”, está entre parênteses: segundo Guggenheimer, o copista a escreveu e a riscou aqui e no paralelo de Eruvin, e de fato ela falta no Yerushalmi Eruvin 8:3; não a traduzimos, porque a frase trata dos quatro palmos de largura. Na seção 03, a frase entre parênteses, “e a sua largura é de quatro, é um domínio por si mesmo; altas de dez”, foi acrescentada pelo corretor do manuscrito, segundo Guggenheimer, que a considera copiada do capítulo 1; traduzimo-la, porque o argumento a supõe. Na seção 04, a palavra “ironiyot” aparece duas vezes, primeiro com a letra ayin e depois, entre colchetes, com alef, como na Mishná avulsa; traduzimos uma só vez.
Referências conferidas. No Bavli, esta Mishná está em Shabbat 96a, onde o “keitzad” continua, na mesma Mishná, a divergência de Rabi Akiva e dos sábios; a parte da borda do poço e da rocha é lá uma Mishná à parte, em Shabbat 99a. A guemará sobre as duas varandas está em Shabbat 99a: Rav, em nome de Rabi Chiya, diz que, nas carroças, o que está debaixo delas, entre elas e ao lado delas é domínio público; Abaye diz que entre uma carroça e outra havia o comprimento de uma carroça, cinco côvados, e Rava, que ao lado da carroça havia a largura de uma carroça, dois côvados e meio. Isso ajuda a entender a condição de Rabi Shimon ben Lakish na seção 01, de que o domínio público rodeie o domínio privado por todos os lados. Na mesma folha, o Bavli pergunta por que a Mishná diz “a borda do poço e a rocha”, e não “o poço e a rocha”, e responde que isso apoia Rabi Yochanan, para quem o poço e a sua borda se somam para os dez palmos. Em Shabbat 99b, Rav Meyasha traz uma pergunta de Rabi Yochanan sobre uma parede no domínio público, alta de dez palmos e não larga de quatro, rodeada de karmelit. A Mishná seguinte, a de quem lança quatro côvados contra a parede, está no Bavli em Shabbat 100a. Em Shabbat 3a, Shmuel diz: “todos os isentos do Shabat são isentos, mas proibidos, exceto estes três, que são isentos e permitidos: caçar um cervo, caçar uma serpente e furar um abscesso”; é o ensino que a seção 04 traz em nome de Rabi Yochanan, mas com o cervo no lugar dos pratos de barro. Na mesma folha, o Bavli traz o ensino de que, se um só fez a melachá, é culpado, e, se dois a fizeram, são isentos; é a regra a que se refere a seção 01 com “em todo lugar dizes”. Os três casos citados na seção 04 são da Mishná Eduyot 2:5: três coisas foram ditas diante de Rabi Yishmael, e ele não disse sobre elas nem proibição nem permissão, e Rabi Yehoshua ben Matya as explicou: furar um abscesso no Shabat, caçar uma serpente no Shabat e os “lefasim ironiyot”; lá, Rabi Elazar ben Tzadok diz que estes últimos são puros mesmo pelo carregar do zav, porque o seu trabalho não foi terminado. A Mishná Eduyot escreve “lechá” onde o Yerushalmi escreve “haleichá”, “o líquido”. A passagem da seção 02 tem paralelo no Yerushalmi Eruvin 8:3, sem “para dez” e sem o “não”: “é evidente para ele que a parte sólida de um só lado é maior”. O critério de que a parte sólida seja maior do que o vão aparece também no Bavli Eruvin 16a: “se a parte de pé é maior do que a parte aberta, mesmo diante da parte aberta é permitido”. A palavra de Rav Chisda sobre o caniço fincado e a de Chiya, filho de Rav, sobre o que impede o pisar estão também no Yerushalmi Shabbat 1:1; lá, o hebraico escreve “Rav Chisda em nome de Assi”, e não “Issi”, e os rabinos de Cesareia acrescentam: “mesmo espinhos, mesmo vidro”. O versículo das carroças é Bamidbar 7:8: “e as quatro carroças e os oito bois deu aos filhos de Merari”. Não encontramos paralelo desta halachá na Tosefta Shabbat, nem na numeração de Lieberman nem na do Sefaria.
Observações de leitura. Na Mishná, “passar com a mão” traduz “moshit”, entregar estendendo a mão, e “lançar” traduz “zorek”. As varandas uma em frente à outra estão em lados opostos do domínio público; as do mesmo andar estão do mesmo lado, como as carroças, uma atrás da outra. Na seção 01, entendemos, com Guggenheimer, que Rav fala do primeiro caso da Mishná, o das varandas uma em frente à outra: para ele, o “isento” quer dizer “permitido”, e por isso passar ou lançar acima de dez palmos é permitido; para Shmuel, que na halachá 11:1 disse que acima de dez é proibido, é proibido. Rabi Shimon ben Lakish e Rabi Yochanan divergem sobre se o domínio privado precisa estar rodeado de domínio público por todos os lados; a frase seguinte, “aprende-se destas carroças”, remete às carroças dos levitas, que estavam acima de dez palmos e cercadas pelo domínio público; o texto é conciso e esta ligação é nossa. Rabi Achá, em nome de Rabi Maisha, diz que quem passa de uma varanda para outra só é culpado quando o faz com outro, um que passa e outro que recebe, como faziam os levitas; a guemará pergunta por que aqui dois são culpados, se em todo lugar dois que fazem juntos uma melachá são isentos, e responde que este caso é diferente, porque foi assim que se fez no Mishkan. O “não as lançavam” da explicação de Bar Kapara é a nossa leitura do “para não”. Na seção 02, Rabi Yochanan fala da superfície de quatro por quatro palmos que faz da borda ou da rocha um domínio privado: se ela é formada por duas partes sólidas com um vão entre elas, o vão se soma, desde que a parte sólida seja maior do que o vão. Rabi Zeira pergunta se cada uma das partes sólidas tem de ser maior do que o vão, e Rabi Yossi explica a pergunta. O hebraico daqui diz, com “não”, que é evidente para Rabi Zeira que a parte sólida de um só lado não é maior; o paralelo de Eruvin não tem o “não”. Traduzimos o hebraico daqui por “não basta que seja maior”, que é a nossa leitura, e a frase continua difícil. Na seção 03, a pergunta “de que caso tratamos?” se refere ao “menos do que isso, é isento” da Mishná: se é algo alto de dez e largo de quatro, é domínio privado; se é alto de dez e não largo de quatro, é como o caniço de Rav Chisda, de que é permitido usar dos dois lados, e não se diria “isento”; por isso a Mishná trata do que não é nem largo de quatro nem alto de dez. A objeção de Chiya, filho de Rav, é que algo assim, que impede o pisar, deveria ser karmelit; Rabi Yudan responde que isso vale no meio do domínio público, mas que, ao lado, o domínio público anula essa condição; “essa condição de karmelit” é a nossa leitura do pronome “a”. Na seção 04, a palavra de Rabi Yochanan parece referir-se ao fim da nossa Mishná, “menos do que isso, é isento”, e ele diz o mesmo sobre os casos da Mishná Eduyot 2:5. Rabi Zeira confirma pela serpente: a Mishná só declara culpado quem a caça por uma necessidade, para remédio, e portanto quem se ocupa dela para que não o morda faz algo permitido. Depois do terceiro caso, o dos pratos de barro, não vem nenhuma palavra de Rabi Yochanan, porque ali não se fala de “isento” e “culpado”, mas de puro e impuro. O hebraico escreve “Rabi Zeura”, que é Rabi Zeira, nas seções 02 e 04.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “guezuztraot” por “balconies”, do grego, e “diyotei” por “floor”. Ele entende que o “isento” de Rav se refere à primeira frase da Mishná e, seguindo Saul Lieberman, propõe ler a observação sobre as carroças dos levitas antes da palavra de Rabi Shimon ben Lakish; mantivemos a ordem do hebraico. Na seção 02, ele apaga o “não” de “não basta”, com o texto de Eruvin; seguimos o hebraico e registramos a variante acima. Ele chama o trecho da borda do poço e da rocha de “Mishná 3”, na sua numeração; na Mishná avulsa do Sefaria, ele faz parte da Shabbat 11:2. Na seção 03, ele propõe trocar “no meio” e “ao lado” na resposta de Rabi Yudan; seguimos o hebraico. Na seção 04, ele cita a Mishná como “Idiut 2:5”, isto é, Eduyot 2:5; traduz “lefasim ironiyot” por “rural dishes”; e observa que o Bavli, em Shabbat 3a, atribui a Shmuel o que aqui se atribui a Rabi Yochanan. Ele registra também que as citações medievais da frase de Bar Kapara leem “kodashim”, “coisas sagradas”, em vez de “kerashim”, “tábuas”; traduzimos “tábuas”, como no hebraico. Ele escreve “Rebbi Ila”, “Rebbi Simeon ben Laqish”, “Rebbi Jacob bar Aḥa”, “Rebbi Aḥa”, “Rebbi Maisha”, “Bar Qappara”, “Rebbi Zeˋira”, “Rebbi Yose”, “Rav Ḥisda”, “Ḥiyya, the son of Rav” e “Rebbi Yudan”; mantivemos “Rabi Ila”, “Rabi Shimon ben Lakish”, “Rabi Yaakov bar Achá”, “Rabi Achá”, “Rabi Maisha”, “Bar Kapara”, “Rabi Zeira”, “Rabi Yossi”, “Rav Chisda”, “Chiya, filho de Rav” e “Rabi Yudan”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site.