Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Dalet · Halachá 9
עֵרוּבִין

Quem saiu para ir a uma cidade e o seu companheiro o fez voltar

Perek Dalet, Mi SheHotziuhu, Halachá 9, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Nona halachá do Perek Dalet, Mi SheHotziuhu (aquele a quem levaram para fora), de Massechet Eruvin. A Mishná trata de quem saiu para ir a uma cidade para a qual se faz eruv, e o seu companheiro o fez voltar: segundo Rabi Yehudá, ele está permitido a ir até lá, e todos os moradores da cidade estão proibidos; Rabi Meir diz que todo aquele que podia fazer eruv e não o fez é como o condutor de jumento e condutor de camelo, puxado para os dois lados. A guemará explica a Mishná de duas maneiras. Na primeira, alguém disse “eu faço eruv por ti e pelos moradores da tua cidade”, fez o eruv pelos moradores e não por ele: ele fica proibido naquela direção e permitido nas demais, e eles, ao contrário, permitidos naquela direção e proibidos nas demais. Na segunda, não fez eruv nem por ele nem pelos moradores: ele está permitido naquela direção, pois os seus pés já lhe adquiriram desde a véspera, e eles estão proibidos. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 52a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מִי שֶׁיָצָא לֵילֵךְ לְעִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ וְהֶחֱזִירוֹ חֲבֵירוֹ הוּא מוּתָּר לֵילֵךְ וְכָל בְּנֵי הָעִיר אֲסוּרִין דִּבְרֵי רִבִּי יְהוּדָה. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר כָּל שֶׁהוּא יָכוֹל לְעָרֵב וְלֹא עֵירֵב הֲרֵי זֶה חַמָּר גַּמָּל:

Mishná: Quem saiu para ir a uma cidade para a qual se faz eruv (a junção que permite transportar ou caminhar no Shabat), e o seu companheiro o fez voltar, ele está permitido a ir até lá, e todos os demais moradores da cidade estão proibidos de ir, palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: todo aquele que pode fazer eruv e não fez o eruv, eis que este é como o chamar gamal (condutor de jumento e condutor de camelo).

A Halachá · הֲלָכָה ט

01Duas explicações: o eruv feito pelos moradores e não por ele, ou por ninguém
Yerushalmi · Eruvin 4:9
פיס׳. מִי שֶׁיָצָא לֵילֵךְ לְעִיר. פָּתַר לַהּ תְּרֵין פְּּתָרִין. אָמַר. אֲנָא מְעָרֵב עָלֶיךָ וְעַל בְּנֵי קַרְתָּךְ. וְעִירֵב עַל בְּנֵי קַרְתֵּיהּ וְלֹא עִירֵב עִילוֹי. הוּא אָסוּר לֵילֵךְ בְּאוֹתָהּ הָרוּחַ וּמוֹתָּר בִּשְׁאָר כָּל הָרוּחוֹת שֶׁבְּעִירוֹ. וְהֵן מוּתָּרִין בְּאוֹתָהּ הָרוּחַ וַאֲסוּרִין בִּשְׁאָר כָּל הָרוּחוֹת שֶׁבְּעִירָן.

“Quem saiu para ir a uma cidade.” Explica-se a Mishná com duas explicações. Na primeira, alguém disse: “Eu faço eruv por ti e pelos moradores da tua cidade”, e fez eruv pelos moradores da sua cidade, e não fez eruv por ele. Ele está proibido de ir naquela direção, e está permitido ir em todas as demais direções que há na sua cidade; e eles estão permitidos de ir naquela direção, e proibidos em todas as demais direções que há na sua cidade.

פָּתַר לָהּ פְּתַר חוֹרָן. אָמַר לֵיהּ. אֲנָא מְעָרֵב עָלֶיךָ וְעַל בְּנֵי קַרְתָּךְ. וְלֹא עִירֵב לֹא עֲלוֹי ולֹא עַל בְּנֵי קַרְתֵּיהּ. הוּא מוּתָּר לֵילֵךְ בְּאוֹתָהּ הָרוּחַ. שֶׁכְּבָר קָנוּ לוֹ רַגְלָיו מֵאֶתְמוֹל. וְהֵן אֲסוּרִין לֵילֵךְ בְּאוֹתָהּ הָרוּחַ וּמוּתָּרִין בִּשְׁאָר כָּל הָרוּחוֹת שֶׁבְּעִירוֹ.

Explica-se a Mishná com outra explicação. Alguém lhe disse: “Eu faço eruv por ti e pelos moradores da tua cidade”, e não fez eruv nem por ele nem pelos moradores da sua cidade. Ele está permitido a ir naquela direção, pois os seus pés já lhe adquiriram a residência de Shabat desde ontem; e eles, os moradores, estão proibidos de ir naquela direção, e estão permitidos de ir em todas as demais direções que há na sua cidade.

Nota

Esta é a nona halachá do Perek Dalet de Massechet Eruvin, Mi SheHotziuhu, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 4:10 da Mishná avulsa, inteira. A diferença de leitura é לְעִיר, “para uma cidade”, onde a avulsa tem בְּעִיר, “numa cidade”; a Tosefta tem לעיר, como o Yerushalmi. As demais diferenças são de grafia: שֶׁיָצָא, sem dagesh, onde a avulsa tem שֶׁיָּצָא; חֲבֵירוֹ por חֲבֵרוֹ; מוּתָּר por מֻתָּר; רִבִּי por רַבִּי; כָּל שֶׁהוּא por כֹּל שֶׁהוּא; e עֵירֵב por עֵרֵב. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo é a seção 01, dividida aqui em dois pares, um para cada explicação.

Sobre a Mishná. A cidade para a qual se faz eruv é uma cidade próxima, à qual se chega no Shabat colocando um eruv entre as duas. Quem saiu na véspera do Shabat para ir até lá e foi trazido de volta pelo companheiro, segundo Rabi Yehudá, pode ir no Shabat, porque a sua saída já valeu como eruv; os outros moradores, que não saíram, não podem. Para Rabi Meir, quem podia fazer o eruv e não o fez fica como o condutor de jumento, que anda atrás do animal, e o condutor de camelo, que anda à frente dele: puxado para os dois lados, só pode andar onde as duas residências possíveis o permitem. A mesma expressão já aparece na Mishná avulsa Eruvin 3:4, na dúvida sobre o eruv: אִם סָפֵק, רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמְרִים, הֲרֵי זֶה חַמָּר גַּמָּל, “se há dúvida, Rabi Meir e Rabi Yehudá dizem: eis que este é chamar gamal”.

No Bavli, Eruvin 52a, a Mishná é explicada por Rav Huna: trata-se de quem tem duas casas, e entre elas dois techumei Shabat; ele, por ter saído para o caminho, é como o pobre, e os moradores são ricos. Uma baraita citada ali diz o mesmo em nome de Rabi Yehudá: quem tem duas casas, e entre elas dois techumei Shabat, כֵּיוָן שֶׁהֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ — קָנָה עֵירוּב, “uma vez que tomou o caminho, adquiriu o eruv”; e Rabi Yossi bar Rabi Yehudá acrescenta que, mesmo se o companheiro o encontrou e lhe disse “pernoita aqui, é tempo de calor, é tempo de frio”, no dia seguinte ele madruga e vai. Rabá diz que todos concordam que é preciso dizer, e a divergência é se é preciso tomar o caminho; Rav Yossef diz o inverso. Em 52b, sobre a palavra de Rabi Meir, a guemará pergunta por que repeti-la, se já foi ensinada na dúvida sobre o eruv, e Rav Sheshet responde que ela ensina que mesmo quem com certeza não fez eruv é chamar gamal. A Tosefta Eruvin 3:9, na numeração do Sefaria, traz o caso com a medida: ובין זו לזו כד' אלפים אמה חסר א' הואיל והחזיק בדרך מותר לילך, “e entre esta e aquela há quatro mil amot menos uma, uma vez que tomou o caminho, é permitido ir”, palavras de Rabi Yehudá; e ainda, se o companheiro o fez voltar do caminho para pernoitar na cidade, ele madruga e vai, mas, se o fez voltar da própria cidade, ele é como os moradores da cidade. A edição de Lieberman, no Sefaria, tem o mesmo texto em 3:10.

Sobre a seção 01. Nas duas explicações, alguém prometeu fazer o eruv pelo homem e pelos moradores. Na primeira, o eruv foi feito pelos moradores e não por ele: eles têm a residência de Shabat no lugar do eruv e por isso podem ir naquela direção, mas perdem as demais; ele, que ficou sem eruv, guarda a residência na cidade e não pode ir até a outra. O resultado é o inverso das palavras da Mishná, e a guemará não diz como o concilia. Na segunda, ninguém fez eruv: ele, que já tinha saído na véspera, adquiriu a residência com os seus pés e pode ir naquela direção, e os moradores não podem; isto coincide com as palavras de Rabi Yehudá na Mishná. A expressão קָנוּ לוֹ רַגְלָיו, “os seus pés lhe adquiriram”, remete ao eruv com os pés da halachá anterior.

Leituras incertas. עִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ, à letra “cidade em que se faz eruv”, foi traduzido “cidade para a qual se faz eruv”. פָּתַר לַהּ e פָּתַר לָהּ, sem sujeito expresso, foram traduzidos “explica-se a Mishná”. O verbo אָמַר, na primeira explicação, e אָמַר לֵיהּ, na segunda, não dizem quem fala; foi completado com “alguém”. עִילוֹי e עֲלוֹי foram traduzidos “por ele”. רוּחַ foi traduzido “direção”. O hebraico tem שֶׁבְּעִירָן, “da cidade deles”, no fim da primeira explicação, e שֶׁבְּעִירוֹ, “da cidade dele”, no fim da segunda, ambos traduzidos “na sua cidade”. מֵאֶתְמוֹל, à letra “desde ontem”, refere-se à véspera do Shabat, e o objeto de “adquiriram” foi completado com “a residência de Shabat”. Não fica claro se o “ele” das duas explicações é o mesmo homem da Mishná, que saiu e foi trazido de volta.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz a Mishná como “to another town”, e aqui ficou “a uma cidade”, sem “outra”; traduz וְהֶחֱזִירוֹ חֲבֵירוֹ como “but another person intercepted him”, e aqui ficou “e o seu companheiro o fez voltar”; traduz פָּתַר לַהּ תְּרֵין פְּּתָרִין como “one may give this two interpretations”, e aqui ficou “explica-se a Mishná com duas explicações”; e traduz אָמַר לֵיהּ, na segunda explicação, como “if he said”, sem o “lhe”, que aqui foi mantido. Referências corrigidas: na nota à Mishná, Guggenheimer remete a “Chapter 3, Notes 179–184”, ligado no Sefaria a Yerushalmi Eruvin 3:8:3, que trata de Rabi Meir e Rabi Yudá e dos quatro anciãos, e não do chamar gamal; aqui citou-se a Mishná avulsa Eruvin 3:4, onde a expressão aparece. Na nota à seção 01, ele remete à “Mishnah 8”, que no Yerushalmi é a Mishná de 4:7, a de quem vinha pelo caminho.

Nomes nesta página: Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה, e Rabi Meir, na Mishná. Na nota: Rav Huna, Rabi Yossi bar Rabi Yehudá, Rabá, Rav Yossef e Rav Sheshet, no Bavli.

Do hebraico foram retirados os rótulos de Mishná e de halachá e o marcador de folha de Vilna 30a, que estava na seção 01, depois de מִי שֶׁיָצָא לֵילֵךְ לְעִיר; não há marcador numérico nem de Veneza, e nada foi acrescentado. A marca פיס׳ foi mantida. Foram mantidas também as grafias do Sefaria, como פְּּתָרִין, com dagesh duplicado, וּמוֹתָּר ao lado de מוּתָּרִין, e ולֹא, sem vogal no vav.