Segunda halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia. A Mishná ensina que quem leva alimentos para fora e os põe sobre a soleira é isento, quer ele mesmo, quer outro os tenha depois levado para fora, porque não fez o seu trabalho de uma só vez; e que o cesto cheio de frutos posto sobre a soleira externa não torna culpado, ainda que a maior parte dos frutos esteja fora, até que se leve para fora o cesto inteiro. A guemará traz Chizkiyá, para quem a Mishná fala do cesto de pepinos e de abóboras, porque no cesto cheio de frutos quem tira dele o volume de um figo seco é culpado, e mostra que a palavra de Rabi Yochanan sobre o sarud diverge dele. Depois, Rabi Mana e Rabi Yossi discutem o cesto arrombado; Chizkiyá e Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak falam do fardo e da viga que não ficam todos pousados no domínio público; Rabi Yochanan e Shmuel, da pedra e do cesto de dez palmos de altura e quatro de largura no domínio público; e a halachá termina com duas perguntas, de Rabi Bun bar Chiya e de Rabi Yochanan, que ficam sem resposta. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 91b.
Mishná: Quem leva para fora ochalin (alimentos) e os põe sobre a askupá (soleira), quer ele tenha tornado a levá-los para fora dali, quer outro os tenha levado para fora dali, é isento, porque não fez a sua melachá (o seu trabalho) de uma só vez. Uma kupá (cesto) que está cheia de frutos e está posta sobre a askupá externa, ainda que a maior parte dos frutos esteja do lado de fora, quem a levou é isento, até que leve para fora a kupá inteira.
Chizkiyá disse: é de uma kupá de kishuim (pepinos) e de diluin (abóboras) que fala a matnita (a Mishná), em que parte do alimento está dentro e parte fora. Mas, numa kupá que está cheia de frutos, assim que tirou dela o volume de uma grogueret (figo seco), é culpado. Dizem: a palavra de Rabi Yochanan diverge, pois Rabi Chiya disse em nome de Rabi Yochanan: um sarud (trançado de vime) do qual parte está dentro e parte fora, se tomou algo daqui e pôs ali, é isento. Se o ergueu, não é culpado até que o erga inteiro de uma vez.
Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: explique-se no caso do parutz (arrombado). Disse-lhe: e não estudamos “kupá”? Tens como dizer “kupá arrombada”? Como é, então? Não há coisa que se mova no domínio público e se torne karmelit (domínio intermediário), senão o homem somente.
Chizkiyá disse: se levou para fora uma chavilá (fardo) do domínio privado para o domínio público, e, antes que a pusesse no domínio público, a sua ponta estava acima de dez palmos, visto que ela não está toda pousada no domínio público, ele é isento. Disse Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak: se levou para fora uma korá (viga) do domínio privado para o domínio público, e, antes que a pusesse no domínio público, a sua ponta entrou em outro domínio privado, visto que ela não está toda pousada no domínio público, ele é isento.
Disse Rabi Yochanan: uma pedra que está posta no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos, quem se serve dela, passando coisas de dentro dela para o domínio público e do domínio público para dentro dela, é culpado. Shmuel disse: uma kupá que está cheia de frutos e está posta no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos, quem se serve dela, passando coisas de dentro dela para o domínio público ou do domínio público para dentro dela, é isento. Acaso divergem? Aqui, quando alguém a virou sobre o seu lado; e ali, quando não a virou sobre o seu lado.
Rabi Bun bar Chiya perguntou: se ergueu uma pedra no domínio público, alta dez palmos e larga quatro, o que fazes com ela? É como quem se serve dela de dentro dela para o domínio público, e do domínio público para dentro dela, e do domínio público para outro domínio público? Os rabinos de Cesareia dizem: Rabi Yochanan perguntou: se pôs cinco palmos sobre cinco, o que fazes com eles? É como quem se serve passando coisas do domínio privado para a karmelit, da karmelit para o domínio privado, do domínio privado para outro domínio privado?
Esta é a segunda halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 10:2 da Mishná avulsa, que vai de “quem leva para fora alimentos e os põe sobre a soleira” até “até que leve para fora a kupá inteira”. A Mishná seguinte, Shabbat 10:3, “quem leva para fora, quer na sua mão direita, quer na sua esquerda”, é a da halachá 10:3. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “unetuná”, “e está posta”, onde a Mishná avulsa escreve “unetanah”, “e a pôs”; por isso traduzimos “que está cheia de frutos e está posta sobre a soleira externa”. Escreve também “vehotziam” e “shehotziam”, com mem final, onde a Mishná avulsa escreve “vehotziân” e “shehotziân”, com nun final, e “bevat achat” onde a Mishná avulsa vocaliza “bevat echat”. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização, como “ochlin” e “ochalin”, “kupá” com vav ou com kubutz, “meleiá” com yud ou sem ele. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A seção 01 traz a explicação de Chizkiyá para a segunda parte da Mishná e a palavra de Rabi Yochanan que diverge dela; a seção 02 traz a discussão do cesto arrombado e uma série de casos sobre o que está só em parte num domínio, e termina com duas perguntas que ficam em aberto.
Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 91b, e a guemará começa na mesma folha e prossegue em 92a. Em 91b, o Bavli explica que a soleira da Mishná é karmelit, e traz Chizkiyá: “não ensinaram senão sobre um cesto cheio de pepinos e de abóboras; mas, cheio de mostarda, é culpado”; e Rabi Yochanan: “mesmo cheio de mostarda, é isento”, isto é, para Rabi Yochanan o recipiente une o que está dentro dele, e para Chizkiyá não o une. Rabi Zeira mostra que a Mishná não se ajusta bem a nenhum dos dois, e o Bavli traz a baraita do cesto dos mascates posto sobre a soleira externa, “ainda que a maior parte das espécies esteja fora, é isento”; em 92a, Rava e Abaye repetem a mesma divergência. A palavra de Shmuel tem paralelo na Tosefta Shabbat 10:10, na edição Lieberman (11:7 na numeração do Sefaria): “um cesto no domínio público, alto dez palmos, e também uma cova, não se move de dentro deles para o domínio público, nem do domínio público para dentro deles”; a mesma baraita está no Bavli Shabbat 8a, com “alto dez e largo quatro”, na objeção de Rav Ada bar Matna a Rava. A palavra de Rabi Yochanan sobre a pedra tem paralelo na Mishná Shabbat 11:2, que está no Bavli em 99a: “a borda do poço e a rocha que são altas dez e largas quatro, quem toma delas e quem põe sobre elas é culpado; menos que isso, é isento”; e na Tosefta Shabbat 10:6, na edição Lieberman (11:5 na numeração do Sefaria), sobre a coluna no domínio público alta dez palmos e larga quatro.
Observações de leitura. Na seção 01, “frutos” traduz “peirot”, e a oposição com os pepinos e as abóboras mostra que se trata de frutos miúdos, que podem estar inteiros fora do domínio privado enquanto o cesto ainda está em parte dentro; por isso Chizkiyá declara culpado quem tira deles o volume de um figo seco, que é a medida mínima dos alimentos. O sarud é um utensílio trançado, de vime ou de outro material, e “tomou daqui e pôs ali” entende-se como quem passa alguma coisa sobre o próprio sarud, da parte que está dentro para a parte que está fora; por isso Rabi Yochanan diverge de Chizkiyá: para ele, o utensílio une o que está sobre ele, e só há culpa quando se ergue o sarud inteiro. Na seção 02, “explique-se no caso do arrombado” é conciso; entendemos que Rabi Mana propõe ler a Mishná, em que só se é culpado quando se leva o cesto inteiro, como falando de um cesto aberto pelo fundo, e Rabi Yossi responde que a Mishná diz “cesto”, e não “cesto arrombado”. A frase “não há coisa que se mova no domínio público e se torne karmelit senão o homem” vem como resposta, mas o texto não diz a quem pertence. “Acima de dez palmos” é o espaço acima do domínio público, onde não há domínio. “Aqui” e “ali”, na resposta sobre Rabi Yochanan e Shmuel, não dizem a qual dos dois casos se refere cada parte; virar o cesto sobre o seu lado é o que permite tirar as coisas dele sem as passar por cima da borda. As duas perguntas finais, a de Rabi Bun bar Chiya sobre quem ergue a própria pedra e a de Rabi Yochanan sobre quem põe cinco palmos sobre cinco, fazendo com eles uma altura de dez, ficam sem resposta no texto.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “peirot”, na palavra de Chizkiyá, por “grain”; mantivemos “frutos”, como no hebraico. Ele traduz “sarud” por “crocheted cloth”, um pano usado pelos padeiros; mantivemos o termo hebraico com uma glosa genérica. Ele lê a resposta “aqui, quando a virou sobre o seu lado” como o caso de Shmuel, em que se tiram as coisas do cesto sem passar por cima da borda; é leitura dele, e o texto não o diz. Ele remete a palavra de Chizkiyá ao “Babli 92b”; a discussão está em 91b, e 92b já trata de outra Mishná. Para a pedra de Rabi Yochanan, ele remete a 99b e a 8a; em 99b há só perguntas próximas, sobre a coluna no domínio público, e o paralelo direto está na Mishná de 99a e na baraita de 8a, citadas acima. A sua nota à pergunta de Rabi Yochanan, sobre as coisas grandes levadas com o Mishkan, não corresponde a este trecho e parece deslocada. Ele observa ainda que um fragmento da Genizá lê “Rabi Chizkiyá” na palavra sobre o fardo; seguimos o texto do Sefaria, “Chizkiyá”. Ele escreve “Rebbi Abun bar Ḥiyya”; o hebraico diz “Rabi Bun”, e mantivemos a grafia “Rabi Bun bar Chiya”, como nas halachot anteriores deste tratado.