Sexta halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. A Mishná ensina que Beit Shammai proíbem pôr na véspera do Shabat feixes de linho no forno e lã no caldeirão de tingir, a não ser que haja tempo para que o linho solte vapor e a lã absorva a cor enquanto ainda é dia, e que Beit Hillel permitem. A guemará pergunta que proveito tem o tintureiro que deixa a lã no caldeirão durante o Shabat, e Rabi Abahu responde com os aldeões que não se importam com a qualidade; traz a restrição de Rav Yehudá em nome de Shmuel, que só permite o caldeirão retirado do fogo, e o raciocínio de Rabi Shmuel em nome de Rabi Abahu, pelo qual Beit Hillel aprendem o trabalho permitido a partir do trabalho proibido. O Bavli discute esta mesma Mishná em Shabbat 17b.
Mishná: Beit Shammai dizem: não se põem unin (feixes) de linho dentro do forno na véspera do Shabat, a não ser que haja tempo para que soltem vapor enquanto ainda é dia; nem se põe a lã na yorá (caldeirão de tingir), a não ser que haja tempo para que absorva a cor enquanto ainda é dia. E Beit Hillel permitem pô-los mesmo perto do escurecer, ainda que o linho continue a branquear-se e a lã continue a tingir-se no Shabat.
Na Mishná: “Beit Shammai dizem: não se põem unin de linho dentro do forno” etc. Quanto à lã que, segundo Beit Hillel, se pode pôr no caldeirão de tingir perto do escurecer, que proveito o tintureiro tira disso, se a lã fica sem cuidado durante todo o Shabat e ele não pode garantir o resultado? Disse Rabi Abahu: é como esses aldeões, que não se importam com a qualidade do tingimento, e para eles vale a pena. Rav Yehudá disse em nome de Shmuel: e isso só é permitido quando a yorá está arrancada, isto é, retirada do fogo. Mas se a yorá estava fixa sobre o fogo, é proibido, porque ele teme que a sua tinta se consuma, e então ele acrescenta água no próprio Shabat. Rabi Shmuel disse em nome de Rabi Abahu: Beit Hillel aprendem o trabalho permitido a partir do trabalho proibido: se ele fizesse isso no Shabat, porventura não seria proibido? E, correspondentemente, se fez isso enquanto ainda é dia, é permitido, ainda que o efeito continue no Shabat.
Esta é a sexta halachá do Perek Alef de Massechet Shabbat. Corresponde à primeira parte da Mishná Shabbat 1:6 da Mishná avulsa; a segunda parte dessa Mishná, a disputa de Beit Shammai e Beit Hillel sobre armar redes para animais, aves e peixes, abre a halachá seguinte do Yerushalmi. No Yerushalmi, a Mishná diz “sheyahavilu” e “et ha’ayin”; a Mishná avulsa diz “sheyahbilu” e “ha’ayin”, sem a partícula “et”, com o mesmo sentido. Na citação da Mishná que abre a halachá, o texto escreve “shelepishtan betoch” em vez de “shel pishtan letoch”, também sem diferença de sentido. A halachá anterior terminou com o argumento de Rabi Mana em favor de Beit Hillel, que distingue a carne assada, cujo modo é assar-se por completo enquanto ainda é dia, daquilo que fica de molho.
A guemará trata só da segunda parte da Mishná, a do tintureiro e do caldeirão de tingir. Pergunta que proveito tem quem deixa a lã no caldeirão durante o Shabat, sem poder vigiar o tingimento, e Rabi Abahu responde que se trata de quem tinge para os aldeões, que não se importam com a qualidade. Rav Yehudá, em nome de Shmuel, restringe a permissão de Beit Hillel ao caldeirão retirado do fogo, pois com o caldeirão fixo sobre o fogo se teme que o tintureiro acrescente água no Shabat. Por fim, Rabi Shmuel, em nome de Rabi Abahu, explica que Beit Hillel aprendem o permitido a partir do proibido: o que seria proibido é fazer a obra no Shabat, e por isso fazê-la enquanto ainda é dia é permitido.
Observações de leitura. “Unin” são os feixes de linho cru que, depois de postos de molho, se aquecem no forno para branquear as fibras; “yorá” é o caldeirão do tintureiro. A palavra “ha’ayin” da Mishná, literalmente “o olho”, designa o aspecto, isto é, a cor que a lã absorve. “Kuryai”, na resposta de Rabi Abahu, são os aldeões; “moy”, nas palavras de Shmuel, é a forma aramaica de “água”. A nota de Guggenheimer chama a Mishná desta halachá de “Mishná 10”, segundo a sua numeração própria; aqui ela é a Mishná Shabbat 1:6. No Bavli, a Mishná está em Shabbat 17b, e a mesma restrição aparece em Shabbat 18b, onde Shmuel diz que a permissão vale “com a yorá arrancada”.
Comparação com o pivô inglês. Nesta halachá não há divergência de sentido entre o hebraico e a tradução de Guggenheimer; seguiu-se o hebraico frase a frase. Onde Guggenheimer traduz “mahu mithanei” por “que proveito ele tem?”, explicitamos que a pergunta se refere ao tintureiro que, segundo Beit Hillel, deixa a lã no caldeirão; e mantivemos como pergunta retórica a frase de Rabi Shmuel, “porventura não seria proibido?”, como está no hebraico.