Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud · Halachá 3
שַׁבָּת

A carga dos filhos de Kehat e a carga de Elazar

Perek Yud, HaMatznia, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Terceira halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia. A Mishná ensina que quem leva para fora, quer na mão direita, quer na esquerda, no colo ou sobre o ombro, é culpado, pois assim era a carga dos filhos de Kehat, que levavam as coisas sagradas do Mishkan; e que quem leva para fora com o dorso da mão, com o pé, com a boca, com o cotovelo, com a orelha, com o cabelo, no cinto com a abertura para baixo, na barra da túnica, no sapato ou na sandália é isento, porque não levou para fora do modo dos que levam para fora. A guemará traz a pergunta de Rabi Yossi: quem leva no ombro o volume de um figo seco é culpado, e isso é a carga dos filhos de Kehat? E responde com o versículo da incumbência de Elazar, filho de Aharon, que levava o azeite da iluminação na mão direita, o incenso na esquerda, a oferta contínua pendurada no braço e o azeite da unção num pequeno frasco no cinto. Se se disser que Elazar era de pouca importância, Rabi Yehoshua ben Levi mostra que ele era príncipe dos príncipes dos levitas, e Rabi Yehudá beRabi diz que era markal; só que não há grandeza no palácio do rei, como Rabi Levi aprende do kohen que veste as vestes de linho e remove a cinza do altar. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 92a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמּוֹצִיא בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ בְּתוֹךְ חֵיקוֹ אוֹ עַל כְּתֵיפוֹ חַיָיב שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְנֵי קְהָת. לְאַחַר יָדוֹ בְּרַגְלוֹ וּבְפִיו בְּמַרְפְּקוֹ בְּאָזְנוֹ וּבִשְׂעָרוֹ וּבַאֲפוּנְדָּתוֹ וּפִיהָ לְמַטָּה בֵּין אֲפּוּנְדָּתוֹ לַחֲלוּקוֹ וּבִשְׂפַת חֲלוּקוֹ בְּמִנְעָלוֹ וּבְסַנְדָּלוֹ פָּטוּר שֶׁלֹּא הוֹצִיא כְּדֶרֶךְ הַמּוֹצִיאִין:

Mishná: Quem leva para fora, quer na sua mão direita, quer na sua mão esquerda, dentro do seu cheik (colo) ou sobre o seu ombro, é culpado, pois assim era a carga dos filhos de Kehat. Se levou com o dorso da sua mão, com o seu pé e com a sua boca, com o seu cotovelo, com a sua orelha e com o seu cabelo, e na sua afundá (cinto-bolsa) com a abertura para baixo, entre a sua afundá e a sua túnica, e na barra da sua túnica, no seu sapato e na sua sandália, ele é isento, porque não levou para fora do modo como fazem os que levam para fora.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01Rabi Yossi: o figo seco sobre o ombro; a carga de Elazar
Yerushalmi · Shabbat 10:3
ג׳. רִבִּי יוֹסֵי בָעֵי. מֵעַתָּה הוֹצִיא כִּגְרוֹגֶרֶת עַל כְּתֵיפוֹ חַיָיב. וְהֵן מַשָּׂא בְנֵי קְהָת. וְכָתוּב וּפְקֻדַּת אֶלְעָזָר בֶּן אַהֲרֹן הַכֹּהֵן שֶׁמֶן הַמָּאוֹר וּקְטֹרֶת הַסַּמִּים וּמִנְחַת הַתָּמִיד וְשֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה. שֶׁמֶן הַמָּאוֹר בִּימִינוֹ. וּקְטֹרֶת הַסַּמִּים בִּשְׂמֹאלוֹ. וּמִנְחַת הַתָּמִיד שֶׁל יוֹם תְּלוּיָה בִזְרוֹעוֹ. שֶׁמֶן הַמִּשְׁחָה אֵיכָן הָיָה נָתוּן. רִבִּי אָבוּן בְּשֵׁם רִבִּי אֶלְעָזָר. כְּמִין צְלוֹחִית קְטַנָּה הָיָה לוֹ בָּאֲפוּנְדָּתוֹ.

Rabi Yossi perguntou: se é assim, quem levou para fora o volume de uma grogueret (figo seco) sobre o seu ombro é culpado? E acaso essa é a carga dos filhos de Kehat? E está escrito: “E a incumbência de Elazar, filho de Aharon, o kohen (sacerdote): o azeite da iluminação, e o incenso de especiarias, e a minchá (oferta de farinha) contínua, e o azeite da unção”. O azeite da iluminação ia na sua mão direita; o incenso de especiarias, na sua mão esquerda; e a minchá contínua daquele dia, pendurada no seu braço. O azeite da unção, onde estava posto? Rabi Avun disse em nome de Rabi Elazar: ele tinha uma espécie de tzlochit (frasco) pequena na sua afundá.

02Príncipe dos príncipes; não há grandeza no palácio do rei
Yerushalmi · Shabbat 10:3
אִין תֹּאמַר שֶׁהָיָה קָטָן. אָמַר רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוֵי. כְּתוּב וּנְשִׂיא נְשִׂיאֵי הַלֵּוֵי אֶלְעָזָר בֶּן אַהֲרֹן הַכֹּהֵן. דּוּךּ דּוּכָּנִים הָיָה. רִבִּי יְהוּדְה בִּירְבִּי אָמַר. מַרְכָּל הָיָה. תַּנֵּי רִבִּי חִיָיה. וְלָמָּה נִקְרָא שְׁמוֹ מַרְכָּל. שֶׁהָיָה מַר עַל הַכֹּל. אֶלָּא שֶׁאֵין גְּדוּלָּה בְפַּלַטִין שֵׁלְּמֶלֶךְ. אָמַר רִבִּי לֵוִי. כְּתִיב וְלָבַשׁ הַכֹּהֵן מִדּוֹ בַד.. וְהֵרִים אֶת הַדֶּשֶׁן. אֶלָּא שֶׁאֵין גְּדוּלָּה בְפַּלַטִין שֵׁלְּמֶלֶךְ.

Se disseres que ele era alguém pequeno, disse Rabi Yehoshua ben Levi: está escrito: “E o príncipe dos príncipes dos levitas era Elazar, filho de Aharon, o kohen”. Ele era duk (duque) dos dukanim (duques). Rabi Yehudá beRabi disse: ele era markal (administrador do Templo). Rabi Chiya ensinou: e por que o seu nome se chama markal? Porque ele era mar al hakol (senhor sobre tudo). Só que não há grandeza no palatin (palácio) do rei. Disse Rabi Levi: está escrito: “E o kohen vestirá a sua veste de linho… e removerá a cinza”; só que não há grandeza no palatin do rei.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 10:3 da Mishná avulsa, que vai de “quem leva para fora, quer na sua mão direita, quer na sua esquerda” até “porque não levou para fora do modo dos que levam para fora”. A Mishná seguinte, Shabbat 10:4, “quem tem a intenção de levar para fora diante de si, e a coisa lhe vai para trás”, é a da halachá 10:4. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “le’achar yado”, “com o dorso da sua mão”, onde a Mishná avulsa escreve “kil’achar yado”, “como com o dorso da sua mão”; escreve “bereglo uvefiv bemarpeko”, com o vav antes de “boca”, onde a Mishná avulsa escreve “bereglo, befiv uvemarpeko”, com o vav antes de “cotovelo”; escreve “uva’afundato” e “bein afundato”, com álef no início, onde a Mishná avulsa escreve “uvefundato” e “bein pundato”; e “uvesandalo”, “e na sua sandália”, onde a Mishná avulsa escreve “besandalo”. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização, como “ketefo” com yud ou sem ele e “chayav” com dois yud. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A seção 01 traz a pergunta de Rabi Yossi e a resposta tirada da incumbência de Elazar; a seção 02 mostra que Elazar não era de pouca importância e termina com a palavra de Rabi Levi.

Referências conferidas. A Mishná diz que levar na mão, no colo e no ombro era a carga dos filhos de Kehat, porque “aos filhos de Kehat não deu carros, pois o serviço do santuário estava sobre eles; no ombro o levavam” (Bamidbar 7:9). O versículo citado por Rabi Yossi é Bamidbar 4:16; o de Rabi Yehoshua ben Levi, Bamidbar 3:32; o de Rabi Levi, Vayikra 6:3, de que o Yerushalmi cita só duas partes, “e o kohen vestirá a sua veste de linho” e “e removerá a cinza”. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 92a, e a guemará começa na mesma folha: Rabi Elazar diz que quem leva para fora uma carga acima de dez palmos é culpado, “pois assim era a carga dos filhos de Kehat”, e a guemará aprende a altura dessa carga do Mishkan e da arca; segue a palavra de Rav em nome de Rabi Chiya sobre quem leva uma carga sobre a cabeça, como fazem os homens de Hutzal, que termina no início de 92b. Em 92b, o Bavli traz a baraita sobre quem leva moedas na sua punda com a abertura para baixo, que Rabi Yehudá declara culpado e os sábios isentam; a mesma discussão está na Tosefta Shabbat 9:8, na edição Lieberman (10:4 na numeração do Sefaria). A explicação do nome markal, “por que se chama o seu nome amarkal? Porque é senhor sobre tudo”, está na Tosefta Shekalim 2:15 (a mesma numeração na edição Lieberman e no Sefaria), atribuída ali a Rabi Yehudá, e não a Rabi Chiya; e o Bavli, em Horayot 13a, explica “amarkal” em nome de Rav Chisda como “amar kula”, “o que diz tudo”.

Observações de leitura. Na seção 01, “meata”, “se é assim”, introduz a consequência que Rabi Yossi tira da Mishná: se o ombro é o modo de levar dos filhos de Kehat, quem leva no ombro uma coisa tão pequena como um figo seco também seria culpado; e “vehen massá benei Kehat” lê-se como pergunta, porque os filhos de Kehat levavam coisas grandes. A resposta, “e está escrito”, não se diz de quem é; entendemos que vem mostrar que Elazar, que era dos filhos de Kehat, também levava coisas pequenas, uma em cada mão, uma no braço e uma no cinto. “Afundá”, aqui e na Mishná, é o cinto oco em que se levavam moedas. Na seção 02, “se disseres que ele era pequeno” entende-se como objeção: talvez Elazar fosse de pouca importância, e por isso não se aprenda dele o modo de levar dos filhos de Kehat; Rabi Yehoshua ben Levi responde com o versículo que o chama príncipe dos príncipes dos levitas. “Duk dukanim” é o latim “dux”, chefe, e a frase diz que ele era chefe de chefes. “Markal” é o título de um administrador do Templo, e Rabi Chiya o explica como “mar al hakol”, “senhor sobre tudo”. A frase “só que não há grandeza no palácio do rei” entende-se como a razão por que um homem tão grande levava coisas com as próprias mãos: no palácio do Rei, isto é, no serviço de Deus, ninguém é grande demais para servir; e Rabi Levi traz a prova do kohen, que veste as vestes de linho para remover a cinza do altar. O hebraico do Sefaria tem dois pontos depois de “mido vad”, onde o versículo foi abreviado; conservamo-los no hebraico e, no português, marcamos o corte com reticências.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “afundá” por “money belt”, do latim “funda”, e mantivemos o termo hebraico com uma glosa. Ele traduz “Rabi Yehudá beRabi” por “the great Rebbi Jehudah”; mantivemos o nome como está no hebraico, como em outros tratados deste site. Ele lê “minchat hatamid” como a oferta diária do kohen gadol, de Vayikra 6:12–16, onde se diz “minchá tamid” (Vayikra 6:13); é leitura dele, e a guemará não o diz. Ele escreve “Rebbi Abun” e “Rebbi Eleazar”; mantivemos “Rabi Avun”, como nas halachot anteriores deste tratado, e “Rabi Elazar”, que é o que está no hebraico.