Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Heh · Halachá 2
עֵרוּבִין

Dá-se um karpef à cidade; as três aldeias e a aldeia do meio

Perek Heh, Keitzad Meabrin, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Segunda halachá do Perek Heh, Keitzad Meabrin (como se faz o ibur), de Massechet Eruvin. Depois de traçar o contorno da cidade, a Mishná pergunta de onde começam as duas mil amot do techum: segundo Rabi Meir, dá-se à cidade um karpef, o espaço de setenta amot e um pouco, e só depois se mede; os sábios dizem que o karpef só foi dito entre duas cidades, que se juntam numa só quando cada uma tem do seu lado setenta amot e um pouco; e assim três aldeias, quando entre as duas exteriores há cento e quarenta e uma amot e um terço, a do meio faz das três uma só. A guemará mostra que Rabi Meir e os rabinos interpretam o mesmo versículo, “desde o muro da cidade e para fora”, cada um a partir de uma das suas palavras. Depois discute as três aldeias: Shmuel diz que estão em fila, Bar Kapara, que estão como um tripé, e então se pergunta qual é a do meio; Rabi Chananyá exige que a do meio não esteja afastada mais de duas mil amot; e Rabi Yossi conta a dificuldade que levou a Rabi Yaakov bar Achá, sobre a aldeia do meio contada para dois lados. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 57a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

נוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר וַחֲכָמִים אוֹמְרִים לֹא אָמְרוּ בַקַּרְפֵּף אֶלָּא בְבֵין שְׁתֵּי עֲיָירוֹת אִם יֵשׁ לָזוֹ שִׁבְעִים אַמָּה וְשִׁירַיִים וְלָזוֹ שִׁבְעִים אַמָּה וְשִׁירַיִים עוֹשֶׂה קַרְפֵּף לִשְׁתֵּיהֶן לִהְיוֹת כְּאֶחָת. וְכֵן שְׁלֹשָׁה כְפָרִים הַמְּשׁוּלָּשִׁים אִם יֵשׁ בֵּין שְׁנֵיִהֶן הַחִיצוֹנִים מֵאָה וְאַרְבָּעִים וְאַחַת וּשְׁלִישׁ עָשָׂה הָאֶמְצָעִי אֶת שְׁלָשְׁתָּן לִהְיוֹת אֶחָד:

Mishná: Dá-se um karpef (cercado) à cidade, palavras de Rabi Meir. E os sábios dizem: não falaram do karpef senão no espaço entre duas cidades: se há do lado desta setenta amot (côvados) e um pouco, e do lado daquela setenta amot e um pouco, faz-se um karpef para as duas, para que sejam como uma. E assim também três aldeias dispostas em trio: se há entre as duas exteriores cento e quarenta e uma amot e um terço, a do meio fez com que as três sejam uma.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Rabi Meir e os rabinos interpretam o mesmo versículo
Yerushalmi · Eruvin 5:2
פיס׳. נוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר כול׳. רַב חוּנָה בְשֵׁם. רִבִּי מֵאִיר וְרַבָּנִין מִקְרָא אֶחָד דּוֹרְשִׁין. רִבִּי מֵאִיר דָּרַשׁ. מִקִּיר הָעִיר. מַה תַלְמוּד לוֹמַר וָחוּצָה. מִיכָּן שֶׁנּוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר.

“Dá-se um karpef à cidade” etc. Rav Huna, em nome de…: Rabi Meir e os rabinos interpretam um mesmo versículo. Rabi Meir interpretou: está escrito “desde o muro da cidade”; o que vem ensinar a palavra “e para fora”? Daqui se aprende que se dá um karpef à cidade.

רַבָּנִין דּוֹרְשִׁין וָחוּצָה. מַה תַלְמוּד לוֹמַר מִקִּיר הָעִיר. אֶלָּא מִיכָּן (שֶׁאֵין) [שֶׁ]נּוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר. הָדָא אָמְרָה שֶׁנּוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר. רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא רִבִּי אָבּוּנָה רִבִּי נָחוּם בָשֵׁם שְׁמוּאֵל בַּר אַבָּא. סְלָקַת מַתְנִיתָא.

Os rabinos interpretam: está escrito “e para fora”; o que vem ensinar a expressão “desde o muro da cidade”? Mas daqui se aprende que não se dá um karpef à cidade. E isto na Mishná diz que se dá um karpef à cidade. Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Avuná, Rabi Nachum em nome de Shmuel bar Abba: concluiu-se a Mishná.

02Qual é a aldeia do meio: em fila ou como um tripé
Yerushalmi · Eruvin 5:2
פיס׳. וְכֵן שְׁלֹשָׁה כְפָרִים הַמְּשׁוּלָּשִׁין כול׳. שְׁמוּאֵל אָמַר. בָּעֲשׂוּיִים שׁוּרָה. בַּר קַפָּרָא אָמַר. בָּעֲשׂוּיִים צוֹבָה. הַיידֶנּוּ אֶמְצָעִי. נִיחָא מָאן דָּמַר. בָּעֲשׂוּיִים שׁוּרָה. הַהֶנּוּ אֶמְצָעִי. מָאן דְּאָמַר. בָּעֲשׂוּיִים צוֹבָה. הַיידֶנּוּ אֶמְצָעִי.

“E assim também três aldeias dispostas em trio” etc. Shmuel disse: trata-se de aldeias dispostas em fila. Bar Kapara disse: de aldeias dispostas como um tripé. Qual é a aldeia do meio? Está bem para quem diz “dispostas em fila”: esta é a aldeia do meio. Mas, para quem diz “dispostas como um tripé”, qual é a do meio?

אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל אֲחוֹי דְּרִבִּי בֶּרֶכְיָה. אִין תִּמְשַׁח מִן הָהֵן. הַהֶנּוּ אֶמְצָעִי. אִין תִּמְשַׁח מִן הָהֵן. הַהֶנּוּ אֶמְצָעִי.

Disse Rabi Shmuel, irmão de Rabi Berechyá: se medires a partir desta aldeia, aquela outra é a do meio; se medires a partir desta outra, aquela é a do meio.

רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא רִבִּי יָסָא בְשֵׁם רִבִּי חֲנַנְיָה. וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יְהֵא הָאֶמְצָעִי מוּפְלַג יוֹתֵר מֵאַלְפַּיִם אַמָּה.

Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Yassa em nome de Rabi Chananyá: e isto vale contanto que a aldeia do meio não esteja afastada das exteriores mais de duas mil amot.

אָמַר רִבִּי יוֹסֵה. קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא. תַּנִּינָן. אִם יֵשׁ בֵּין שְׁנֵי הַחִיצוֹנִים מֵאָה וְאַרְבָּעִים וְאַחַת וּשְׁלִישׁ עָשָׂה הָאֶמְצָעִי שְׁלָשְׁתָּן. לְהִַתִּיר שְׁנֵי הַחִיצוֹנִים. הָיוּ שְׁנַיִם. הָאֶמְצָעִי מָהוּ שֵׁיִּדּוֹן לְכָאן וּלְכָאן. מַה צְרִיכָה לֵהּ. בְּשֶׁהָיוּ שְׁנַיִם מְהַלְּכִין. אֲבַל אִם הָיָה אֶחָד מְהַלֵּךְ נִידּוֹן לְכָאן וּלְכָאן.

Disse Rabi Yossi: levantei a dificuldade diante de Rabi Yaakov bar Achá: aprendemos na Mishná: “se há entre as duas exteriores cento e quarenta e uma amot e um terço, a do meio fez as três uma só”. Isso foi dito para permitir as duas exteriores uma à outra. Se eram dois, a do meio, o que se diz: é contada para cá e para lá? O que lhe era duvidoso? Quando eram dois que estavam caminhando. Mas, se era um só caminhando, ela é contada para cá e para lá.

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Heh de Massechet Eruvin, Keitzad Meabrin, e a sua Mishná corresponde a duas mishnayot da Mishná avulsa, Eruvin 5:2 e 5:3: a primeira vai até “para que sejam como uma”, e a segunda é a das três aldeias. As diferenças de leitura são estas: o Yerushalmi tem לֹא אָמְרוּ בַקַּרְפֵּף אֶלָּא בְבֵין שְׁתֵּי עֲיָירוֹת, onde a avulsa tem לֹא אָמְרוּ קַרְפֵּף אֶלָּא בֵין שְׁתֵּי עֲיָרוֹת; לִהְיוֹת כְּאֶחָת onde a avulsa tem לִהְיוֹתָן כְּאֶחָת; בֵּין שְׁנֵיִהֶן הַחִיצוֹנִים, “entre as duas delas, as exteriores”, onde a avulsa tem בֵּין שְׁנַיִם הַחִיצוֹנִים; וְאַחַת, no feminino, onde a avulsa tem וְאֶחָד; עָשָׂה הָאֶמְצָעִי, com artigo, onde a avulsa tem עָשָׂה אֶמְצָעִי; e לִהְיוֹת אֶחָד onde a avulsa tem לִהְיוֹתָן כְּאֶחָד. São só de grafia וְשִׁירַיִים, duas vezes, por וְשִׁירַיִם, e הַמְּשׁוּלָּשִׁים por הַמְּשֻׁלָּשִׁין. A halachá ocupa três segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, o segundo é a seção 01, em dois pares, e o terceiro é a seção 02, em quatro pares.

Sobre a Mishná. O karpef é o cercado de setenta amot e um pouco de lado, a área de duas seás de semeadura, como no pátio do Mishkan, já estudado no Perek Bet; o Yerushalmi, em Eruvin 2:5, calcula esse lado como setenta amot e dois terços. Para Rabi Meir, toda cidade recebe um karpef em volta, e só a partir dele se medem as duas mil amot do techum. Para os sábios, o karpef só conta entre duas cidades vizinhas: se a distância entre elas não passa de duas vezes setenta amot e um pouco, as duas são uma só cidade para o techum. A conta das três aldeias usa a mesma medida: cento e quarenta e uma amot e um terço são duas vezes setenta amot e dois terços.

Sobre a seção 01. O versículo é Bamidbar 35:4, sobre as cidades dos levitas: מִקִּיר הָעִיר וָחוּצָה אֶלֶף אַמָּה סָבִיב, “desde o muro da cidade e para fora, mil amot ao redor”. Rabi Meir parte de “desde o muro” e lê “e para fora” como um acréscimo, que ensina a deixar um espaço antes de medir; os rabinos partem de “e para fora” e leem “desde o muro” como o ponto exato de onde se mede. O hebraico do Sefaria mostra (שֶׁאֵין) [שֶׁ]נּוֹתְנִין: o copista escreveu “que não se dá”, e o corretor apagou a negação; seguiu-se aqui a leitura do copista, que é a que a própria frase pede, e o próprio Guggenheimer diz que a correção está errada. A frase הָדָא אָמְרָה שֶׁנּוֹתְנִין קַרְפֵּף לָעִיר foi entendida, como em Guggenheimer, como uma referência à segunda parte da Mishná, onde os sábios também dão um karpef, entre duas cidades; Guggenheimer a traduz como pergunta. A resposta סְלָקַת מַתְנִיתָא, à letra “subiu a Mishná”, foi traduzida “concluiu-se a Mishná”; o sentido provável é que a dificuldade se resolve com a própria Mishná, que já diz que, para os sábios, o karpef existe só entre duas cidades. No Bavli, Eruvin 57a, Rava tira a regra de Rabi Meir do mesmo versículo: אָמְרָה תּוֹרָה: תֵּן חוּצָה, וְאַחַר כָּךְ מְדוֹד, “a Torá disse: dá para fora, e depois mede”; e ali Rav Huna e Chiya bar Rav discutem se as duas cidades recebem um karpef cada uma ou um só para as duas.

Sobre a seção 02. A palavra da Mishná, הַמְּשׁוּלָּשִׁין, foi traduzida “dispostas em trio” para não decidir entre as duas explicações: para Shmuel, as aldeias estão em fila, e a do meio é a que fica entre as outras; para Bar Kapara, estão em triângulo, e então qualquer uma pode ser a do meio, conforme o lado de onde se mede, como explica Rabi Shmuel, irmão de Rabi Berechyá. Rabi Chananyá põe um limite: a aldeia do meio não pode estar a mais de duas mil amot das exteriores. No Bavli, Eruvin 57b, Rabá, em nome de Rav Idi, em nome de Rabi Chanina, diz לֹא מְשׁוּלָּשִׁין מַמָּשׁ, “não dispostas em trio de fato”: considera-se a aldeia do meio como se estivesse entre as duas; e Abaye responde a Rava que entre a exterior e a do meio pode haver אַלְפַּיִם אַמָּה, “duas mil amot”, o mesmo limite de Rabi Chananyá. A Tosefta Eruvin traz a mesma discussão de Rabi Meir e dos sábios, com três torres e com aldeias em fila: na numeração do Sefaria em 4:9, e na edição de Lieberman, no Sefaria, em 4:12, onde se lê לכל עיירות נתנו קרפיף דברי ר' מאיר, “a todas as cidades deram um karpef, palavras de Rabi Meir”, e היו עשוין שורה, “se estavam dispostas em fila”, com a mesma expressão de Shmuel. A dificuldade de Rabi Yossi parece ser esta: a Mishná só fala de juntar as duas exteriores por meio da do meio; se houvesse dois pares de aldeias que precisassem da mesma aldeia do meio, poderia ela ser contada para os dois? A dúvida, diz a guemará, é só quando duas pessoas caminham ao mesmo tempo; para uma só, a aldeia do meio serve para qualquer lado.

Leituras incertas. Em רַב חוּנָה בְשֵׁם falta o nome do mestre, e a tradução deixa a lacuna; Guggenheimer completa “Rav”, a partir da citação do Rashba. צוֹבָה foi traduzido “como um tripé”, seguindo Guggenheimer, e entendido como triângulo. הַיידֶנּוּ foi traduzido “qual é” e הַהֶנּוּ, “esta é” e “aquela é”. קַשְׁיָיתָהּ קוֹמֵי foi traduzido “levantei a dificuldade diante de”. לְהִַתִּיר שְׁנֵי הַחִיצוֹנִים foi entendido como explicação da Mishná citada, e completado com “isso foi dito”. הָיוּ שְׁנַיִם, “se eram dois”, não diz dois o quê; a resposta da guemará fala de duas pessoas caminhando. שֵׁיִּדּוֹן e נִידּוֹן, à letra “ser julgada”, foram traduzidos “ser contada”.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz הַמְּשׁוּלָּשִׁים como “forming a triangle”, e aqui ficou “dispostas em trio”; dá o título “Rebbi” a quem o hebraico chama só שְׁמוּאֵל בַּר אַבָּא, sem título; e chama “Rebbi Ḥanina” quem o hebraico chama רִבִּי חֲנַנְיָה, aqui Rabi Chananyá. Referências corrigidas: no Sefaria, a nota de Guggenheimer a “the Mishnah is finished” aparece com o número e o texto da nota 105, repetidos da frase anterior, e não com uma nota própria; não se citou nada dela. As remissões de Guggenheimer ao Bavli 57a, para o versículo, e 57b, para as duas mil amot, foram conferidas e estão certas, assim como a remissão ao capítulo 2, na halachá Eruvin 2:5, para a conta de setenta amot e dois terços.

Nomes nesta página: Rabi Meir, na Mishná; Rav Huna, Rabi Yaakov bar Achá, Rabi Avuná, Rabi Nachum, Shmuel bar Abba, Shmuel, Bar Kapara, Rabi Shmuel, irmão de Rabi Berechyá, Rabi Yassa, Rabi Chananyá e Rabi Yossi, na guemará. Na nota: Rava, Rav Huna, Chiya bar Rav, Rabá, Rav Idi, Rabi Chanina e Abaye, no Bavli.

Do hebraico foram retirados os rótulos de Mishná e de halachá, o marcador de folha de Vilna 34a, que estava na Mishná, antes de מֵאָה וְאַרְבָּעִים, e, na seção 02, o marcador de coluna de Veneza 22d, antes de יוֹתֵר מֵאַלְפַּיִם אַמָּה, e o marcador de folha de Vilna 34b, antes de מַה צְרִיכָה לֵהּ; não há marcador numérico, e nada foi acrescentado. As marcas פיס׳ e כול׳ foram mantidas, assim como os parênteses e colchetes do Sefaria e as suas grafias, como לְהִַתִּיר, com duas vogais sob o he.