Quarta halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia. A Mishná ensina que quem tem a intenção de levar uma coisa para fora diante de si, e ela lhe vai para trás, é isento; e quem tem a intenção de levá-la atrás de si, e ela lhe vai para diante, é culpado. Em verdade, a mulher que se cinge com o sinar, quer a coisa esteja à sua frente, quer atrás, é culpada, pois o sinar costuma girar; e Rabi Yehudá diz que o mesmo vale para os que recebem bilhetes. A guemará traz a Mishná de Keritot, em que Rabi Shimon HaShezuri e Rabi Shimon dizem que Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua só discordaram sobre o que é proibido sob dois nomes; e Rabi Ila, em nome de Rabi Elazar, explica cada cláusula da Mishná segundo uma das opiniões sobre essa disputa, e depois diz que são tanaim. Por fim, Rabi Eliezer ensina que todo lugar em que se ensinou “em verdade” é halachá leMoshé miSinai. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 92b.
Mishná: Quem tem a intenção de levar uma coisa para fora diante de si, e ela lhe vai para trás de si, é isento. Se tinha a intenção de levá-la atrás de si, e ela lhe vai para diante de si, é culpado. Em verdade, a mulher que se cinge com o sinar (avental cingido), quer a coisa esteja à sua frente, quer atrás dela, é culpada, pois o sinar costuma girar. Rabi Yehudá diz: também com os que recebem pitkin (bilhetes) é assim.
Lá, na Mishná de Keritot, ensinamos: “Rabi Shimon HaShezuri e Rabi Shimon dizem: não discordaram sobre uma coisa que é proibida sob um só nome, que por ela se é culpado. Sobre o que discordaram? Sobre uma coisa que é proibida sob dois nomes, pois Rabi Eliezer obriga a trazer uma chatat (oferenda pelo pecado) e Rabi Yehoshua isenta”. Rabi Ila disse em nome de Rabi Elazar: a primeira cláusula é segundo quem diz que discordaram sobre dois nomes. Mas segundo quem diz que discordaram também sobre um só nome, aqui são dois nomes, e ele é isento. “Se tinha a intenção de levá-la atrás de si, e ela lhe vai para diante de si, é culpado”: isto é segundo quem diz que discordaram sobre um só nome. Mas segundo quem diz que discordaram sobre dois nomes, aqui é um só nome, e ele é culpado.
Rabi Ila disse em nome de Rabi Elazar: são tanaim (mestres da Mishná que divergem). Quem diz lá “culpado”, também aqui diz “culpado”; quem diz lá “isento”, também aqui, “isento”.
“Em verdade” da Mishná: disse Rabi Eliezer: todo lugar em que ensinaram “em verdade” é halachá leMoshé miSinai (lei transmitida a Moshé no Sinai).
Esta é a quarta halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 10:4 da Mishná avulsa, que vai de “quem tem a intenção de levar para fora diante de si” até “também os que recebem pitkin”. A Mishná seguinte, Shabbat 10:5, “quem leva para fora um pão para o domínio público”, é a da halachá 10:5. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “be’emet ha’ishá”, “em verdade, a mulher”, onde a Mishná avulsa e o Bavli escrevem “be’emet amru ha’ishá”, “em verdade disseram: a mulher”; escreve “basinar”, “com o sinar”, onde a Mishná avulsa escreve “besinar”, “com um sinar”; e termina “af bimkablei fitkin ken”, “também com os que recebem pitkin é assim”, onde a Mishná avulsa escreve só “af mekablei fitkin”, “também os que recebem pitkin”. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização, como “hamitkaven” com yud ou sem ele e “chayav” com dois yud. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A seção 01 traz a Mishná de Keritot, a explicação de Rabi Ila em nome de Rabi Elazar e a sua segunda explicação, de que são tanaim; a seção 02, a palavra sobre “em verdade”. As duas explicações formam juntas um único segmento no texto do Sefaria, e por isso estão na mesma seção.
Referências conferidas. O “lá ensinamos” da seção 01 é a Mishná Keritot 4:3, que trata de quem tinha a intenção de fazer uma coisa e fez outra, onde Rabi Eliezer obriga a trazer uma chatat e Rabi Yehoshua isenta. A Mishná avulsa escreve “Rabi Shimon Shezuri”, sem o artigo, e “mishum shem echad”, “por causa de um só nome”, onde o Yerushalmi escreve “mishem echad”; e continua com a palavra de Rabi Yehudá sobre quem tinha a intenção de colher figos e colheu uvas, que o Yerushalmi não cita. No Bavli, a Mishná e a guemará estão em Shabbat 92b. Ali também se pergunta por que quem tinha a intenção de levar diante de si e levou atrás é isento, e quem tinha a intenção de levar atrás e levou diante é culpado, se em ambos os casos não se fez o que ele pensou; e Rabi Elazar responde “tavrah, mi sheshaná zo lo shaná zo”, “quebra-a: quem ensinou esta não ensinou aquela”, que corresponde ao “são tanaim” da seção 01. Rava e Rav Ashi explicam de outro modo: quem pensou levar diante de si pensou numa guarda melhor e obteve uma guarda pior, e quem pensou levar atrás obteve uma guarda melhor do que pensou. Na mesma folha, sobre “em verdade disseram”, o Bavli traz “tana: kol be’emet halachá hi”, “ensinou-se: todo ‘em verdade’ é halachá”, numa passagem que o texto do Sefaria põe entre colchetes; e, sobre os que recebem pitkin, “tana: pois os escribas do reino fazem assim”. Em Bava Metzia 60a, sobre outra Mishná que começa com “em verdade disseram”, Rabi Elazar diz: “isto quer dizer que todo ‘em verdade disseram’ é halachá”. A palavra da seção 02 está também no Yerushalmi Kilayim 2:1 e Terumot 2:1, com as mesmas palavras, “todo lugar em que ensinaram em verdade é halachá leMoshé miSinai”, mas ali dita por “Rabi Lazar”, isto é, Rabi Elazar.
Observações de leitura. O “sinar” é uma peça que a mulher cinge ao corpo, e a Mishná diz que, quer ela ponha a coisa à frente, quer atrás, é culpada, porque o sinar costuma girar e a coisa pode ir de um lado para o outro; por isso a mudança de lugar não conta como mudança da sua intenção. “Pitkin” é o grego “pittakion”, bilhete ou nota; os que recebem pitkin são os mensageiros que levam bilhetes. Na seção 01, a palavra “nome” designa a categoria da proibição: levar diante de si e levar atrás de si seriam, segundo uma leitura, um só nome, porque ambos são o trabalho de levar para fora; segundo outra, dois nomes. O texto de Rabi Ila é muito breve, e lemo-lo assim: a primeira cláusula, que isenta, concorda com quem diz que Rabi Eliezer e Rabi Yehoshua só discordaram sobre dois nomes, porque ali Rabi Yehoshua isenta; e mesmo segundo quem diz que discordaram também sobre um só nome, aqui são dois nomes, e ele é isento. A segunda cláusula, que obriga, é citada segundo quem diz que discordaram sobre um só nome, e então segue Rabi Eliezer; e segundo quem diz que só discordaram sobre dois nomes, aqui é um só nome, e ele é culpado segundo todos. Ainda na seção 01, Rabi Ila em nome de Rabi Elazar diz que as duas cláusulas vêm de tanaim diferentes: quem diz lá, na disputa de Keritot, “culpado”, também aqui diria “culpado” nos dois casos, e quem diz lá “isento” também aqui diria “isento”. Na seção 02, o hebraico do Sefaria diz “Rabi Eliezer”, e seguimo-lo, embora as passagens paralelas de Kilayim e Terumot tragam “Rabi Lazar”. No hebraico do Sefaria, o nome “Shimon” de Rabi Shimon HaShezuri está entre colchetes, como acréscimo dos editores; a Mishná de Keritot traz o nome, e no português escrevemo-lo sem colchetes.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer identifica corretamente a citação como a Mishná Keritot 4:3 e escreve “Rebbi Simeon from Shezur”; mantivemos “Rabi Shimon HaShezuri”, como está no hebraico. Ele traduz a segunda frase de Rabi Ila como “but not following him who said”, lendo nela uma negação que o hebraico não tem; traduzimos “mas segundo quem diz”, e a explicação ficou nesta nota. Ele escreve “Rebbi Ila” e “Rebbi Eleazar”; mantivemos “Rabi Ila” e “Rabi Elazar”, como nas halachot anteriores deste tratado. Na seção 02 ele traduz “Rebbi Eliezer”, como o hebraico, e observa que nas outras duas citações desta palavra o transmissor é Rabi Elazar.