Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
חוּלְיַת הַבּוֹר וְהַסֶּלַע

A baraita das tábuas e bases termina com os colchetes como estrelas no firmamento; nova baraita sobre a sabedoria das cortinas de pelos de cabra; Rav, Abaye e Rava calculam o espaço das carroças do Tabernáculo; e nova Mishná define a borda do poço e a rocha como divisores plenos de domínio

Shabbat 99a completa a baraita interrompida ao final de 98b sobre tábuas e bases, com a imagem dos colchetes como estrelas no firmamento; traz nova baraita sobre a sabedoria das cortinas de pelos de cabra; retorna à Mishná das "duas sacadas" para calcular, com Rav, Abaye e Rava, o espaço das carroças do Tabernáculo; e fecha com nova Mishná — a borda do poço e a rocha — cuja Guemará é interrompida em pleno desenvolvimento, a seguir para 99b.

99a abre completando exatamente a frase interrompida ao final de 98b: depois de ensinar que as tábuas do Tabernáculo eram ranhuradas e as bases ocas, a baraita acrescenta que os colchetes nas argolas, no centro do Tabernáculo, eram vistos como estrelas no firmamento — uma imagem com que a Guemará fecha, por ora, o longo tratamento da construção do Tabernáculo. Em seguida, uma nova baraita ensina que as cortinas inferiores eram de azul-celeste, púrpura, escarlate e linho fino, e as superiores, de pelos de cabra; e observa que a sabedoria atribuída às tecelãs das cortinas superiores, de material inferior, era maior do que a atribuída às das inferiores — pois o versículo sobre estas diz apenas que "fiaram com as mãos", enquanto o versículo sobre aquelas diz que "o coração as impeliu com sabedoria". Em nome de Rabi Nechemya, acrescenta-se que os pelos eram lavados e fiados diretamente sobre os próprios bodes, exigindo ainda mais destreza. A folha então retoma a Mishná das "duas sacadas", citada resumidamente, para retornar ao tema das carroças que transportavam as tábuas do Tabernáculo: Rav, em nome de Rabi Chiya, ensina que o espaço debaixo, entre e ao lado das carroças era via pública; Abaye calcula que o espaço entre uma carroça e outra equivalia ao comprimento total de uma carroça — cinco côvados, mais do que o estritamente necessário, para que as tábuas não ficassem apertadas; e Rava calcula que os lados de cada carroça equivaliam à sua largura total — dois côvados e meio, também mais do que o necessário, para que as tábuas não vacilassem. A Guemará então enfrenta uma dificuldade: se a via pública padrão tem dezesseis côvados, mas o cálculo do Tabernáculo dá apenas quinze, falta um côvado — resolvido com a explicação de que havia um côvado extra onde um levita ficava de pé, pronto para segurar qualquer tábua que escorregasse. A folha fecha com uma nova Mishná, que abre um novo tema dentro do mesmo perek: a borda de um poço e uma rocha que têm dez palmos de altura e quatro de largura são consideradas domínio pleno, de modo que transportar objetos de ou para elas em relação ao domínio público implica responsabilidade; a Guemará pergunta por que a Mishná menciona a borda do poço em vez de apenas o poço, respondendo que isso apoia a opinião de Rabi Yochanan de que o poço e sua borda se somam para completar os dez palmos — confirmada por uma baraita sobre um poço no domínio público, que a folha interrompe em pleno desenvolvimento, a ser retomada em 99b.

A baraita se completa: os colchetes como estrelas no firmamento · כְּכוֹכָבִים בָּרָקִיעַ

287A frase interrompida em 98b se completa: os colchetes nas argolas eram vistos como estrelas no firmamento
A baraita (continuação de 98b)
וְנִרְאִין קְרָסִין בַּלּוּלָאוֹת כְּכוֹכָבִים בָּרָקִיעַ.

— ...e os colchetes nas argolas eram vistos como estrelas no firmamento.

Nota

99a abre completando exatamente a baraita que 98b interrompeu em pleno desenvolvimento: "ensinaram os Sábios a respeito da construção do Tabernáculo: as tábuas eram ranhuradas, e as bases eram ocas, e os colchetes nas argolas eram vistos como estrelas no firmamento." Segundo Rashi, esta última cláusula é um assunto à parte, não mais sobre o encaixe entre tábuas e bases, mas sobre a montagem das próprias cortinas: cada conjunto de cinco cortinas era costurado, uma à outra, ao longo de todo o seu comprimento, formando duas grandes peças; e essas duas peças eram então unidas entre si, no centro do Tabernáculo, por colchetes de ouro que se prendiam a argolas na borda externa de cada peça — argolas que se correspondiam exatamente, uma diante da outra. Vistos de dentro do Tabernáculo, esses colchetes dourados, alinhados no teto, pareciam estrelas cravadas no firmamento — imagem com que a Guemará fecha, por ora, este longo tratamento da construção do Tabernáculo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "venir'in kerasin balula'ot"
ונראין קרסין בלולאות - מילתא אחריתי היא שתי מחברות היו היריעות כל אחת ואחת ה' יריעות תפורות זו עם זו במחט על פני כל ארכן ובאמצע היה מחבר בקרסים מחברת עם מחברת שהיו לולאות בשפת חיצונה של כל מחברת באמצע המשכן אלו כנגד אלו כדכתיב מקבילות הלולאות וגו' (שמות כ״ו:כ׳):

"'E os colchetes nas argolas eram vistos'" — é um assunto à parte: as cortinas formavam duas peças unidas; cada peça tinha cinco cortinas, costuradas uma à outra, à agulha, ao longo de todo o seu comprimento; e no meio unia-se peça com peça por meio de colchetes, pois havia argolas na borda externa de cada peça, no centro do Tabernáculo, umas correspondendo às outras, como está escrito: "argolas correspondentes" etc. (Êxodo 26:20).

Nova baraita: a sabedoria das cortinas de pelos de cabra · גְּדוֹלָה חָכְמָה שֶׁנֶּאֶמְרָה בָּעֶלְיוֹנוֹת

288A sabedoria atribuída às tecelãs das cortinas superiores, de pelos de cabra, era maior do que a das inferiores; Rabi Nechemya acrescenta: fiadas diretamente sobre os bodes
Os Sábios (baraita); Rabi Nechemya
תָּנוּ רַבָּנַן: יְרִיעוֹת הַתַּחְתּוֹנוֹת שֶׁל תְּכֵלֶת וְשֶׁל אַרְגָּמָן וְשֶׁל תּוֹלַעַת שָׁנִי וְשֶׁל שֵׁשׁ, וְעֶלְיוֹנוֹת שֶׁל מַעֲשֵׂה עִזִּים. וּגְדוֹלָה חָכְמָה שֶׁנֶּאֶמְרָה בָּעֶלְיוֹנוֹת יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁנֶּאֶמְרָה בְּתַחְתּוֹנוֹת, דְּאִילּוּ בְּתַחְתּוֹנוֹת כְּתִיב: ״וְכׇל אִשָּׁה חַכְמַת לֵב בְּיָדֶיהָ טָווּ״, וְאִילּוּ בְּעֶלְיוֹנוֹת כְּתִיב: ״וְכׇל הַנָּשִׁים אֲשֶׁר נָשָׂא לִבָּן אֹתָנָה בְּחׇכְמָה טָווּ אֶת הָעִזִּים״. וְתַנְיָא מִשּׁוּם רַבִּי נְחֶמְיָה: שָׁטוּף בָּעִזִּים וְטָווּי מִן הָעִזִּים.

Ensinaram os Sábios: as cortinas inferiores do Tabernáculo eram de azul-celeste, e de púrpura, e de escarlate, e de linho fino; e as superiores, feitas de pelos de cabra. E maior era a sabedoria mencionada a respeito das superiores do que a mencionada a respeito das inferiores, pois, quanto às inferiores, está escrito: “e toda mulher sábia de coração fiou com suas mãos” (Êxodo 35:25); ao passo que, quanto às superiores, está escrito: “e todas as mulheres cujo coração as impeliu com sabedoria fiaram os pelos de cabra” (Êxodo 35:26). E foi ensinado em nome de Rabi Nechemya: o pelo era lavado sobre os próprios bodes, e fiado diretamente dos bodes.

Nota

Uma nova baraita traz os materiais das duas camadas de cortinas do Tabernáculo — já medidas em detalhe em 98b — e acrescenta uma observação sobre a sabedoria exigida em sua confecção. Embora as cortinas superiores fossem feitas do material aparentemente mais humilde, pelos de cabra, o versículo que descreve sua tecelagem emprega uma expressão mais enfática — "cujo coração as impeliu com sabedoria" — do que o versículo sobre as cortinas inferiores, de lã tingida e linho, que diz apenas "fiou com suas mãos". A diferença textual sugere que fiar pelos de cabra exigia uma destreza maior do que fiar as demais lãs. Em nome de Rabi Nechemya, a baraita acrescenta um detalhe técnico impressionante: o pelo não era tosquiado e depois fiado, mas lavado e fiado diretamente sobre o corpo dos próprios bodes — uma proeza de habilidade manual.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "nasa liban"
נשא לבן - יתירות חכמה משמע:

"'Cujo coração as impeliu'" — indica uma sabedoria a mais.

Retorno à Mishná: as carroças do Tabernáculo e a via pública · שְׁתֵּי גְזוּזְטְרָאוֹת

289Rav, em nome de Rabi Chiya: debaixo, entre e ao lado das carroças é via pública; Abaye calcula o espaço entre uma carroça e outra
Rav; Abaye
שְׁתֵּי גְזוּזְטְרָאוֹת כּוּ׳. אָמַר רַב מִשּׁוּם רַבִּי חִיָּיא: עֲגָלוֹת — תַּחְתֵּיהֶן וּבֵינֵיהֶן וְצִידֵּיהֶן רְשׁוּת הָרַבִּים. אָמַר אַבָּיֵי: בֵּין עֲגָלָה לַעֲגָלָה כִּמְלֹא אֹרֶךְ עֲגָלָה. וְכַמָּה אֹרֶךְ עֲגָלָה — חָמֵשׁ אַמּוֹת. לְמָה לִי? בְּאַרְבַּע וּפַלְגָא סַגִּי! כִּי הֵיכִי דְּלָא לִידַּחְקוּ קְרָשִׁים.

“Duas sacadas” etc. Aprendemos na Mishná a respeito de duas sacadas sobre a via pública. Disse Rav em nome de Rabi Chiya: quanto às carroças que transportavam as tábuas do Tabernáculo, debaixo delas, e entre elas, e a seus lados, é via pública. Disse Abaye: entre uma carroça e outra havia um espaço equivalente a o comprimento total de uma carroça. E quanto era o comprimento de uma carroça? Cinco côvados. A Guemará pergunta: por que preciso disso? Bastariam quatro (côvados) e meio! Responde-se: para que as tábuas não ficassem apertadas.

Nota

A Guemará retoma, resumidamente, a Mishná das "duas sacadas" — já tratada anteriormente neste perek, a respeito de estruturas que se projetam sobre a via pública — e volta ao tema, já familiar de 98a-98b, das carroças que transportavam as tábuas do Tabernáculo pelo deserto. Rav, em nome de Rabi Chiya, estabelece o princípio geral: apesar de as carroças serem cobertas pelas tábuas empilhadas sobre elas, o espaço debaixo, entre e ao lado das carroças continuava sendo via pública genuína. Abaye então calcula a distância necessária entre duas carroças: o comprimento de uma carroça inteira, cinco côvados — mais do que o estritamente necessário para acomodar as tábuas empilhadas (que caberiam em quatro côvados e meio), para garantir que as tábuas não ficassem pressionadas umas contra as outras durante o transporte.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bein agala la'agala", "lama li", "be'arba ufalga sagi" e "dela lidchaku"
בין עגלה לעגלה - שבצדה ה' אמות כמלא אורך העגלה: למה לי - אורך העגלה ה' אמות: בארבע ופלגא סגי - שאם מסדרן על רחבן אינו מסדר על ה' אמות יותר מג' והרי בארבע ומחצה יכול לסדרן ואי מסדרן בחודן יותר מד' לא יסדר מפני הפסקת מקום הבריחים שבאמצע הסדרים ובפלגא אמה נמי תסגי ליה: דלא לידחקו - אם בא לסדרן על רחבן:

"'Entre uma carroça e outra'" — a que ficava a seu lado, havia um espaço de cinco côvados, o comprimento total de uma carroça. "'Por que preciso disso'" — que o comprimento da carroça seja de cinco côvados. "'Bastariam quatro e meio'" — pois, se as arruma por sua largura, não se arruma em cinco côvados mais de três (fileiras) por vez, e já em quatro e meio se pode arrumá-las; e, se as arruma por seu lado estreito, não se arruma mais de quatro, por causa do espaço das travessas que ficam no meio das fileiras, e também aí meio côvado bastaria. "'Para que não fiquem apertadas'" — se vier a arrumá-las por sua largura.

290Rava calcula a largura dos lados da carroça
Rava
אָמַר רָבָא: צִידֵּי עֲגָלָה כִּמְלֹא רֹחַב עֲגָלָה. וְכַמָּה רֹחַב עֲגָלָה — שְׁתֵּי אַמּוֹת וּמֶחֱצָה. לְמָה לִי? בְּאַמְּתָא וּפַלְגָא סַגִּיא! כִּי הֵיכִי דְּלָא לִידַדּוּ קְרָשִׁים.

Disse Rava: os lados de cada carroça equivaliam à largura total da carroça. E quanto era a largura de uma carroça? Dois côvados e meio. A Guemará pergunta: por que preciso disso? Bastaria um côvado e meio! Responde-se: para que as tábuas não vacilassem.

Nota

Rava acrescenta o cálculo da outra dimensão: os lados da carroça — o vão entre a parede e a roda, somado à espessura de ambas — equivaliam à largura total da carroça, dois côvados e meio, embora um côvado e meio já bastasse para simplesmente deitar as tábuas de lado dentro desse espaço. A folga adicional era necessária para que as tábuas de dez côvados de comprimento, apoiadas transversalmente sobre as paredes da carroça, não vacilassem nem tombassem durante o movimento.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "tzidei agala", "kimlo rochav agala", "lama li", "be'amta ufalga sagi" e "dela lidadu krashim"
צדי עגלה - חלל שבין דפנות לאופנים ועובי הדופן ועובי האופן: כמלא רחב עגלה - שני הצדדים כמלא רחב חללה דהיינו אמה ורביע לכל צד: למה לי - רחבה תרתי ופלגא אם מפני שאם יצטרך להושיב מן הקרשים לתוכה יכניס: באמתא ופלגא סגי - וישכיבם בה על חודן: כי היכי דלא לידדו קרשים - שלא יהיו הקרשים המוטלים לאורכן על דופנותיה לרחבן מדדין ונוטין לכאן ולכאן שאם מושבות הקרשים קצר מתוך שהן ארוכות ויוצאות לחוץ הרבה יכבד אחד מן הראשין כשהן מדדין בהליכתן ויפלו:

"'Os lados da carroça'" — o vão entre as paredes e as rodas, mais a espessura da parede e a espessura da roda. "'Equivaliam à largura total da carroça'" — os dois lados juntos equivaliam à largura total de seu espaço interno, isto é, um côvado e um quarto para cada lado. "'Por que preciso disso'" — que sua largura seja de dois (côvados) e meio; é porque, se precisar colocar alguma das tábuas dentro dela, poderá encaixá-la. "'Bastaria um côvado e meio'" — e as deitaria ali de lado. "'Para que as tábuas não vacilassem'" — para que as tábuas, colocadas ao comprido sobre as paredes da carroça, transversalmente, não vacilassem nem se inclinassem para cá e para lá; pois, se o assento das tábuas fosse curto, sendo elas compridas e saindo muito para fora, uma das pontas pesaria quando vacilassem durante o movimento, e cairiam.

291A dificuldade dos dezesseis côvados da via pública, e a resposta: um côvado extra para o levita de guarda
A Guemará
אֶלָּא דְּקַיְימָא לַן דֶּרֶךְ רְשׁוּת הָרַבִּים שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה אַמָּה, אֲנַן דְּגָמְרִינַן לַהּ מִמִּשְׁכָּן — דְּמִשְׁכָּן חֲמֵיסְרֵי הֲוַאי! אַמְּתָא יַתִּירָא הֲוַאי דַּהֲוָה קָאֵי בֶּן לֵוִי, דְּכִי מִשְׁתַּלְּפִי קְרָשִׁים הֲוָה נָקֵיט לְהוּ.

Mas nós estabelecemos que o padrão de uma via pública é de dezesseis côvados de largura; nós, que o derivamos do Tabernáculo — o Tabernáculo tinha apenas quinze! Responde-se: havia um côvado a mais, onde ficava de pé um membro da tribo de Levi, para que, quando as tábuas escorregassem, ele as segurasse.

Nota

Somando os cálculos de Abaye e Rava, a Guemará chega ao total de quinze côvados para a largura do caminho formado por duas carroças lado a lado, com os espaços entre elas e a seus lados. Mas isso contradiz o princípio, derivado justamente do modelo do Tabernáculo, de que uma via pública padrão tem dezesseis côvados de largura. A Guemará resolve a dificuldade: havia, de fato, um côvado extra, onde ficava de pé um levita encarregado de vigiar o carregamento — pronto para segurar qualquer tábua que escorregasse de sua pilha e evitar que caísse. Esse côvado adicional, reservado ao posto do levita, completa os dezesseis côvados.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "chamisrei havai", "amta yatira havai", "dahava ka'ei ben Levi" e "havah nakeit lehu"
חמיסרי הויין - שתי העגלות ההולכות זו בצד זו רחב כל אחת ה' אמות הרי י' וה' אמות ריוח שבין עגלה לעגלה הרי ט"ו ואם תאמר יותר מעשרים הן שהרי הקרשים אורכן י' אמות והן מוטלות על גבי דופני עגלה לרחבה נמצא אורך הקרשים הרי כ' אמה לבד מה שצריך למשוך קרשי כל עגלה ועגלה לצד החיצון של עגלה שלא יגיעו ראשי הקרשים זו בזו ומעכבין את הילוך העגלות אין זה תשובה שהקרשים למעלה מעשרה הן שהעגלה גבוה י' ולגבי רה"ר לית לן למיחשב אלא מקום העגלות וריוח שביניהן שהוא למטה מי' דכל למעלה מי' לאו רה"ר היא הלכך לא חשיב ליה: אמתא יתירתא הואי - עוד צריך להיות ברחב הדרך עודף אמה שתתן חצי אמה לכאן וחצי אמה לכאן לשני צדדין החיצונות של ב' עגלות: דקאי בן לוי דאי משתלפי - זו מזו ליפול לתוך אויר שביניהם: הוה נקיט להו - נכנס לבין האויר אמה שביניהם ועומד בחצי אמה שיש בין העגלה לצדדין ומתקן את הסדר זו על זו שלא תפול העליונה וכל הדרך הוא מהלך אחורי העגלה וכשרואה אותן משתלפות אל תוך האויר רץ לתוך בליטת הקרשי' שבצדדין עד שמגיע לאמת האויר שביניהם ודוחק עצמו לעמוד בחצי אמה עד שיחזיר הנשלפת למקומה ועל סדרה:

"'Somam quinze'" — as duas carroças que iam lado a lado, cada uma com largura de cinco côvados, somam dez, e mais cinco côvados de vão entre uma carroça e outra somam quinze. E se disseres que as tábuas ficariam com mais de vinte (côvados), pois as tábuas têm dez côvados de comprimento e são colocadas sobre as paredes da carroça transversalmente, resultando um comprimento de vinte côvados de tábuas — sem contar o que é necessário para puxar as tábuas de cada carroça para o lado externo da carroça, para que as pontas das tábuas de uma não se toquem com as da outra e atrapalhem o andamento das carroças — isso não é resposta, pois as tábuas ficam acima de dez (côvados de altura), já que a carroça tinha dez (palmos) de altura, e, quanto à via pública, não há que contar senão o espaço das carroças e o vão entre elas, que fica abaixo de dez (palmos), pois tudo o que está acima de dez (palmos) não é via pública; portanto isso não se conta. "'Havia um côvado a mais'" — ainda era necessário que a largura do caminho tivesse um côvado excedente, dando meio côvado para cá e meio côvado para lá, para os dois lados externos das duas carroças. "'Onde ficava de pé um (membro) de Levi, para que, se escorregassem'" — (as tábuas) uma da outra, caindo no vão de ar entre elas. "'Ele as segurava'" — entrava no vão de ar, do côvado que havia entre elas, e ficava de pé no meio côvado que havia entre a carroça e os lados, e ajeitava a ordem, uma sobre a outra, para que a de cima não caísse; e todo o caminho ele o percorria atrás da carroça, e, ao ver as tábuas escorregando para o vão de ar, corria para dentro da saliência das tábuas dos lados, até chegar ao côvado de ar entre elas, e se comprimia para ficar de pé no meio côvado, até devolver a (tábua) escorregada a seu lugar e à sua ordem.

Nova Mishná: a borda do poço e a rocha · חוּלְיַת הַבּוֹר וְהַסֶּלַע

292Nova Mishná: a borda do poço e a rocha, de dez palmos de altura e quatro de largura, são domínio pleno
Mishná
מַתְנִי׳ חוּלְיַת הַבּוֹר וְהַסֶּלַע שֶׁהֵן גְּבוֹהִין עֲשָׂרָה וְרׇחְבָּן אַרְבָּעָה, הַנּוֹטֵל מֵהֶן וְהַנּוֹתֵן עַל גַּבָּן — חַיָּיב, פָּחוֹת מִכֵּן — פָּטוּר.

A borda de um poço e uma rocha que têm dez palmos de altura e quatro palmos de largura — quem retira delas e leva ao domínio público, e igualmente quem coloca sobre elas algo vindo do domínio público, é responsável por transferir de um domínio a outro; menos que isso de altura ou largura, está isento.

Nota — nova Mishná

A folha fecha o longo tratamento sobre o Tabernáculo e abre um novo tema, ainda dentro do mesmo perek (HaZorek): a Mishná estabelece que a borda de terra ao redor de um poço, e uma rocha isolada no meio da via pública, quando têm dez palmos de altura e quatro palmos de largura — as mesmas dimensões mínimas que definem um domínio privado —, são consideradas domínio pleno, distinto do domínio público ao redor. Por isso, quem retira um objeto de cima delas para o domínio público, ou coloca um objeto do domínio público sobre elas, transgride a proibição de transferir entre domínios e é responsável. Se a altura ou a largura for menor que essas medidas, a borda ou a rocha não têm status de domínio distinto, e são consideradas parte do próprio domínio público que as cerca.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mishna chuliat habor"
מתני' חולית הבור - קרקע חפירת הבור נותנין סביבותיו להקיף כמין חומה כמו שאנו נותנין היקף עצים או אבן סביב פי הבור:

Mishná: "'a borda do poço'" — a terra escavada do poço, coloca-se ao seu redor, cercando-o como uma espécie de muro, assim como colocamos uma cerca de madeira ou de pedra ao redor da boca do poço.

293A Guemará: por que mencionar a borda do poço, e não apenas o poço? Isso apoia Rabi Yochanan — confirmado por uma baraita, interrompida em pleno desenvolvimento
A Guemará; a baraita
גְּמָ׳ לְמָה לִי לְמִיתְנֵי ״חוּלְיַת הַבּוֹר וְהַסֶּלַע״? לִיתְנֵי ״הַבּוֹר וְהַסֶּלַע״! מְסַיַּיע לֵיהּ לְרַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: בּוֹר וְחוּלְיָתָהּ מִצְטָרְפִין לַעֲשָׂרָה. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: בּוֹר בִּרְשׁוּת הָרַבִּים עֲמוּקָּה עֲשָׂרָה וּרְחָבָה אַרְבָּעָה, אֵין מְמַלְּאִין הֵימֶנָּה בְּשַׁבָּת

Guemará: por que preciso que a Mishná ensine “a borda do poço e a rocha”? Que ensine apenas “o poço e a rocha”! Responde-se: isso apoia a opinião de Rabi Yochanan, pois disse Rabi Yochanan: o poço e sua borda se combinam para completar os dez palmos. Também foi ensinado assim numa baraita: um poço no domínio público, profundo de dez palmos e largo de quatro, não se tira água dele em Shabat...

Nota — a folha termina aqui, em pleno desenvolvimento da baraita

A Guemará pergunta por que a Mishná precisou mencionar a borda do poço separadamente, já que bastaria ensinar "o poço e a rocha" — deduzindo-se a altura do caso da rocha e a profundidade do caso do poço. A resposta: a menção explícita da borda apoia a opinião de Rabi Yochanan, segundo a qual a profundidade do poço e a altura de sua borda se somam para completar os dez palmos exigidos para constituir domínio privado — mesmo que parte da medida fique abaixo do solo e parte acima. Uma baraita independente confirma essa mesma regra, tratando de um poço no domínio público com dez palmos de profundidade e quatro de largura, do qual não se pode tirar água em Shabat. A frase é interrompida exatamente aqui — a folha termina em pleno desenvolvimento desta baraita, e sua continuação, explicando as exceções que permitem tirar ou beber água desse poço, prossegue em 99b.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "lama li lemitne chuliat habor vehasela" e "mitztarfin la'asara"
גמ' למה לי למתני חולית הבור והסלע - פשיטא לן דסלע נקט לענין גובהה ובור לענין עומק שנוטל מתוכו ומוציא לרשות הרבים דאי לענין גובהה כגון למוריד מחוליא למטה וכגון דרחבה ארבע למה לי למיתניא כלל הא תנא ליה סלע אלא ודאי למוציא מתוך אוגני בור נקט לה וכיון דהכי הוא חוליא למה לי ליתני הבור לעומק והסלע לגובה: מצטרפין לעשרה - לשויה הבור רה"י היחיד ואם הוציא מתוך אוגן חוליא חייב:

Guemará: "'por que preciso ensinar a borda do poço e a rocha'" — é evidente para nós que a Mishná menciona a rocha quanto à sua altura, e o poço quanto à sua profundidade, de onde se retira algo e se leva ao domínio público; pois, se fosse quanto à altura — por exemplo, para quem desce de dentro da borda para baixo, sendo ela larga de quatro palmos — por que precisaria ensiná-lo, se já ensinou a rocha? Mas, certamente, a Mishná a menciona para o caso de retirar de dentro do rebordo do poço; e, sendo assim, por que preciso da borda? Que ensine "o poço" para a profundidade e "a rocha" para a altura. "'Se combinam para completar os dez'" — para tornar o poço domínio privado; e, se alguém retirar algo de dentro do rebordo da borda, é responsável.