Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Dalet · Halachá 8
עֵרוּבִין

O pobre faz eruv com os seus pés

Perek Dalet, Mi SheHotziuhu, Halachá 8, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Oitava halachá do Perek Dalet, Mi SheHotziuhu (aquele a quem levaram para fora), de Massechet Eruvin. A Mishná diz que é isto o que disseram, que o pobre faz eruv com os seus pés: segundo Rabi Meir, só o pobre; segundo Rabi Yehudá, tanto o pobre quanto o rico, e o eruv com o pão só foi dito para facilitar ao rico, que assim não precisa sair. A guemará explica as duas posições: para Rabi Meir, o essencial do eruv é com o pão, e os pés são uma facilidade para o pobre; para Rabi Yudá, o essencial do eruv é com os pés, e o pão é uma facilidade para o rico. Mas mesmo para Rabi Yudá não basta ficar sentado em casa e dizer que a shevitá seja em tal lugar: é preciso sair, dizer “neste lugar” e esperar ali até escurecer, como faziam os pobres de Shichin, que iam receber os figos secos distribuídos em Rumá nos anos de seca. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 51a.

A Mishná · מַתְנִיתִין

זֶהוּ שֶׁאָמְרוּ הֶעָנִי מְעָרֵב בְּרַגְלָיו. רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר אֵין לָנוּ אֶלָּא עָנִי. רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אֶחָד עָנִי וְאֶחָד עָשִׁיר. שֵׁלֹּא אָמְרוּ מְעָרְבִין בַּפַּת אֶלָּא לְהָקֵל עַל הֶעָשִׁיר שֶׁלֹּא יֵצֵא וִיעָרֵב בְּרַגְלָיו:

Mishná: Isto é o que disseram: o pobre faz eruv (a junção que permite transportar ou caminhar no Shabat) com os seus pés. Rabi Meir diz: não temos esta permissão senão para o pobre. Rabi Yehudá diz: vale tanto para o pobre quanto para o rico; pois não disseram que se faz eruv com o pão senão para facilitar ao rico, para que não precise sair e fazer eruv com os seus pés.

A Halachá · הֲלָכָה ח

01O essencial do eruv: o pão ou os pés
Yerushalmi · Eruvin 4:8
פיס׳. אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן לְמָה הַדָּבָר דוֹמֶה כול׳. מִי שֶׁבָּא בַדֶּרֶךְ וְהָיָה יָרֵא שֶׁמָּא תֶּחֱשֶׁךְ כול׳. אִם אֵינוֹ מַכִּיר אוֹ אֵינוֹ בַהֲלָכָה כול׳. זוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ. הֶעָנִי מְעָרֵב בְּרַגְלָיו כול׳. רִבִּי מֵאִיר סָבַר. עִיקַּר עֵירוּב בַּכִּכָּר. וְלָמָּה אָמְרוּ. בְּרַגְלָיו. לְהָקֵל עַל הֶעָנִי שֶׁאֵין לוֹ כִכָּר. וְרִבִּי יוּדָא אָמַר. עִיקַּר עֵירוּב בְּרַגְלָיו. וְלָמָּה אָמְרוּ. בַּכִּכָּר. לְהָקֵל עַל הֶעָשִׁיר שֶׁלֹּא יֵצֵא בְרַגְלָיו.

“Disse Rabi Shimon: a que se compara a coisa” etc. “Quem vinha pelo caminho e temia que escurecesse” etc. “Se não conhece a árvore ou a cerca, ou não é versado na halachá (a norma prática)” etc. “Esta é a que disseram: o pobre faz eruv com os seus pés” etc.

Rabi Meir sustenta: o essencial do eruv é feito com o kikar (pão). E por que disseram que se faz eruv com os seus pés? Para facilitar ao pobre, que não tem kikar para o eruv. E Rabi Yudá disse: o essencial do eruv é feito com os seus pés. E por que disseram que se faz eruv com o kikar? Para facilitar ao rico, para que não precise sair e fazer eruv com os seus pés.

02Sair até o techum e os pobres de Shichin
Yerushalmi · Eruvin 4:8
אַף עַל גַּב דְּרִבִּי יוּדָה אָמַר. עִיקַּר עֵירוּב בְּרַגְלָיו. וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יֵשֵׁב לוֹ בְתוֹךְ בֵּיתוֹ וְיֹאמַר. תִּקָּנֶה לִי שְׁבִיתָה בְּמָקוֹם פְּלוֹנִי. אֶלָּא יֵצֵא לוֹ חוּץ (לַשָׂדֶה) [לַתְּחוּם] וְיֹאמַר. תִּקָּנֶה לִי שְׁבִיתָה בְּמָקוֹם הַזֶּה. וּמַמְתִּין שָׁם עַד שֶׁחֲשֵׁיכָה. וְחוֹזֵר וּבָא לְעִירוֹ. וְתַנֵּי כֵן. מַעֲשֶׂה בְּמִשְׁפַּחַת בֵּית מַמָּה וּמִשְׁפַּחַת בֵּית גּוֹרְיוֹן מֵרוּמָה. שֶׁהָיוּ מְחַלְּקִין גְּרוֹגְרוֹת לָעֲנִיִּים בִּשְׁנֵי בַצּוֹרֶת. וְהָיוּ עֲנִיֵּי שִׁיחִין יוֹצְאִין וּמְעָרְבִין בְּרַגְלֵיהֶן. וּמַמְתִּינִים שָׁם עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ. וּלְמָחָר הָיוּ נִכְנָסִין וְאוֹכְלִין שָׁם וְחוֹזְרִין. וְכָל מַה שֶׁהֵן עוֹשִׂין עַל פִּי חֲכָמִים הָיוּ עוֹשִׂין.

Embora Rabi Yudá tenha dito: o essencial do eruv é feito com os seus pés, isto vale desde que ele não fique sentado dentro da sua casa e diga de lá: “seja-me adquirida a shevitá (lugar de repouso de Shabat) no lugar tal”; mas saia para fora, para o techum (limite de Shabat), e diga: “seja-me adquirida a shevitá neste lugar”, e espere ali até que escureça, e então volte e venha para a sua cidade.

E assim foi ensinado: houve um caso com a família de Beit Mamá e a família de Beit Guryon, de Rumá, que distribuíam figos secos aos pobres nos anos de seca. E os pobres de Shichin saíam até o techum e faziam eruv com os seus pés, e esperavam ali até que escurecesse; e no dia seguinte entravam em Rumá, comiam ali dos figos e voltavam para Shichin. E tudo o que eles faziam, segundo os chachamim (sábios) o faziam.

Nota

Esta é a oitava halachá do Perek Dalet de Massechet Eruvin, Mi SheHotziuhu, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 4:9 da Mishná avulsa, inteira. As diferenças em relação à avulsa são estas: זֶהוּ שֶׁאָמְרוּ, “isto é o que disseram”, onde a avulsa tem וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ, “e esta é a que disseram”; רִבִּי מֵאִיר אוֹמֵר אֵין לָנוּ, “Rabi Meir diz: não temos”, onde a avulsa tem אָמַר רַבִּי מֵאִיר, אָנוּ אֵין לָנוּ, “disse Rabi Meir: nós não temos”; שֵׁלֹּא אָמְרוּ, “pois não disseram”, onde a avulsa tem apenas לֹא אָמְרוּ; e בַּפַּת onde a avulsa tem בְּפַת, ambos “com o pão”. A seção 01 abre com quatro citações abreviadas da Mishná, cada uma terminada em כול׳, que retomam as mishnayot anteriores deste perek até chegar à desta halachá: “disse Rabi Shimon: a que se compara a coisa” é da Mishná avulsa Eruvin 4:6, que no Yerushalmi está na Mishná de 4:6, e não da avulsa 4:11, onde Rabi Shimon fala das quinze amot; “quem vinha pelo caminho e temia que escurecesse” é da avulsa 4:7, e “se não conhece, ou não é versado na halachá” é da avulsa 4:8, ambas na Mishná de 4:7 no Yerushalmi; e “esta é a que disseram” é a Mishná desta halachá, a avulsa 4:9. As citações seguem a ordem do Sefaria e não foram reordenadas. Elas não coincidem letra por letra com as Mishnayot do Yerushalmi: aqui está תֶּחֱשֶׁךְ, onde a Mishná de 4:7 tem תֶּחֱשָׁךְ; אוֹ אֵינוֹ בַהֲלָכָה, sem בָקִי; e זוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ, como na avulsa, onde a Mishná desta halachá tem זֶהוּ שֶׁאָמְרוּ. A halachá ocupa três segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, o segundo é a seção 01 e o terceiro é a seção 02.

Sobre a Mishná. Ela retoma a halachá anterior: quem está no caminho e não conhece nenhum marco diz que a sua shevitá é no lugar onde está, e adquire ali alpayim amá para cada direção; isto, diz a Mishná, é o que se chama fazer eruv com os pés, em vez de depositar comida no limite antes do Shabat. Rabi Meir restringe isso ao pobre, isto é, a quem está no caminho sem pão; Rabi Yehudá permite também ao rico, e diz que o eruv com o pão foi dado ao rico como uma facilidade, para que não precise ir pessoalmente até o lugar. No Bavli, Eruvin 51a e 51b, Rav Nachman diz que a disputa é quando a pessoa disse “no meu lugar”: Rabi Meir sustenta que o essencial do eruv é com o pão, e só para o pobre os sábios foram lenientes; Rabi Yehudá sustenta que o essencial do eruv é com o pé, tanto para o pobre quanto para o rico; e quando disse “no lugar tal”, todos concordam que vale para o pobre e não para o rico. Rav Chisda diz o contrário: a disputa é em “no lugar tal”, e em “no meu lugar” todos concordam que vale tanto para o pobre quanto para o rico. Em 51b, uma baraita citada a favor de Rav Nachman diz, em nome de Rabi Yehudá, que o rico sai para fora do techum e diz “seja a minha shevitá no meu lugar”, e que este é o essencial do eruv, mas os sábios permitiram ao dono da casa mandar o seu eruv pelo seu servo, pelo seu filho ou pelo seu emissário, para lhe facilitar; e Rav diz que a halachá é como Rabi Yehudá. Em 51b e 52a, Rabá bar Rav Chanan, que costumava dizer em casa “seja a minha shevitá em Tzinta”, retratou-se quando Abaye lhe lembrou a explicação de Rav Nachman e a baraita que a apoia.

Sobre a seção 01. A guemará do Yerushalmi formula a disputa nos mesmos termos que Rav Nachman no Bavli: עִיקַּר עֵירוּב בַּכִּכָּר, para Rabi Meir, e עִיקַּר עֵירוּב בְּרַגְלָיו, para Rabi Yudá; cada um explica como facilidade o modo que o outro considera o essencial. A Tosefta Eruvin 3:14, na numeração do Sefaria, traz as duas posições: para Rabi Meir, tanto o pobre quanto o rico, desde que não saia da cidade e diga “a minha shevitá é no meu lugar”, שלא התירו אלא למהלך בדרך, “pois não o permitiram senão a quem vai pelo caminho”; para Rabi Yehudá, tanto o pobre quanto o rico que sai da cidade e diz “a minha shevitá é no meu lugar”, [זה] הוא עיקרו של עירוב, “este é o essencial do eruv”.

Sobre a seção 02. A restrição a Rabi Yudá exige que a pessoa vá até o lugar, diga “neste lugar” e fique ali até escurecer; só depois volta para a sua cidade, e o seu techum de Shabat passa a ser medido daquele lugar. A história dos pobres de Shichin é a mesma que a Tosefta Eruvin 3:15, na numeração do Sefaria, traz em nome de Rabi Yehudá: מעשה [בבית ממל ובבית גוריון ברומא], com os pobres de Shichin que יוצאין ומערבין ברגליהן ונכנסין ואוכלין משחשכה, “saíam e faziam eruv com os seus pés, e entravam e comiam depois que escurecia”; a edição de Lieberman, no Sefaria, reúne tudo em 3:17. No Bavli, Eruvin 51b, a mesma história está no fim da baraita citada a favor de Rav Nachman: בֵּית מֶמֶל e בֵּית גּוּרְיוֹן, em אָרוֹמָא, distribuíam figos secos e passas aos pobres nos anos de seca, e os pobres de Kfar Shichin e de Kfar Chananiá vinham, escurecia-lhes sobre o techum, e no dia seguinte madrugavam e vinham.

Leituras incertas. אֵין לָנוּ אֶלָּא עָנִי, à letra “não temos senão o pobre”, foi completado com “esta permissão” e “para o”. אוֹ אֵינוֹ בַהֲלָכָה, à letra “ou não está na halachá”, foi traduzido “ou não é versado na halachá”, como na Mishná. כִּכָּר, “pão”, foi mantido como termo, kikar, para distingui-lo de פַּת, da Mishná, traduzido “pão”. תִּקָּנֶה לִי שְׁבִיתָה foi traduzido à letra, “seja-me adquirida a shevitá”. O hebraico tem (לַשָׂדֶה) [לַתְּחוּם]; segundo Guggenheimer, a palavra entre parênteses, “para o campo”, é a do copista, e a entre colchetes, “para o techum”, é a do corretor; a tradução segue a leitura entre colchetes. יֵצֵא לוֹ חוּץ, seguido de [לַתְּחוּם], foi traduzido “saia para fora, para o techum”, e não “para fora do techum”, porque depois ele volta à sua cidade ao escurecer. עַד שֶׁחֲשֵׁיכָה, no passado, foi traduzido “até que escureça”. Na história, o lugar em que os pobres entravam e comiam não está escrito e foi completado com Rumá, de onde vinham os figos.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz וּלְמָחָר הָיוּ נִכְנָסִין como “the next day they were going there”, e aqui ficou “entravam”; traduz עַל פִּי חֲכָמִים como “on the advice of the Sages”, e aqui ficou “segundo os chachamim”; e traduz מֵרוּמָה como “in Ruma”, e aqui ficou “de Rumá”. Na nota à guemará, Guggenheimer chama esta Mishná de “Mishnah 10”. Referências corrigidas: Guggenheimer remete ao Bavli 52a para a permissão de mandar o eruv por um membro da casa, mas essa permissão está na baraita do Bavli, Eruvin 51b; e a Tosefta que ele cita como 3:17 é a da edição de Lieberman, que na numeração padrão do Sefaria é Tosefta Eruvin 3:14 e 3:15.

Nomes nesta página: Rabi Meir; Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה, na Mishná; Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָא e רִבִּי יוּדָה, na guemará; Rabi Shimon; as famílias de Beit Mamá, בֵּית מַמָּה, e de Beit Guryon, בֵּית גּוֹרְיוֹן, que o Bavli chama Beit Memel e Beit Guryon; os lugares Rumá, רוּמָה, que o Bavli chama Aromá, e Shichin, שִׁיחִין. Na nota: Rav Nachman, Rav Chisda, Rav, Rabá bar Rav Chanan e Abaye.

Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá; o texto do Sefaria não tem, nesta halachá, marcador de folha de Vilna nem de Veneza, nem marcador numérico, e nada foi acrescentado. As marcas פיס׳ e כול׳ foram mantidas, e os parênteses e colchetes da seção 02 ficaram no hebraico. Foram mantidas também as grafias do Sefaria, como שֵׁלֹּא, com tsere, na Mishná, רִבִּי יוּדָא, com álef, na seção 01, e תֶּחְשָׁךְ ao lado de שֶׁחֲשֵׁיכָה na seção 02.