Primeira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, que abre o décimo primeiro capítulo, HaZorek. A Mishná ensina que quem lança um objeto no Shabat do domínio privado para o domínio público, ou do domínio público para o domínio privado, é culpado; e que, se o lança de um domínio privado para outro, com o domínio público no meio, Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam. A guemará explica que o lançar é um trabalho derivado do levar para fora; traz a opinião de Rabi, para quem o objeto que entra num domínio privado coberto é como se tivesse pousado, e a compara com a lei do guet lançado à mulher; discute se a divergência de Rabi Akiva e dos sábios vale só abaixo de dez palmos ou também acima, a partir das carroças dos levitas; pergunta o que acontece se quem lançou se lembrou do Shabat enquanto o objeto estava sobre o domínio público; trata de quem lança acima de dez palmos dentro do domínio público; e termina com Rabi Yudá, para quem lançar quatro côvados no domínio público é uma melachá por si mesma, aprendida dos que costuravam as cortinas do Mishkan. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 96b.
Mishná: Quem lança um objeto no Shabat do reshut hayachid (domínio privado) para o reshut harabim (domínio público), ou do domínio público para o domínio privado, é culpado. Se o lança do domínio privado para outro domínio privado, e o domínio público está no meio, Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam.
“Quem lança do domínio privado” etc. A zeriká (o lançar de um objeto) é toladá (trabalho derivado de uma das categorias principais) da hotzaá (o levar de um domínio para outro).
E não há diferença, quer segundo a opinião dele, de Rabi (Rabi Yehudá HaNassi), quer segundo a opinião dos rabanan (os sábios), e só é culpado quando o objeto pousou, vindo do domínio público, no domínio privado? Não é assim: segundo a opinião de Rabi, mesmo que não tenha pousado; segundo a opinião dos rabanan, só quando pousou. Pois disse Rabi Ba bar Chuna em nome de Rav: Rabi não declarou culpado senão por meio de um domínio privado mekurá (coberto por um teto).
A palavra de Rabi Yochanan diz: mesmo que o domínio não seja coberto. Pois disse Rabi Imi em nome de Rabi Yochanan: isto vale desde que o que foi lançado desça ao ar das paredes. Rabi Imi perguntou diante de Rabi Yochanan: a matnita (a Mishná) é de Rabi, pois Rabi faz o ar das paredes como a sua substância? Disse-lhe: são as palavras de todos; aqui se trata de guitin (documentos de divórcio).
E que lhe objetasse ainda: Rabi diz “coberto”, e tu, Rabi Yochanan, dizes “não coberto”? Pergunta-se: qual é a diferença entre guitin e Shabat? Disse Rabi Ila: no Shabat está escrito “não farás nenhum trabalho” (Shemot 20:10), e ele, o trabalho, se faz por si mesmo; mas aqui, no guet, a Torá disse “e o porá na mão dela” (Devarim 24:1): isto é, no domínio dela.
Shmuel disse: não ensinaram a divergência senão abaixo de dez palmos; portanto, acima de dez palmos, é proibido. A palavra de Rabi Elazar diz: mesmo acima de dez palmos é permitido. Pois disse Rabi Ila em nome de Rabi Elazar: das carroças dos levitas aprendeu Rabi Akiva; e as carroças não estão acima de dez palmos? Há tanaim (mestres da Mishná) que recitam “keitzad” (como assim?), e há quem não recite “keitzad”. Segundo a opinião de Rabi Elazar, há aqui “keitzad”; segundo a opinião de Shmuel, não há aqui “keitzad”.
Rabi Yitzchak beRabi Elazar perguntou: se lançou um objeto do domínio privado para o domínio público e se lembrou do Shabat enquanto o objeto ainda estava no domínio público, segundo a opinião de Rabi Akiva, que seja considerado como se tivesse pousado no domínio público, e que seja culpado de duas oferendas? Disse Rabi Chuna: Rabi Akiva não declarou culpado senão por meio do segundo domínio privado.
Rabi Abahu diz em nome de Rabi Elazar, em nome de Rabi Yochanan: se estava de pé no domínio público e lançou o objeto acima de dez palmos, considera-se como se ele caísse: se pousou dentro de quatro amot (côvados), é isento; e, se não, é culpado. Mas não ensinou Shmuel: “Se lançou do domínio público para o domínio público, e o domínio privado está no meio, considera-se como se ele caísse: se pousou dentro de quatro côvados, é isento; e, se não, é culpado”? Lá, no caso de Shmuel, dizes: o domínio público não se soma; e aqui, no caso de Rabi Yochanan, dizes: o domínio público se soma? Disse Rabi Chuna: lá, se ele caísse, o chão que está debaixo dele é domínio privado; mas aqui, se ele caísse, o chão que está debaixo dele é domínio público.
Ensina-se em nome de Rabi Yudá: se lançou um objeto por quatro côvados no domínio público, é culpado. Rabi Yudá faz dos quatro côvados no domínio público uma melachá (trabalho proibido) por si mesma. Segundo a opinião de Rabi Yudá, são quarenta melachot. E que as ensinemos assim? Responde-se: não viemos ensinar senão coisas sobre as quais todo o povo concorda. Rabi Zeira, Rabi Yoshiyá em nome de Rabi Yochanan: dos que costuravam as yeriot (as cortinas do Mishkan) aprendeu Rabi Yehudá, pois os que costuravam as cortinas lançavam as agulhas uns para os outros. E aquilo não é karmelit (domínio intermediário)? Disse Rabi Chinena: lançavam as agulhas pelo lado.
Esta é a primeira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:1 da Mishná avulsa, que vai de “quem lança do domínio privado para o domínio público” até “Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam”. A Mishná seguinte, Shabbat 11:2, que começa com “keitzad”, “como assim?”, e fala das duas varandas uma em frente à outra sobre o domínio público e das duas carroças dos levitas, é a da halachá 11:2. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “o mereshut harabim”, “ou do domínio público”, com a conjunção “ou”, que falta na Mishná avulsa e no Bavli; e escreve “Akivá” com a letra heh no fim, onde a Mishná avulsa escreve com alef. As demais diferenças são de grafia, como “chayav” e “mechayev” com dois yods. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os seis seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 06 é o sétimo. O terceiro segmento, que é longo, foi dividido em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção 02. O Sefaria marca, no meio da seção 02, o início da folha 65a da edição de Vilna; no meio da seção 04, a coluna 13a da edição de Veneza; e, no meio da seção 06, o início da folha 65b de Vilna; tiramos esses marcadores, que não fazem parte do texto.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 96a, logo depois do fim do capítulo HaMatznia, e a guemará começa em Shabbat 96b com as palavras “visto que o lançar é derivado do levar para fora”, como a seção 01; na mesma folha, Rabi Yoshiyá aprende a culpa de quem lança quatro côvados no domínio público dos que costuravam as cortinas e lançavam as agulhas uns para os outros, e o Bavli, depois de objetar que talvez estivessem sentados perto uns dos outros, conclui que todos os quatro côvados no domínio público são tradição recebida. Em Shabbat 97a, Rabá pergunta se a divergência de Rabi Akiva e dos sábios é abaixo de dez palmos ou acima; Rabi Elazar diz que Rabi Akiva declarava culpado mesmo acima de dez, como o Rabi Elazar da seção 03; mas lá ele aprende o carregar acima de dez palmos da carga dos filhos de Kehat, e não das carroças. Na mesma folha, uma baraita ensina: dentro de três palmos, nas palavras de todos é culpado; acima de dez, não é senão por causa de shevut; de três a dez, Rabi Akiva declara culpado, e os sábios isentam; isto ajuda a entender o “proibido” de Shmuel na seção 03. Também em 97a, e antes em Shabbat 4b e 5a, o Bavli traz a baraita “quem lança do domínio público para o domínio público, com o domínio privado no meio: Rabi declara culpado, e os sábios isentam”, e a palavra de Rav e Shmuel: “Rabi não declarou culpado senão num domínio privado coberto, pois dizemos que a casa é como se estivesse cheia”; é o mesmo ensino que a seção 02 traz em nome de Rav. Em Shabbat 97b, uma baraita diz que quem leva do domínio privado para o domínio público e o objeto passa quatro côvados no domínio público, Rabi Yehudá declara culpado, e os sábios isentam; Shmuel diz que Rabi Yehudá declarava culpado de duas, uma pelo levar para fora e outra pelo passar, e Rabá e Rav Yossef dizem que só de uma. A Tosefta Shabbat 11:12, na numeração do Sefaria, ensina que, quem lança do domínio privado para o domínio público e se lembrou depois que o objeto saiu da sua mão, se outro o apanhou, se um cão o apanhou ou se se queimou, Rabi declara culpado, e os sábios isentam; e que Rabi concorda com os sábios em que quem lança do domínio público para o domínio privado é isento até que o objeto pouse. Esse ensino parece estar por trás da pergunta que abre a seção 02. A Mishná Shabbat 11:6 da Mishná avulsa diz que quem lança e se lembrou depois que o objeto saiu da sua mão é isento, o que ajuda a entender a pergunta da seção 04. A Mishná Shabbat 7:2 conta “quarenta menos uma” categorias principais de trabalho, e é a ela que se refere a seção 06 quando diz que, para Rabi Yudá, seriam quarenta.
A parte da seção 02 que começa com a palavra de Rabi Yochanan tem paralelo no Yerushalmi Guitin 8:3, sobre a Mishná Guitin 8:3: “se ela estava de pé no alto do telhado e ele lhe lançou o guet, assim que chegou ao ar do telhado, ela está divorciada”. Lá, pouco antes, Rabi Yassa explica a diferença: no guitin, de cima, e no Shabat, de baixo; no guitin, mesmo que não tenha pousado; no Shabat, só quando pousar. Lá o hebraico diz “Rabi faz a parede como a sua substância”, e não “o ar das paredes”; a resposta sobre o Shabat é de “Rabi Aba”, e não de “Rabi Ila”; o versículo é citado “não farás trabalho”, sem “nenhum”; e falta “a Torá disse”. No Bavli Guitin 79a, Shmuel e Rabi Yochanan explicam a mesma Mishná no caso em que as paredes de baixo ultrapassam as de cima, e Rabi Zeira pergunta a Rabi Assi: “conforme quem? Conforme Rabi, que diz que o que é apanhado no ar é como o que foi pousado?”, que é a pergunta de Rabi Imi a Rabi Yochanan na seção 02. Os versículos são Shemot 20:10, “não farás nenhum trabalho”, que também está em Devarim 5:14; Devarim 24:1, “e lhe escreverá um documento de divórcio, e o porá na mão dela”; Bamidbar 7:8, as quatro carroças dadas aos filhos de Merari; e Shemot 26:1–6, as cortinas do Mishkan. Na seção 03, o Ramban, nas suas novelas a Shabbat 97a, cita esta passagem do Yerushalmi e escreve que não lê “é permitido” na palavra de Rabi Elazar, mas só “mesmo acima de dez”; o Rashba, sobre Shabbat 97a, cita também a passagem sem “é permitido” e explica o “proibido” de Shmuel como só proibido, sem a obrigação de uma chatat.
Observações de leitura. Na seção 01, a guemará responde à pergunta implícita de por que se dedica um capítulo ao lançar, que não está entre as trinta e nove categorias: ele é derivado do levar de um domínio para outro. Na seção 02, “a opinião dele” é, pela continuação, a de Rabi; o “de Rabi” está em itálico porque é a nossa leitura. Entendemos a passagem assim: a pergunta supõe que, como na Tosefta, todos exigem que o objeto pouse no domínio privado; a resposta é que, para Rabi, basta entrar no domínio privado, e para os sábios é preciso que pouse; e Rav limita a palavra de Rabi ao domínio privado coberto, cujo ar conta como chão. Rabi Yochanan, ao contrário, parece não exigir teto, porque basta que o que foi lançado desça para dentro do ar das paredes; mas Rabi Yochanan disse isso sobre o guet, e responde que, no guitin, todos concordam. A objeção “Rabi diz coberto, e tu dizes não coberto” e a resposta de Rabi Ila distinguem as duas leis: no Shabat a Torá proíbe fazer trabalho, e o trabalho, depois de lançado o objeto, “se faz por si mesmo”, o que entendemos como a razão para exigir mais do que a simples entrada no domínio; no guet, “na mão dela” quer dizer no domínio dela, e por isso basta que entre no ar das suas paredes. O texto é conciso e esta explicação é nossa. Na seção 03, Shmuel diz que a divergência é só abaixo de dez palmos, e que acima de dez é só proibido, sem culpa; da palavra de Rabi Elazar se deduz que, para Rabi Akiva, mesmo acima de dez há culpa, porque ele o aprendeu das carroças, cujo piso estava acima de dez palmos. O “é permitido” que o hebraico do Sefaria tem nessa frase é difícil, e o Ramban e o Rashba não o leem; traduzimos o hebraico como está. “Keitzad” é a primeira palavra da Mishná seguinte: para Rabi Elazar, ela explica a divergência desta Mishná, porque fala das carroças; para Shmuel, ela não a continua. Na seção 04, “se lembrou do Shabat” é a nossa leitura de “se lembrou”; a pergunta é se, para Rabi Akiva, o momento da lembrança conta como pouso no domínio público, e por isso haveria culpa de duas oferendas; Rabi Chuna responde que a culpa, para Rabi Akiva, só nasce quando o objeto chega ao segundo domínio privado. Na seção 05, “considera-se como se ele caísse” quer dizer que se olha o lugar onde o objeto cairia; “lá” é o caso de Shmuel, com o domínio privado no meio, e “aqui” é o caso de Rabi Yochanan, acima de dez palmos; a resposta de Rabi Chuna é que, no primeiro, o chão por baixo do trajeto é domínio privado e o trecho não se soma, e no segundo é domínio público e se soma. Na seção 06, “e que as ensinemos?” pergunta por que a Mishná não conta quarenta melachot, e a resposta é que ela só conta aquelas com que todos concordam. A objeção “e aquilo não é karmelit?” supõe que o espaço entre os que costuravam, no deserto, não seria domínio público; Rabi Chinena responde que lançavam pelo lado, o que entendemos como para fora, sobre o espaço por onde o povo passava. O hebraico escreve “Rabi Yudá” nas três primeiras vezes e “Rabi Yehudá” na quarta; seguimos o hebraico.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer lê a abertura da seção 02 como pergunta, como nós, e observa que a passagem a partir de Rabi Yochanan foi copiada de Guitin 8:3. Na seção 03, ele traduz “é permitido” conforme o manuscrito, e explica numa nota que o Ramban e o Rashba não leem a palavra; seguimos o hebraico, e registramos a variante acima. Ele cita a Mishná sobre quem se lembra depois que o objeto saiu da mão como “Mishná 7”, na sua numeração; na Mishná avulsa do Sefaria, é a Shabbat 11:6. Ele traduz “yeriot” por “gobelins” e entende o “pelo lado” como fora das tendas, no domínio público. Ele escreve “Rebbi Abba bar Ḥuna”, “Rebbi Immi”, “Rebbi Eleazar”, “Rebbi Isaac ben Rebbi Eleazar”, “Rebbi Ḥuna”, “Rebbi Joshia”, “Rebbi Ḥinena” e “Rebbi Jehudah”; mantivemos “Rabi Ba bar Chuna”, “Rabi Imi”, “Rabi Elazar”, “Rabi Yitzchak beRabi Elazar”, “Rabi Chuna”, “Rabi Yoshiyá”, “Rabi Chinena” e, conforme o hebraico, “Rabi Yudá” ou “Rabi Yehudá”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. Ele lê “Rabi Ba bar Chuna” como “Abba bar Ḥuna”; o hebraico escreve “Ba”.
Com esta halachá, abre-se o Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek (הַזּוֹרֵק).