Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Yud (HaMatznia)
מַשָּׂא בְּנֵי קְהָת

Conclui-se a objeção do furto da bolsa; Rava e Abaye repetem, e depois trocam, suas posições sobre a mostarda e sobre transportar frutas na mão ou num recipiente; abre-se uma nova Mishná sobre as formas de transporte; e discute-se a medida de dez palmos, a partir do transporte dos filhos de Kehat — até o ensinamento, deixado em aberto, sobre carregar peso na cabeça e os homens de Hutzal

Shabbat 92a abre completando a resposta interrompida no fim de 91b sobre o furto de uma bolsa em Shabat, traz a versão paralela de Rava e Abaye sobre a cesta de mostarda, mostra que ambos trocam de posição noutro contexto e resolve a dificuldade; abre então uma nova Mishná do Perek Yud sobre as formas de transporte que responsabilizam ou isentam; e discute, a partir do transporte dos filhos de Kehat, a medida de dez palmos para quem carrega um peso pelo ar — terminando em aberto, no meio do ensinamento sobre carregar peso na cabeça, prosseguindo em 92b.

92a abre completando a resposta que ficara interrompida no fim de 91b, no meio da pergunta de Rav Beivai bar Abaye sobre o lugar da costura da bolsa furtada: a Guemará explica que se trata de um lingote de moedas, comprido como os pepinos, de modo que sempre resta parte dele do lado de dentro até que a bolsa saia por inteiro; e, quanto à nova objeção de que as alças da bolsa poderiam ser usadas para puxar a sua abertura e retirar o dinheiro, responde-se que ou não há alças, ou elas estão enroladas sobre a própria bolsa, de modo que não podem ser usadas sem que a bolsa inteira seja transportada — encerrando, assim, a discussão da bolsa furtada iniciada em 91b. A Guemará traz então a versão de Rava, que repete quase literalmente a posição de Chizkiya sobre a cesta de mostarda, e a de Abaye, que repete a de Rabi Yochanan; mas observa que, noutro contexto — a respeito de quem transporta frutas ao domínio público na mão ou dentro de um recipiente —, Abaye e Rava trocam de posição um com o outro, o que gera uma dificuldade interna para cada um deles. A solução vem por meio da inversão de uma das atribuições, apoiada numa Mishná sobre o dono de casa que estende a mão para fora: a diferença está em transportar acima ou abaixo de três palmos do chão. Encerrada essa digressão, abre-se uma nova Mishná do Perek Yud: quem transporta um item na mão direita, na esquerda, no colo ou sobre os ombros é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat; mas quem o transporta de modo incomum — no dorso da mão, com o pé, na boca, no cotovelo, na orelha, no cabelo, no cinto oco com a abertura para baixo, entre o cinto e a túnica, na barra da túnica, no sapato ou na sandália — é isento, por não ter transportado à maneira costumeira dos que transportam. A Guemará que se segue discute, a partir dessa Mishná, a medida de dez palmos de altura acima do chão que torna alguém responsável mesmo carregando pelo ar, sem apoiar sobre o ombro: Rabi Elazar deriva essa medida do transporte dos filhos de Kehat, comparando o altar ao Tabernáculo, ambos de dez cúbitos; a Guemará então explica como se sabe a própria altura do Tabernáculo, e deriva daí a altura dos levitas, aplicando a regra de que qualquer carga erguida sobre varas fica um terço acima e dois terços abaixo dos ombros dos carregadores — o que a eleva a mais de dez palmos do chão; ou, alternativamente, deriva a mesma medida da Arca, cuja altura, somada à do seu propiciatório, também chega a dez palmos; e considera, e rejeita, a possibilidade de derivar a altura diretamente de Moshe, que era de estatura excepcional. Por fim, a Guemará traz um ensinamento de Rav em nome de Rabi Chiya sobre quem carrega um peso sobre a cabeça em Shabat — a partir do costume dos homens de Hutzal —, que passa por duas reformulações sucessivas, cada uma corrigindo uma objeção à anterior; a frase fica cortada exatamente no meio da segunda reformulação, prosseguindo diretamente em 92b.

Nota — a folha completa a resposta interrompida em 91b

91b terminara no meio da resposta da Guemará à objeção de Rav Beivai bar Abaye sobre o furto de uma bolsa em Shabat: a Guemará já havia explicado que se tratava de alguém que a transportou pela sua parte de baixo, e fora interrompida no meio da pergunta sobre o lugar da costura lateral — "וְהָאִיכָּא מְקוֹם חֲלָמָה…" ("mas não há ali o lugar da costura…"). Confirmado via Sefaria, 92a abre completando exatamente essa pergunta e sua resposta.

Resposta final à objeção da bolsa furtada: o lingote, e as alças enroladas · מְקוֹם חֲלָמָה

149Resposta: trata-se de um lingote comprido; nova objeção das alças, respondida por não haver alças, ou por estarem enroladas sobre a bolsa
A Guemará (conclusão da resposta iniciada em 91b)
דְּאִי בָּעֵי מְפַקַּע לֵיהּ וְשָׁקֵיל! בְּנִסְכָּא. וְכֵיוָן דְּאִיכָּא שְׁנָצִין, מַפֵּיק לֵיהּ עַד פּוּמֵּיהּ וְשָׁרֵי וְשָׁקֵיל, וּשְׁנָצִין אֲגִידִי מִגַּוַּאי! דְּלֵיכָּא שְׁנָצִין. וְאִיבָּעֵית אֵימָא דְּאִית לֵיהּ, וּמְכָרְכִי עִילָּוֵיהּ.

"…mas não há ali o lugar da costura, pois, se ele quisesse, poderia rasgá-la ali e retirar o dinheiro"! Responde a Guemará: trata-se de um lingote (o dinheiro estava fundido numa peça comprida, como os pepinos, de modo que sempre resta parte dela presa do lado de dentro). A Guemará objeta ainda: e, já que há alças (um cordão que fecha a boca da bolsa), ele a puxa até a sua abertura, desata e retira o dinheiro, e as alças continuam presas do lado de dentro! Responde a Guemará: trata-se de um caso em que não há alças. E, se quiseres, dize: ele até tem alças, mas elas estão enroladas sobre a própria bolsa , de modo que não podem ser usadas sem que a bolsa inteira seja transportada.

Nota

92a abre completando a resposta deixada em aberto no fim de 91b, encerrando a objeção de Rav Beivai bar Abaye sobre o furto de uma bolsa em Shabat. A pergunta era: mesmo que o dinheiro fique preso pelo fundo da bolsa, não haveria ainda o lugar da costura lateral, por onde se poderia rasgar e alcançar o dinheiro antes que a bolsa inteira saísse? A Guemará responde que se trata de um lingote — o dinheiro estava fundido numa única peça comprida, como os pepinos e abóboras do caso anterior, de modo que, enquanto a bolsa inteira não sai, sempre resta parte do lingote presa do lado de dentro, tornando irrelevante o rasgo na costura. Levanta-se então uma nova dificuldade: e as alças que fecham a boca da bolsa? Já que elas permitem puxar a abertura para perto de si mesmo enquanto o fundo ainda está preso dentro, não poderia o ladrão desatá-las e retirar o dinheiro por ali, completando o furto antes de Shabat? A Guemará responde com duas alternativas: ou se trata de uma bolsa sem alças, ou, havendo alças, elas estão enroladas sobre a própria bolsa, de modo que não podem ser usadas para puxar a abertura sem que a bolsa inteira seja transportada primeiro. Com isso, encerra-se a discussão da bolsa furtada.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mefake'a", "benischa", "shenatzin", "mefik lei ad pumei" e "mecharchi ilavei"
מפקע - קורע: בנסכא - שהן חתיכות ארוכות וכל זמן שמקצתן בפנים לא קנה: ופרכינן וכיון דאיכא שנצין - רצועות שקורין אשטולד"ץ: מפיק ליה עד פומיה ושקיל - וכיון דמצי למשקלינהו קני ולענין שבת לא מיחייב עד דמפיק להו לשנצין דעל ידו הוא אגוד לרה"י שהרי לא יצאו: ומכרכי עילויה - שאין יכול להוציאו בלא שנצין:

"'Rasgar'" — o verbo "romper". "'Com um lingote'" — pois são peças compridas, e enquanto parte delas está do lado de dentro, ele não as adquiriu. E perguntamos: "'já que há alças'" — tiras que se chamam em francês antigo "estoldetz". "'Ele a puxa até a sua abertura e retira'" — e, já que ele pode retirá-las , o dinheiro, ele o adquire para fins de furto; mas, quanto a Shabat, não é responsável até que retire também as alças, pois, por meio da sua mão, o conjunto está preso ao domínio privado, já que as alças ainda não saíram. "'Elas estão enroladas sobre ela'" — pois assim ele não pode retirá-la sem tirar também as alças.

Rava e Abaye repetem, e depois trocam, suas posições · קָם אַבָּיֵי בְּשִׁיטְתֵיהּ דְּרָבָא

150Rava repete a posição de Chizkiya sobre a mostarda; Abaye repete a de Rabi Yochanan — mas, noutro contexto, cada um assume a posição do outro
Rava; Abaye
וְכֵן אָמַר רָבָא: לֹא שָׁנוּ אֶלָּא בְּקוּפָּה מְלֵאָה קִישּׁוּאִין וְדִלּוּעִין, אֲבָל מְלֵאָה חַרְדָּל — חַיָּיב. אַלְמָא קָסָבַר אֶגֶד כְּלִי לָא שְׁמֵיהּ אֶגֶד. אַבָּיֵי אֲמַר: אֲפִילּוּ מְלֵאָה חַרְדָּל — פָּטוּר, אַלְמָא קָסָבַר אֶגֶד כְּלִי שְׁמֵיהּ אֶגֶד. קָם אַבָּיֵי בְּשִׁיטְתֵיהּ דְּרָבָא, קָם רָבָא בְּשִׁיטְתֵיהּ דְּאַבָּיֵי, וְרָמֵי דְּאַבָּיֵי אַדְּאַבָּיֵי, וְרָמֵי דְּרָבָא אַדְּרָבָא.

E assim disse Rava: não ensinaram isso senão numa cesta cheia de pepinos e abóboras, mas se estava cheia de mostarda — é responsável. Aparentemente, Rava sustenta que a união proporcionada por um recipiente (egued kli) não se chama união. Abaye disse: mesmo se estava cheia de mostarda — é isento. Aparentemente, ele sustenta que a união proporcionada por um recipiente se chama união. Mas, noutro contexto, Abaye assumiu a posição de Rava, e Rava assumiu a posição de Abaye; e por isso se contrapõe uma afirmação de Abaye a outra afirmação de Abaye, e uma afirmação de Rava a outra afirmação de Rava.

Nota

A Guemará traz agora, independentemente da disputa entre Chizkiya e Rabi Yochanan já registrada em 91b, uma versão paralela da mesma disputa protagonizada por Rava e Abaye: Rava repete quase literalmente a posição de Chizkiya, limitando a regra da cesta aos pepinos e abóboras e responsabilizando quem tem mostarda, por sustentar que a união do recipiente não é uma união real; Abaye repete a de Rabi Yochanan, isentando mesmo no caso da mostarda, por sustentar que a união do recipiente é real. Mas a Guemará observa que, noutro contexto — a respeito de quem transporta frutas ao domínio público, na mão ou dentro de um recipiente —, os papéis se invertem: é como se Abaye tivesse assumido ali o raciocínio que antes pertencia a Rava, e Rava o que antes pertencia a Abaye. Isso gera uma dificuldade interna para cada um dos dois sábios, que a Guemará passa a expor.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kam Abaye beshitatei"
קם אביי בשיטתיה כו' - שניהם חזרו בדבריהם והחליפום:

"'Abaye assumiu a posição de Rava'" etc. — ambos retrataram suas palavras no outro contexto e as trocaram entre si.

151A citação: sobre quem transporta frutas ao domínio público na mão ou num recipiente, Abaye e Rava se contradizem entre si
A Guemará (citação)
דְּאִיתְּמַר: הַמּוֹצִיא פֵּירוֹת לִרְשׁוּת הָרַבִּים, אַבָּיֵי אָמַר: בַּיָּד — חַיָּיב, בִּכְלִי — פָּטוּר. וְרָבָא אָמַר: בַּיָּד — פָּטוּר, בִּכְלִי — חַיָּיב!

Pois foi dito: quanto a quem transporta frutas para o domínio público, Abaye disse: se as carrega na mão — é responsável; se as carrega num recipiente — é isento. E Rava disse: se as carrega na mão — é isento; se as carrega num recipiente — é responsável!

Nota

A Guemará cita a fonte da dificuldade: a respeito de quem transporta frutas da propriedade privada ao domínio público, Abaye ensina que, carregando na própria mão, é responsável assim que as frutas cruzam para fora, mesmo que o seu corpo continue no domínio privado — pois não se diz que a prisão do próprio corpo conta como uma união que retenha as frutas; mas, num recipiente, é isento enquanto parte do recipiente ainda estiver dentro de casa. Rava ensina o oposto: na mão, é isento, pois a prisão do próprio corpo conta como união, já que a mão segue atrás do corpo; num recipiente, é responsável. Cada posição, isoladamente, é compreensível — mas, comparada à disputa anterior sobre a cesta de mostarda, revela que Abaye e Rava trocaram de raciocínio.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "bayad chayav", "bichli patur" e "kashya atroyhu"
ביד חייב - משיצאו הפירות ואע"פ שגופו ברשות היחיד ולא אמרינן אגד גופו שמיה אגד: בכלי פטור - כל זמן שיש מקצת הכלי בביתו: ביד פטור - דאגד גופו שמיה אגד דידו בתר גופו גרירא בכלי חייב וקשיא אתרוייהו למה שהחליפו שיטתן:

"'Na mão — é responsável'" — assim que as frutas saíram, ainda que o seu corpo esteja ainda no domínio privado, pois não dizemos que a prisão do próprio corpo se chama união. "'Num recipiente — é isento'" — enquanto houver parte do recipiente ainda em sua casa. "'Na mão — é isento'" — pois a prisão do próprio corpo se chama união, já que a sua mão segue atrás do seu corpo. "'Num recipiente — é responsável'" — e isto é difícil para ambos, quanto ao motivo pelo qual trocaram as suas posições.

152Resolução: inverte-se uma das atribuições; a Mishná sobre o dono de casa que estende a mão distingue acima e abaixo de três palmos
A Guemará; a Mishná (Eruvin)
אֵיפוֹךְ: בַּיָּד — חַיָּיב. וְהָתְנַן: פָּשַׁט בַּעַל הַבַּיִת אֶת יָדוֹ לַחוּץ, וְנָטַל הֶעָנִי מִתּוֹכָהּ אוֹ שֶׁנָּתַן לְתוֹכָהּ וְהִכְנִיס — שְׁנֵיהֶם פְּטוּרִין. הָתָם — לְמַעְלָה מִשְּׁלֹשָׁה, הָכָא — לְמַטָּה מִשְּׁלֹשָׁה.

Responde a Guemará: inverte-se a atribuição: na mão — é responsável , segundo esta outra opinião. Mas não ensinamos numa Mishná: o dono de casa que estendeu a mão para fora, e o pobre tomou alimento de dentro dela, ou o dono de casa pôs alimento dentro dela e o pobre o fez entrar — ambos são isentos? Ali , na Mishná, trata-se de acima de três palmos do chão; aqui , no nosso caso, trata-se de abaixo de três palmos.

Nota

A Guemará resolve a dificuldade invertendo uma das atribuições: em vez de manter que Rava isenta quem carrega na mão, entende-se que essa opinião responsabiliza — eliminando assim a contradição interna. Mas essa mesma posição de "na mão — é responsável" é desafiada por uma Mishná conhecida (de Eruvin), segundo a qual, quando um dono de casa estende a mão para fora de sua janela e um pobre do lado de fora toma algo dela, ou vice-versa, ambos são isentos — o que pareceria contradizer a regra de que a mão, uma vez fora, já responsabiliza. A Guemará distingue: aquela Mishná trata de uma mão estendida acima de três palmos do chão, onde o objeto na mão, por ainda estar no ar, não é considerado como tendo repousado; o nosso caso, porém, trata de uma mão abaixo de três palmos do chão, onde, pela regra de que "abaixo de três palmos é como se estivesse pousado", o objeto já é tratado como tendo repousado, gerando a responsabilidade.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hatam lemala mishlosha" e "vehacha lematah mishlosha"
התם למעלה מג' - וטעמא משום דלא נח ולא משום אגד גופה: והכא למטה מג' - דליכא למיפטרי' משום הנחה דכמונח דמי:

"'Ali, acima de três'" — e o motivo da isenção é que o objeto não repousou, e não por causa da prisão do corpo. "'E aqui, abaixo de três'" — pois ali não há como isentar por causa da falta de repouso, já que abaixo de três palmos é considerado como se já estivesse pousado.

Nova Mishná: as formas de transporte que responsabilizam ou isentam · הַמּוֹצִיא בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ

153A Mishná: transportar na mão direita, esquerda, no colo ou no ombro responsabiliza, como os filhos de Kehat; de modo incomum, isenta
Mishná
מַתְנִי׳ הַמּוֹצִיא, בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ, בְּתוֹךְ חֵיקוֹ אוֹ עַל כְּתֵיפָיו — חַיָּיב, שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְּנֵי קְהָת. כִּלְאַחַר יָדוֹ, בְּרַגְלוֹ, בְּפִיו וּבְמַרְפְּקוֹ, בְּאׇזְנוֹ וּבִשְׂעָרוֹ, וּבְפוּנְדָּתוֹ וּפִיהָ לְמַטָּה, בֵּין פּוּנְדָּתוֹ לַחֲלוּקוֹ, וּבִשְׂפַת חֲלוּקוֹ, בְּמִנְעָלוֹ, בְּסַנְדָּלוֹ — פָּטוּר, שֶׁלֹּא הוֹצִיא כְּדֶרֶךְ הַמּוֹצִיאִין.

Quem transporta algo de casa em Shabat, quer na sua mão direita, quer na esquerda, dentro do seu colo ou sobre os seus ombros — é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat (que carregavam os utensílios do Tabernáculo). Mas quem o transporta no dorso da sua mão, com o seu pé, na sua boca e no seu cotovelo, na sua orelha e no seu cabelo, no seu cinto oco com a abertura para baixo, entre o seu cinto e a sua túnica, na barra da sua túnica, no seu sapato, na sua sandália — é isento, porque não transportou à maneira dos que costumam transportar.

Nota

Continuando o Perek Yud, abre-se uma nova Mishná que lista as formas costumeiras e incomuns de transportar um item em Shabat. As formas costumeiras — na mão direita, na esquerda, no colo (a dobra da roupa junto ao peito) ou sobre os ombros — responsabilizam plenamente, e a Mishná traz como precedente o transporte dos utensílios sagrados pelos filhos de Kehat, no deserto, que os carregavam exatamente desse modo. Já as formas incomuns — no dorso da mão (em vez da palma), com o pé, presa na boca, no cotovelo, na orelha, entrelaçada no cabelo, dentro do cinto oco mas com a abertura virada para baixo (o que não é a maneira usual de guardar algo nele), entre o cinto e a túnica, na barra inferior da túnica, dentro do sapato ou da sandália — isentam, porque a definição da obra proibida de "transportar" pressupõe o modo costumeiro pelo qual as pessoas efetivamente transportam objetos; um transporte tecnicamente realizado, mas por um meio incomum, não configura a transgressão.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sheken massa Bnei Kehat", "marpeko", "pundato" e "sfat chaluko"
מתני' שכן משא בני קהת - בכתף ישאו (במדבר ז׳:ט׳) וימין ושמאל וחיק אורח ארעא ובשם רבינו יצחק בר יהודה מצאתי שאמר בשם רב האי שמפורש בהש"ס ירושלמי ופקודת אלעזר בן אהרן הכהן שמן המאור וקטורת הסמים ומנחת התמיד ושמן המשחה [שמן] אחד בימין [ושמן] אחד בשמאל והקטורת בחיקו והחביתין בכתף: מרפקו - איישיל"א: פונדתו - אזור חלול: ופיה למטה - אין דרך הוצאה בכך אבל פיה למעלה דרך הוצאה: שפת חלוקו - שפה התחתונה:

"'Pois assim era o transporte dos filhos de Kehat'" — "sobre o ombro carregarão" (Números 7:9); e a mão direita, a esquerda e o colo são o modo costumeiro de qualquer pessoa. E em nome de Rabeinu Yitzchak bar Yehuda encontrei que disse, em nome de Rav Hai, que se explica no Talmude de Jerusalém, quanto ao versículo "e o encargo de Elazar, filho de Aharon, o sacerdote: o óleo da iluminação, o incenso dos aromas, a oferenda contínua e o óleo da unção" — um óleo na direita, um óleo na esquerda, o incenso no colo, e os jarros no ombro. "'No seu cotovelo'" — em francês antigo, "aisselle". "'O seu cinto'" — um cinto oco. "'Com a abertura para baixo'" — não é este o modo costumeiro de transportar; mas com a abertura para cima, é o modo costumeiro de transportar. "'A barra da sua túnica'" — a barra de baixo.

A Guemará: a medida de dez palmos, a partir do transporte dos filhos de Kehat · לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים

154Rabi Elazar: quem carrega pelo ar, acima de dez palmos, é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat — comparando o altar ao Tabernáculo
Rabi Elazar
גְּמָ׳ אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר: הַמּוֹצִיא מַשּׂאוֹי לְמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה טְפָחִים — חַיָּיב, שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְּנֵי קְהָת. וּמַשָּׂא בְּנֵי קְהָת מְנָלַן? דִּכְתִיב: ״עַל הַמִּשְׁכָּן וְעַל הַמִּזְבֵּחַ סָבִיב״ — מַקִּישׁ מִזְבֵּחַ לְמִשְׁכָּן: מָה מִשְׁכָּן עֶשֶׂר אַמּוֹת, אַף מִזְבֵּחַ עֶשֶׂר אַמּוֹת.

Guemará. Disse Rabi Elazar: quem transporta um peso pelo ar, na sua mão, e não sobre o ombro, acima de dez palmos do chão — é responsável, pois assim era o transporte dos filhos de Kehat. E de onde sabemos que o transporte dos filhos de Kehat era acima de dez palmos? Pois está escrito: "sobre o Tabernáculo e sobre o altar, ao redor" (Números 4:26)o versículo compara o altar ao Tabernáculo: assim como o Tabernáculo tinha dez cúbitos de altura, também o altar tinha dez cúbitos.

Nota

A Guemará volta à Mishná para estabelecer, a partir dela, uma nova medida: quem transporta um objeto pelo ar — segurando-o na mão, erguido, sem apoiá-lo sobre o ombro ou o corpo — só é responsável se o transporte ocorrer acima de dez palmos do chão; abaixo dessa altura, aplicam-se outras regras (como a de que abaixo de três palmos já se considera pousado). Rabi Elazar deriva essa medida do próprio transporte dos filhos de Kehat, mencionado na Mishná: o versículo que descreve as cortinas do pátio ao redor "do Tabernáculo e do altar" justapõe os dois, ensinando que o altar, tal como o Tabernáculo, tinha dez cúbitos de altura — e, sendo carregado pelos filhos de Kehat sobre os ombros por meio de varas, isso implica que ele era erguido bem acima de dez palmos do chão durante o transporte.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hamotzi masoi lemala miasara", "asher al hamishkan" e "af mizbeach"
גמ' המוציא משאוי למעלה מי' - מעבירו באויר בידו ואינו על כתפו וגבוה מן הארץ [עשרה] קאמר דאי במונח על כתפו מתניתין היא והא דתנן (לקמן שבת דף ק.) הזורק ד' אמות בכותל למעלה מעשרה כזורק באויר אלמא אין למעלה מעשרה רשות הרבים דווקא זורק אבל מעביר חייב דיליף מבני קהת במשכן: אשר על המשכן וגו' - בקלעי החצר משתעי: אף מזבח - גובהו י' אמות והוצרך לסובבו בקלעים של י' אמות רחב ומה אני מקיים וג' אמות קומתו (שמות כ״ז:א׳) משפת סובב ולמעלה ומה אני מקיים וקומה ה' דקלעים משפת מזבח ולמעלה כך מפורש בזבחים (דף נט:) שהיו הקלעים ט"ו אמות:

Guemará. "'Quem transporta um peso acima de dez'" — trata-se de transportá-lo pelo ar, na sua mão, e não sobre o seu ombro; e "alto do chão dez palmos" é o que ele diz, pois, se estivesse pousado sobre o ombro, seria o caso já coberto pela nossa Mishná. E aquilo que ensinamos (adiante, Shabat 100a): "quem lança um objeto quatro cúbitos ao longo de um muro, acima de dez palmos, é como quem lança pelo ar" — aparentemente, acima de dez palmos não é domínio público apenas quanto a lançar; mas quanto a transportar caminhando, é responsável, pois isso se deriva dos filhos de Kehat no Tabernáculo. "'Que estava sobre o Tabernáculo' etc." — o versículo trata das cortinas do pátio. "'Também o altar'" — a sua altura era de dez cúbitos, e foi necessário circundá-lo com cortinas de dez cúbitos de largura; e como sustento o versículo "e três cúbitos a sua altura" (Êxodo 27:1)? A partir da borda do rebordo (sovev) para cima. E como sustento a altura de cinco cúbitos das cortinas? A partir do topo do altar para cima — assim se explica em Zevachim (59b), que as cortinas tinham quinze cúbitos ao todo.

155De onde se sabe a altura do próprio Tabernáculo: Moshe o estendeu; daí se deriva a altura dos levitas, e a regra de um terço acima, dois terços abaixo
A Guemará
וּמִשְׁכָּן גּוּפֵיהּ מְנָלַן? דִּכְתִיב: ״עֶשֶׂר אַמּוֹת אֹרֶךְ הַקָּרֶשׁ״, וּכְתִיב: ״וַיִּפְרֹשׂ אֶת הָאֹהֶל עַל הַמִּשְׁכָּן״, וְאָמַר רַב: מֹשֶׁה רַבֵּינוּ פְּרָשׂוֹ. מִכָּאן אַתָּה לָמֵד גּוֹבְהָן שֶׁל לְוִיִּים עֶשֶׂר אַמּוֹת. וּגְמִירִי דְּכֹל טוּנָא דְּמִידְּלֵי בְּמוֹטוֹת — תִּילְתָּא מִלְּעֵיל וּתְרֵי תִּילְתֵי מִלְּתַחַת, אִישְׁתְּכַח דַּהֲוָה מִידְּלֵי טוּבָא.

E o próprio Tabernáculo, de onde sabemos a sua altura? Pois está escrito: "dez cúbitos era o comprimento da tábua" (Êxodo 26:16), e está escrito: "e estendeu a tenda sobre o Tabernáculo" (Êxodo 40:19), e Rav disse: Moshe, nosso mestre, a estendeu. Daqui aprendes que a altura dos levitas era de dez cúbitos. E é uma tradição que toda carga erguida sobre varas por dois carregadores fica um terço acima dos ombros e dois terços abaixo; descobre-se, assim, que o altar era erguido bem alto do chão.

Nota

A Guemará agora estabelece a própria premissa usada por Rabi Elazar: de onde se sabe que o Tabernáculo tinha dez cúbitos de altura? Da medida das suas tábuas verticais, que tinham dez cúbitos de comprimento. E de onde se sabe que Moshe conseguiu, sozinho, estender a cobertura de pelo de cabra sobre um Tabernáculo já montado, de dez cúbitos de altura? Disso se aprende que a própria estatura de Moshe — e, por extensão, a dos levitas em geral — era de dez cúbitos. Aplicando então a regra tradicional de que toda carga erguida sobre varas, carregada por dois homens sobre os ombros, fica um terço da carga acima do nível dos ombros e dois terços abaixo, conclui-se que o altar, erguido dessa maneira por levitas de dez cúbitos de altura, ficava consideravelmente mais alto que dez palmos do chão durante o transporte.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mikan ata lamed" e "tilta mile'el"
מכאן אתה למד - דקס"ד שאר הלוים נמי גביהי כמשה: תלתא מלעיל - וכיון דמזבח י' אמות והוא נושא בכתף כדכתיב (במדבר ז׳:ט׳) ולבני קהת לא נתן (עגלות) וגו' והלוים י' אמות כי מדלו ליה תילתא למעלה מראשיהן או מכתיפו נמצא גבוה מן הארץ קרוב לשליש של י' אמות דהוו טובא טפי יותר מי' טפחים:

"'Daqui aprendes'" — pois o pressuposto é que os demais levitas eram também tão altos quanto Moshe. "'Um terço acima'" — e, já que o altar tinha dez cúbitos e era carregado no ombro, como está escrito (Números 7:9) "e aos filhos de Kehat não deu carroças" etc., e os levitas tinham dez cúbitos de altura: quando o erguiam um terço acima de suas cabeças ou de seu ombro, descobre-se que ficava alto do chão perto de um terço dos dez cúbitos, o que é bem mais do que dez palmos.

156Ou, alternativamente, deriva-se da Arca; e por que não derivar diretamente de Moshe? Porque Moshe era excepcional
A Guemará
וְאִיבָּעֵית אֵימָא: מֵאָרוֹן. דְּאָמַר מָר: אָרוֹן תִּשְׁעָה וְכַפּוֹרֶת טֶפַח. הֲרֵי כָּאן עֲשָׂרָה, וּגְמִירִי דְּכֹל טוּנָא דְּמִידְּלֵי בְּמוֹטוֹת — תִּילְתָּא מִלְּעֵיל וּתְרֵי תִּילְתֵי מִלְּרַע, אִישְׁתְּכַח דְּמִלְּמַעְלָה מֵעֲשָׂרָה הֲוָה קָאֵי. וְלִיגְמַר מִמֹּשֶׁה? דִּילְמָא מֹשֶׁה שָׁאנֵי, דְּאָמַר מָר: אֵין הַשְּׁכִינָה שׁוֹרָה אֶלָּא עַל חָכָם גִּבּוֹר וְעָשִׁיר וּבַעַל קוֹמָה.

E, se quiseres, dize: deriva-se da Arca. Pois disse o mestre: a Arca tinha nove palmos de altura, e o propiciatório, um palmo. Eis aqui dez; e é uma tradição que toda carga erguida sobre varas fica um terço acima e dois terços abaixo; descobre-se, assim, que a Arca ficava acima de dez palmos do chão. Mas por que não derivar a medida diretamente de Moshe , que já sabemos ter dez cúbitos de altura? Talvez Moshe fosse excepcional, pois disse o mestre: a Presença Divina não repousa senão sobre quem é sábio, forte, rico e de elevada estatura.

Nota

A Guemará oferece uma derivação alternativa, independente da altura dos levitas: a própria Arca da Aliança, cuja altura era de nove palmos, somada a um palmo do propiciatório (kaporet) que a cobria, chega a dez palmos; aplicando a mesma regra de um terço acima e dois terços abaixo para cargas erguidas sobre varas, conclui-se que a Arca, carregada dessa maneira, ficava acima de dez palmos do chão — uma derivação que não depende da premissa de que os levitas eram tão altos quanto Moshe. A Guemará então questiona por que não se deriva a medida diretamente da altura de Moshe, já estabelecida em dez cúbitos: a resposta é que Moshe pode ter sido uma exceção, de estatura excepcionalmente elevada — pois há uma tradição de que a Presença Divina só repousa sobre quem reúne sabedoria, força, riqueza e estatura elevada —, de modo que sua altura pessoal não prova a altura dos demais levitas.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve'ibaeit eima", "ishtekach delemala mei'asara", "veligmar mimoshe" e "de'amar mar"
ואיבעית אימא - לא גביהי לוים ולאו ממזבח גמרינן דשמא לוים לא גביהי אלא ז' אמות ואין משאן דמזבח גבוה מן הארץ אלא ב' או ג' טפחים ומארון גמר לה ר' אלעזר: אשתכח דלמעלה מי' קאי - טובא אפילו אין גובהן של לוים אלא ג' אמות כמונו הרי י"ח טפחים וארון אינו תלוי למטה מכתפותיהן אלא ו' טפחים וב' שלישי טפח אישתכח דגבוה י' ויותר: וליגמר ממשה - שפרש המשכן ונמצא דגובהן של לוים עשר אמות ונילף מלוים נושאי המזבח: דאמר מר - במסכת נדרים:

"'E, se quiseres, dize'" — talvez os levitas não fossem tão altos, e não se derive do altar, pois talvez os levitas tivessem apenas sete cúbitos de altura, e o seu transporte do altar não ficasse alto do chão senão dois ou três palmos; e por isso Rabi Elazar a deriva da Arca. "'Descobre-se que ficava acima de dez'" — bem mais, mesmo que a altura dos levitas fosse apenas três cúbitos, como a nossa estatura comum: eis aqui dezoito palmos, e a Arca não pende abaixo dos seus ombros senão seis palmos e dois terços de palmo; descobre-se que ficava alta dez palmos e mais. "'Mas por que não derivar de Moshe'" — que estendeu o Tabernáculo, de modo que se conclui que a altura dos levitas era de dez cúbitos, e derivemos dos levitas que carregavam o altar. "'Pois disse o mestre'" — no tratado Nedarim.

Carregar peso sobre a cabeça: os homens de Hutzal — em aberto, prosseguindo em 92b · אַנְשֵׁי הוּצָל

157Rav em nome de Rabi Chiya: quem carrega peso na cabeça é responsável, pelo costume dos homens de Hutzal — duas reformulações sucessivas, a segunda cortada ao meio, prossegue em 92b
Rav, em nome de Rabi Chiya
אָמַר רַב מִשּׁוּם רַבִּי חִיָּיא: הַמּוֹצִיא מַשּׂאוֹי בְּשַׁבָּת עַל רֹאשׁוֹ — חַיָּיב חַטָּאת, שֶׁכֵּן אַנְשֵׁי הוּצָל עוֹשִׂין כֵּן. וְאַנְשֵׁי הוּצָל רוּבָּא דְעָלְמָא?! אֶלָּא, אִי אִיתְּמַר הָכִי אִיתְּמַר: אָמַר רַב מִשּׁוּם רַבִּי חִיָּיא: אֶחָד מִבְּנֵי הוּצָל שֶׁהוֹצִיא מַשּׂוֹי עַל רֹאשׁוֹ בְּשַׁבָּת — חַיָּיב, שֶׁכֵּן בְּנֵי עִירוֹ עוֹשִׂין כֵּן. וְתִיבְטַל דַּעְתּוֹ אֵצֶל כׇּל אָדָם! אֶלָּא, אִי אִיתְּמַר הָכִי אִיתְּמַר: הַמּוֹצִיא מַשּׂוֹי עַל רֹאשׁוֹ — פָּטוּר, …

Disse Rav em nome de Rabi Chiya: quem transporta um peso em Shabat sobre a sua cabeça — é responsável por uma oferenda pelo pecado, pois assim fazem os homens de Hutzal. A Guemará objeta: e os homens de Hutzal seriam equiparáveis à maioria do mundo , para que o seu costume particular defina o modo costumeiro de transportar para todos?! Responde a Guemará: antes, se isso foi dito, foi dito assim: disse Rav em nome de Rabi Chiya: um dos filhos de Hutzal que transportou um peso sobre a sua cabeça em Shabat — é responsável, pois assim fazem os habitantes da sua cidade. A Guemará objeta de novo: e não se anularia a sua vontade individual diante da de todo o resto do mundo , que não carrega desse modo?! Responde a Guemará: antes, se isso foi dito, foi dito assim: quem transporta um peso sobre a sua cabeça — é isento, …

Nota — segmento cortado ao meio, continua em 92b

A Guemará traz um último ensinamento do daf, sobre carregar um peso sobre a própria cabeça — um modo de transporte que a Mishná anterior já classificara como incomum e, portanto, isento (não estando entre "a mão direita, a esquerda, o colo ou o ombro"). Rav, em nome de Rabi Chiya, propõe uma exceção: quem transporta assim é, ainda, responsável, porque esse é o costume dos homens de Hutzal — um lugar cujos habitantes normalmente carregavam jarros de água e vinho sobre a cabeça, sem segurá-los com as mãos. A Guemará objeta: o costume particular de uma única localidade poderia realmente redefinir o "modo costumeiro de transportar" válido para toda a humanidade? Isso leva a uma primeira reformulação: o ensinamento tratava, na verdade, apenas de um habitante de Hutzal, responsável porque, para ele, aquele é o costume da sua própria cidade. Mas surge nova objeção: mesmo assim, a vontade individual desse habitante não deveria ser anulada perante o costume da maioria da humanidade, que não carrega dessa forma? Isso leva a uma segunda reformulação, que a Guemará começa a citar — "quem transporta um peso sobre a cabeça é isento" — mas a frase é cortada exatamente neste ponto, no fim do daf. Confirmado via Sefaria: o daf 92b abre completando essa mesma frase, com a condição que a fecha: "e, se disseres que os homens de Hutzal fazem assim, a vontade deles se anula perante a de toda a humanidade" — de modo que o ensinamento, na sua forma final, isenta em geral quem carrega peso na cabeça, mesmo sendo ele mesmo um habitante de Hutzal, pois o costume local não prevalece sobre o costume da maioria do mundo.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "Anshei Hutzal"
אנשי הוצל - היו נושאין כדי מים ויין על ראשיהן ואין אוחזין אותם בידים:

"'Os homens de Hutzal'" — costumavam carregar jarros de água e de vinho sobre as suas cabeças, e não os seguravam com as mãos.