Talmud Yerushalmi · Massechet Shabbat · Perek Yud · Halachá 2
שַׁבָּת

Os alimentos sobre a soleira e o cesto cheio de frutos

Perek Yud, HaMatznia, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Shabbat

Segunda halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia. A Mishná ensina que quem leva alimentos para fora e os põe sobre a soleira é isento, quer ele mesmo, quer outro os tenha depois levado para fora, porque não fez o seu trabalho de uma só vez; e que o cesto cheio de frutos posto sobre a soleira externa não torna culpado, ainda que a maior parte dos frutos esteja fora, até que se leve para fora o cesto inteiro. A guemará traz Chizkiyá, para quem a Mishná fala do cesto de pepinos e de abóboras, porque no cesto cheio de frutos quem tira dele o volume de um figo seco é culpado, e mostra que a palavra de Rabi Yochanan sobre o sarud diverge dele. Depois, Rabi Mana e Rabi Yossi discutem o cesto arrombado; Chizkiyá e Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak falam do fardo e da viga que não ficam todos pousados no domínio público; Rabi Yochanan e Shmuel, da pedra e do cesto de dez palmos de altura e quatro de largura no domínio público; e a halachá termina com duas perguntas, de Rabi Bun bar Chiya e de Rabi Yochanan, que ficam sem resposta. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 91b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַמּוֹצִיא אוֹכְלִין וּנְתָנָן עַל הָאַסְקוּפָּה בֵּין שֶׁחָזַר וְהוֹצִיאָם בֵּין שֶׁהוֹצִיאָם אַחֵר פָּטוּר מִפְּנֵי שֶׁלֹּא עָשָׂה מְלַאכְתּוֹ בְּבַת אַחַת. קוּפָּה שֶׁהִיא מְלֵיאָה פֵירוֹת וּנְתוּנָה עַל הָאַסְקוּפָּה הַחִיצוֹנָה אַף עַל פִּי שֶׁרוֹב הַפֵּירוֹת מִבַּחוּץ פָּטוּר עַד שֶׁיּוֹצִיא אֶת כָּל הַקּוּפָּה:

Mishná: Quem leva para fora ochalin (alimentos) e os põe sobre a askupá (soleira), quer ele tenha tornado a levá-los para fora dali, quer outro os tenha levado para fora dali, é isento, porque não fez a sua melachá (o seu trabalho) de uma só vez. Uma kupá (cesto) que está cheia de frutos e está posta sobre a askupá externa, ainda que a maior parte dos frutos esteja do lado de fora, quem a levou é isento, até que leve para fora a kupá inteira.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Chizkiyá: o cesto de pepinos e de abóboras; o sarud de Rabi Yochanan
Yerushalmi · Shabbat 10:2
ב׳. חִזְקִיָּה אָמַר. בְּקוּפָּה שֶׁלְקִישּׁוּאִים וְשֶׁלְדִּילוּעִין הִיא מַתְנִיתָא. שֶׁמִּקְצַת הָאוֹכֶל מִבִּפְנִים וּמִקָצָתוֹ מִבַּחוּץ. אֲבָל בְּקוּפָּה שֶׁהִיא מְלֵיאָה פֵּירוֹת כֵּיוָן שֶֶׁהוֹצִיא מִמֶּנָּה כִגְרוֹגֶרֶת חַיָיב. אָמְרִין. מִילְּתֵיהּ דְּרִבִּי יוֹחָנָן פְלִיגָא. דְּאָמַר רִבִּי חִיָיא בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן. סָרוּד שֶׁמִּקְצָתוֹ מִבִּפְנִים וּמִקָצָתוֹ מִבַּחוּץ. נָטַל מִיכָּן וְנָתַן לְכָאן פָּטוּר. אִם עֲקָרוֹ. עַד שֶׁיַּעֲקוֹר כּוּלּוֹ כָאַחַת.

Chizkiyá disse: é de uma kupá de kishuim (pepinos) e de diluin (abóboras) que fala a matnita (a Mishná), em que parte do alimento está dentro e parte fora. Mas, numa kupá que está cheia de frutos, assim que tirou dela o volume de uma grogueret (figo seco), é culpado. Dizem: a palavra de Rabi Yochanan diverge, pois Rabi Chiya disse em nome de Rabi Yochanan: um sarud (trançado de vime) do qual parte está dentro e parte fora, se tomou algo daqui e pôs ali, é isento. Se o ergueu, não é culpado até que o erga inteiro de uma vez.

02O cesto arrombado; o fardo e a viga; a pedra e o cesto de dez palmos
Yerushalmi · Shabbat 10:2
אָמַר רִבִּי מָנָא קוֹמֵי רִבִּי יוֹסֵה. תִּיפְתָּר בְּפָרוּץ. אָמַר לֵיהּ. וְהָא תַנִּינָן. קוּפָּה. אִית לָךְ מֵימַר. קוּפָּה פְרוּצָה. מַיי כְדוֹן. אֵין לָךְ מִיטַּלְטֵל בִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְנַעֲשֶׂה כַרְמְלִית אֶלָּא אָדָם בִּלְבַד.

Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: explique-se no caso do parutz (arrombado). Disse-lhe: e não estudamos “kupá”? Tens como dizer “kupá arrombada”? Como é, então? Não há coisa que se mova no domínio público e se torne karmelit (domínio intermediário), senão o homem somente.

חִזְקִיָּה אָמַר. הוֹצִיא חֲבִילָה מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים. עַד שֶׁלֹּא הִנִּיחָהּ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים הָיָה רֹאשָׁהּ לְמַעֲלָה מֵעֲשָׂרָה. הוֹאִיל וְאֵין כּוּלָּהּ נִיחָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים פָּטוּר. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק. הוֹצִיא קוֹרָה מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הָרַבִּים. עַד שֶׁלֹּא הִנִּיחָהּ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים נִכְנַס רֹאשָׁהּ לִרְשׁוּת הַיָּחִיד אֲחֶרֶת. הוֹאִיל וְאֵין כּוּלָּהּ נִיחָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים פָּטוּר.

Chizkiyá disse: se levou para fora uma chavilá (fardo) do domínio privado para o domínio público, e, antes que a pusesse no domínio público, a sua ponta estava acima de dez palmos, visto que ela não está toda pousada no domínio público, ele é isento. Disse Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak: se levou para fora uma korá (viga) do domínio privado para o domínio público, e, antes que a pusesse no domínio público, a sua ponta entrou em outro domínio privado, visto que ela não está toda pousada no domínio público, ele é isento.

אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן. אֶבֶן שֶׁהִיא נְתוּנָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וּרְחָבָה אַרְבָּעָה הַמִּשְׁתַּמֵּשׁ מִתּוֹכָהּ לִרְשׁוּת הָרַבִּים וּמֵרְשׁוּת הָרַבִּים לְתוֹכָהּ חַיָיב. שְׁמוּאֵל אָמַר. קוּפָּה שֶׁהִיא מְלֵיאָה פֵירוֹת וּנְתוּנָה בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהָה עֲשָׂרָה וּרְחָבָה אַרְבָּעָה הַמִּשְׁתַּמֵּשׁ מִתּוֹכָהּ לִרְשׁוּת הָרַבִּים אוֹ מֵרְשׁוּת הָרַבִּים לְתוֹכָהּ פָּטוּר. מַה פְלִיג. כָּאן כְּשֶׁהָפְכָהּ עַל צִדָּהּ. וְכָאן בְּשֶׁלֹּא הָפְכָהּ עַל צִידָּהּ.

Disse Rabi Yochanan: uma pedra que está posta no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos, quem se serve dela, passando coisas de dentro dela para o domínio público e do domínio público para dentro dela, é culpado. Shmuel disse: uma kupá que está cheia de frutos e está posta no domínio público, alta dez palmos e larga quatro palmos, quem se serve dela, passando coisas de dentro dela para o domínio público ou do domínio público para dentro dela, é isento. Acaso divergem? Aqui, quando alguém a virou sobre o seu lado; e ali, quando não a virou sobre o seu lado.

רִבִּי בּוּן בַּר חִיָיה בָעֵי. עָקַר אֶבֶן בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהָה עֲשָׂרָה וּרְחָבָה אַרְבָּעָה מָה אַתְּ עֲבַד לָהּ. כְּמִּשְׁתַּמֵּשׁ מִתּוֹכָהּ לִרְשׁוּת הָרַבִּים וּמֵרְשׁוּת הָרַבִּים לְתוֹכָהּ וּמֵרְשׁוּת הָרַבִּים לִרְשׁוּת הָרַבִּים אֲחֶרֶת. רַבָּנִן דְּקַיְסָרִין אָמְרִין. רִבִּי יוֹחָנָן בָּעֵי. נָתַן חֲמִשָּׁה עַל גַּבֵּי חֲמִשָּׁה מָה אַתְּ עֲבַד לוֹן. כְּמִּשְׁתַּמֵּשׁ מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לְכַרְמְלִית. מִכַּרְמְלִית לִרְשׁוּת הַיָּחִיד. מֵרְשׁוּת הַיָּחִיד לִרְשׁוּת הַיָּחִיד אֲחֶרֶת.

Rabi Bun bar Chiya perguntou: se ergueu uma pedra no domínio público, alta dez palmos e larga quatro, o que fazes com ela? É como quem se serve dela de dentro dela para o domínio público, e do domínio público para dentro dela, e do domínio público para outro domínio público? Os rabinos de Cesareia dizem: Rabi Yochanan perguntou: se pôs cinco palmos sobre cinco, o que fazes com eles? É como quem se serve passando coisas do domínio privado para a karmelit, da karmelit para o domínio privado, do domínio privado para outro domínio privado?

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 10:2 da Mishná avulsa, que vai de “quem leva para fora alimentos e os põe sobre a soleira” até “até que leve para fora a kupá inteira”. A Mishná seguinte, Shabbat 10:3, “quem leva para fora, quer na sua mão direita, quer na sua esquerda”, é a da halachá 10:3. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “unetuná”, “e está posta”, onde a Mishná avulsa escreve “unetanah”, “e a pôs”; por isso traduzimos “que está cheia de frutos e está posta sobre a soleira externa”. Escreve também “vehotziam” e “shehotziam”, com mem final, onde a Mishná avulsa escreve “vehotziân” e “shehotziân”, com nun final, e “bevat achat” onde a Mishná avulsa vocaliza “bevat echat”. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização, como “ochlin” e “ochalin”, “kupá” com vav ou com kubutz, “meleiá” com yud ou sem ele. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A seção 01 traz a explicação de Chizkiyá para a segunda parte da Mishná e a palavra de Rabi Yochanan que diverge dela; a seção 02 traz a discussão do cesto arrombado e uma série de casos sobre o que está só em parte num domínio, e termina com duas perguntas que ficam em aberto.

Referências conferidas. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 91b, e a guemará começa na mesma folha e prossegue em 92a. Em 91b, o Bavli explica que a soleira da Mishná é karmelit, e traz Chizkiyá: “não ensinaram senão sobre um cesto cheio de pepinos e de abóboras; mas, cheio de mostarda, é culpado”; e Rabi Yochanan: “mesmo cheio de mostarda, é isento”, isto é, para Rabi Yochanan o recipiente une o que está dentro dele, e para Chizkiyá não o une. Rabi Zeira mostra que a Mishná não se ajusta bem a nenhum dos dois, e o Bavli traz a baraita do cesto dos mascates posto sobre a soleira externa, “ainda que a maior parte das espécies esteja fora, é isento”; em 92a, Rava e Abaye repetem a mesma divergência. A palavra de Shmuel tem paralelo na Tosefta Shabbat 10:10, na edição Lieberman (11:7 na numeração do Sefaria): “um cesto no domínio público, alto dez palmos, e também uma cova, não se move de dentro deles para o domínio público, nem do domínio público para dentro deles”; a mesma baraita está no Bavli Shabbat 8a, com “alto dez e largo quatro”, na objeção de Rav Ada bar Matna a Rava. A palavra de Rabi Yochanan sobre a pedra tem paralelo na Mishná Shabbat 11:2, que está no Bavli em 99a: “a borda do poço e a rocha que são altas dez e largas quatro, quem toma delas e quem põe sobre elas é culpado; menos que isso, é isento”; e na Tosefta Shabbat 10:6, na edição Lieberman (11:5 na numeração do Sefaria), sobre a coluna no domínio público alta dez palmos e larga quatro.

Observações de leitura. Na seção 01, “frutos” traduz “peirot”, e a oposição com os pepinos e as abóboras mostra que se trata de frutos miúdos, que podem estar inteiros fora do domínio privado enquanto o cesto ainda está em parte dentro; por isso Chizkiyá declara culpado quem tira deles o volume de um figo seco, que é a medida mínima dos alimentos. O sarud é um utensílio trançado, de vime ou de outro material, e “tomou daqui e pôs ali” entende-se como quem passa alguma coisa sobre o próprio sarud, da parte que está dentro para a parte que está fora; por isso Rabi Yochanan diverge de Chizkiyá: para ele, o utensílio une o que está sobre ele, e só há culpa quando se ergue o sarud inteiro. Na seção 02, “explique-se no caso do arrombado” é conciso; entendemos que Rabi Mana propõe ler a Mishná, em que só se é culpado quando se leva o cesto inteiro, como falando de um cesto aberto pelo fundo, e Rabi Yossi responde que a Mishná diz “cesto”, e não “cesto arrombado”. A frase “não há coisa que se mova no domínio público e se torne karmelit senão o homem” vem como resposta, mas o texto não diz a quem pertence. “Acima de dez palmos” é o espaço acima do domínio público, onde não há domínio. “Aqui” e “ali”, na resposta sobre Rabi Yochanan e Shmuel, não dizem a qual dos dois casos se refere cada parte; virar o cesto sobre o seu lado é o que permite tirar as coisas dele sem as passar por cima da borda. As duas perguntas finais, a de Rabi Bun bar Chiya sobre quem ergue a própria pedra e a de Rabi Yochanan sobre quem põe cinco palmos sobre cinco, fazendo com eles uma altura de dez, ficam sem resposta no texto.

Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer traduz “peirot”, na palavra de Chizkiyá, por “grain”; mantivemos “frutos”, como no hebraico. Ele traduz “sarud” por “crocheted cloth”, um pano usado pelos padeiros; mantivemos o termo hebraico com uma glosa genérica. Ele lê a resposta “aqui, quando a virou sobre o seu lado” como o caso de Shmuel, em que se tiram as coisas do cesto sem passar por cima da borda; é leitura dele, e o texto não o diz. Ele remete a palavra de Chizkiyá ao “Babli 92b”; a discussão está em 91b, e 92b já trata de outra Mishná. Para a pedra de Rabi Yochanan, ele remete a 99b e a 8a; em 99b há só perguntas próximas, sobre a coluna no domínio público, e o paralelo direto está na Mishná de 99a e na baraita de 8a, citadas acima. A sua nota à pergunta de Rabi Yochanan, sobre as coisas grandes levadas com o Mishkan, não corresponde a este trecho e parece deslocada. Ele observa ainda que um fragmento da Genizá lê “Rabi Chizkiyá” na palavra sobre o fardo; seguimos o texto do Sefaria, “Chizkiyá”. Ele escreve “Rebbi Abun bar Ḥiyya”; o hebraico diz “Rabi Bun”, e mantivemos a grafia “Rabi Bun bar Chiya”, como nas halachot anteriores deste tratado.