Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud-Alef (HaZorek)
הוֹצָאָה גּוּפַהּ הֵיכָא כְּתִיבָא

A fonte bíblica de carregar para fora e para dentro, a distinção entre categoria principal e subcategoria, a fonte para lançar quatro cúbitos na via pública através do serviço do Tabernáculo, e a identidade do mekoshesh — o colhedor de lenha condenado no deserto

Shabbat 96b abre a Guemará do Perek Yud-Alef perguntando onde carregar para fora está escrito na Torá, deriva a proibição de lançar quatro cúbitos na via pública a partir dos tecelões do Tabernáculo, e encerra com a disputa sobre quem foi o mekoshesh e a réplica de Rabi Yehuda ben Beteira a Rabi Akiva

96b abre a Guemará do Perek Yud-Alef, HaZorek, com uma pergunta fundamental: se lançar é subcategoria de carregar para fora, onde a própria categoria principal de carregar para fora está escrita na Torá? Rabi Yochanan responde com o versículo do pregão de Moshé pelo acampamento, mostrando que Moshé, sentado no acampamento dos levitas — propriedade pública —, ordenou a Israel que não trouxesse mais contribuições de suas tendas, propriedade privada, para lá; e uma analogia verbal com o shofar de Yom Kipur confirma que essa ordem se deu em Shabat, não em dia de semana. Por raciocínio lógico deriva-se também a proibição de carregar para dentro, ainda que como subcategoria — e a Guemará explica a diferença prática entre categoria principal e subcategoria: duas categorias, ou duas subcategorias de categorias distintas, realizadas juntas, geram duas ofertas de pecado; uma categoria com sua própria subcategoria gera apenas uma. Segundo Rabi Eliezer, que responsabiliza por uma subcategoria mesmo sem sua categoria principal, a distinção é definida pela importância no Tabernáculo, ou pela menção explícita na Torá. A folha volta então a uma mishná (citada de capítulo posterior) sobre lançar contra uma parede, e pergunta de onde se deriva a responsabilidade por lançar quatro cúbitos dentro da própria via pública: Rabi Yoshiyah propõe os costureiros de cortinas que lançavam agulhas emprestadas; a Guemará refuta essa e outras tentativas — a lançadeira do tecelão, o empréstimo entre tecelões de cortinas diferentes — com objeções sucessivas sobre proximidade e lugar isento, até concluir, por fim, que toda a lei de quatro cúbitos na via pública foi recebida por tradição, sem base explícita no texto. Esse resultado leva a Guemará a uma longa digressão sobre a identidade do mekoshesh, o homem que colhia lenha em Shabat e foi condenado à morte no deserto: Rav Yehuda em nome de Shmuel diz que carregava quatro cúbitos na via pública; uma baraita diz que arrancava galhos; Rav Acha bar Yaakov diz que ajuntava gravetos — três opiniões cuja diferença prática toca o ensinamento do rolo oculto de Isi ben Yehuda, encontrado por Rav na casa de Rabi Chiyya, sobre a categoria entre as trinta e nove que não acarreta pena de morte. A folha fecha com uma baraita que identifica o mekoshesh como Tzelofchad, segundo Rabi Akiva, a partir de uma analogia verbal entre dois versículos sobre "o deserto" — e com a réplica de Rabi Yehuda ben Beteira, que adverte Akiva de que, tenha razão ou não, será responsabilizado: por revelar o que a Torá ocultou, ou por difamar um justo.

A fonte bíblica de carregar para fora e para dentro · הוֹצָאָה גּוּפַהּ הֵיכָא כְּתִיבָא

225A Guemará pergunta onde carregar para fora está escrito na Torá; Rabi Yochanan responde com o pregão de Moshé pelo acampamento
A Guemará; Rabi Yochanan
גְּמָ׳ מִכְּדֵי זְרִיקָה תּוֹלָדָה דְהוֹצָאָה הִיא, הוֹצָאָה גּוּפַהּ הֵיכָא כְּתִיבָא? אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן, דְּאָמַר קְרָא: ״וַיְצַו מֹשֶׁה וַיַּעֲבִירוּ קוֹל בַּמַּחֲנֶה״, מֹשֶׁה הֵיכָן הֲוָה יָתֵיב? — בְּמַחֲנֵה לְוִיָּה, וּמַחֲנֵה לְוִיָּה רְשׁוּת הָרַבִּים הֲוַאי, וְקָאֲמַר לְהוּ לְיִשְׂרָאֵל: לָא תַּפִּיקוּ וְתַיְתוֹ מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד דִּידְכוּ לִרְשׁוּת הָרַבִּים.

GUEMARÁ. Ora, visto que lançar é subcategoria de carregar para fora, carregar para fora em si — onde está escrito na Torá? Disse Rabi Yochanan — pois disse o versículo: "E Moshé ordenou, e fizeram passar um pregão pelo acampamento" (Êxodo 36:6) , ordenando que cessassem de trazer contribuições para o Tabernáculo, a fim de impedi-los de trazê-las em Shabat. Onde estava Moshé sentado? No acampamento dos levitas, e o acampamento dos levitas era propriedade pública; e ele disse a Israel: não tireis nem tragais de vossa propriedade privada para a propriedade pública.

Nota

A Guemará observa que a Mishná pressupõe, sem provar, que carregar para fora de uma propriedade privada para a pública é uma das categorias principais de trabalho proibido; mas lançar, sendo apenas sua subcategoria, não pode servir de ponto de partida sem que a própria categoria principal esteja estabelecida. Rabi Yochanan encontra essa base no relato de Êxodo sobre a arrecadação de materiais para o Tabernáculo: quando o povo trouxe mais do que o necessário, Moshé ordenou que parassem, e o texto descreve essa ordem como um "pregão pelo acampamento" — implicando que Moshé estava fisicamente num acampamento (o dos levitas, que circundava o Tabernáculo e por onde transitava todo o povo, caracterizando-o como via pública) e dirigia-se a Israel, que estava nas próprias tendas, propriedade privada. A ordem de não mais "tirar e trazer" pressupõe, portanto, que tirar de um domínio privado para o público já era uma atividade proibida — a própria categoria de carregar para fora.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "guemará mikdei zerikah toldah dehotza'ah", "machaneh leviyah reshut harabim" e "mereshut hayachid didchu"
גמ' מכדי זריקה תולדה דהוצאה - על כרחיך תולדה היא דלא נמנית באבות מלאכות ותולדה דהוצאה היא שאין לך לתתה תולדת אב אחר דמעין הוצאה היא האמורה באבות מלאכות: מחנה לויה ר"ה היא - שהיו הכל מצויין אצל משה רבינו: מרה"י דידכו - מאהליכם:

"'Guemará: ora, lançar é subcategoria de carregar para fora'" — por força é subcategoria, pois não está contada entre as categorias principais de trabalho, e é subcategoria de carregar para fora, pois não há para ela outra categoria principal de que seja mais próxima, sendo assemelhada a carregar para fora, que é a mencionada entre as categorias principais. "'O acampamento dos levitas era via pública'" — pois todos se reuniam ali, junto a Moshé, nosso mestre. "'De vossa propriedade privada'" — de vossas tendas.

226Como sabemos que a ordem foi dada em Shabat, e não em dia de semana pela conclusão do trabalho? Analogia verbal com o shofar de Yom Kipur
A Guemará
וּמִמַּאי דִּבְשַׁבָּת קָאֵי? דִּילְמָא בְּחוֹל קָאֵי, וּמִשּׁוּם דִּשְׁלִימָא לַהּ מְלָאכָה, כְּדִכְתִיב: ״וְהַמְּלָאכָה הָיְתָה דַיָּם וְגוֹ׳״?! — גָּמַר ״הַעֲבָרָה״ ״הַעֲבָרָה״ מִיּוֹם הַכִּפּוּרִים: כְּתִיב הָכָא: ״וַיַּעֲבִירוּ קוֹל בַּמַּחֲנֶה״, וּכְתִיב הָתָם: ״וְהַעֲבַרְתָּ שׁוֹפַר תְּרוּעָה״, מַה לְּהַלָּן — בַּיּוֹם אָסוּר, אַף כָּאן — בַּיּוֹם אָסוּר.

E de onde sabemos que Moshé estava ordenando isso em Shabat? Talvez estivesse ordenando em dia de semana, e o motivo fosse que o trabalho do Tabernáculo já estava completo, conforme está escrito: "e o trabalho era suficiente para eles" etc. , e sobrava (Êxodo 36:7)?! Antes, a resposta é que se aprende, por analogia verbal, a palavra "fazer passar" e "fazer passar" a partir de Yom Kipur. Está escrito aqui: "e fizeram passar um pregão pelo acampamento", e está escrito ali: "e farás passar um sopro de shofar" (Levítico 25:9) , quanto ao Yovel. Assim como ali o fazer passar é num dia em que o trabalho é proibido, também aqui o fazer passar é num dia em que o trabalho é proibido.

Nota

A Guemará questiona a própria prova de Rabi Yochanan: talvez a ordem de Moshé tenha sido dada num dia de semana comum, simplesmente porque o material arrecadado já bastava para completar a obra, como o próprio versículo seguinte relata. Para excluir essa leitura, a Guemará recorre a uma analogia verbal (gezerah shavah) entre a palavra "haavarah" (fazer passar) usada aqui, a respeito do pregão de Moshé, e a mesma palavra usada a respeito do sopro do shofar que anuncia o Yovel em Yom Kipur — um dia santo, em que o trabalho é proibido. Essa analogia verbal, recebida por tradição, ensina que o "fazer passar" do pregão de Moshé também ocorreu num dia em que o trabalho era proibido — ou seja, em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "dishlima lah avidta"
דשלימא ליה עבידתיה - שהיה הנדבה כדי להשלים:

"'Porque o trabalho já estava completo'" — pois a doação já bastava para completar o necessário.

227Carregar para dentro deriva-se por raciocínio lógico; carregar para fora é categoria principal, carregar para dentro é subcategoria
A Guemará
אַשְׁכְּחַן הוֹצָאָה, הַכְנָסָה מְנָלַן? סְבָרָא הִיא: מִכְּדֵי מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת הוּא, מָה לִי אַפּוֹקֵי וּמָה לִי עַיּוֹלֵי! מִיהוּ, הוֹצָאָה — אָב, הַכְנָסָה — תּוֹלָדָה.

Encontramos a fonte para carregar para fora; carregar para dentro, de onde a derivamos? É mero raciocínio: ora, trata-se de passar de uma propriedade a outra — que diferença há para mim entre tirar e trazer? Porém, carregar para fora é categoria principal, e carregar para dentro é subcategoria, pois não está escrita explicitamente no texto bíblico.

Nota

Como a proibição de carregar para dentro não tem fonte explícita no versículo sobre o pregão de Moshé — que fala apenas de não "tirar" das tendas —, a Guemará a deriva por simples raciocínio lógico: se o que importa é a transferência de um objeto entre domínios diferentes, não há razão para distinguir a direção do movimento. Ainda assim, essa diferença de origem textual mantém carregar para fora como categoria principal (por estar escrita) e carregar para dentro como sua subcategoria (por ser apenas inferida).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sevara hi"
סברא היא - להיות הכנסה תולדת הוצאה שהיא מעין לה כשאר תולדות שהיא מעין מלאכות:

"'É raciocínio'" — que carregar para dentro seja subcategoria de carregar para fora, por assemelhar-se a ela, como as demais subcategorias se assemelham às suas respectivas categorias principais.

228Por que distinguir categoria principal de subcategoria, se ambas geram responsabilidade? A diferença prática: uma ou duas ofertas de pecado
A Guemará
וּמִכְּדֵי אַהָא מִיחַיַּיב וְאַהָא מִיחַיַּיב, אַמַּאי קָרֵי לַהּ הַאי ״אָב״, וְאַמַּאי קָרֵי לַהּ הַאי ״תּוֹלָדָה״? נָפְקָא מִינַּהּ דְּאִי עָבֵיד שְׁתֵּי אָבוֹת בַּהֲדֵי הֲדָדֵי, אִי נָמֵי שְׁתֵּי תוֹלָדוֹת בַּהֲדֵי הֲדָדֵי — מִיחַיַּיב תַּרְתֵּי, וְאִי עָבֵיד אָב וְתוֹלָדָה דִידֵיהּ — לָא מִיחַיַּיב אֶלָּא חֲדָא.

E ora, por isto , carregar para fora, é responsável, e por isto , carregar para dentro, é responsável — por que se chama isto "categoria principal", e por que se chama isto "subcategoria"? Qual a diferença prática? A diferença prática é que, se alguém realizou duas categorias principais juntas, ou também, se realizou duas subcategorias juntas de duas categorias principais distintas, é responsável por duas ofertas de pecado; e se realizou uma categoria principal com sua própria subcategoria, não é responsável senão por uma .

Nota

Já que tanto a categoria principal quanto a subcategoria geram responsabilidade plena, a Guemará pergunta qual o sentido prático dessa nomenclatura. A resposta está na contagem das ofertas de pecado devidas quando se realizam vários trabalhos proibidos num só lapso de consciência: duas categorias principais distintas — ou duas subcategorias de categorias distintas — contam como dois atos separados, exigindo duas ofertas; mas uma categoria principal e sua própria subcategoria, por serem "a mesma família" de trabalho, contam como um só ato, exigindo apenas uma oferta.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mikdei aha'i michayav", "nafka minah" e "shtei avot"
מכדי אהאי מיחייב ואהאי מיחייב - כדתנן (לעיל פ"א ב.) פשט העני ידו לפנים: נפקא מינה - דכל אבות מלאכות: שתי אבות - דלא דמיין ושתי תולדות דשתי אבות:

"'Ora, por isto é responsável, e por isto é responsável'" — como ensinamos na Mishná, acima, 1:1: "o pobre que estendeu a mão para dentro e o dono de casa tomou o objeto de sua mão, ambos são responsáveis." "'A diferença prática'" — aplica-se a todas as categorias principais de trabalho. "'Duas categorias principais'" — que não se assemelham entre si; e o mesmo vale para duas subcategorias de duas categorias principais distintas.

229Segundo Rabi Eliezer, que responsabiliza por subcategoria sem sua categoria principal: a distinção é a importância no Tabernáculo, ou a menção explícita na Torá
A Guemará
וּלְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר דִּמְחַיֵּיב אַתּוֹלָדָה בִּמְקוֹם אָב — אַמַּאי קָרוּ לַהּ ״אָב״, וְאַמַּאי קָרוּ לַהּ ״תּוֹלָדָה״? הָךְ דַּהֲוַאי בְּמִשְׁכָּן חֲשִׁיבָא — קָרֵי לַהּ ״אָב״, הָךְ דְּלָא הֲוַאי בַּמִּשְׁכָּן חֲשִׁיבָא — לָא קָרֵי לַהּ ״אָב״. אִי נָמֵי: הָךְ דִּכְתִיבָא — קָרֵי ״אָב״, וְהָךְ דְּלָא כְּתִיבָא קָרֵי ״תּוֹלָדָה״.

E segundo Rabi Eliezer, que responsabiliza por uma subcategoria realizada no lugar de sua categoria principal — isto é, mesmo sozinha, sem a categoria principal correspondente —, por que se chama isto "categoria principal", e por que se chama isto "subcategoria"? A Guemará responde: aquilo que foi importante no Tabernáculo chama-se "categoria principal"; aquilo que não foi importante no Tabernáculo não se chama "categoria principal". Ou também: aquilo que está escrito explicitamente na Torá chama-se "categoria principal", e aquilo que não está escrito chama-se "subcategoria".

Nota

A distinção prática dada acima (uma ou duas ofertas de pecado) não vale para Rabi Eliezer, que — em opinião registrada em Massechet Keritot — responsabiliza duplamente mesmo quando alguém realiza uma subcategoria junto com sua própria categoria principal. Para ele, portanto, a diferença entre "categoria principal" e "subcategoria" não tem consequência prática quanto à contagem de ofertas; é puramente uma questão de nomenclatura, definida por dois critérios possíveis: a importância que o trabalho teve na construção do Tabernáculo, ou o fato de estar mencionado explicitamente no texto bíblico.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ulerabi eliezer"
ולר"א כו' - במסכת כריתות בפרק אמרו לו:

"'E segundo Rabi Eliezer' etc." — essa opinião encontra-se em Massechet Keritot, no capítulo "Amru Lo".

A fonte para lançar quatro cúbitos dentro da via pública · הַזּוֹרֵק אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מְנָלַן

230Cita-se a mishná sobre lançar contra uma parede acima ou abaixo de dez palmos
Mishná (citada)
וְהָא דִּתְנַן: הַזּוֹרֵק אַרְבַּע אַמּוֹת בַּכּוֹתֶל, לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים — כְּזוֹרֵק בָּאֲוִיר. לְמַטָּה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים — כְּזוֹרֵק בָּאָרֶץ, וְהַזּוֹרֵק בָּאָרֶץ אַרְבַּע אַמּוֹת — חַיָּיב.

E quanto ao que ensinamos numa mishná: quem lança um objeto quatro cúbitos na via pública contra uma parede — se o objeto atingiu a parede acima de dez palmos, é como quem lança no ar, e está isento; abaixo de dez palmos, é como quem lança na terra, e quem lança na terra quatro cúbitos é responsável.

Nota — mishná citada de capítulo posterior

Esta mishná não pertence à mishná de abertura de 96a, mas é citada aqui, proletipicamente, de um capítulo posterior desta mesma massechet (100a), pois a Guemará precisa dela para levantar a próxima questão: de onde se deriva, afinal, que lançar um objeto quatro cúbitos dentro da própria via pública — sem que ele cruze de um domínio a outro — é uma transgressão que gera responsabilidade?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veha detnan", "bekotel", "kezorek ba'avir" e "kezorek ba'aretz"
והא דתנן - בפירקין: בכותל - כדמוקי לה בדבילה שמינה ונדבקת: כזורק באויר - ופטור דלא נח ברשות הרבים דאין רה"ר למעלה מעשרה וברה"י נמי לא נח שאינו מקום מסוים שיהא רחבו ד' שהרי לא נח בראש הכותל אלא בפניו: כזורק בארץ - דאויר רה"ר הוא וחייב וכיון דאויר רה"ר הוא ונח בכל דהו מיחייב ורשותא לנפשיה לא הוי לא כרמלית ולא מקום פטור הואיל ובפניו נח ולא נח בראשו שיהא מקום מסוים:

"'E quanto ao que ensinamos'" — nesta mesma mishná, neste nosso capítulo. "'Contra uma parede'" — como se explica noutro lugar, tratando de um bolo de figos gorduroso, que gruda onde bate. "'É como quem lança no ar'" — e está isento, pois o objeto não repousou na via pública, já que não há via pública acima de dez palmos; e também não repousou em propriedade privada, pois ali não é um lugar definido com largura de quatro palmos, visto que não repousou no topo da parede, mas em sua face. "'É como quem lança na terra'" — pois ali é espaço aéreo da via pública, e é responsável; e, sendo espaço aéreo da via pública, é responsável ainda que o objeto repouse em qualquer medida mínima, e não se torna domínio próprio, nem carmelit nem lugar isento, visto que repousou em sua face, e não repousou em seu topo, de modo a formar lugar definido.

231De onde se deriva a responsabilidade por lançar quatro cúbitos dentro da via pública? Rabi Yoshiyah: os costureiros de cortinas lançavam suas agulhas um ao outro
Rabi Yoshiyah
זָרַק אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, מְנָלַן דְּמִיחַיַּיב? אָמַר רַבִּי יֹאשִׁיָּה: שֶׁכֵּן אוֹרְגֵי יְרִיעוֹת זוֹרְקִין מַחֲטֵיהֶן זֶה לָזֶה. אוֹרְגִין, מְחָטִין לְמָה לְהוּ? אֶלָּא, שֶׁכֵּן תּוֹפְרֵי יְרִיעוֹת זוֹרְקִין מַחֲטֵיהֶן זֶה לָזֶה.

Se alguém lançou um objeto quatro cúbitos na via pública , sem que ele passasse de um domínio a outro, de onde derivamos que é responsável? Disse Rabi Yoshiyah: porque os tecelões das cortinas do Tabernáculo lançavam suas agulhas um ao outro , quando precisavam pedi-las emprestadas. Mas tecelões, para que lhes serviriam agulhas? Antes, a resposta é que os costureiros das cortinas lançavam suas agulhas um ao outro.

Nota

A Guemará busca um precedente, no serviço do Tabernáculo, para o lançamento de um objeto quatro cúbitos dentro de um único domínio. Rabi Yoshiyah propõe os tecelões: mas, ao objetar que tecelões não usam agulhas — pois tecem com o tear, não costuram —, a Guemará corrige a atribuição para os costureiros das cortinas, que bordavam e realmente precisavam de agulhas, lançando-as um ao outro quando as pediam emprestadas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "toferei yeriot"
תופרי יריעות - מעשה רוקם:

"'Os costureiros das cortinas'" — trabalho de bordado.

232Objeção: talvez estivessem sentados um junto ao outro; resposta: se feririam com as agulhas
A Guemará
וְדִילְמָא גַּבֵּי הֲדָדֵי הֲווֹ יָתְבִי?! מָטוּ הֲדָדֵי בְּמַחְטִין. דִּילְמָא בְּתוֹךְ אַרְבַּע הֲווֹ יָתְבִי?

Mas talvez estivessem sentados um junto ao outro , e não precisassem lançar as agulhas a quatro cúbitos de distância? Isso não pode ser, pois, se estivessem tão próximos, se feririam um ao outro com as agulhas. Mas talvez estivessem sentados dentro de uma distância de quatro cúbitos, sem chegar a esse limite?

Nota

A Guemará testa a prova de Rabi Yoshiyah com duas objeções sucessivas sobre a distância real entre os costureiros: primeiro, que poderiam estar sentados lado a lado, sem lançar nada; refutada pelo risco de se ferirem com as agulhas ao trabalhar tão próximos. Depois, que poderiam estar a uma distância intermediária — próxima o bastante para não se ferirem, mas ainda menor que quatro cúbitos —, o que não provaria o lançamento à distância mínima exigida pela lei.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "gabei hadadei" e "matu hadadei bemachatin"
גבי הדדי - בתוך אמה אחת ואין צריכין לזרוק אלא להושיט: מטו הדדי במחטין - כשמותחין את החוט מכין זה את זה במחט:

"'Um junto ao outro'" — dentro de um cúbito, de modo que não precisariam lançar, mas apenas passar de mão em mão. "'Se feririam um ao outro com as agulhas'" — quando esticam o fio, feririam um ao outro com a agulha.

233Rav Chisda propõe outra fonte: a lançadeira do tecelão, no lançamento final da linha
Rav Chisda
אֶלָּא אָמַר רַב חִסְדָּא: שֶׁכֵּן אוֹרְגֵי יְרִיעוֹת זוֹרְקִין בּוּכְיָאר בַּיְּרִיעָה. וַהֲלֹא אוֹגְדּוֹ בְּיָדוֹ! — בְּנִיסְכָּא בָּתְרָא.

Antes, disse Rav Chisda: porque os tecelões das cortinas lançavam a lançadeira, com a linha da trama, atirando-a de um lado a outro, dentro da cortina. Mas não a segurava ele em sua mão , pela linha, de modo que não seria lançamento completo? Isso se refere ao lançamento final da linha, quando a solta de sua mão ao terminar.

Nota

Diante da dúvida deixada pela proposta de Rabi Yoshiyah, Rav Chisda oferece uma fonte diferente: os próprios tecelões, ao lançarem a lançadeira — o instrumento que carrega a linha da trama — entre as duas bordas da cortina que teciam. A objeção de que o tecelão sempre segura a linha em sua mão, o que impediria de considerá-lo um lançamento pleno, é resolvida ao restringir a fonte ao lançamento final, quando o tecelão solta a linha da mão ao concluir aquela passagem.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "buchyar", "vehalo agdo beyado", "beniska batra" e "niska"
בוכיאר - כלי שקנה של ערב נתון בו שזורקין בין שני דופני היריעה: והלא אגדו בידו - חוט של ערב הוא אוחז והקנה נכרך בחוט ואינו נשמט ממנו: בניסכא בתרא - בחוט האחרון של קנה שהקנה נשמט מהחוט והבוכיאר נופל: ניסכא - זריקה אחרונה של חוט לשון המיסך:

"'Lançadeira'" — instrumento em que se coloca a cana da linha da trama, e que se lança entre as duas bordas da cortina. "'Mas não a segurava em sua mão'" — pois segura o fio da trama, e a cana está enrolada no fio, e não se solta dele. "'Ao lançamento final'" — no último fio da cana, quando a cana se solta do fio e a lançadeira cai. "'Nissecha'" — o lançamento final do fio, termo relacionado a "hamesech", o urdume.

234Objeção: a lançadeira vai por lugar isento; resposta: lançavam-na a quem pedia emprestado; nova objeção sobre proximidade
A Guemará
וְהָא בִּמְקוֹם פְּטוּר קָאָזְלָא! — אֶלָּא, שֶׁכֵּן אוֹרְגֵי יְרִיעוֹת זוֹרְקִין בּוּכְיָאר לְשׁוֹאֲלֵיהֶן. וְדִילְמָא גַּבֵּי הֲדָדֵי הֲווֹ יָתְבִי?! מָטוּ הֲדָדֵי בְּחֵפֶת.

Mas não vai a lançadeira por um lugar isento , já que a cortina tinha menos de quatro palmos de largura? Antes, a resposta é que os tecelões das cortinas lançavam a lançadeira àqueles que a pediam emprestada, sendo outros tecelões, de outra cortina. Mas talvez estivessem sentados um junto ao outro? Isso não pode ser, pois se tocariam um ao outro na barra da cortina, ao esticar o fio.

Nota

Como o espaço entre as bordas da própria cortina que se tecia é estreito demais para ser via pública — configurando um lugar isento, onde não há responsabilidade por lançar —, a Guemará reformula a fonte de Rav Chisda: não se trata do lançamento dentro da própria cortina, mas do empréstimo da lançadeira entre tecelões de cortinas diferentes, através do espaço aberto da via pública que separava seus postos de trabalho. A essa nova formulação aplica-se de novo a objeção de proximidade, respondida agora pelo risco de as mãos se tocarem na barra da cortina ao esticarem o fio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "veha bimkom petur azla", "leshoalehen", a lição correta do texto, "matu hadadei bechefet" e "bechefet"
והא במקום פטור אזלא - בין דופני היריעה ואין זה רשות הרבים אלא מקום פטור דאין רחב ד': לשואליהן - אורגי יריעה אחרת ויש לו לזה שנים: ה"ג ודילמא שואליהן גביהן הוו יתבין: מטו אהדדי בחפת - אי גבייהו הוו יתבי מגיעין ידו של זה בשל זה בשפת היריעה כשמותחין חוט הערב: בחפת - כמו חפת חלוקו (יומא ד' עז:):

"'Mas não vai por um lugar isento'" — a lançadeira vai entre as bordas da cortina, e isso não é via pública, mas lugar isento, pois não tem quatro palmos de largura. "'Àqueles que a pediam emprestada'" — tecelões de outra cortina, e este tinha duas lançadeiras, aquele apenas uma. A lição correta do texto é: "mas talvez os que pediam emprestado estivessem sentados junto a eles?" "'Se tocariam um ao outro na barra'" — se estivessem sentados um junto ao outro, a mão de um alcançaria a do outro na borda da cortina, ao esticarem o fio da trama. "'Barra'" — como "a barra de sua túnica" (Yoma 77b).

235Objeção: talvez estivessem escalonados; e mais, será que pediam emprestado uns aos outros? A baraita de Luda
A Guemará; a baraita de Luda
וְדִילְמָא שַׁלְחוֹפֵי הֲווֹ מְשַׁלְחֲפִי?! וְתוּ, מִי שָׁאיְלִי מֵהֲדָדֵי? וְהָתָנֵי לוּדָּא: ״אִישׁ אִישׁ מִמְּלַאכְתּוֹ אֲשֶׁר הֵמָּה עֹשִׂים״ — מִמְּלַאכְתּוֹ הוּא עוֹשֶׂה וְאֵינוֹ עוֹשֶׂה מִמְּלֶאכֶת חֲבֵירוֹ!

Mas talvez estivessem sentados um junto ao outro, porém escalonados , um deslocado do outro, sem se tocarem? E mais: por acaso pediam emprestado um ao outro? E não ensinou Luda: "cada homem de seu trabalho que faziam" (Êxodo 36:4) — de seu próprio trabalho ele fazia, e não fazia do trabalho de seu companheiro , pois cada um tinha seus próprios instrumentos!

Nota

Duas objeções finais desmontam a proposta de Rav Chisda: primeiro, que os tecelões poderiam estar próximos, mas escalonados — um adiantado, outro atrasado —, o que permitiria a proximidade sem contato, tornando irrelevante a distância de quatro cúbitos; segundo, e mais fundamental, uma baraita atribuída a Luda ensina, a partir do próprio versículo sobre a construção do Tabernáculo, que cada artesão trabalhava apenas com seus próprios instrumentos, sem depender do trabalho ou dos utensílios do companheiro — de modo que a própria premissa de empréstimo entre tecelões, sobre a qual se apoiava toda a fonte, cai por terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "shalchufei havu meshalchafi" e "ve'eino oseh mimelechet chaveiro"
שלחופי הוו משלחפי - לעולם גבי הדדי הוו יתבי אלא שאין מכוונים אלא זה נמשך לפנים וזה לאחור: ואין עושה ממלאכת חבירו - שכולם מוכנים בכלי אומנותם ולא הוצרכו לישאול:

"'Escalonados'" — na verdade estavam sentados um junto ao outro, mas não alinhados, pois um se deslocava para a frente e o outro para trás. "'E não fazia do trabalho de seu companheiro'" — pois todos estavam providos dos instrumentos de seu ofício, e não precisavam pedir emprestado.

236E de onde se deriva carregar (sem lançar) quatro cúbitos na via pública? Resposta: toda essa lei foi recebida por tradição
A Guemará
וְתוּ: מַעֲבִיר אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים מְנָלַן דְּמִחַיַּיב? אֶלָּא: כׇּל אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גְּמָרָא גְּמִירִי לַהּ.

E mais: quem carrega quatro cúbitos na via pública, de onde derivamos que é responsável? Antes, a resposta é que toda a lei de quatro cúbitos na via pública se aprendeu por tradição recebida, e não se deriva do texto bíblico.

Nota

Depois de refutar todas as tentativas de encontrar, no serviço do Tabernáculo, um precedente específico para lançar quatro cúbitos dentro da via pública, a Guemará observa que nem mesmo a forma mais básica dessa lei — simplesmente carregar (sem lançar) um objeto quatro cúbitos na via pública — tem fonte textual explícita. A conclusão é que toda essa halachá, em todas as suas variações, foi recebida por tradição transmitida desde Moshe no Sinai, sem necessidade — nem possibilidade — de derivação a partir de um versículo.

A identidade do mekoshesh — o colhedor de lenha condenado no deserto · מְקוֹשֵׁשׁ מַאן הֲוָה

237Três opiniões sobre o trabalho do mekoshesh: carregar, arrancar ou ajuntar
Rav Yehuda em nome de Shmuel; uma baraita; Rav Acha bar Yaakov
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: מְקוֹשֵׁשׁ, מַעֲבִיר אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים הֲוָה. בְּמַתְנִיתָא תָּנָא: תּוֹלֵשׁ הֲוָה. רַב אַחָא בְּרַבִּי יַעֲקֹב אָמַר: מְעַמֵּר הֲוָה.

Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: o que colhia lenha em Shabat, condenado à morte (Números 15:32–36), era quem carregava quatro cúbitos na via pública. Numa baraita se ensinou: era quem arrancava galhos ainda ligados ao solo. Rav Acha filho de Rabi Yaakov disse: era quem ajuntava gravetos em monte.

Nota

Tendo estabelecido que carregar quatro cúbitos na via pública é lei recebida por tradição, a Guemará associa esse tema ao relato bíblico do mekoshesh — o homem encontrado colhendo lenha em Shabat e executado por ordem divina (Números 15). Três opiniões amoraicas e tanaíticas discordam sobre qual trabalho proibido, exatamente, ele realizou: carregar o que colheu por quatro cúbitos na via pública, arrancar os galhos ainda presos à árvore, ou ajuntar gravetos soltos e espalhados num monte.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "me'amer"
מעמר - תלושין ומפוזרין היו ועמרן כדאמרן (לעיל שבת ד' עג:) האי מאן דכניף מלחא חייב משום מעמר:

"'Ajuntava'" — os gravetos estavam soltos e espalhados, e ele os ajuntou, como dissemos acima (Shabat 73b): quem ajunta sal é responsável por ajuntar.

238A diferença prática: o rolo oculto de Isi ben Yehuda sobre a categoria que não acarreta pena de morte
Rav; Isi ben Yehuda; Rabi Yochanan
לְמַאי נָפְקָא מִינַּהּ? לְכִדְרַב, דְּאָמַר רַב: מָצָאתִי מְגִלַּת סְתָרִים בֵּי רַבִּי חִיָּיא וְכָתוּב בָּהּ, אִיסִי בֶּן יְהוּדָה אוֹמֵר: אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת וְאִם עֲשָׂאָן כּוּלָּן בְּהֶעְלֵם אַחַת וְאֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא אַחַת. אַחַת וְתוּ לָא? וְהָתְנַן: אֲבוֹת מְלָאכוֹת אַרְבָּעִים חָסֵר אַחַת, וְהָוֵינַן בַּהּ: מִנְיָינָא לְמָה לִי? וְאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: שֶׁאִם עֲשָׂאָן כּוּלָּם בְּהֶעְלֵם אַחַת — חַיָּיב עַל כׇּל אַחַת וְאַחַת. אֵימָא: אֵינוֹ חַיָּיב עַל אַחַת מֵהֶם.

Qual a diferença prática entre essas três opiniões? Ela se aplica ao que ensinou Rav — pois disse Rav: encontrei um rolo oculto na casa de Rabi Chiyya, e nele estava escrito: Isi ben Yehuda diz: as categorias principais de trabalho proibido em Shabat são quarenta menos uma, e se alguém as realizou todas numa só vez, num só esquecimento, não é responsável senão por uma. A Guemará pergunta: "por uma", e nada mais? Não ensinamos numa mishná: as categorias principais de trabalho são quarenta menos uma? E discutimos sobre isso: por que preciso dessa contagem? E disse Rabi Yochanan: ela serve para ensinar que, se alguém as realizou todas num só esquecimento, é responsável por cada uma e cada uma separadamente. A Guemará responde: essa citação não pode ser exata; antes, diz-se: não é responsável por uma delas — há, entre as trinta e nove categorias principais, uma cuja transgressão não acarreta pena de morte, sem se especificar qual.

Nota

A diferença prática entre as três opiniões sobre o mekoshesh não afeta o veredito — ele foi de qualquer modo condenado à morte —, mas toca um ensinamento independente que Rav encontrou num "rolo oculto" (registro de tradições não redigido oficialmente, pois a lei oral não se escrevia) na casa de Rabi Chiyya: segundo Isi ben Yehuda, existe entre as trinta e nove categorias principais de trabalho uma cuja violação não acarreta pena de morte. A Guemará inicialmente lê o rolo como dizendo que a pessoa "não é responsável senão por uma" oferta de pecado ao violar todas as categorias por engano — mas rejeita essa leitura, pois contradiz o ensinamento explícito de Rabi Yochanan de que se é responsável por cada categoria separadamente. A leitura correta do rolo, portanto, é que existe uma categoria específica cuja violação deliberada não é punida com a morte (embora ainda gere responsabilidade de oferta, se cometida por engano).

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "megilat setarim" e "ve'eino chayav ela achat"
מגילת סתרים - שהסתירוה לפי שאין כותבין הלכות: ואינו חייב אלא אחת - על כרחיך לענין שוגג קאמר ולחטאת דבמזיד תרי קטלי לא מקטלי ולהכי פריך והא אנן תנן כו':

"'Rolo oculto'" — chamado assim porque o ocultaram, pois não se escreviam as leis orais. "'E não é responsável senão por uma'" — por força se refere a alguém que agiu por engano, trazendo uma oferta de pecado, pois a alguém que agiu de propósito não se mata duas vezes; e por isso a Guemará questiona: "não ensinamos" etc.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'eino chayav al achat meihen"
ואינו חייב על אחת מהן - מיתה יש בהן אחת שאינו נהרג עליה ולא פירש איזו היא והשתא לרב יהודה אין זו העברה שהרי נהרג מקושש עליה ולמתניתא אין תולש באותו ספק:

"'Não é responsável por uma delas'" — há entre elas uma cuja pena de morte não se aplica, e não se especificou qual é; e assim, segundo Rav Yehuda, não é o carregar, pois o que colhia lenha foi morto por ela; e segundo a baraita, não é o arrancar, pela mesma dúvida.

239Cada mestre sustenta que sua atribuição ao mekoshesh não é a categoria duvidosa
A Guemará
רַב יְהוּדָה פְּשִׁיטָא לֵיהּ דְּהַמַּעֲבִיר חַיָּיב, וּמַתְנִיתִין פְּשִׁיטָא לֵיהּ דְּתוֹלֵשׁ חַיָּיב, וְרַב אַחָא בַּר יַעֲקֹב פְּשִׁיטָא לֵיהּ דִּמְעַמֵּר חַיָּיב. מָר סָבַר הָא מִיהַת לָא מְסַפְּקָא, וּמָר סָבַר הָא מִיהַת לָא מְסַפְּקָא.

Assim, a Rav Yehuda é claro que quem carrega quatro cúbitos na via pública é responsável à pena de morte, e à nossa mishná (a baraita) é claro que quem arranca é responsável, e a Rav Acha bar Yaakov é claro que quem ajunta é responsável. Este mestre entende que, quanto a esta categoria, em todo caso, não há dúvida; e aquele mestre entende que, quanto a esta outra categoria, em todo caso, não há dúvida.

Nota

A Guemará conclui que as três opiniões sobre a identidade do trabalho do mekoshesh não discordam diretamente sobre qual categoria é a duvidosa mencionada no rolo oculto; cada mestre simplesmente tem certeza de que a categoria que ele atribuiu ao mekoshesh — carregar, arrancar ou ajuntar — certamente acarreta pena de morte, e por isso pôde identificá-la com segurança como o trabalho pelo qual ele foi de fato executado.

240Baraita: o mekoshesh era Tzelofchad, segundo Rabi Akiva, por analogia verbal entre dois versículos sobre "o deserto"
Uma baraita; Rabi Akiva
תָּנוּ רַבָּנַן: מְקוֹשֵׁשׁ זֶה צְלָפְחָד, וְכֵן הוּא אוֹמֵר: ״וַיִּהְיוּ בְנֵי יִשְׂרָאֵל בַּמִּדְבָּר וַיִּמְצְאוּ אִישׁ וְגוֹ׳״, וּלְהַלָּן הוּא אוֹמֵר: ״אָבִינוּ מֵת בַּמִּדְבָּר״, מַה לְּהַלָּן צְלָפְחָד, אַף כָּאן צְלָפְחָד — דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא.

Ensinaram os Sábios: o que colhia lenha, este é Tzelofchad; e assim ele diz: "e estavam os filhos de Israel no deserto, e encontraram um homem" etc. (Números 15:32), e mais adiante ele diz: "nosso pai morreu no deserto" (Números 27:3, na petição das filhas de Tzelofchad). Assim como mais adiante o homem mencionado é Tzelofchad, também aqui , o que colhia lenha, é Tzelofchad — palavras de Rabi Akiva.

Nota

Uma baraita identifica o mekoshesh anônimo, mencionado sem nome em Números 15, com Tzelofchad, pai das cinco filhas que mais tarde reivindicam sua herança em Números 27. Rabi Akiva sustenta essa identificação por meio de uma analogia verbal (gezerah shavah): ambos os versículos falam de um homem morrendo "no deserto"; assim como o versículo posterior nomeia explicitamente Tzelofchad como quem morreu no deserto, também o homem anônimo do relato do mekoshesh deve ser identificado com ele.

241Rabi Yehuda ben Beteira adverte Akiva: de um jeito ou de outro, será responsabilizado
Rabi Yehuda ben Beteira
אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוּדָה בֶּן בְּתִירָא: עֲקִיבָא, בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ אַתָּה עָתִיד לִיתֵּן אֶת הַדִּין: אִם כִּדְבָרֶיךָ — הַתּוֹרָה כִּיסַּתּוּ, וְאַתָּה מְגַלֶּה אוֹתוֹ?! וְאִם לָאו — אַתָּה מוֹצִיא לַעַז עַל אוֹתוֹ צַדִּיק.

Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: Akiva, de um jeito ou de outro, no futuro prestarás contas por isto: se é como dizes, a Torá o ocultou, e tu o revelas? E se não é assim, estás difamando aquele justo.

Nota — a folha termina aqui

Rabi Yehuda ben Beteira rejeita a identificação de Rabi Akiva com um argumento em forma de dilema: a Torá, ao narrar o episódio do mekoshesh, deliberadamente omitiu seu nome — um sinal de que quis poupar sua memória, ou a de sua família, da vergonha pública. Se Rabi Akiva estiver certo de que se tratava de Tzelofchad, ele estaria revelando o que o próprio texto sagrado escolheu esconder; e se estiver errado, estaria manchando injustamente a reputação de um homem justo, cuja retidão é atestada pelo fato de suas filhas terem vindo, mais tarde, defender com zelo a herança de seu nome em Israel. Com essa réplica termina a folha; confirmado via Sefaria, 97a — ainda não publicado — deverá retomar o fio da disputa entre Rabi Akiva e os Sábios quanto ao caso do meio da Mishná de abertura do Perek Yud-Alef (lançar de uma propriedade privada a outra, com a via pública entre as duas), cuja razão a Guemará ainda não havia explicado.