Sétima halachá do Perek Alef, Or LeArbaá Asar (na noite do catorze), de Massechet Pessachim. A Mishná traz o acréscimo de Rabi Akiva ao testemunho de Rabi Chananiá: os kohanim nunca deixaram de acender o óleo de teruma desqualificado por um tevul yom numa lamparina impura por um tamé met, ainda que assim se acrescentasse impureza ao óleo. Na guemará, mede-se o que Rabi Akiva acrescenta segundo Rabi Yochanan e segundo Bar Kapara, e explica-se o caso com um tevul yom por impureza de beit hapras; Rabi Mana diz que Rabi Akiva segue a sua leitura de “será impuro” como “tornará impuro”, que Rabi Yossi beRabi Bun estende aos utensílios até para Rabi Yishmael; e as duas versões da Mishná, “tamé met” e “por um tamé met”, são postas em utensílios de enxágue e em utensílios de metal.
Mishná: Acrescentou Rabi Akiva: em seus dias, os kohanim (os sacerdotes) nunca se abstiveram de acender o óleo de teruma que foi desqualificado por um tevul yom (quem imergiu e aguarda o pôr do sol) numa lamparina que se tornou impura por um tamé met (quem está impuro pelo contato com um morto), ainda que lhe acrescentem impureza sobre a sua impureza.
Segundo a opinião de Rabi Yochanan: lá (nas palavras de Rabi Chananiá) queima-se impureza da Torá com impureza da Torá; e Rabi Akiva vem acrescentar o pessul (desqualificado) da Torá com impureza da Torá.
Segundo a opinião de Bar Kapara: lá se queima impureza das palavras deles (dos sábios) com impureza da Torá; e aqui, o pessul da Torá com impureza da Torá: não veio ele senão para diminuir?
Explica-a (a palavra de Rabi Akiva) com um tevul yom por impureza de beit hapras (o campo onde se perdeu um sepulcro), que é das palavras deles.
Rabi Chananiá, o segan hakohanim (o segundo dos sacerdotes, vice do sumo sacerdote), ensinou-a em nome de Beit Shammai e de Beit Hillel.
Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: Rabi Akiva fala segundo a sua opinião, pois Rabi Akiva disse: “será impuro”, isto é, tornará impuro, é palavra da Torá.
Disse Rabi Yossi beRabi Bun: ainda que Rabi Yishmael não admita “será impuro”, isto é, tornará impuro, nos alimentos, ele admite “será impuro”, tornará impuro, nos utensílios.
Há tanaim (os que recitam a Mishná) que ensinam: “tamé met”; há tanaim que ensinam: “por um tamé met”.
Quem diz “tamé met” fala de kelei shetef (utensílios que se purificam enxaguando-os, como os de madeira); quem diz “por um tamé met” fala de utensílios de metal.
Qual é a razão? “E todo utensílio aberto” etc. “impuro é ele”: ele é impuro, e não se torna av hatumá (fonte primária de impureza) para tornar impuro.
Esta é a sétima halachá do Perek Alef, Or LeArbaá Asar (na noite do catorze), de Massechet Pessachim. A halachá ocupa quatro segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros três é uma seção desta página, 01, 02 e 03, divididas em pares de hebraico e português. Nada foi deixado de fora. Conferiu-se no Sefaria que a Mishná desta halachá é a segunda parte da Mishná avulsa Pessachim 1:6, o acréscimo de Rabi Akiva à palavra de Rabi Chanina, o segan hakohanim, cuja primeira parte abre no Yerushalmi a Halachá 1:6; o Sefaria liga este segmento a “Mishnah Pesachim 1:6”, e Guggenheimer observa que nesta tradição o acréscimo de Rabi Akiva é uma Mishná à parte. O Yerushalmi diz הוֹסִיף רִבִּי עֲקִיבָה, sem וְאָמַר, e מִימֵיהֶן, שֶׁנִּיטְמָא e שֶׁמּוֹסִיפִין לוֹ טוּמְאָה, onde a avulsa diz הוֹסִיף רַבִּי עֲקִיבָא וְאָמַר, מִימֵיהֶם, שֶׁנִּטְמָא e שֶׁמּוֹסִיפִין טֻמְאָה, sem “lhe”; a diferença não muda o sentido. O נֵר, que nas halachot sobre a procura do chametz ficou “vela”, ficou aqui “lamparina”, porque nela se acende óleo.
Sobre a Mishná. O Korban HaEdah explica que o óleo é de teruma, e que o tevul yom desqualifica a teruma e a faz shelishi (terceiro grau de impureza); a lamparina é de metal, e um utensílio de metal que tocou num morto se torna como ele, como se expõe de Bamidbar 19:16, “בַּחֲלַל חֶרֶב”, “a espada é como o morto”; tocando num tamé met, que é av hatumá, a lamparina se torna av hatumá, e o óleo, que era shelishi, se torna rishon (primeiro grau de impureza). Das palavras de Rabi Chananiá só se ouvia que é permitido fazer do shelishi um sheni (segundo grau de impureza); Rabi Akiva acrescenta que é permitido fazê-lo rishon, porque, já havendo nele impureza, não se preocupam e é permitido acrescentá-la com as mãos. O Penei Moshe diz o mesmo e acrescenta que, para Rabi Akiva, a impureza dos líquidos torna impuros os outros pela Torá, e assim há aqui ainda outro acréscimo. No Bavli Pessachim 14a e 14b, Rav Yehudá explica a Mishná com uma lamparina de metal, pela mesma derashá de “בַּחֲלַל חֶרֶב”, e Rava deduz dela que, para Rabi Akiva, a impureza dos líquidos para tornar impuros os outros é da Torá. O Rambam, Hilchot Pessulei HaMukdashin 19:6, decide assim: o óleo, que é shelishi, pode ser aceso numa lamparina de metal tocada por um tamé met, que é av hatumá, ainda que o óleo se torne rishon.
Sobre a seção 01. A divergência de Bar Kapara e Rabi Yochanan foi trazida na Halachá 1:6: para Bar Kapara, o av hatumá é da Torá, e o vlad hatumá, das palavras dos sábios; para Rabi Yochanan, ambos são da Torá. Segundo o Penei Moshe, o “lá” são as palavras de Rabi Chananiá, e o “aqui”, as de Rabi Akiva. Para Rabi Yochanan está bem: Rabi Chananiá falou de impureza da Torá com impureza da Torá, e Rabi Akiva acrescenta o óleo, que não é impuro pela Torá, só desqualificado, aceso numa lamparina de impureza da Torá. Para Bar Kapara, porém, Rabi Chananiá já ensinou que se queima a impureza dos sábios, inteiramente pura pela Torá, com a impureza da Torá; e o desqualificado da Torá é mais grave do que isso, de modo que Rabi Akiva não acrescentaria, mas diminuiria. O Penei Moshe diz que a frase é uma pergunta de espanto, בתמיה, e por isso ficou com ponto de interrogação; o Korban HaEdah dá “não veio”, isto é, Rabi Akiva, “senão para diminuir”, e não para acrescentar. A resposta, segundo o Penei Moshe, é que o tevul yom da Mishná se tornou impuro pelo beit hapras, cuja impureza é das palavras dos sábios: em Rabi Chananiá, ainda que o vlad hatumá seja só dos sábios, a impureza vem na origem de uma impureza da Torá, e em Rabi Akiva até a origem é dos sábios. O hebraico diz מִבֵּית פְּרָס, sem artigo; manteve-se a forma beit hapras das outras halachot. Quanto à última frase, o Penei Moshe a lê como o fecho: Rabi Chananiá já ensinou a sua palavra segundo todos, como na Halachá 1:6, e agora tudo está bem também para Bar Kapara; o Korban HaEdah a lê como uma nova objeção a Rabi Yochanan: a palavra de Rabi Chananiá ensina algo, pois vale segundo as duas casas, mas a de Rabi Akiva, o desqualificado da Torá com impureza da Torá, é exatamente a de Beit Hillel na baraita da Halachá 1:6, e que acrescenta, então? A tradução não acrescenta nem pergunta nem resposta. O Sheyarei Korban e o Mareh HaPanim discutem esta resposta à luz do Maharsha no Bavli.
Sobre a seção 02. Segundo o Penei Moshe, Rabi Akiva segue o que expõe em Sotah, na Mishná avulsa Sotah 5:2, sobre Vayikra 11:33, “tudo o que estiver dentro dele será impuro”: não diz “impuro”, טָמֵא, mas “será impuro”, יִטְמָא, isto é, tornará impuros os outros pela Torá; por isso diz aqui que a lamparina torna o óleo impuro. O Korban HaEdah explica que, para Rabi Akiva, o alimento torna impuro o alimento pela Torá, e o versículo ensina que o pão sheni faz shelishi; e traz outra explicação, que o utensílio torna impuros alimentos e líquidos pela Torá. Rabi Yossi beRabi Bun diz que a palavra de Rabi Akiva aqui vale até para Rabi Yishmael, que diverge dele lá, no Yerushalmi Sotah 5:2, que este site ainda não publicou: o Korban HaEdah explica que Rabi Yishmael não tem o alimento por transmissor de impureza a outro alimento pela Torá, mas expõe Vayikra 11:34, “e toda bebida que se beba em qualquer utensílio será impura”, sobre líquidos que tocaram num utensílio impuro por morto, que tornam impuro um utensílio. O Sheyarei Korban se admira, porque todos admitem que alimentos e líquidos recebem impureza do utensílio, e explica: Rabi Yishmael admite que os utensílios tornam impuros alimentos e líquidos. No Bavli Pessachim 18a, Reish Lakish diz que Rabi Yossi segue o seu mestre Rabi Akiva, que expõe “será impuro” como “tornará impuro”, e se traz ali a Mishná de Sotah. A tradução ficou em “será impuro”, isto é, “tornará impuro”, porque o hebraico repete יִטְמָא יִטְמָא, a palavra do versículo e a sua leitura.
Sobre a seção 03. O Penei Moshe explica que as duas versões não divergem quanto à lei. Quem ensina “numa lamparina tamé met” entende que a lamparina tocou no próprio morto; ele a põe em kelei shetef, porque entende “בַּחֲלַל חֶרֶב” ao pé da letra, só para o metal, e um kelei shetef que tocou num morto se torna av hatumá, mas não se tocou num tamé met. Quem ensina “que se tornou impura por um tamé met” a põe numa lamparina de metal, que, ainda que toque num tamé met, se torna av hatumá como ele. O Korban HaEdah explica os kelei shetef como utensílios de madeira, de Vayikra 15:12, “e todo utensílio de madeira será enxaguado em água”. A pergunta “qual é a razão?” é lida de dois modos: o Penei Moshe a lê como “por que não se explica com uma lamparina de barro?”, e a resposta é Bamidbar 19:15, “e todo utensílio aberto, que não tem tampa presa sobre ele, impuro é ele”, que fala do utensílio de barro: ele é impuro, e não se torna av hatumá; o Korban HaEdah a lê como “de onde se sabe que os kelei shetef não se tornam av hatumá tocando num tamé met?”, e diz que o versículo fala de todos os utensílios. A tradução deixou a pergunta como está. O Mareh HaPanim e o Sheyarei Korban observam que esta passagem apoia a opinião do Raavad e de Rabenu Tam, de que “espada” no versículo é só o metal, contra o Rambam, Hilchot Tumat Met 5:3, que estende a regra a todos os utensílios, menos os de barro. No Bavli Pessachim 14b, Rava pergunta por que a Mishná diz “por um tamé met” e não “por um sheretz”, e responde que fala de uma coisa cuja impureza é diferente no morto e no sheretz, que é o metal.
Leituras incertas. Na seção 01, וּבָא לְהוֹסִיף ficou “e Rabi Akiva vem acrescentar”, com o sujeito tirado da Mishná, “acrescentou Rabi Akiva”; לֹא בָא אֶלָּא לִפְחוֹת, “não veio ele senão para diminuir?”; תִּיפְתָּר, “explica-a”, completado com “a palavra de Rabi Akiva”, como no Korban HaEdah; e בִּטְבוּל יוֹם מִבֵּית פְּרָס, “com um tevul yom por impureza de beit hapras”. Na seção 02, כְדַעְתֵּיהּ ficou “fala segundo a sua opinião”, e לֵית לֵּיהּ e אִית לֵיהּ, “não admite” e “admite”. Na seção 03, טְמֵא מֵת e בּטְמֵא מֵת ficaram “tamé met” e “por um tamé met”, como palavras citadas da Mishná; תַּנָּיֵי ficou tanaim, “há tanaim que ensinam”.
Os colchetes do corretor. Na seção 03, [הוּא] e [וְ], na frase [הוּא] טָמֵא [וְ]אֵינוֹ נַעֲשֶׂה, estão entre colchetes no Sefaria, acrescentados pelo corretor; foram traduzidos normalmente, sem colchetes, “ele é impuro, e não se torna”. Não há parênteses do corretor nesta halachá.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer escreve “Rebbi Aqiba”, “Bar Qappara”, “Rebbi Joḥanan”, “Rebbi Ḥananiah”, “Rebbi Yose”, “Rebbi Yose ben Rebbi Abun” e “Rebbi Ismael”; aqui ficou Rabi Akiva, Bar Kapara, Rabi Yochanan, Rabi Chananiá, Rabi Yossi, Rabi Yossi beRabi Bun e Rabi Yishmael. Ele entende o “lá” da seção 01 como a palavra de Rabi Chananiá e o “aqui” como a de Rabi Akiva, como o Penei Moshe, e duvida da pergunta “não veio senão para diminuir”; e lê os kelei shetef desta passagem como utensílios de madeira, como o Korban HaEdah.
Referências conferidas no Sefaria. Vayikra 11:33, 11:34, 15:12 e 22:7; Bamidbar 19:15, 19:16 e 19:22. Mishná avulsa Pessachim 1:6 e Sotah 5:2. Bavli Pessachim 14a, 14b e 18a. Yerushalmi Pessachim 1:6 e Sotah 5:2. Rambam, Hilchot Pessulei HaMukdashin 19:6 e Hilchot Tumat Met 5:3. Penei Moshe, Korban HaEdah, Sheyarei Korban e Mareh HaPanim nesta halachá. Há links para as Mishnayot avulsas e para a halachá do Yerushalmi que este site já tem; não há link para o Bavli Pessachim, nem para o Yerushalmi Sotah, que este site ainda não publicou.
Nomes nesta página: Rabi Akiva, רִבִּי עֲקִיבָה; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Bar Kapara, בַּר קַפָּרָה; Rabi Chananiá, o segan hakohanim, רִבִּי חֲנַנְיָה סְגַן הַכֹּהֲנִים; Beit Shammai, בֵּית שַׁמַּי; Beit Hillel, בֵּית הִלֵּל; Rabi Mana, רִבִּי מָנָא; Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵי; Rabi Yossi beRabi Bun, רִבִּי יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן; e Rabi Yishmael, רִבִּי יִשְׁמָעֵאל. Nos comentários e no Bavli: Rabi Chanina, Rav Yehudá, Rava, Reish Lakish, Rabi Yossi, o Raavad e Rabenu Tam.
Do hebraico foram retirados só os rótulos de Mishná e de halachá, no começo do primeiro e do segundo segmentos, e a marca da folha 7a da edição de Vilna, no começo do segundo segmento. Não há marca da edição de Veneza nesta halachá. Nada foi acrescentado ao hebraico. Foram mantidos os colchetes do corretor e as grafias do Sefaria, como רִבִּי עֲקִיבָה, דְּבַּר קַפָּרָה, דִּבְרֵיהֵן, בּטְמֵא e וגו׳.
A Mishná seguinte, que no Yerushalmi abre a Halachá 1:8, é a palavra de Rabi Meir, “das palavras deles aprendemos que se queima teruma pura com a impura no Pessach”, a Mishná avulsa Pessachim 1:7.