Talmud Bavli · Massechet Shabat · Perek Tet (Amar Rabi Akiva) → Perek Yud (HaMatznia)
זֶרַע קִישּׁוּאִין

A conclusão da lista de sementes de horta, o gafanhoto e a tzipporet keramim; o hadran encerra o Perek Tet; abre-se o Perek Yud com a Mishná de quem guarda algo para semente, amostra ou remédio

Shabbat 90b prossegue a Mishná de 90a com as medidas de sementes de pepino, abóbora e fava egípcia, do gafanhoto vivo puro e impuro, e da tzipporet keramim guardada para sabedoria; a Guemará explica cada medida com baraitot sobre caroços de tâmara, fios de cauda de animal, cerdas de porco e fibras de tamareira, e conta a história de Rav Kahana diante de Rav. A folha registra o hadran, encerrando o Perek Tet, e abre o Perek Yud com a Mishná sobre quem guarda algo para semente, amostra ou remédio.

90a se fechara com a Mishná gramaticalmente completa — "sementes de horta: menos que uma grogueret; Rabi Yehuda ben Beteira diz: cinco" — mas, confirmado agora via Sefaria, a própria lista de sementes prossegue sem qualquer interrupção real na presente folha: 90b abre dando a medida específica de três sementes de horta em particular — semente de pepino (kishuim), semente de abóbora (dilluim) e semente de fava egípcia (pol hamitzri), cada uma delas, ao contrário da regra geral de cinco, gerando responsabilidade já com duas sementes. Segue-se, ainda na mesma Mishná, o gafanhoto vivo puro, em qualquer quantidade; o gafanhoto morto, na medida de uma grogueret, como qualquer outro alimento; e a tzipporet keramim ("pássaro das vinhas"), viva ou morta, também em qualquer quantidade, por se guardar para remédio — com Rabi Yehuda acrescentando que também o gafanhoto vivo impuro gera responsabilidade em qualquer quantidade, por se guardar para uma criança brincar com ele. A Guemará então levanta uma contradição a partir de outra fonte sobre a medida de esterco e areia fina para adubar, resolvida por Rav Papa distinguindo entre uma planta já plantada e uma semente ainda não plantada; explica a medida de sementes de pepino com uma baraita sobre caroços de tâmara — para plantio, comida, fogo ou contagem — e outra sobre fios de cauda de cavalo ou vaca, cerdas de porco, e ramos e fibras de tamareira; identifica a tzipporet keramim como uma fibra encontrada em tamareiras jovens, preparada e consumida em duas metades para adquirir sabedoria, conforme o ensinamento de Abaye; e discute, por meio da história de Rav Kahana diante de Rav com um gafanhoto puro na boca, por que Rabi Yehuda teme apenas que o gafanhoto impuro morra e seja comido por engano, mas não teme o mesmo quanto ao puro, pois uma criança choraria por um gafanhoto de estimação morto, em vez de comê-lo. Concluída essa sugya, a folha registra a fórmula "Hadran Alach Amar Rabi Akiva" ("Retornaremos a você, Amar Rabi Akiva"), encerrando formalmente o Perek Tet — aberto ainda dentro do daf 82a, com a Mishná sobre a impureza da idolatria por transporte, e que atravessou, ao longo de mais de oito folhas, a pureza do barco e dos vasos de barro, os canteiros de kilaim, a longa sugya agádica sobre a entrega da Torá no Sinai e os cinco nomes do deserto, e as medidas de lenha, tempero, tintura, lavagem, pimenta, especiarias, metais e objetos sagrados. Sem qualquer interrupção no texto talmúdico tradicional, a folha prossegue imediatamente com a Mishná de abertura do Perek Yud, cujo nome, HaMatznia ("quem guarda"), vem de suas primeiras palavras: quem guarda algo especificamente para semente, para amostra ou para remédio, e o transportou em Shabat, é responsável em qualquer quantidade — pois já lhe deu importância ao guardá-lo com essa finalidade —, mas qualquer outra pessoa que o transporte sem essa intenção só é responsável pela medida padrão de cada item; e, se quem o guardara mudar de ideia e voltar a trazê-lo para dentro, também essa entrada só gera responsabilidade pela medida padrão, já que sua intenção original foi anulada. A Guemará então questiona por que a Mishná precisou introduzir o verbo "guardar" em vez de simplesmente ensinar que quem transporta algo para semente, amostra ou remédio já é responsável em qualquer quantidade, e Abaye responde: trata-se do caso em que alguém guardou algo e depois esqueceu por que o havia guardado, transportando-o agora sem essa intenção específica — mas permanecendo responsável, porque a intenção original de guardá-lo já lhe dera importância.

Nota — a folha prossegue a mesma Mishná de 90a, sem interrupção real

90a terminara com a frase gramaticalmente fechada da Mishná sobre sementes de horta ("cinco", segundo Rabi Yehuda ben Beteira). Confirmado via Sefaria, 90b não abre um novo assunto, mas continua a mesma Mishná, detalhando as medidas específicas de três sementes de horta em particular — pepino, abóbora e fava egípcia —, cada uma com medida de duas, e prossegue com o gafanhoto e a tzipporet keramim, ainda dentro da mesma unidade de Mishná.

A Mishná: sementes de pepino, abóbora e fava egípcia; o gafanhoto; a tzipporet keramim · זֶרַע קִישּׁוּאִין שְׁנַיִם

124Mishná (continuação): pepino, abóbora e fava egípcia, duas sementes; gafanhoto vivo puro, qualquer quantidade, morto, uma grogueret; tzipporet keramim, qualquer quantidade, para remédio; Rabi Yehuda: também gafanhoto vivo impuro, para brinquedo de criança
Mishná (continuação de 90a)
זֶרַע קִישּׁוּאִין — שְׁנַיִם. זֶרַע דִּילּוּעִין — שְׁנַיִם. זֶרַע פּוֹל הַמִּצְרִי — שְׁנַיִם. חָגָב חַי טָהוֹר — כׇּל שֶׁהוּא. מֵת — כִּגְרוֹגֶרֶת. צִפּוֹרֶת כְּרָמִים, בֵּין חַיָּה בֵּין מֵתָה — כׇּל שֶׁהוּא, שֶׁמַּצְנִיעִין אוֹתָהּ לִרְפוּאָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אַף הַמּוֹצִיא חָגָב חַי טָמֵא כׇּל שֶׁהוּא, שֶׁמַּצְנִיעִין אוֹתוֹ לְקָטָן לִשְׂחוֹק בּוֹ.

Semente de pepino (kishuim) — a medida é duas. Semente de abóbora (dilluim) — duas. Semente de fava egípcia — duas. Gafanhoto vivo puro (tahor) — qualquer quantidade. Morto — a medida é uma grogueret (figo seco), como qualquer alimento. Tzipporet keramim ("pássaro das vinhas"), seja viva seja morta — qualquer quantidade, pois se guarda para remédio. Rabi Yehuda diz: também quem transporta gafanhoto vivo impuro (tamei) — qualquer quantidade, pois se guarda para uma criança brincar com ele.

Nota

A Mishná encerra a lista de sementes de horta dando a medida específica de três tipos — pepino, abóbora e fava egípcia —, cada um com apenas duas sementes, em vez das cinco da regra geral. Prossegue então com dois itens novos: o gafanhoto, cuja medida depende de estar vivo (puro, qualquer quantidade) ou morto (como qualquer alimento, uma grogueret); e a tzipporet keramim, cuja medida mínima é qualquer quantidade, tanto viva quanto morta, por se guardar para remédio. Rabi Yehuda acrescenta que o mesmo vale para o gafanhoto vivo impuro, guardado como brinquedo para uma criança.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "zera kishuim", "hamotzi chagav chai kol shehu", "met", "tzipporet keramim" e "shematznihim oto lekatan"
זרע קישואין - חשוב הוא וחייב בשני גרגרין: המוציא חגב חי כל שהוא - שמצניעין אותו לקטן לשחק בו כדמפרש רבי יהודה בסיפא דמתני': מת - הרי הוא כשאר אוכלין וחייב בכגרוגרת: ציפורת כרמים - לקמיה מפרש מאי היא ומאי רפואתו: שמצניעים אותו לקטן כו' - ות"ק מהאי טעמא נמי מחייב ליה בחגב טהור ומיהו אטמא פליג דלא מצנעי ליה לשחק דילמא אכיל ליה כדלקמן:

"'Semente de pepino'" — é importante, e gera responsabilidade com duas sementes. "'Quem transporta gafanhoto vivo, qualquer quantidade'" — pois se guarda para uma criança brincar com ele, como explica Rabi Yehuda no final da nossa Mishná. "'Morto'" — é como os demais alimentos, e gera responsabilidade com uma grogueret. "'Tzipporet keramim'" — mais adiante se explica o que é, e qual é o seu remédio. "'Pois se guarda para uma criança, etc.'" — e o primeiro Tanna também, por essa mesma razão, torna responsável quanto ao gafanhoto puro; mas quanto ao impuro ele discorda, pois não se guarda para brincar, por receio de que a criança o coma, como se explica adiante.

A contradição sobre esterco e areia fina para adubar · כְּדֵי לְזַבֵּל קֶלַח שֶׁל כְּרוּב

125Contradição a partir da medida de esterco e areia fina para adubar um caule de couve ou um alho-poró; resposta de Rav Papa — planta já plantada versus semente ainda não plantada
A Guemará; Rav Papa
וּרְמִינְהִי: זֶבֶל וָחוֹל הַדַּק — כְּדֵי לְזַבֵּל קֶלַח שֶׁל כְּרוּב, דִּבְרֵי רַבִּי עֲקִיבָא. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: כְּדֵי לְזַבֵּל כְּרֵישָׁא! אָמַר רַב פָּפָּא: הָא דִּזְרִיעַ, הָא דְּלָא זְרִיעַ — לְפִי שֶׁאֵין אָדָם טוֹרֵחַ לְהוֹצִיא נִימָא אַחַת לִזְרִיעָה.

GUEMARÁ. E levantaram uma contradição a partir de outra fonte: esterco e areia fina — a medida é a suficiente para adubar o caule de uma couve, palavras de Rabi Akiva; e os Sábios dizem: a suficiente para adubar um alho-poró , medida menor! Disse Rav Papa: esta opinião trata do caso em que a planta já está plantada, e aquela trata do caso em que a semente ainda não está plantada — porque uma pessoa não se dá ao trabalho de transportar um único fio de semente apenas para plantio.

Nota

A Guemará confronta a medida de sementes dada pela nossa Mishná (duas para pepino, abóbora e fava egípcia) com outra fonte, que discute a medida de esterco e areia fina necessária para adubar uma única planta — um caule de couve, segundo Rabi Akiva, ou um alho-poró, medida menor, segundo os Sábios —, medida que pressupõe que até uma única planta já plantada seja significativa. Rav Papa distingue os dois contextos: quando a planta já está plantada, cada exemplar individual já tem valor, e vale a pena adubá-lo; mas quando se trata de uma semente ainda não plantada, ninguém se dá ao trabalho de separar um único fio de semente só para plantio — daí a necessidade de duas sementes, e não uma, na medida da Mishná.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "kdei lezabel" e "ha dizria"
גמ' כדי לזבל - אלמא זרע הבא מגרעין אחד חשיב: הא דזריע - מאחר שהן זרועין חשיב כל אחד ואחד ואדם טורח לזבל אחד מהם אבל דלא זריע אין אדם טורח לזרוע גרגיר אחד:

"'GUEMARÁ: a medida para adubar'" — logo, se aprende que uma planta que vem de um único caroço já é significativa. "'Esta opinião trata do caso em que a planta já está plantada'" — já que estão plantadas, cada uma delas é significativa, e uma pessoa se dá ao trabalho de adubar uma única delas; mas quando não está plantada, uma pessoa não se dá ao trabalho de plantar um único caroço.

A baraita sobre caroços de tâmara, fios de cauda, cerdas e fibras de tamareira · הַמּוֹצִיא גַּרְעִינִין

126Baraita: caroços de tâmara — para plantio, duas; para comer, o suficiente para encher a boca de um porco; para fogo, um ovo leve; para contagem, duas ou cinco; baraita: fios de cauda de cavalo ou vaca, cerdas de porco, ramos e fibras de tamareira
A Guemará; a baraita
זֶרַע קִישּׁוּאִין. תָּנוּ רַבָּנַן: הַמּוֹצִיא גַּרְעִינִין, אִם לִנְטִיעָה — שְׁתַּיִם, אִם לַאֲכִילָה — כִּמְלֹא פִּי חֲזִיר, וְכַמָּה מְלֹא פִּי חֲזִיר — אַחַת. אִם לְהַסִּיק — כְּדֵי לְבַשֵּׁל בֵּיצָה קַלָּה. אִם לְחֶשְׁבּוֹן — שְׁתַּיִם. אֲחֵרִים אוֹמְרִים: חָמֵשׁ. תָּנוּ רַבָּנַן: הַמּוֹצִיא שְׁנֵי נִימִין מִזְּנַב הַסּוּס וּמִזְּנַב הַפָּרָה — חַיָּיב, שֶׁמַּצְנִיעִין אוֹתָן לְנִישְׁבִּין. מִקְשֶׁה שֶׁל חֲזִיר — אַחַת. צוּרֵי דֶקֶל — שְׁתַּיִם. תּוֹרֵי דֶקֶל — אַחַת.

Ensinamos na Mishná: semente de pepino , duas. Ensinaram os Sábios numa baraita: quem transporta caroços de tâmara, se para plantio — duas; se para comer — o suficiente para encher a boca de um porco, e quanto é o suficiente para encher a boca de um porco? uma única. Se para acender fogo — o suficiente para cozinhar um ovo leve (de cozimento rápido). Se para contagem , como ficha de cálculo, — duas. Outros dizem: cinco. Ensinaram os Sábios numa baraita: quem transporta dois fios da cauda do cavalo e da cauda da vaca — é responsável, pois se guardam para armadilhas de pássaros. Cerdas de porco (mikshe shel chazir) — uma. Ramos descascados de tamareira (tzurei dekel) — duas. Fibras de tamareira (torei dekel) — uma.

Nota

A Guemará explica a medida de duas sementes dada para pepino com uma baraita que detalha as diferentes medidas de caroços de tâmara, conforme a finalidade — plantio, alimento, combustível ou instrumento de contagem —, e acrescenta uma segunda baraita sobre outros materiais miúdos cuja medida mínima de transporte é pequena por terem uso prático evidente: fios de cauda de animal para armadilhas de pássaros, cerdas de porco para costura, e ramos e fibras de tamareira para cestos e teares.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hamotzi gar'inin", "beitza kala", "lecheshbon", "acherim omerim chamesh", "lenishbin", "mikshe shel chazir", "achat", "tzurei dekalim", "shtayim" e "torei dekel"
המוציא גרעינין - גרעיני תמרה: ביצה קלה - כגרוגרת מביצה שהיא קלה לבשל וזו של תרנגולת: לחשבון - כמו שנותנים לסימן עדות לכל דינר פשוט: אחרים אומרים ה' - דעד ד' כללות חשיב איניש ולא מינשי ואין צריך לתת סימן אבל חמש מינשי ומותיב סימנא לכולהו: לנישבין - לצוד עופות ובלע"ז ליצ"ש: מקשה של חזיר - נימין קשין שבשדרה של חזיר: אחת - דחזיא לאושכפי לתת בראש המשיחה של תפירה: צורי דקלים - נצרים קלופים לעשות סלים: שתים - לשתי בתי נירין: תורי דקל - דקין מצורי והן מן הסיב הגדל סביבותיו ולא ידעתי למאי חזי:

"'Quem transporta caroços'" — caroços de tâmara. "'Ovo leve'" — o equivalente ao volume de uma grogueret de um ovo que é rápido de cozinhar, e este é o de galinha. "'Para contagem'" — como as fichas que se dão para sinal em testemunho, uma para cada dinar comum. "'Outros dizem: cinco'" — pois até quatro, no total, uma pessoa os tem em mente e não os esquece, sem precisar dar um sinal; mas cinco ela esquece, e por isso põe um sinal para todos eles. "'Para armadilhas (nishbin)'" — para caçar pássaros; e em francês antigo, "laz". "'Cerdas de porco (mikshe)'" — os pelos duros que há na espinha do porco. "'Uma'" — pois serve aos sapateiros, para colocar na ponta do fio de costura. "'Ramos de tamareiras (tzurei dekalim)'" — varas descascadas, para fazer cestos. "'Duas'" — para os dois liços (as hastes de fixação) do tear. "'Fibras de tamareira (torei dekel)'" — mais finas que os "tzurei", e são da fibra que cresce ao redor do tronco; e não sei para que servem.

A tzipporet keramim: a fibra da tamareira jovem, guardada para sabedoria · מַאי צִיפּוֹרֶת כְּרָמִים

127O que é a tzipporet keramim: encontrada numa tamareira jovem, de uma única fibra; Abaye descreve como se prepara, sela e consome em duas metades, para adquirir sabedoria
Rav; Abaye
צִיפּוֹרֶת כְּרָמִים, בֵּין חַיָּה בֵּין מֵתָה — כׇּל שֶׁהוּא. מַאי צִיפּוֹרֶת כְּרָמִים? אָמַר רַב: פַּלְיָא בִּיאָרִי. אָמַר אַבָּיֵי: וּמִשְׁתַּכְחָא בְּדִיקְלָא דְּחַד נְבָארָא וְעָבְדִי לַהּ לְחוּכְמָא. אָכֵיל לֵיהּ לְפַלְגָא דְיַמִּינֵיהּ, וּפַלְגָא דִשְׂמָאלֵיהּ רָמֵי לֵהּ בְּגוּבְתָּא דִנְחָשָׁא וְחָתֵים לֵהּ בְּשִׁיתִּין גּוּשְׁפַּנְקֵי, וְתָלֵי לֵהּ בְּאִיבְרָא דִשְׂמָאלָא. וְסִימָנָיךְ: ״לֵב חָכָם לִימִינוֹ וְלֵב כְּסִיל לִשְׂמֹאלוֹ״, וְחָכֵים כַּמָּה דְּבָעֵי, וְגָמַר כַּמָּה דְּבָעֵי, וְאָכֵיל לֵיהּ לְאִידַּךְ פַּלְגָא, דְּאִי לָא — מִיעֲקַר תַּלְמוּדֵיהּ.

Ensinamos na Mishná: tzipporet keramim, seja viva seja morta — qualquer quantidade. O que é tzipporet keramim? Disse Rav: "paylei bairi" (nome popular). Disse Abaye: e se encontra numa tamareira ainda jovem, de uma única fibra que cresce ao redor do tronco, e a preparam para dar sabedoria. Come-se a metade direita dela, e a metade esquerda coloca-se num tubo de cobre, e sela-se com sessenta selos, e pendura-se no braço esquerdo. E teu sinal é: "o coração do sábio está à sua direita, e o coração do tolo, à sua esquerda" (Eclesiastes 10:2); e o estudante se torna sábio quanto quiser, e aprende quanto quiser, e depois come a outra metade — pois, se não a comer, seu conhecimento aprendido se desarraiga dele.

Nota

Rav identifica a tzipporet keramim por seu nome popular, e Abaye descreve o processo completo: ela se encontra numa tamareira ainda jovem, envolvida por uma única fibra; come-se metade dela para adquirir sabedoria, guardando-se a outra metade selada num tubo de cobre, pendurado no braço esquerdo — numa alusão ao verso de Eclesiastes sobre o coração do sábio à direita e do tolo à esquerda —, até que o estudo esteja concluído, quando então se come também a segunda metade, sob pena de o conhecimento adquirido se perder.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "paylei bairi", "umishtakcha bedikla dechad nevara", "lechuchma", "gubta", "shitin", "gushpankei", "vetalei leih be'ivra dismala", "vesiman lev kesil", "ve'achil leih le'idach palga", "ve'i la" e "mi'akar talmudo"
פיילי ביירי - כך שמו: ומשתכח בדיקלא דחד נבארא - בדקל בחור שלא נכרך עדיין אלא בסיב א' שגדל סביבותיו וכורכו: לחוכמא - לפתוח הלב: גובתא - קנה: שיתין - לאו דוקא אלא מכסהו כסויין הרבה כגון זפת ושעוה על גבה ואדמה: גושפנקי - חותמות: ותלי ליה באיברא דשמאל' - בזרוע השמאלי: וסימן לב כסיל - כגון זה שצריך לפקח לב לשמאלו: ואכיל לאידך פלגא - בתר דאחכים: ואי לא - אכיל ליה אלא שדי ליה: מיעקר תלמודו - וחכמתו שלמד על ידו נעקר ממנו:

"'Paylei bairi'" — assim é o seu nome. "'E se encontra numa tamareira de uma única fibra'" — numa tamareira jovem que ainda não se envolveu senão com uma única fibra que cresce ao seu redor e a envolve. "'Para sabedoria'" — para abrir o coração (a compreensão). "'Tubo (gubta)'" — cana. "'Sessenta'" — não é exato como número literal, mas quer dizer que se cobre com muitas coberturas, como piche e cera sobre ele, e terra. "'Selos (gushpankei)'" — selos. "'E o pendura no membro esquerdo'" — no braço esquerdo. "'E o sinal: coração do tolo'" — alude a quem precisa abrir os olhos do coração para o seu lado esquerdo. "'E come a outra metade'" — depois de já ter adquirido sabedoria. "'E se não'" — a comer, mas a joga fora. "'Seu aprendizado se desarraiga'" — e a sabedoria que aprendeu por meio dela se desarraiga dele.

128Por que Rabi Yehuda proíbe apenas o gafanhoto vivo impuro, não o puro: a história de Rav Kahana diante de Rav com um "shoshiva" na boca; resposta — o receio é de que morra e seja comido, não de que seja comido vivo
A Guemará; Rav; Rav Kahana
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אַף הַמּוֹצִיא כּוּ׳. וְתַנָּא קַמָּא סָבַר לָא. מַאי טַעְמָא? דִילְמָא אָכֵיל לֵיהּ: אִי הָכִי, טָהוֹר נָמֵי. דְּהָא רַב כָּהֲנָא הֲוָה קָאֵים קַמֵּיהּ דְּרַב, וַהֲוָה קָמְעַבַּר שׁוֹשִׁיבָא אַפּוּמֵּיהּ. אֲמַר לֵיהּ: שִׁקְלֵיהּ, דְּלָא לֵימְרוּ מֵיכַל קָאָכֵיל לֵיהּ, וְקָעָבַר מִשּׁוּם ״בַּל תְּשַׁקְּצוּ אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם״! אֶלָּא, דִילְמָא מָיֵית וְאָכֵיל לֵיהּ. וְרַבִּי יְהוּדָה אִי מָיֵית — קָטָן מִיסְפָּד סָפֵיד לֵיהּ.

Ensinamos na Mishná: "Rabi Yehuda diz: também quem transporta gafanhoto vivo impuro, qualquer quantidade", etc. E o primeiro Tanna entende que não é responsável, pois não se guarda o gafanhoto impuro para uma criança brincar. Qual é a razão? Por receio de que ela o coma. Se assim, também o puro vivo deveria estar sujeito à mesma preocupação! Pois eis que Rav Kahana estava de pé diante de Rav, e um "shoshiva" (um tipo de gafanhoto puro) passava por sua boca. Rav lhe disse: tira-o, para que não digam que ele o está comendo, e estaria transgredindo o verso: "não torneis abomináveis as vossas almas" (Levítico 11:43)! Mas na verdade, o receio do primeiro Tanna não é de que a criança o coma vivo, mas sim de que o gafanhoto impuro morra e ela o coma morto, sem perceber. E, quanto a Rabi Yehuda, quanto ao gafanhoto puro, se ele morrer, a criança choraria por ele , por estar apegada a ele como bicho de estimação, e não teria por costume comê-lo morto.

Nota

A Guemará explica por que o primeiro Tanna limita a permissão de guardar um gafanhoto vivo como brinquedo apenas ao puro, excluindo o impuro: o receio de que a criança o coma. Uma objeção — a história de Rav Kahana, repreendido por Rav por deixar um gafanhoto puro passar por sua boca, o que já revela uma preocupação real com o gafanhoto puro vivo — é resolvida distinguindo o tipo de receio: não se teme que a criança coma o gafanhoto vivo enquanto brinca com ele, mas que ele morra durante a brincadeira e seja comido morto, sem que a criança perceba a diferença; o gafanhoto puro morto é permitido para consumo, então não há problema nesse caso, mas o impuro morto seria proibido. Quanto a Rabi Yehuda, que permite guardar também o impuro, sua razão é que, se o gafanhoto de estimação morresse, a criança choraria por ele, apegada como está, e não teria o costume de comê-lo morto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "vetana kama savar lo", "dilma achil", "i hachi tahor", "shoshiva", "ela" e "mispad safeid leih"
ות"ק סבר - חגב טמא לא מצנעי' ליה לקטן לשחק: דילמא אכיל - ואפי' למאן דאמר קטן אוכל נבלות אין ב"ד מצויין עליו להפרישו מודה הוא דלא יהבינן ליה בידים דתניא לא תאכלום לא תאכילום להזהיר גדולים על הקטנים: אי הכי טהור - חי נמי דילמא אכיל ליה ואי משום דאין בו איסור אבר מן החי דחגב אין טעון שחיטה אית ביה מיהא משום בל תשקצו במסכת מכות כדרב כהנא כו': שושיבא - מין חגב טהור: אלא - לאו משום דחייש דילמא אכיל לי' חי אלא דילמא מיית ואכיל לי' וקאכיל טמא אבל טהור ש"ד: מיספד ספיד ליה - תינוק ולאו אורחיה למיכליה:

"'E o primeiro Tanna entende'" — que não se guarda gafanhoto impuro para uma criança brincar. "'Por receio de que ela o coma'" — e mesmo segundo quem diz que, se uma criança come coisas proibidas (nevelot), o tribunal não é obrigado a impedi-la, ainda assim ele concorda que não se deve entregar a proibição diretamente às mãos dela, pois ensinaram numa baraita: "não as comereis", "não as fareis comer" — para advertir os adultos quanto às crianças. "'Se assim, também o puro'" — vivo também deveria ser motivo de receio; e se é porque não há nele a proibição de membro de animal vivo, já que o gafanhoto não requer abate ritual, ainda assim há nele, ao menos, a proibição de "não torneis abomináveis", como se explica no tratado Makot, conforme o caso de Rav Kahana etc. "'Shoshiva'" — um tipo de gafanhoto puro. "'Mas'" — não é por receio de que ela o coma vivo, mas por receio de que ele morra e ela o coma morto; e isso vale para o impuro, mas o puro é permitido mesmo morto. "'A criança choraria por ele'" — pois não é seu costume comê-lo quando morto.

Fim do Perek Tet · Amar Rabi Akivaהַדְרָן עֲלָךְ אָמַר רַבִּי עֲקִיבָא
Nota sobre a transição

Com a explicação do gafanhoto e da tzipporet keramim, encerra-se todo o Perek Tet, Amar Rabi Akiva ("disse Rabi Akiva"), que se abrira ainda dentro do daf 82a, com a Mishná sobre a impureza da idolatria por transporte, comparada à da menstruada. Ao longo de mais de oito folhas, o perek percorreu a pureza do barco e dos vasos de barro, os canteiros de kilaim, a extensa sugya agádica sobre a cronologia e o drama da entrega da Torá no Sinai e os cinco nomes do deserto, e as medidas mínimas de lenha, tempero, tintura, materiais de lavagem, pimenta, piche, especiarias, metais, pedras e pó do altar, objetos sagrados, a caixa do mascate e as sementes de horta. O texto talmúdico tradicional marca esse encerramento com a fórmula "Hadran Alach Amar Rabi Akiva" ("Retornaremos a você, Amar Rabi Akiva"), dita ao concluir o estudo de um capítulo. Sem qualquer interrupção no texto original, o daf prossegue imediatamente com a Mishná de abertura do capítulo seguinte.

Início do Perek Yud · HaMatzniaתְּחִלַּת פֶּרֶק י · הַמַּצְנִיעַ

Nova Mishná: quem guarda algo para semente, amostra ou remédio · הַמַּצְנִיעַ לְזֶרַע וּלְדוּגְמָא וְלִרְפוּאָה

129Mishná: quem guarda algo para semente, amostra ou remédio e o transportou é responsável em qualquer quantidade; qualquer outra pessoa, só pela medida padrão; se voltou a trazê-lo para dentro, só pela medida padrão
Mishná
הַמַּצְנִיעַ לְזֶרַע וּלְדוּגְמָא וְלִרְפוּאָה וְהוֹצִיאוֹ בְּשַׁבָּת — חַיָּיב בְּכׇל שֶׁהוּא. וְכׇל אָדָם — אֵין חַיָּיב עָלָיו אֶלָּא כְּשִׁיעוּרוֹ. חָזַר וְהִכְנִיסוֹ — אֵינוֹ חַיָּיב אֶלָּא כְּשִׁיעוּרוֹ.

MISHNÁ. Quem guarda algo para semente, ou para amostra, ou para remédio, e o transportou em Shabat — é responsável em qualquer quantidade. Mas qualquer outra pessoa que o transporte sem essa intenção de guardá-lo — não é responsável por ele senão pela sua medida padrão. Se ele , que o guardara, voltou a trazê-lo para dentro — não é responsável senão pela sua medida padrão.

Nota — abre-se o Perek Yud, HaMatznia

Abre-se aqui o Perek Yud, cujo nome, HaMatznia ("quem guarda"), vem de suas primeiras palavras. A Mishná estabelece que a intenção de guardar algo especificamente para semente, amostra ou remédio já é suficiente para gerar responsabilidade por transportá-lo em qualquer quantidade, por menor que seja, pois essa intenção já lhe dá importância; mas qualquer outra pessoa, que transporte o mesmo item sem essa intenção particular, só é responsável pela medida padrão exigida para aquele tipo de item. E se a própria pessoa que o guardara mudar de ideia e voltar a trazê-lo para dentro de casa, essa segunda ação — a entrada — também só gera responsabilidade pela medida padrão, e não pela quantidade mínima original, já que a intenção que dava importância ao item foi abandonada.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "hamatznia bechol shehu", "ela keshiuro", "chazar vehichniso" e "eino chayav"
מתני' המצניע בכל שהוא - דהא אחשביה: אלא כשיעורו - בכל אחד שיעור המפורש לו בזרעונין חמשה זרע קישואין או דילועין או פול המצרי שנים ובשאר דברים כגון יין או אוכלין או גמי כשיעור המפורש בכלל גדול ובהמוציא: חזר והכניסו - זה שהצניע פחות מכשיעור והוציאו אם חזר ונמלך שלא לזורעו והכניסו: אינו חייב - בהכנסה זו אלא אם כן יש בו שיעור שלם דכיון דנמלך עליו שלא לזורעו ביטל מחשבתו והרי הוא ככל אדם:

"'MISHNÁ: quem guarda, em qualquer quantidade'" — pois ele mesmo já lhe deu importância ao guardá-lo com essa finalidade. "'Senão pela sua medida'" — em cada caso, a medida especificada para ele: nas sementes de horta, cinco; semente de pepino, de abóbora ou de fava egípcia, duas; e nas demais coisas, como vinho, alimentos ou junco, a medida especificada nos capítulos "Klal Gadol" (Perek Zayin) e "HaMotzi" (Perek Chet). "'Voltou a trazê-lo para dentro'" — este que guardara menos que a medida padrão e o transportara para fora; se voltou atrás e decidiu não plantá-lo, e o trouxe de volta para dentro. "'Não é responsável'" — por esse transporte de entrada, a menos que haja nele a medida completa padrão; pois, já que decidiu não plantá-lo, anulou sua intenção original, e ele passa a ser como qualquer pessoa comum, sujeita à medida padrão.

130Guemará: por que a Mishná precisou ensinar "quem guarda" em vez de simplesmente "quem transporta"; resposta de Abaye — o caso de quem guardou e esqueceu o motivo, mas permanece responsável pela intenção original
A Guemará; Abaye
לְמָה לֵיהּ לְמִיתְנֵי ״הַמַּצְנִיעַ״? לִיתְנֵי: הַמּוֹצִיא לְזֶרַע וּלְדוּגְמָא וְלִרְפוּאָה — חַיָּיב בְּכׇל שֶׁהוּא! אָמַר אַבָּיֵי: הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן, כְּגוֹן שֶׁהִצְנִיעוֹ וְשָׁכַח לָמָּה הִצְנִיעוֹ, וְהַשְׁתָּא קָא מַפֵּיק לֵיהּ סְתָמָא.

GUEMARÁ. Por que precisou a Mishná ensinar "quem guarda"? Que ensine simplesmente: "quem transporta para semente, para amostra e para remédio — é responsável em qualquer quantidade"! Disse Abaye: aqui, com o que estamos tratando? Com um caso em que a pessoa o guardou, e esqueceu por que o havia guardado, e agora o transporta para fora sem essa intenção específica presente — mas ainda assim permanece responsável, pois a intenção original de guardá-lo já lhe dera importância.

Nota

A Guemará questiona a formulação da Mishná: se o critério fosse simplesmente transportar algo com a intenção de usá-lo para semente, amostra ou remédio, bastaria ensinar "quem transporta", sem o verbo "guardar". Abaye explica que o caso da Mishná é mais sutil: trata-se de alguém que, no passado, guardou deliberadamente um item para uma dessas três finalidades, mas depois esqueceu qual era o motivo original, e agora o transporta sem ter em mente, no momento do transporte, aquela intenção específica — e, ainda assim, permanece responsável em qualquer quantidade, porque a importância que o item recebeu ao ser guardado no passado não se desfaz apenas por ter sido esquecida.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "litnei hamotzi zera bechol shehu chayav"
גמ' ליתני המוציא זרע בכל שהוא חייב - ואף על גב דלא אצנעיה מעיקרא להכי דהא דבעינן שיעורא היינו טעמא כדאמרן שאין אדם טורח להוציא נימא אחת לזריעה הלכך מוציא סתם פטור עד שיהא בו שיעור אבל זה שהוציא נימא אחת לזריעה בהדיא גלי דעתיה דטרח ואחשביה:

"'GUEMARÁ: que ensine — quem transporta semente, em qualquer quantidade, é responsável'" — ainda que não a tenha guardado desde o início para essa finalidade; pois a razão de exigirmos uma medida mínima, como já dissemos, é que uma pessoa não se dá ao trabalho de transportar um único fio de semente apenas para plantio; portanto, quem transporta uma semente qualquer sem especificação está isento, até que haja nela a medida padrão; mas este que transportou um único fio explicitamente para plantio já revelou, com isso, sua intenção — que se deu ao trabalho e lhe deu importância.