Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Vav · Halachá 2
עֵרוּבִין

O saduceu no beco de Jerusalém; a renúncia ao domínio e o voltar atrás

Perek Vav, HaDar, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Segunda halachá do Perek Vav, HaDar (quem mora), de Massechet Eruvin. A Mishná traz o relato de Raban Gamliel sobre um saduceu que morava com eles num beco em Jerusalém: o seu pai lhes disse que se apressassem a levar todos os utensílios para o beco, antes que o saduceu levasse os seus e lhes proibisse o transporte; e Rabi Yehudá conta a mesma palavra em outra formulação, “fazei as vossas necessidades no beco”. A guemará começa com a palavra de Kahana, de que a halachá não é como Rabi Yehudá, e com a discussão sobre a regra de seguir quem é leniente nos eruvin; traz, em nome de Rav, o pátio com duas aberturas em que moram um israelita e um gentio, em que se segue a abertura habitual; ensina que o residente não judeu, o escravo residente e o apóstata que age abertamente são como o gentio, e traz duas baraitot sobre o questor e a tropa alojada; e termina com a divergência de Rabi Meir e dos sábios sobre a renúncia ao domínio do saduceu e sobre o voltar atrás nela. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 61b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

אָמַר רַבָּן גַּמְלִיאֵל מַעֲשֶׂה בִצְדוּקִי אֶחָד שֶׁהָיָה דָר עִמָּנוּ בַּמָּבוֹי בִּירוּשָׁלֵם אָמַר לָנוּ אַבָּא מַהֲרוּ וְהוֹצִיאוּ אֶת כָּל הַכֵּלִים לַמָּבוֹי עַד שֶׁלֹּא יוֹצִיא וְיֶאֱסוֹר עֲלֵיכֶם. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר בְּלָשׁוֹן אַחֵרֶת מַהֲרוּ וַעֲשׂוּ צָרְכֵיכֶם בַּמָּבוֹי עַד שֶׁלֹּא יוֹצִיא וְיֶאֱסוֹר עֲלֵיכֶם:

Mishná: Disse Raban Gamliel: Houve um caso com um tzedoki (saduceu) que morava conosco no mavoi (beco) em Jerusalém. Disse-nos o meu pai: Apressai-vos e levai todos os utensílios para o mavoi, antes que ele leve os seus para fora e vos proíba o transporte. Rabi Yehudá diz em outra formulação: Apressai-vos e fazei as vossas necessidades no mavoi, antes que ele leve para fora e vos proíba o transporte.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Kahana: a halachá não é como Rabi Yehudá; quem é leniente nos eruvin
Yerushalmi · Eruvin 6:2
פיס׳. אָמַר רַבָּן גָּמְלִיאֵל מַעֲשֶׂה בִצְדוּקִי אֶחָד כול׳. רִבִּי אָחָא רִבִּי חִינְנָא בְשֵׁם כַּהֲנָא. אֵין הֲלָכָה כְרִבִּי יְהוּדָה. דִּלֹא כֵן מָה אֲנָן אָמְרִין. רִבִּי יוּדָא וַחֲכָמִים. תְּהֵא הֲלָכָה כְרִבִּי יוּדָא.

“Disse Raban Gamliel: Houve um caso com um tzedoki” etc. Rabi Achá e Rabi Chinena, em nome de Kahana: A halachá (a norma prática) não é como Rabi Yehudá. Pois, se não fosse assim, o que diríamos? Quando divergem Rabi Yudá e os sábios, seria a halachá como Rabi Yudá? Certamente não.

אֶלָּא בְגִין דָּמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי הֲלָכָה כְדִבְרֵי מִי שֶׁהוּא מֵיקַל בְּהִלְכוֹת עֵירוּבִין. וּמִדְּרִבִּי יִצְחָק בַּר נַחְמָן בְשֵׁם רִבִּי יהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי הֲלָכָה כְרִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי וְקַשְׁיָינָן עֲלֵהּ.

Mas precisou dizê-lo porque disse Rabi Yaakov bar Idi em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como as palavras de quem é leniente nas leis dos eruvin (as junções de Shabat); e por causa da palavra de Rabi Yitzchak bar Nachman em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri. E nós objetamos a respeito dela:

לֹא כֵן אָמַר רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי אָמַר רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי. הֲלָכָה כְדִבְרֵי מִי שֶׁמֵּקַל בְּהִלְכוֹת עֵירוּבִין. וְלֹא כֵן אָמַר רִבִּי יִצְחָק בַּר נַחְמָן בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי הֲלָכָה כְרִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי. וְקַשְׁיָינָן עֲלֵהּ. סָבְרִין מֵימַר בְּיָחִיד אֶצֶל יָחִיד. אֲבָל יָחִיד אֶצֶל חֲכָמִים לֹא.

Não disse assim Rabi Yaakov bar Idi, que disse Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como as palavras de quem é leniente nas leis dos eruvin? E não disse assim Rabi Yitzchak bar Nachman em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri? Para que a segunda? E nós objetamos a respeito dela. Pensavam dizer: a regra vale num indivíduo diante de outro indivíduo, mas um indivíduo diante dos sábios, não.

אָתָא רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי בְשֵׁם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי הֲלָכָה כְרִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי וַאֲפִילוּ חֲכָמִים חֲלוּקִין עָלָיו. וָכָא תָהֵא הֲלָכָה כְרִבִּי יוּדָה אֲפִילוּ חֲכָמִים חוֹלְקִין עָלָיו.

Veio Rabi Yaakov bar Achá e trouxe: Rabi Yaakov bar Idi, em nome de Rabi Yehoshua ben Levi: A halachá é como Rabi Yochanan ben Nuri, mesmo quando os sábios divergem dele. E aqui também seria a halachá como Rabi Yudá, mesmo quando os sábios divergem dele.

02O pátio com duas aberturas: o habitual e o que não é habitual
Yerushalmi · Eruvin 6:2
רִבִּי יִרְמְיָה בְשֵׁם רַב. חָצֵר שֶׁיֵּשׁ לָהּ שְׁנֵי פְתָחִים וְיִשְׂרָאֵל וְגוֹי דָּרִין בְּתוֹכָהּ. בְּיִשְׂרָאֵל אַתְּ מְהַלֵּךְ אַחַר הָרָגִיל. וּבְגוֹי אַתְּ מְהַלֵּךְ אַחַר שֶׁאֵינוֹ רָגִיל. הָיָה יִשְׂרָאֵל מִיכָּן וְיִשְׂרָאֵל מִיכָּן וְגוֹי בָאֶמְצַע. אֶחָד יִשְׂרָאֵל וְאֶחָד גּוֹי הוֹלְכִין אַחַר הָרָגִיל. בִּיטֵּל רְשׁוּתוֹ הָרָגִיל. נַעֲשֶׂה שֶׁאֵינוֹ רָגִיל רָגִיל. הִשְׂכִּיר רְשׁוּתוֹ הָרָגִיל. נַעֲשֶׂה שֶׁאֵינוֹ רָגִיל רָגִיל. עֵירֵב שֶׁאֵינוֹ רָגִיל. לֹא הוּתָּר הָרָגִיל.

Rabi Yirmeyá, em nome de Rav: Um chatzer (pátio) que tem duas aberturas, e um israelita e um goy (gentio) moram nele: no israelita, tu segues o ragil (o habitual); e no goy, tu segues o que não é habitual. Se havia um israelita daqui e um israelita dali, e o goy no meio, tanto o israelita como o goy seguem o habitual. Se renunciou ao seu domínio no habitual, o que não é habitual tornou-se habitual. Se alugou o seu domínio no habitual, o que não é habitual tornou-se habitual. Se fez eruv no que não é habitual, o habitual não ficou permitido.

03O guer toshav, o eved toshav e o meshumad; o kvestor e a achsanyá
Yerushalmi · Eruvin 6:2
גֵּר תּוֹשָׁב וְעֶבֶד תּוֹשָׁב מְשׁוּמָּד בְּגִילּוּי פָנִים הַרֵי הוּא כְגוֹי לְכָל דָּבָר. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי. הַקְּוֶסְטוֹר אֹסֵר מִיַּד וְאַכְסַנְיַיא לְאַחַר שְׁלֹשִׁים. אִית תַּנָּיֵי תַנֵּי. הַקְּוֶסְטוֹר אוֹסֵר לְאַחַר שְׁלֹשִׁים וְאַכְסַנְיַיא אֵינָהּ אוֹסֶרֶת לְעוֹלָם.

O guer toshav (residente não judeu), e o eved toshav (escravo residente), e o meshumad (apóstata) abertamente: eis que é como o goy para todas as coisas. Há tanaim (mestres da Mishná) que ensinam: “O kvestor (o questor, funcionário do governo) proíbe imediatamente, e a achsanyá (a tropa alojada), depois de trinta dias.” Há tanaim que ensinam: “O kvestor proíbe depois de trinta dias, e a achsanyá não proíbe nunca.”

מָאן דָּמַר. הַקְּוֶסְטוֹר אוֹסֵר מִיַּד. בְּרָגִיל. וְאַכְסַנְיַיא לְאַחַר שְׁלֹשִׁים. בְּשֶׁאֵינוֹ רָגִיל. וּמָאן דָּמַר. הַקְּוֶסְטוֹר אוֹסֵר לְאַחַר שְׁלֹשִׁים. בְּאִילֵּין דְּעַיְילִין בִּרְשׁוּת. וְאַכְסַנְיַיא אֵינָהּ אוֹסֶרֶת לְעוֹלָם. בְּאִילֵּין דְּעַיְילִין דְּלָא בִרְשׁוּת.

Quem diz: “O kvestor proíbe imediatamente”, fala do habitual; “e a achsanyá, depois de trinta dias”, do que não é habitual. E quem diz: “O kvestor proíbe depois de trinta dias”, fala daqueles que entram com autorização; “e a achsanyá não proíbe nunca”, daqueles que entram sem autorização.

04A renúncia ao domínio do saduceu: Rabi Meir e os rabanan; o voltar atrás
Yerushalmi · Eruvin 6:2
רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא בְשֵׁם רִבִּי לָעְזָר. בִּיטּוּל רְשׁוּת בֵּינֵיהוֹן. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. יֵשׁ לוֹ בִיטּוּל רְשׁוּת. וְרַבָּנִין אָמְרִין. אֵין לוֹ בִיטּוּל רְשׁוּת.

Rabi Yaakov bar Achá, em nome de Rabi Lazar: O que há entre eles é a bitul reshut (renúncia ao domínio). Rabi Meir diz: Ele tem renúncia ao domínio. E os rabanan (os sábios) dizem: Ele não tem renúncia ao domínio.

רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. יֵשׁ לוֹ בִיטּוּל רְשׁוּת. וְאַתָּ אָמַר. מַהֲרוּ אַף עַל גַּב דְּרִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. יֵשׁ לוֹ בִיטּוּל רְשׁוּת. מוֹדֶה הוּא שֶׁזְּכוּ בַּמָּבוֹי תְחִילָּה. וְתַנֵּי כֵן. מִפְּנֵי שֶׁהּוא מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ כְיִשְׂרָאֵל. דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. בֵּין שׁוֹגֵג בֵּין מֵזִיד הֲרֵי זֶה אוֹסֵר. כֵּינִי מַָתְנִיתָא. אֵינוֹ אוֹסֵר.

Rabi Meir diz: Ele tem renúncia ao domínio; e tu dizes: “Apressai-vos”? Ainda que Rabi Meir diga: Ele tem renúncia ao domínio, ele concorda que é preciso que tenham adquirido a posse do mavoi primeiro. E assim se ensina numa baraita: “Porque ele renuncia ao seu domínio como um israelita; palavras de Rabi Meir.” E o que se ensina: “Seja por erro, seja de propósito, eis que este proíbe”? Assim é a matnita (a Mishná): “Não proíbe.”

רִבִּי אָחָא בְשֵׁם רִבִּי חִינְנָא. כָּל עַמָּא מוֹדֵיי שֶׁיֵּשׁ לוֹ בִיטּוּל רְשׁוּת. מַה פְלִיגִין. לַחֲזוֹר בּוֹ. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ וְחוֹזֵר בּוֹ. וְרַבָּנִין אוֹמְרִין. מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ וְאֵינוֹ חוֹזֵר בּוֹ.

Rabi Achá, em nome de Rabi Chinena: Todo o mundo concorda que ele, o saduceu, tem renúncia ao domínio. Em que divergem? Divergem em voltar atrás nela. Rabi Meir diz: Renuncia ao seu domínio e pode voltar atrás. E os rabanan dizem: Renuncia ao seu domínio e não pode voltar atrás.

רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ וְחוֹזֵר בּוֹ. וְאַתָּ אָמַר. מַהֲרוּ. אַף עַל גַּב דְּרִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר. מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ וְחוֹזֵר בּוֹ. מוֹדֶה הוּא שֶׁזְּכוּ בַּמָּבוֹי תְחִילָּה. וְתַנֵּי כֵן. מִפְּנֵי שֶׁהּוא מְבַטֵּל רְשׁוּתוֹ כְיִשְׂרָאֵל. דִּבְרֵי רִבִּי מֵאִיר. בֵּין שׁוֹגֵג בֵּין מֵזִיד הֲרֵי זֶה אוֹסֵר. כֵּינִי מַָתְנִיתָא. אֵינוֹ אוּסֵר.

Rabi Meir diz: Renuncia ao seu domínio e pode voltar atrás; e tu dizes: “Apressai-vos”? Ainda que Rabi Meir diga: Renuncia ao seu domínio e pode voltar atrás, ele concorda que é preciso que tenham adquirido a posse do mavoi primeiro. E assim se ensina numa baraita: “Porque ele renuncia ao seu domínio como um israelita; palavras de Rabi Meir.” E o que se ensina: “Seja por erro, seja de propósito, eis que este proíbe”? Assim é a matnita: “Não proíbe.”

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Vav de Massechet Eruvin, HaDar, e a sua Mishná corresponde à Mishná avulsa Eruvin 6:2, inteira. As diferenças de conteúdo são estas: o Yerushalmi tem אָמַר לָנוּ אַבָּא, “disse-nos o meu pai”, e a avulsa, וְאָמַר לָנוּ אַבָּא, com “e”; o Yerushalmi tem בַּמָּבוֹי, “no mavoi”, com artigo, e a avulsa, בְּמָבוֹי, “num mavoi”; e o Yerushalmi tem בְּלָשׁוֹן אַחֵרֶת, no feminino, e a avulsa, בְּלָשׁוֹן אַחֵר. São só de grafia ou de vocalização בִצְדוּקִי por בִצְדוֹקִי, בִּירוּשָׁלֵם por בִּירוּשָׁלַיִם, וְיֶאֱסוֹר por וְיֶאֱסֹר, duas vezes, e רִבִּי por רַבִּי, além das vírgulas da avulsa. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 61b, junto com a Mishná anterior, e lê בְּצַדּוּקִי, בְּמָבוֹי, וְאָמַר לָנוּ אַבָּא e אֶת הַכֵּלִים, sem כָּל, e, na palavra de Rabi Yehudá, בְּלָשׁוֹן אַחֵר. A halachá ocupa cinco segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros quatro é uma seção desta página.

Sobre a Mishná. O Penei Moshe e o Korban HaEdah explicam a Mishná pela guemará do Bavli, Eruvin 68b, que pergunta צַדּוּקִי מַאן דְּכַר שְׁמֵיהּ, “quem mencionou o saduceu?”, e responde que falta algo na Mishná, que deve ser lida assim: צַדּוּקִי הֲרֵי הוּא כְּגוֹי, וְרַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר: צַדּוּקִי אֵינוֹ כְּגוֹי, “o saduceu é como o gentio; e Raban Gamliel diz: o saduceu não é como o gentio”. Segundo os dois, o saduceu tinha renunciado ao seu domínio, e o pai de Raban Gamliel mandou que se apressassem a levar os utensílios para o mavoi e a tomar posse dele, antes que o saduceu levasse os seus primeiro e voltasse a tomar posse do seu domínio; daí se aprende que, para Raban Gamliel, o saduceu não é como o gentio, porque do gentio seria preciso alugar, e quem alugou não pode voltar atrás. Sobre Rabi Yehudá, os dois explicam que, para ele, Raban Gamliel pensa que o saduceu é como o gentio, e que o caso não é prova: “fazei as vossas necessidades” quer dizer enquanto ainda é dia, e “antes que ele leve para fora” quer dizer “antes que o dia saia”. O Penei Moshe conclui que os saduceus que guardam o Shabat em público e não reconhecem a lei do eruv não são como o gentio, e podem renunciar ao seu domínio; só quem profana o Shabat em público é como o gentio, e dele se aluga. No Bavli, Eruvin 68b, a baraita traz o caso com Raban Gamliel falando aos seus filhos, e, na palavra de Rabi Yehudá, עַד שֶׁלֹּא תֶּחְשַׁךְ, “antes que escureça”; e em Eruvin 69a a guemará diz אֵימָא ״עַד שֶׁלֹּא יוֹצִיא הַיּוֹם״, “lê: antes que o dia saia”, ou que uma palavra fala do mumar (apóstata) que profana o Shabat em particular, e a outra do que o profana em público.

Sobre a seção 01. O trecho é quase o mesmo do Yerushalmi Eruvin 1:1, onde a palavra de Kahana, אֵין הֲלָכָה כְרִבִּי יוּדָה, se refere a Rabi Yudá na Mishná do mavoi alto mais que vinte amot; ali o אֵין está entre colchetes no Sefaria, e a passagem continua com Shmuel, que diz que a halachá é como quem é leniente nos eruvin, com Rav Chiya bar Ashi, que pergunta pelas pontes abertas, e com o fecho סָבַר כַּהֲנָא כְּהָדָא דִשְׁמוּאֵל. לְפוּם כֵּן צָרַךְ מֵימַר. אֵין הֲלָכָה כְרִבִּי יוּדָה, “Kahana pensava como esta de Shmuel; por isso precisou dizer: a halachá não é como Rabi Yudá”. Guggenheimer anota que o copista do manuscrito escreveu aqui só uma remissão ao começo do primeiro capítulo, e que o revisor a apagou e pôs no lugar uma cópia um pouco abreviada de lá; por isso a seção 01 termina sem esse fecho. As diferenças em relação ao Yerushalmi Eruvin 1:1 são estas: aqui se lê דָּמַר e מִי שֶׁהוּא מֵיקַל, e lá דְּאָמַר e הַמֵּיקַל; aqui, na primeira menção, וּמִדְּרִבִּי יִצְחָק בַּר נַחְמָן, e lá וְאָמַר רִבִּי נַחְמָן בַּר יִצְחָק; aqui וַאֲפִילוּ חֲכָמִים חֲלוּקִין עָלָיו, e lá הַחֲלוּקִין, com artigo. O Korban HaEdah explica: se Kahana não tivesse dito que a halachá não é como Rabi Yehudá, pensaríamos que é? Pois Rabi Yehudá e os sábios divergem, e a halachá é certamente como os sábios; e responde que precisou dizê-lo por causa da regra de quem é leniente nos eruvin. A objeção é que a segunda palavra, sobre Rabi Yochanan ben Nuri, seria desnecessária, porque ele também é leniente; e a resposta é que se pensava que a regra vale para um indivíduo diante de outro, e não diante dos muitos. A última frase, segundo ele, ou devolve a pergunta ao seu lugar, ou explica que, sem a palavra de Kahana, se poderia pensar que a halachá é como Rabi Yudá, que é leniente, mesmo diante dos sábios. O Korban HaEdah lê ainda ומתרצינן עלה, “e respondemos a respeito dela”, no lugar do segundo וְקַשְׁיָינָן עֲלֵהּ; a tradução segue o texto do Sefaria.

Sobre a seção 02. O Korban HaEdah explica que o pátio tem duas aberturas para dois mavoyot: o israelita só proíbe no mavoi pelo qual costuma passar, e o gentio proíbe nos dois, porque talvez resolva, no Shabat, sair pela abertura que não é habitual; quando há um israelita de cada lado e o gentio no meio, todos usam a mesma abertura, e o gentio vai atrás deles. Se o israelita renunciou ao seu domínio no mavoi habitual, ou o alugou, a outra abertura passa a ser a habitual, e ele proíbe ali; e se fez eruv com os do mavoi que não é habitual, os do habitual não ficam permitidos, porque isto se diz para o rigor, e não para a leniência. O Penei Moshe explica de outro modo: trata-se de um pátio interior, aberto para o mavoi e para um pátio exterior; o interior é chamado habitual, porque os seus moradores costumam passar pelo exterior, e o gentio, que tem passagem pelo exterior, proíbe ali até que alugue o seu domínio ao morador do pátio exterior. Guggenheimer remete aqui ao Bavli, Eruvin 49a, onde não se encontrou a regra do habitual; a referência não foi citada.

Sobre a seção 03. O Penei Moshe explica que o guer toshav e o eved toshav são os que aceitaram não servir à idolatria, mas não guardam o Shabat; e, com eles, o israelita apóstata que profana o Shabat abertamente: todos são como o gentio, a renúncia ao domínio deles não vale, e é preciso que aluguem o seu domínio. O Korban HaEdah explica בְּגִילּוּי פָנִים como בפרהסיא, “em público”. É a Tosefta Eruvin 5:18, na edição de Lieberman, que no Sefaria comum é a Tosefta Eruvin 5:14: ישראל המחלל את השבת בפרהסיא אין צריך לבטל רשות, “o israelita que profana o Shabat em público não precisa renunciar ao domínio”, e ישראל נותן רשות ומבטל רשות, ובגוי עד שעה שישכיר, “o israelita dá o domínio e renuncia ao domínio, e no gentio, até que alugue”; o texto comum corrige צריך para יכול, “não pode renunciar”. No Bavli, Eruvin 69a, a guemará lê a baraita מוּמָר בְּגִילּוּי פָּנִים — אֵינוֹ יָכוֹל לְבַטֵּל רְשׁוּת, “o apóstata que age abertamente não pode renunciar ao domínio”, e a atribui a Rabi Yehudá; ali mesmo Rav Huna diz אֵיזֶהוּ יִשְׂרָאֵל מוּמָר — זֶה הַמְחַלֵּל שַׁבָּתוֹת בְּפַרְהֶסְיָא, “quem é o israelita apóstata? O que profana os Shabatot em público”; e em Eruvin 69b se traz a baraita de que o israelita apóstata que guarda o seu Shabat na rua renuncia ao domínio, e o que não guarda, não renuncia. A comparação entre o Shabat e a idolatria, com a baraita das oferendas aceitas dos transgressores de Israel, exceto הַמְשׁוּמָּד, וּמְנַסֵּךְ אֶת הַיַּיִן, וּמְחַלֵּל שַׁבָּתוֹת בְּפַרְהֶסְיָא, está no Bavli, Eruvin 69b, e no Bavli, Chulin 5a. As duas baraitot do kvestor e da achsanyá correspondem à Tosefta Eruvin 5:22, em Lieberman, que no Sefaria comum é 5:16: קסדור הבא לעיר עד שלשים יום הרי זה אוסר מיד, “o kasdor que vem à cidade por até trinta dias proíbe imediatamente”, quando lhe destinaram uma casa para morar, e אכסני לעולם אין אוסר, “o hóspede nunca proíbe”. O Penei Moshe identifica o kvestor com o kasdor da Tosefta, um dos oficiais do rei; o Korban HaEdah diz que é um título de cargo, como o soldado, um agente da ordem, e que a achsanyá é a tropa do rei. Sobre as duas opiniões, o Penei Moshe explica que o kvestor que proíbe imediatamente é o que costuma vir ali, e é como morador; e o Korban HaEdah, que o kvestor entra com autorização do rei, e é como dono da casa, ao passo que a tropa que entra sem essa autorização nunca proíbe.

Sobre a seção 04. Os dois comentaristas explicam que Rabi Meir e Rabi Yehudá divergem sobre o saduceu segundo Raban Gamliel: Rabi Meir é o primeiro tana da Mishná, e diz que o saduceu tem renúncia ao domínio, como o israelita; Rabi Yehudá diz que não. A pergunta é: se o saduceu já renunciou, por que se apressar? E a resposta é que, mesmo para Rabi Meir, é preciso que os moradores tomem posse do mavoi primeiro, porque, se ele levar os seus utensílios depois, volta a proibir. A citação “seja por erro, seja de propósito, eis que este proíbe” é a Mishná avulsa Eruvin 6:4, מִי שֶׁנָּתַן רְשׁוּתוֹ וְהוֹצִיא, בֵּין בְּשׁוֹגֵג בֵּין בְּמֵזִיד, הֲרֵי זֶה אוֹסֵר, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר, “quem deu o seu domínio e levou para fora, seja por erro, seja de propósito, eis que este proíbe: palavras de Rabi Meir”; e o “assim é a matnita: não proíbe” corrige a leitura dela, segundo o Penei Moshe. Assim também no Bavli, Eruvin 68b e 69a: Rav Achá bar Chana, em nome de Rav Sheshet, traz a mesma palavra de Rabi Meir; a guemará pergunta, sobre a baraita de Raban Gamliel, se ele não proíbe quando leva para fora depois deles, se a Mishná ensina que proíbe; e Rav Yosef responde אֵימָא ״אֵינוֹ אוֹסֵר״, “lê: não proíbe”; e Abaye distingue entre o caso em que os moradores do mavoi tomaram posse dele e o caso em que não tomaram. Sobre a palavra de Rabi Achá, o Korban HaEdah propõe ler o contrário, רמ"א מבטל רשותו ואינו חוזר בו רבנן אמרי מבטל רשותו וחוזר בו, “Rabi Meir diz: renuncia e não volta atrás; os rabanan dizem: renuncia e volta atrás”; a tradução segue o texto do Sefaria. No Bavli, Eruvin 68b, Rav e Shmuel divergem se se renuncia e se volta a renunciar.

Leituras incertas. Na Mishná, אַבָּא ficou “o meu pai”, segundo os comentaristas, que leem o pai de Raban Gamliel; e עַד שֶׁלֹּא יוֹצִיא foi completado com “os seus para fora”, segundo o Penei Moshe, embora Rabi Yehudá o leia como “antes que o dia saia”. Na seção 01, וְקַשְׁיָינָן עֲלֵהּ ficou “e nós objetamos a respeito dela”, as duas vezes, como no hebraico; “para que a segunda?” foi completado segundo o Korban HaEdah; e a última frase ficou como afirmação, como no hebraico. Na seção 02, o sujeito de בִּיטֵּל רְשׁוּתוֹ הָרָגִיל, הִשְׂכִּיר e עֵירֵב não está explícito, e a tradução não decide se é o israelita ou o gentio; הָרָגִיל ficou “o habitual”, sem decidir se é a abertura, o mavoi ou o pátio. Na seção 03, הַקְּוֶסְטוֹר ficou kvestor, “questor”, e אַכְסַנְיַיא ficou achsanyá, “a tropa alojada”, entre a tropa do Korban HaEdah e o hóspede da Tosefta; בִּרְשׁוּת ficou “com autorização”. Na seção 04, בִּיטּוּל רְשׁוּת בֵּינֵיהוֹן ficou “o que há entre eles é a bitul reshut”; e מוֹדֶה הוּא שֶׁזְּכוּ בַּמָּבוֹי תְחִילָּה ficou “concorda que é preciso que tenham adquirido o mavoi primeiro”, segundo o Penei Moshe.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Na seção 01, Guggenheimer escreve, na primeira menção, “Rebbi Naḥman bar Isaac”, onde o hebraico tem רִבִּי יִצְחָק בַּר נַחְמָן, e a tradução diz Rabi Yitzchak bar Nachman; ele traduz a última frase como pergunta, “Why should practice not follow Rebbi Jehudah…?”, e aqui ficou afirmação; e ele traduz הֲלָכָה como “practice”, e aqui ficou halachá. Ele escreve “Rebbi Jehudah” para רִבִּי יְהוּדָה, רִבִּי יוּדָא e רִבִּי יוּדָה, e aqui ficou Rabi Yehudá e Rabi Yudá, como no hebraico. Na seção 02, ele traduz שְׁנֵי פְתָחִים como “two gates”, e aqui ficou “duas aberturas”; e põe “he” como sujeito de בִּיטֵּל, entendido como o gentio, e aqui ficou sem sujeito. Na seção 03, ele traduz גֵּר תּוֹשָׁב “semi-convert”, e aqui ficou residente não judeu; e אַכְסַנְיַיא “a troop of soldiers”. Na seção 04, ele escreve “Rebbi Eleazar” para רִבִּי לָעְזָר, e aqui ficou Rabi Lazar; “Rebbi Ḥinena” é aqui Rabi Chinena.

Referências conferidas no Sefaria. Mishná avulsa Eruvin 6:2 e 6:4; Bavli Eruvin 61b, a Mishná; 68b, a baraita de Raban Gamliel e dos seus filhos, a palavra de Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre quem deu o domínio e levou para fora, e Rav e Shmuel; 69a, Rav Yosef, Abaye, “antes que o dia saia”, o apóstata que age abertamente e Rav Huna; 69b, o apóstata que guarda o Shabat na rua e a baraita das oferendas; Bavli Chulin 5a, a mesma baraita; Tosefta Eruvin 5:18 e 5:22, na edição de Lieberman, que no Sefaria comum são 5:14 e 5:16; Yerushalmi Eruvin 1:1; Penei Moshe e Korban HaEdah nesta halachá. Referências corrigidas ou não citadas: as notas 40 e 42 de Guggenheimer citam a “Tosephta 5:18” e a “Tosephta 5:22”, na numeração de Lieberman, que no Sefaria comum são 5:14 e 5:16; a nota 35 remete ao Bavli 49a, onde a regra do habitual não foi encontrada, e não foi citada. A Mishná está no Bavli em Eruvin 61b, e é para lá que aponta o link do alto da página; a guemará do Bavli sobre ela, em Eruvin 68b a 69a, ainda não está publicada neste site, que vai até 61b.

Nomes nesta página: Raban Gamliel, רַבָּן גַּמְלִיאֵל e רַבָּן גָּמְלִיאֵל; Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה; Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָא e רִבִּי יוּדָה; Rabi Achá, רִבִּי אָחָא; Rabi Chinena, רִבִּי חִינְנָא; Kahana, כַּהֲנָא; Rabi Yaakov bar Idi, רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אִידִי; Rabi Yehoshua ben Levi, רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי; Rabi Yitzchak bar Nachman, רִבִּי יִצְחָק בַּר נַחְמָן; Rabi Yochanan ben Nuri, רִבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי; Rabi Yaakov bar Achá, רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא; Rabi Yirmeyá, רִבִּי יִרְמְיָה; Rav, רַב; Rabi Lazar, רִבִּי לָעְזָר; Rabi Meir, רִבִּי מֵאִיר. Na nota: Shmuel, Rav Chiya bar Ashi, Rav Achá bar Chana, Rav Sheshet, Rav Yosef, Abaye e Rav Huna.

Do hebraico foram retirados os rótulos de Mishná e de halachá e os marcadores de folha da edição de Vilna 38b, na seção 01, antes do primeiro וְקַשְׁיָינָן, e 39a, na seção 04, antes de בִּיטּוּל רְשׁוּת; não há marcador de coluna de Veneza, nem marcador numérico, nem parênteses ou colchetes, e nada foi acrescentado. As marcas פיס׳ e כול׳ foram mantidas, assim como as grafias do Sefaria, como יהוֹשֻׁעַ, sem vogal no yod, הַרֵי, אֹסֵר ao lado de אוֹסֵר, שֶׁהּוא, מַָתְנִיתָא, com dois sinais de vogal, e אוּסֵר, no fim da seção 04.