Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud-Alef · Halachá 1 (abertura do capítulo)
שַׁבָּת

HaZorek: quem lança de um domínio para outro

Perek Yud-Alef, HaZorek, Halachá 1 (abertura do capítulo), no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Primeira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, que abre o décimo primeiro capítulo, HaZorek. A Mishná ensina que quem lança um objeto no Shabat do domínio privado para o domínio público, ou do domínio público para o domínio privado, é culpado; e que, se o lança de um domínio privado para outro, com o domínio público no meio, Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam. A guemará explica que o lançar é um trabalho derivado do levar para fora; traz a opinião de Rabi, para quem o objeto que entra num domínio privado coberto é como se tivesse pousado, e a compara com a lei do guet lançado à mulher; discute se a divergência de Rabi Akiva e dos sábios vale só abaixo de dez palmos ou também acima, a partir das carroças dos levitas; pergunta o que acontece se quem lançou se lembrou do Shabat enquanto o objeto estava sobre o domínio público; trata de quem lança acima de dez palmos dentro do domínio público; e termina com Rabi Yudá, para quem lançar quatro côvados no domínio público é uma melachá por si mesma, aprendida dos que costuravam as cortinas do Mishkan. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 96b.

Abre-se Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat · HaZorekהַזּוֹרֵק

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַזּוֹרֵק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים אוֹ מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הַיָּחִיד חַיָיב. מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד וּרְשׁוּת הָרַבִּים בָּאֶמְצַע רִבִּי עֲקִיבָה מְחַיֵיב וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין:

Mishná: Quem lança um objeto no Shabat do reshut hayachid (domínio privado) para o reshut harabim (domínio público), ou do domínio público para o domínio privado, é culpado. Se o lança do domínio privado para outro domínio privado, e o domínio público está no meio, Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam.

A Halachá · הֲלָכָה א

01O lançar é derivado do levar para fora
Yerushalmi · Shabbat 11:1
הַזּוֹרֵק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד כול׳. זְרִיקָה תוֹלְדַת הוֹצָאָה הִיא.

“Quem lança do domínio privado” etc. A zeriká (o lançar de um objeto) é toladá (trabalho derivado de uma das categorias principais) da hotzaá (o levar de um domínio para outro).

02Rabi, o domínio coberto e o ar das paredes
Yerushalmi · Shabbat 11:1
וְלֹא שַׁנְיָיא בֵין עַל דַּעְתֵּיהּ בֵּין עַל דַּעְתְּהוֹן דְּרַבָּנִן. וְהוּא שֶׁנָּחָה מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הַיָּחִיד. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי. אֲפִילוּ לֹא נָחָה. עַל דַּעְתְּהוֹן דְּרַבָּנִן. וְהוּא שֶׁנָּחָה. דְּאָמַר רִבִּי בָּא בַּר חוּנָה בְשֵׁם רַב. לֹא חִיֵיב רִבִּי אֶלָּא עַל יְדֵי רְשׁוּת הַיָּחִיד מְקוּרָה.

E não há diferença, quer segundo a opinião dele, de Rabi (Rabi Yehudá HaNassi), quer segundo a opinião dos rabanan (os sábios), e só é culpado quando o objeto pousou, vindo do domínio público, no domínio privado? Não é assim: segundo a opinião de Rabi, mesmo que não tenha pousado; segundo a opinião dos rabanan, só quando pousou. Pois disse Rabi Ba bar Chuna em nome de Rav: Rabi não declarou culpado senão por meio de um domínio privado mekurá (coberto por um teto).

מִילְּתֵיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן אָמְרָה. אֲפִילוּ אֵינָהּ מְקוּרָה. דָּאָמַר רִבִּי אִימִּי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. וְהוּא שֶׁתֵּרֵד לָאֲוֵיר מְחִיצוֹת. רִבִּי אִימִּי בְעָא קוֹמֵי רִבִּי יוֹחָנָן. מַתְנִיתָא דְרִבִּי. דְּרִבִּי עֲבַד אֲוֵיר מְחִיצוֹת כְּמַמָּשָׁן. אָמַר לֵיהּ. דִּבְרֵי הַכֹּל הִיא. הָכָא בְגִיטִּין.

A palavra de Rabi Yochanan diz: mesmo que o domínio não seja coberto. Pois disse Rabi Imi em nome de Rabi Yochanan: isto vale desde que o que foi lançado desça ao ar das paredes. Rabi Imi perguntou diante de Rabi Yochanan: a matnita (a Mishná) é de Rabi, pois Rabi faz o ar das paredes como a sua substância? Disse-lhe: são as palavras de todos; aqui se trata de guitin (documentos de divórcio).

וִיתִיבִינֵיהּ. רִבִּי אוֹמֵר. מְקוּרָה. וְאַתְּ אָמְרָת. אֵינוֹ מְקוּרָה. מַה בֵין גִּיטִּין מַה בֵין שַׁבָּת. אָמַר רִבִּי אִילָּא. בְּשַׁבָּת כָּתוּב לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה. וְנַעֲשִׂית הִיא מֵאֵילֶיהָ. בְּרַם הָכָא הַתּוֹרָה אָמְרָה וְנָתַן בְּיָדָהּ. בִּרְשׁוּתָהּ.

E que lhe objetasse ainda: Rabi diz “coberto”, e tu, Rabi Yochanan, dizes “não coberto”? Pergunta-se: qual é a diferença entre guitin e Shabat? Disse Rabi Ila: no Shabat está escrito “não farás nenhum trabalho” (Shemot 20:10), e ele, o trabalho, se faz por si mesmo; mas aqui, no guet, a Torá disse “e o porá na mão dela” (Devarim 24:1): isto é, no domínio dela.

03Abaixo e acima de dez palmos; as carroças e o “keitzad”
Yerushalmi · Shabbat 11:1
שְׁמוּאֵל אָמַר. לֹא שָׁנוּ אֶלָּא לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה. הָא לְמַעֲלָה מֵעֲשָׁרָה אָסוּר. מִילְּתֵיהּ דְּרִבִּי אֶלְעָזָר אָמְרָה. אֲפִילוּ לְמַעֲלָה מֵעֲשָׁרָה מוּתָּר. דְּאָמַר רִבִּי אִילָא בְשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר. מֵעֲגָלוֹת לָמַד רִבִּי עֲקִיבָה. וָעֲגָלוֹת לָאו לְמַעֲלָה מֵעֲשָׁרָה אִינִּין. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי. כֵּיצַד. אִית דְלָא תַנֵּי. כֵּיצַד. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי אֶלְעָזָר אִית כָּאן כֵּיצַד. עַל דַּעְתֵּיהּ דִּשְׁמוּאֵל לֵית כָּאן כֵּיצַד.

Shmuel disse: não ensinaram a divergência senão abaixo de dez palmos; portanto, acima de dez palmos, é proibido. A palavra de Rabi Elazar diz: mesmo acima de dez palmos é permitido. Pois disse Rabi Ila em nome de Rabi Elazar: das carroças dos levitas aprendeu Rabi Akiva; e as carroças não estão acima de dez palmos? Há tanaim (mestres da Mishná) que recitam “keitzad” (como assim?), e há quem não recite “keitzad”. Segundo a opinião de Rabi Elazar, há aqui “keitzad”; segundo a opinião de Shmuel, não há aqui “keitzad”.

04Lembrou-se enquanto o objeto estava sobre o domínio público
Yerushalmi · Shabbat 11:1
רִבִּי יִצְחָק בֵּירִבִּי אֶלְעָזָר שָׁאַל. זָרַק מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים וְנִזְכַּר עַד שֶׁהוּא בִּרְשׁוּת הָרַבִּים. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי עֲקִיבָה יֵעָשֶׂה כְמִי שֶׁנָּחָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וִיְהֵא חַיָיב שְׁתַּיִם. אָמַר רִבִּי חוּנָה. לֹא חִיֵיב רִבִּי עֲקִיבָה אֶלָּא עַל יְדֵי רְשׁוּת הַיָּחִיד הַשְּׁנִיָיה.

Rabi Yitzchak beRabi Elazar perguntou: se lançou um objeto do domínio privado para o domínio público e se lembrou do Shabat enquanto o objeto ainda estava no domínio público, segundo a opinião de Rabi Akiva, que seja considerado como se tivesse pousado no domínio público, e que seja culpado de duas oferendas? Disse Rabi Chuna: Rabi Akiva não declarou culpado senão por meio do segundo domínio privado.

05Lançar acima de dez palmos no domínio público
Yerushalmi · Shabbat 11:1
רִבִּי אַבָּהוּ אוֹמֵר בְּשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר בְּשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. הָיָה עוֹמֵד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְזָרַק לְמַעֲלָה מֵעֲשָׂרָה. רוֹאִין שֶׁאִם תִּפּוֹל אִם נָחָה בְתוֹךְ אַרְבַּע אַמּוֹת פָּטוּר. וְאִם לָאו חַיָיב. וְהָתַנֵּי שְׁמוּאֵל. מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הָרַבִּים וּרְשׁוּת הַיָּחִיד בָּאֶמְצַע רוֹאִין שֶׁאִם תִּפּוֹל נָחָה בְתוֹךְ אַרְבַּע אַמּוֹת פָּטוּר. וְאִם לָאו חַיָיב. תַּמָּן אַתְּ אָמַר. אֵין רְשׁוּת הָרַבִּים מִצְטָרֶפֶת. וְהָכָא אַתְּ אָמַר. רְשׁוּת הָרַבִּים מִצְטָרֶפֶת. אָמַר רִבִּי חוּנָה. תַּמָּן שֶׁאִם תִּפּוֹל קַרְקָע שֶׁתַּחְתֶּיהָ רְשׁוּת הַיָּחִיד. בְּרַם הָכָא שֶׁאִם תִּפּוֹל קַרְקָע שֶׁתַּחְתֶּיהָ רְשׁוּת הָרַבִּים.

Rabi Abahu diz em nome de Rabi Elazar, em nome de Rabi Yochanan: se estava de pé no domínio público e lançou o objeto acima de dez palmos, considera-se como se ele caísse: se pousou dentro de quatro amot (côvados), é isento; e, se não, é culpado. Mas não ensinou Shmuel: “Se lançou do domínio público para o domínio público, e o domínio privado está no meio, considera-se como se ele caísse: se pousou dentro de quatro côvados, é isento; e, se não, é culpado”? Lá, no caso de Shmuel, dizes: o domínio público não se soma; e aqui, no caso de Rabi Yochanan, dizes: o domínio público se soma? Disse Rabi Chuna: lá, se ele caísse, o chão que está debaixo dele é domínio privado; mas aqui, se ele caísse, o chão que está debaixo dele é domínio público.

06Os quatro côvados de Rabi Yudá e as agulhas das cortinas
Yerushalmi · Shabbat 11:1
תַּנֵּי בְשֵׁם רִבִּי יוּדָה. זָרַק אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים חַיָיב. רִבִּי יוּדָה עֲבַד אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מְלָאכָה בִפְנֵי עַצְמָהּ. עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יוּדָה אַרְבָּעִים מְלָאכוֹת אִינּוּן. וְנִיתְנִין. לָא אֲתִינָן מַתְנֵי אֶלָּא מִילִּין דְּכָל עַמָּא מוֹדוּיֵי בְהוֹן. רִבִּי זְעִירָא רִבִּי יֹאשִׁיָּה בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. מִתּוֹפְרֵי יְרִיעוֹת לָמַד רִבִּי יְהוּדָה. שֶׁהָיוּ תוֹפְרֵי הַיְּרִיעוֹת מְזָרְקִין אֶת הַמְּחָטִין אֵילּוּ לָאֵילּוּ. וְלָאו כַּרְמְלִית הִיא. אָמַר רִבִּי חִינְנָא. מִן הַצַּד הָיוּ מְזָרְקִין.

Ensina-se em nome de Rabi Yudá: se lançou um objeto por quatro côvados no domínio público, é culpado. Rabi Yudá faz dos quatro côvados no domínio público uma melachá (trabalho proibido) por si mesma. Segundo a opinião de Rabi Yudá, são quarenta melachot. E que as ensinemos assim? Responde-se: não viemos ensinar senão coisas sobre as quais todo o povo concorda. Rabi Zeira, Rabi Yoshiyá em nome de Rabi Yochanan: dos que costuravam as yeriot (as cortinas do Mishkan) aprendeu Rabi Yehudá, pois os que costuravam as cortinas lançavam as agulhas uns para os outros. E aquilo não é karmelit (domínio intermediário)? Disse Rabi Chinena: lançavam as agulhas pelo lado.

Nota

Esta é a primeira halachá do Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 11:1 da Mishná avulsa, que vai de “quem lança do domínio privado para o domínio público” até “Rabi Akiva o declara culpado, e os sábios o isentam”. A Mishná seguinte, Shabbat 11:2, que começa com “keitzad”, “como assim?”, e fala das duas varandas uma em frente à outra sobre o domínio público e das duas carroças dos levitas, é a da halachá 11:2. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “o mereshut harabim”, “ou do domínio público”, com a conjunção “ou”, que falta na Mishná avulsa e no Bavli; e escreve “Akivá” com a letra heh no fim, onde a Mishná avulsa escreve com alef. As demais diferenças são de grafia, como “chayav” e “mechayev” com dois yods. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. No hebraico do Sefaria, o primeiro segmento é a Mishná, e os seis seguintes são a guemará; cada seção numerada corresponde a um desses segmentos, de modo que a seção 01 é o segundo segmento e a seção 06 é o sétimo. O terceiro segmento, que é longo, foi dividido em três pares de hebraico e português dentro da mesma seção 02. O Sefaria marca, no meio da seção 02, o início da folha 65a da edição de Vilna; no meio da seção 04, a coluna 13a da edição de Veneza; e, no meio da seção 06, o início da folha 65b de Vilna; tiramos esses marcadores, que não fazem parte do texto.

Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 96a, logo depois do fim do capítulo HaMatznia, e a guemará começa em Shabbat 96b com as palavras “visto que o lançar é derivado do levar para fora”, como a seção 01; na mesma folha, Rabi Yoshiyá aprende a culpa de quem lança quatro côvados no domínio público dos que costuravam as cortinas e lançavam as agulhas uns para os outros, e o Bavli, depois de objetar que talvez estivessem sentados perto uns dos outros, conclui que todos os quatro côvados no domínio público são tradição recebida. Em Shabbat 97a, Rabá pergunta se a divergência de Rabi Akiva e dos sábios é abaixo de dez palmos ou acima; Rabi Elazar diz que Rabi Akiva declarava culpado mesmo acima de dez, como o Rabi Elazar da seção 03; mas lá ele aprende o carregar acima de dez palmos da carga dos filhos de Kehat, e não das carroças. Na mesma folha, uma baraita ensina: dentro de três palmos, nas palavras de todos é culpado; acima de dez, não é senão por causa de shevut; de três a dez, Rabi Akiva declara culpado, e os sábios isentam; isto ajuda a entender o “proibido” de Shmuel na seção 03. Também em 97a, e antes em Shabbat 4b e 5a, o Bavli traz a baraita “quem lança do domínio público para o domínio público, com o domínio privado no meio: Rabi declara culpado, e os sábios isentam”, e a palavra de Rav e Shmuel: “Rabi não declarou culpado senão num domínio privado coberto, pois dizemos que a casa é como se estivesse cheia”; é o mesmo ensino que a seção 02 traz em nome de Rav. Em Shabbat 97b, uma baraita diz que quem leva do domínio privado para o domínio público e o objeto passa quatro côvados no domínio público, Rabi Yehudá declara culpado, e os sábios isentam; Shmuel diz que Rabi Yehudá declarava culpado de duas, uma pelo levar para fora e outra pelo passar, e Rabá e Rav Yossef dizem que só de uma. A Tosefta Shabbat 11:12, na numeração do Sefaria, ensina que, quem lança do domínio privado para o domínio público e se lembrou depois que o objeto saiu da sua mão, se outro o apanhou, se um cão o apanhou ou se se queimou, Rabi declara culpado, e os sábios isentam; e que Rabi concorda com os sábios em que quem lança do domínio público para o domínio privado é isento até que o objeto pouse. Esse ensino parece estar por trás da pergunta que abre a seção 02. A Mishná Shabbat 11:6 da Mishná avulsa diz que quem lança e se lembrou depois que o objeto saiu da sua mão é isento, o que ajuda a entender a pergunta da seção 04. A Mishná Shabbat 7:2 conta “quarenta menos uma” categorias principais de trabalho, e é a ela que se refere a seção 06 quando diz que, para Rabi Yudá, seriam quarenta.

A parte da seção 02 que começa com a palavra de Rabi Yochanan tem paralelo no Yerushalmi Guitin 8:3, sobre a Mishná Guitin 8:3: “se ela estava de pé no alto do telhado e ele lhe lançou o guet, assim que chegou ao ar do telhado, ela está divorciada”. Lá, pouco antes, Rabi Yassa explica a diferença: no guitin, de cima, e no Shabat, de baixo; no guitin, mesmo que não tenha pousado; no Shabat, só quando pousar. Lá o hebraico diz “Rabi faz a parede como a sua substância”, e não “o ar das paredes”; a resposta sobre o Shabat é de “Rabi Aba”, e não de “Rabi Ila”; o versículo é citado “não farás trabalho”, sem “nenhum”; e falta “a Torá disse”. No Bavli Guitin 79a, Shmuel e Rabi Yochanan explicam a mesma Mishná no caso em que as paredes de baixo ultrapassam as de cima, e Rabi Zeira pergunta a Rabi Assi: “conforme quem? Conforme Rabi, que diz que o que é apanhado no ar é como o que foi pousado?”, que é a pergunta de Rabi Imi a Rabi Yochanan na seção 02. Os versículos são Shemot 20:10, “não farás nenhum trabalho”, que também está em Devarim 5:14; Devarim 24:1, “e lhe escreverá um documento de divórcio, e o porá na mão dela”; Bamidbar 7:8, as quatro carroças dadas aos filhos de Merari; e Shemot 26:1–6, as cortinas do Mishkan. Na seção 03, o Ramban, nas suas novelas a Shabbat 97a, cita esta passagem do Yerushalmi e escreve que não lê “é permitido” na palavra de Rabi Elazar, mas só “mesmo acima de dez”; o Rashba, sobre Shabbat 97a, cita também a passagem sem “é permitido” e explica o “proibido” de Shmuel como só proibido, sem a obrigação de uma chatat.

Observações de leitura. Na seção 01, a guemará responde à pergunta implícita de por que se dedica um capítulo ao lançar, que não está entre as trinta e nove categorias: ele é derivado do levar de um domínio para outro. Na seção 02, “a opinião dele” é, pela continuação, a de Rabi; o “de Rabi” está em itálico porque é a nossa leitura. Entendemos a passagem assim: a pergunta supõe que, como na Tosefta, todos exigem que o objeto pouse no domínio privado; a resposta é que, para Rabi, basta entrar no domínio privado, e para os sábios é preciso que pouse; e Rav limita a palavra de Rabi ao domínio privado coberto, cujo ar conta como chão. Rabi Yochanan, ao contrário, parece não exigir teto, porque basta que o que foi lançado desça para dentro do ar das paredes; mas Rabi Yochanan disse isso sobre o guet, e responde que, no guitin, todos concordam. A objeção “Rabi diz coberto, e tu dizes não coberto” e a resposta de Rabi Ila distinguem as duas leis: no Shabat a Torá proíbe fazer trabalho, e o trabalho, depois de lançado o objeto, “se faz por si mesmo”, o que entendemos como a razão para exigir mais do que a simples entrada no domínio; no guet, “na mão dela” quer dizer no domínio dela, e por isso basta que entre no ar das suas paredes. O texto é conciso e esta explicação é nossa. Na seção 03, Shmuel diz que a divergência é só abaixo de dez palmos, e que acima de dez é só proibido, sem culpa; da palavra de Rabi Elazar se deduz que, para Rabi Akiva, mesmo acima de dez há culpa, porque ele o aprendeu das carroças, cujo piso estava acima de dez palmos. O “é permitido” que o hebraico do Sefaria tem nessa frase é difícil, e o Ramban e o Rashba não o leem; traduzimos o hebraico como está. “Keitzad” é a primeira palavra da Mishná seguinte: para Rabi Elazar, ela explica a divergência desta Mishná, porque fala das carroças; para Shmuel, ela não a continua. Na seção 04, “se lembrou do Shabat” é a nossa leitura de “se lembrou”; a pergunta é se, para Rabi Akiva, o momento da lembrança conta como pouso no domínio público, e por isso haveria culpa de duas oferendas; Rabi Chuna responde que a culpa, para Rabi Akiva, só nasce quando o objeto chega ao segundo domínio privado. Na seção 05, “considera-se como se ele caísse” quer dizer que se olha o lugar onde o objeto cairia; “lá” é o caso de Shmuel, com o domínio privado no meio, e “aqui” é o caso de Rabi Yochanan, acima de dez palmos; a resposta de Rabi Chuna é que, no primeiro, o chão por baixo do trajeto é domínio privado e o trecho não se soma, e no segundo é domínio público e se soma. Na seção 06, “e que as ensinemos?” pergunta por que a Mishná não conta quarenta melachot, e a resposta é que ela só conta aquelas com que todos concordam. A objeção “e aquilo não é karmelit?” supõe que o espaço entre os que costuravam, no deserto, não seria domínio público; Rabi Chinena responde que lançavam pelo lado, o que entendemos como para fora, sobre o espaço por onde o povo passava. O hebraico escreve “Rabi Yudá” nas três primeiras vezes e “Rabi Yehudá” na quarta; seguimos o hebraico.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer lê a abertura da seção 02 como pergunta, como nós, e observa que a passagem a partir de Rabi Yochanan foi copiada de Guitin 8:3. Na seção 03, ele traduz “é permitido” conforme o manuscrito, e explica numa nota que o Ramban e o Rashba não leem a palavra; seguimos o hebraico, e registramos a variante acima. Ele cita a Mishná sobre quem se lembra depois que o objeto saiu da mão como “Mishná 7”, na sua numeração; na Mishná avulsa do Sefaria, é a Shabbat 11:6. Ele traduz “yeriot” por “gobelins” e entende o “pelo lado” como fora das tendas, no domínio público. Ele escreve “Rebbi Abba bar Ḥuna”, “Rebbi Immi”, “Rebbi Eleazar”, “Rebbi Isaac ben Rebbi Eleazar”, “Rebbi Ḥuna”, “Rebbi Joshia”, “Rebbi Ḥinena” e “Rebbi Jehudah”; mantivemos “Rabi Ba bar Chuna”, “Rabi Imi”, “Rabi Elazar”, “Rabi Yitzchak beRabi Elazar”, “Rabi Chuna”, “Rabi Yoshiyá”, “Rabi Chinena” e, conforme o hebraico, “Rabi Yudá” ou “Rabi Yehudá”, como nas outras halachot do Yerushalmi deste site. Ele lê “Rabi Ba bar Chuna” como “Abba bar Ḥuna”; o hebraico escreve “Ba”.

Com esta halachá, abre-se o Perek Yud-Alef de Massechet Shabbat, HaZorek (הַזּוֹרֵק).