Primeira halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, que abre o décimo capítulo, HaMatznia. A Mishná ensina que quem guarda alguma coisa para semente, para amostra ou para remédio, e a leva para fora no Shabat, é culpado por qualquer quantidade, porque mostrou que para ele ela tem valor; qualquer outra pessoa só é culpada pela medida comum; e, se tornou a trazê-la para dentro, também ele só é culpado pela medida comum. A guemará pergunta se a Mishná é de Rabi Yehudá, para quem o artesão que sai conforme o seu ofício é culpado, e Rabi Yossi beRabi Chanina responde que sim, mas só quanto à amostra, porque o comprador já se deu por satisfeito; quanto à semente e ao remédio, é culpado por qualquer quantidade. Depois traz a divergência entre os sábios e Rabi Shimon ben Elazar sobre o caso em que um guardou e outro levou para fora, e explica que ela vale quando não se sabe por intenção de quem ele o levou. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 90b.
Mishná: Quem matznia (guarda, põe de lado) para semente, para dugma (amostra) e para remédio, e o levou para fora no Shabat, é culpado por ele por qualquer quantidade; e todas as outras pessoas não são culpadas por ele senão conforme o seu shiur (medida mínima). Se tornou a trazê-lo para dentro, não é culpado por ele senão conforme o seu shiur.
“Quem guarda para semente” etc. Rabi Yirmeyá disse: Rabi Yossi beRabi Chanina perguntou: a matnita (a Mishná) é de Rabi Yehudá? Pois Rabi Yehudá disse: o uman (artesão), no seu ofício, é culpado. Veio Rabi Yudá bar Pazi e disse em nome de Rabi Yossi beRabi Chanina: é de Rabi Yehudá. Disse Rabi Yossi beRabi Chanina: isto não vem senão para a deigma (a amostra), porque o comprador já se deu por satisfeito com ela; mas, para semente e para remédio, mesmo por qualquer quantidade é culpado.
Se um o guardou e outro o levou para fora, este é isento; Rabi Shimon ben Elazar o declara culpado. De que caso estamos tratando? Se o levou para fora por daat (a intenção) do segundo, nas palavras de todos é isento; se o levou para fora por daat do primeiro, nas palavras de todos é culpado. Mas assim estamos tratando: do caso bistam (sem especificação). E os rabanan (os sábios) dizem: chazaká (presunção): foi por daat do segundo que o levou para fora. Rabi Shimon ben Elazar diz: chazaká: foi por daat do primeiro que o levou para fora.
Esta é a primeira halachá do Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia, e a sua Mishná corresponde inteira à Mishná Shabbat 10:1 da Mishná avulsa, que vai de “quem guarda para semente, para amostra e para remédio” até “se tornou a trazê-lo para dentro, não é culpado por ele senão conforme a sua medida”. A Mishná seguinte, Shabbat 10:2, “quem leva para fora alimentos e os põe sobre a soleira”, é a da halachá 10:2. Há pequenas diferenças de redação: o Yerushalmi escreve “ledugma”, sem a conjunção, onde a Mishná avulsa escreve “uledugma”, “e para amostra”; “hotzio”, sem a conjunção, onde a Mishná avulsa escreve “vehotzio”, “e o levou para fora”; “bashabat”, com o artigo, onde a Mishná avulsa escreve “beshabat”; “chayav alav bechol shehu”, “é culpado por ele por qualquer quantidade”, onde a Mishná avulsa omite “por ele”; e “ein chayavin”, no plural, onde a Mishná avulsa escreve “ein chayav”, no singular; por isso traduzimos “todas as outras pessoas não são culpadas”. As demais diferenças são de grafia ou de vocalização. O sentido é o mesmo, e conservamos o hebraico como está. A Mishná continua o fim do Perek Tet, que falava da tziporet keramim que se guarda para remédio e do gafanhoto que se guarda para a criança brincar; aqui a regra se torna geral: quem guardou alguma coisa mostrou que para ele ela tem valor, e por isso é culpado mesmo por menos que a medida comum. A seção 01 trata da atribuição da Mishná a Rabi Yehudá; a seção 02, do caso em que um guardou e outro levou para fora.
Referências conferidas. A palavra de Rabi Yehudá, “o artesão no seu ofício é culpado”, é a da baraita que o Yerushalmi traz na halachá 1:3 deste tratado e que está na Tosefta Shabbat 1:8, na edição Lieberman: “não sairá o alfaiate com a sua agulha na véspera do Shabat perto do escurecer, para que não se esqueça e saia; nem o carpinteiro com a lasca que está no seu pescoço, nem o tintureiro com a amostra que está na sua orelha, nem o cambista com o denário que está na sua orelha”; “se saíram, todos estão isentos, palavras de Rabi Meir; Rabi Yehudá diz: o artesão, conforme o costume do seu ofício, é culpado, e todas as demais pessoas estão isentas”. A mesma baraita está no Bavli Shabbat 11b, onde a amostra do tintureiro se chama “dugma”, como na nossa Mishná. A palavra de Rabi Shimon ben Elazar está na Tosefta Shabbat 8:7, na edição Lieberman (9:5 na numeração do Sefaria): “Rabi Shimon ben Lazar diz: tudo aquilo cujo semelhante não se costuma guardar, e para este foi possível guardá-lo, e ele o guardou, e veio outro e o levou para fora, eis que este é culpado”. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 90b, e a guemará começa na mesma folha e prossegue em 91a. Em 90b, o Bavli pergunta por que a Mishná diz “quem guarda” e não simplesmente “quem leva para fora para semente”, e Abaye responde que se trata de quem guardou e esqueceu para que o guardou, e agora o leva para fora sem intenção definida; em 91a, conclui que todo aquele que age, age conforme a intenção primeira. Ainda em 91a, Rav Yehudá diz em nome de Shmuel que Rabi Meir declarava culpado mesmo quem leva para fora um só grão de trigo para semear; e, sobre “todas as outras pessoas não são culpadas senão conforme a sua medida”, o Bavli diz que a Mishná não é conforme Rabi Shimon ben Elazar, e traz a sua regra numa baraita: “tudo aquilo que não é próprio para guardar e cujo semelhante não se guarda, e se tornou próprio para este, e ele o guardou, e veio outro e o levou para fora, este se torna culpado pela intenção daquele”.
Observações de leitura. “Matznia” é quem guarda ou põe de lado alguma coisa para um uso; a Mishná entende que esse uso dá valor ao que, para os outros, não chega à medida. Na Mishná, o hebraico escreve “dugma”, e na guemará “deigma”; é a mesma palavra, do grego para amostra, e traduzimos as duas por “amostra”. Na seção 01, “perguntou” traduz “baei”; lemos a frase seguinte como pergunta, e a palavra de Rabi Yudá bar Pazi como a resposta, em nome do mesmo Rabi Yossi beRabi Chanina. “Isto não vem senão para a amostra” é conciso: entendemos que a Mishná só precisa ser atribuída a Rabi Yehudá no caso da amostra, que o comerciante leva consigo como instrumento do seu ofício depois de o comprador já se ter dado por satisfeito; no caso da semente e do remédio, cujas quantidades mínimas servem por si mesmas, a culpa por qualquer quantidade valeria para todos. Esta leitura é a de Guggenheimer, e o texto não o diz por extenso. Na seção 02, “é isento” refere-se a quem levou para fora; “por daat do segundo” é quando o levou para o seu próprio uso, e “por daat do primeiro”, quando o levou para o uso de quem o guardou. “Bistam” é o caso em que não se sabe com que intenção ele o levou; nele, os sábios presumem que o levou para o seu próprio uso, e Rabi Shimon ben Elazar, para o uso de quem o guardou.
Comparação com a tradução inglesa. Seguiu-se o hebraico frase a frase. Guggenheimer conclui da atribuição da Mishná a Rabi Yehudá que, quanto ao Shabat, a lei segue Rabi Yehudá, porque a Mishná anônima é a que se pratica; é observação dele, e o texto não o diz. Ele explica a palavra “deigma” pelo grego e pelo latim, e entende que Rabi Meir, que diverge de Rabi Yehudá sobre o artesão, concordaria quanto à semente e ao remédio, e divergiria só quanto à amostra já mostrada ao comprador. Ele observa ainda que, no Bavli, a regra de que quem levou para fora é culpado pela intenção de quem guardou parece ser só de Rabi Shimon ben Elazar, ao passo que aqui, quando se sabe que o levou para o uso do primeiro, todos concordam que é culpado. Ele traduz “Rebbi Judah bar Pazi”; mantivemos a grafia “Rabi Yudá bar Pazi”, como nas halachot anteriores deste tratado.
Com esta halachá, abre-se o Perek Yud de Massechet Shabbat, HaMatznia (הַמַּצְנִיעַ).