O daf começa com o fim do caso de Rabba bar Rav Chanan, que dizia na véspera do Shabat “seja a minha shevitá em Tzinta”: Abaye lhe pergunta se se apoia em Rabi Yehuda segundo Rav Chisda, e lembra Rav Nachman e a baraita conforme ele; Rabba bar Rav Chanan se retrata. Rami bar Chama pergunta se quem deposita o seu eruv tem quatro amot, como quem repousou com os pés; Rava traz uma prova da mishná, que a guemará rejeita. Começa então a mishná de quem saiu para ir a uma cidade para a qual se faz eruv e o seu companheiro o fez voltar: segundo Rabi Yehuda, ele pode ir e os outros moradores não; segundo Rabi Meir, quem podia fazer eruv e não fez é “chamar gamal”. A guemará explica, com Rav Huna e uma baraita, que se trata de quem tem duas casas e tomou o caminho; Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, vai além, mesmo se o companheiro lhe disse “pernoita aqui”. Rabba e Rav Yossef divergem sobre o que é necessário para todos, dizer ou tomar o caminho, e a guemará explica a palavra de Ulla, “muchzar e muchzak”, conforme Rav Yossef e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda. O daf termina no meio do caso de Rav Yehuda bar Ishtata, que trouxe um cesto de frutas a Rav Natan bar Oshaya.
Ele dizia na véspera do Shabat: “Seja a minha shevitá (lugar de repouso de Shabat) em Tzinta”. Disse-lhe Abaye: Qual é o teu raciocínio? Pensas que, na disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda, a halachá (a lei estabelecida) é como Rabi Yehuda, e disse Rav Chisda: A disputa é no caso de quem disse: “Em tal lugar”?
“Qual é o teu raciocínio?” — isto é, pois és rico (estás na tua casa) e disseste: “A minha shevitá é em tal lugar”.
O relato continua Eruvin 51b (bloco 1811): Rabba bar Rav Chanan costumava vir de Artivna a Pumbedita no Shabat e, segundo o Rashi (ali), dizia na véspera, em casa, “a minha shevitá é em Tzinta”, um lugar determinado entre os dois limites. Abaye supõe que ele se apoia em duas premissas: a halachá é como Rabi Yehuda (Rav, em Eruvin 51b, bloco 1810), e, segundo Rav Chisda (Eruvin 51b, bloco 1801), Rabi Yehuda permite “em tal lugar” também ao rico. O Rashi explica a pergunta: Rabba bar Rav Chanan, estando em casa, é “rico”, e declarou a shevitá à distância. “Tzinta” translitera “צִינְתָא”, que o Rashi trata como nome de lugar; a tradução de referência diz o mesmo.
Mas eis que Rav Nachman explicou a disputa de outro modo, e foi ensinado numa baraita conforme ele! Disse-lhe: Retrato-me.
“Mas eis que disse Rav Nachman” — que Rabi Yehuda não permite ao rico senão dizendo “no meu lugar”; e foi ensinado numa baraita conforme Rav Nachman, acima.
Segundo Rav Nachman (Eruvin 51a–51b, blocos 1797–1799), a disputa é em “no meu lugar”, e em “em tal lugar” também Rabi Yehuda só o permite ao pobre; a baraita conforme Rav Nachman está em Eruvin 51b (blocos 1803–1804), e a prova de Rav Ashi pela mishná, em Eruvin 51b (blocos 1806–1809). Logo, o rico que está em casa não pode dizer “a minha shevitá é em Tzinta”. O texto não nomeia quem responde “retrato-me”; pelo contexto, é Rabba bar Rav Chanan, como entende a tradução de referência. O lema do Rashi diz “והא אמר רב נחמן”, onde a guemará diz “וְהָא רַב נַחְמָן”, sem “disse”.
Disse Rami bar Chama: Eis que disseram: quem repousou (adquiriu a shevitá com os seus pés) tem quatro amot. Quem deposita o seu eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat), tem quatro amot no lugar do eruv, ou não?
“Repousou” — isto é, que adquire a shevitá com os seus pés: tem quatro amot como aquisição de casa (morada), além das duas mil amot para cada lado.
Quem adquire a shevitá com os pés, estando no lugar, tem ali quatro amot como sua “casa”, e as duas mil amot do limite contam-se a partir delas. Rami bar Chama pergunta se o mesmo vale para quem adquire a shevitá depositando pão (o eruv). O Rashi explica “repousou” como quem adquire a shevitá com os pés, e diz que as quatro amot são “como aquisição de casa”, além das duas mil para cada lado.
Disse Rava: Vem e ouve: “Não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico, para que não precise sair e fazer eruv com os seus pés”. E, se disseres que quem faz eruv com pão não tem quatro amot, isto é para facilitar?! É para agravar!
“É para agravar” — pois perde as quatro amot.
Rava cita o fim da Mishná Eruvin 4:9 (conferida; em Eruvin 49b, bloco 1743), e mantemos a tradução de lá: se o eruv de pão é uma facilidade para o rico, não pode ser que quem o faz perca as quatro amot de quem adquire a shevitá com os pés.
Mesmo assim, o eruv de pão lhe é conveniente, para que não se incomode e não saia.
A guemará rejeita a prova: mesmo perdendo as quatro amot, o rico prefere o eruv de pão, enviado por outro, a ter de sair ele mesmo; por isso ainda é chamado “facilidade”. A pergunta de Rami bar Chama fica sem resolução aqui. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
MISHNÁ. Quem saiu na véspera do Shabat para ir a uma cidade para a qual se faz eruv (a menos de quatro mil amot da sua), e o seu companheiro o fez voltar para casa, ele está permitido a ir (no Shabat), e todos os outros moradores da cidade estão proibidos — palavras de Rabi Yehuda.
MISHNÁ. “Quem saiu” — da sua cidade, para ir a outra cidade para a qual se faz eruv, que é próxima à sua cidade, dentro de quatro mil amot.
“Ele está permitido a ir” — e isto, embora não tenha dito nada, como expliquei acima; pois, já que tem lá uma casa, certamente não desarraigou a sua intenção de ir, e teve a intenção de adquirir shevitá no fim do techum (limite de Shabat); e é como o pobre que diz “A minha shevitá é em tal lugar”, e adquiriu, pois ele é pobre, já que tomou o caminho. E, para Rabi Meir, certamente é pobre, e, se tivesse dito algo, teria adquirido; mas agora, que podia fazer eruv e dizer “A minha shevitá é em tal lugar” e não o disse, temos dúvida se a sua intenção era adquirir shevitá no fim do techum ou na sua casa; e eis que este é chamar gamal (condutor de jumento e condutor de camelo, puxado para os dois lados), que não tem senão as duas mil amot que estão entre a sua casa e o fim do techum. Mas as duas mil que estão além da sua casa, para o outro lado, perdeu, pois talvez tenha adquirido a shevitá no fim do techum; e, a partir do fim do techum, também não adquiriu duas mil amot para o lado da outra cidade, pois talvez não tenha adquirido shevitá ali, mas só na sua casa.
Encerrada a guemará sobre a mishná de quem vinha pelo caminho e anoiteceu e do pobre que faz eruv com os pés (Mishná Eruvin 4:7–4:9, em Eruvin 49b–52a), inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Dalet (Mi SheHotziuhu), que corresponde à Mishná Eruvin 4:10 na numeração das edições avulsas da Mishná (conferido); ela continua no bloco 1818. Rav Ashi já a citou em Eruvin 51b (bloco 1806), com a redação “לְעִיר שֶׁמְּעָרְבִין לָהּ”; aqui se lê “בְּעִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ”, como na edição avulsa, com o mesmo sentido, e mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, a outra cidade está a menos de quatro mil amot da sua, de modo que se pode ir de uma à outra por meio de eruv; e ele está permitido mesmo sem ter dito nada, pois, como tem casa lá (Rav Huna, bloco 1819), não desistiu de ir, e é “pobre” por ter tomado o caminho. Para Rabi Meir, segundo o Rashi, não se sabe se quis a shevitá no fim do limite ou em casa, e por isso fica restrito às duas mil amot entre a sua casa e o fim do limite. Na edição avulsa lê-se “חֲבֵרוֹ”, “מֻתָּר” e “וְכָל”, onde o Talmud diz “חֲבֵירוֹ”, “מוּתָּר” e “וְכׇל”; são diferenças de grafia.
Rabi Meir diz: Todo aquele que pode fazer eruv e não fez eruv (nem disse nada), eis que este é chamar gamal (restrito pelos dois lugares).
Continuação da Mishná Eruvin 4:10 (conferida). Na edição avulsa lê-se “עֵרֵב”, onde o Talmud diz “עֵירַב”. A expressão “chamar gamal” já apareceu neste tratado (Eruvin 35a e Eruvin 51b, bloco 1808): quem conduz um jumento anda atrás dele, e quem conduz um camelo anda à frente, e quem conduz os dois fica preso entre ambos; assim, segundo o Rashi (bloco 1817), este fica restrito às duas mil amot comuns à sua casa e ao fim do limite. Segundo o Rashi em Eruvin 51b (bloco 1808), a mishná trata de quem não disse nada, e por isso Rabi Meir tem dúvida sobre onde ele quis adquirir a shevitá. A tradução de referência entende que ele não disse sequer que queria adquirir a shevitá em outro lugar; o sentido é próximo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
GUEMARÁ. Em que difere ele, e em que diferem eles? Disse Rav Huna: Aqui, de que tratamos? De um caso em que tem duas casas (uma em cada cidade), e entre elas há dois techumim (quatro mil amot) de Shabat.
A pergunta e a resposta de Rav Huna já foram citadas por Rav Ashi em Eruvin 51b (bloco 1807), e mantemos a mesma redação; lá se lê “וּשְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת בֵּינֵיהֶן”, e aqui “וּבֵינֵיהֶן שְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת”, com o mesmo sentido. A explicação do Rashi sobre as duas casas está em Eruvin 51b (bloco 1807): ele não saiu para adquirir shevitá no fim do limite e voltar, mas para ir de fato à sua outra casa. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Quanto a ele, já que saiu para o caminho, tornou-se pobre (como quem está no caminho sem pão); e estes são ricos (pois estão nas suas casas).
Repete, quase palavra por palavra, Eruvin 51b (blocos 1808–1809), e mantemos a tradução de lá; ali se lê “דְּנָפְקָא”, “הֲוָה” e “וְהָנָךְ”, e aqui “דִּנְפַק”, “הָוֵה” e “וְהָנֵי”, com o mesmo sentido. Seguimos o Rashi (Eruvin 51b, bloco 1808): o “pobre” é quem está no caminho, e quem saiu para ir de fato à sua outra casa tem esse estatuto, mesmo sem ter dito nada. A tradução de referência explica que ele pode adquirir a shevitá declarando-a; o Rashi entende que a mishná trata de quem não disse nada. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Foi ensinado também assim numa baraita: Quem tem duas casas, e entre elas há dois techumim de Shabat, já que tomou o caminho, adquiriu o eruv (a shevitá no fim do techum) — palavras de Rabi Yehuda.
“Foi ensinado também assim” — isto é, que tratamos do caso em que tem duas casas e entre elas há dois techumim de Shabat.
“Já que tomou o caminho, adquiriu o eruv” — mesmo se não disse “A minha shevitá é no fim do techum” e depois voltou.
A baraita confirma a explicação de Rav Huna. Na Tosefta Eruvin 3:10 (Lieberman; conferido) há um paralelo com outra redação: “מי שיצא לילך בעיר שמערבין בה והחזירו חבירו, ובין זו לזו כארבעת אלפים אמה חסר אחת, הואיל והחזיק בדרך מותר לילך דברי ר' יהודה”, isto é, entre uma cidade e a outra há quatro mil amot menos uma, e, já que tomou o caminho, pode ir. Segundo o Rashi, ele adquiriu mesmo sem ter dito “a minha shevitá é no fim do limite”. “Tomou o caminho” traduz “הֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ”, literalmente “firmou-se no caminho”, como em Eruvin 51b (blocos 1806 e 1808).
Mais do que isso disse Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda: Mesmo se o seu companheiro o encontrou antes de sair e lhe disse: “Pernoita aqui: é tempo de calor, é tempo de frio”, e ele ficou, no dia seguinte (no Shabat) madruga e vai à outra cidade.
“Mais do que isso” — isto é, mesmo se não tomou o caminho, mas disse que ia sair, e o seu companheiro o fez voltar e lhe disse: “Pernoita aqui”.
As palavras “é tempo de calor, é tempo de frio” já foram citadas pelo Rashi em Eruvin 51b (bloco 1806), e mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, “mais do que isso” significa que, para Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, nem é preciso ter tomado o caminho: basta ter dito que ia sair. Na Tosefta Eruvin 3:10 (Lieberman; conferido), o “mais do que isso” é atribuído ao próprio Rabi Yehuda: “יתר על כן אמ' ר' יהודה אפי' החזירו חבירו מן הדרך ללון בעיר, משכים והולך לתוך ביתו. החזירו מן העיר הרי הוא כאנשי העיר”, isto é, se o companheiro o fez voltar do caminho, vai de manhã; se o fez voltar de dentro da cidade, é como os moradores da cidade.
Disse Rabba: Quanto a dizer (que o companheiro lhe diga “Pernoita aqui”), todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto a tomar o caminho.
“Quanto a dizer, todos concordam que é necessário” — que o seu companheiro lhe diga “Pernoita aqui”, como ensina a nossa mishná nas palavras de Rabi Yehuda: “e o seu companheiro o fez voltar”; pois agora certamente foi por causa do frio e do calor que desistiu, e a sua intenção é adquirir shevitá no fim do techum, embora não o tenha dito. Mas, se voltou por si mesmo, pode-se dizer que mudou de ideia e não adquiriu shevitá lá, pois nem sequer há revelação de intenção, e eis que ele é como os moradores da sua cidade.
“Quando divergem, é quanto a tomar o caminho” — e é isto o “mais do que isso”: Rabi Yossi diz que vale mesmo se não tomou o caminho, mas o seu companheiro lhe disse “Pernoita aqui”, pois ouviu dele que queria sair, e lhe disse: “Pernoita aqui na tua casa esta noite”, por causa do frio.
Seguimos a primeira explicação do Rashi: o “dizer” é o companheiro dizer “pernoita aqui”, como na mishná (“e o seu companheiro o fez voltar”); só então se sabe que ele voltou por causa do tempo e não por ter desistido. Segundo Rabba, isso é necessário para todos, e a disputa é se é preciso também ter tomado o caminho: Rabi Yehuda exige, e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, não. O Rashi traz também “outra versão”, que diz não ter ouvido dos seus mestres (bloco 1824): o “dizer” é ele mesmo declarar “a minha shevitá é lá”. Esta é a leitura da tradução de referência, que segue a outra versão; preferimos a primeira explicação do Rashi.
E Rav Yossef disse: Quanto a tomar o caminho, todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto ao dizer (do companheiro: “Pernoita aqui”).
“E Rav Yossef disse: Quanto a tomar o caminho, todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto a dizer” — o dizer “Pernoita aqui”. Pois, para Rabi Yehuda, se tomou o caminho, embora o seu companheiro não lhe tenha dito “Pernoita aqui”, mas voltou por si mesmo, é como quem disse “A minha shevitá é em tal lugar”, e adquiriu; e o “e o seu companheiro o fez voltar” que a nossa mishná ensina para Rabi Yehuda não é preciso, pois o mesmo vale para quem voltou por si mesmo, mas a mishná tomou o modo habitual das coisas. Mas Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, requer ambos os requisitos: tomar o caminho e dizer. E assim diz a baraita: o seu companheiro o encontrou quando começou a sair, e o seu companheiro lhe disse: “Pernoita aqui comigo esta noite”; e Rav Yossef sustenta que Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, vem para agravar, e não ensinamos na baraita “mais do que isso” e “mesmo”, mas assim ensinamos: “Rabi Yossi diz: O seu companheiro o encontrou etc.”. Assim ouvi dos meus mestres; e há muitas hesitações nisto, pois lhe é difícil: para Rabi Yossi, que é o “mais do que isso” e que é o “mesmo”? E há quem responda que Rabi Yossi não requer tomar o caminho tanto quanto Rabi Yehuda; mas eu digo que estas respostas são desesperadas, pois já um passo fora da sua casa é tomar o caminho, e menos que isso não há tomar o caminho. E mais: Rav Yossef disse que quanto a tomar o caminho não divergem, mas só quanto a dizer; e, se assim é, divergem também quanto a tomar o caminho! Outra versão, e não a ouvi dos meus mestres: Disse Rabba: Quanto a dizer “A minha shevitá é dentro do techum”, todos concordam que é necessário que este que volta diga assim; e, quando Rabi Yossi diverge e vem facilitar, é quanto a tomar o caminho que diverge; pois ouviu Rabi Yehuda, que disse “tomou o caminho”, e ele (Rabi Yossi) vem dizer: mesmo se o seu companheiro o encontrou quando queria tomar o caminho e não o deixou, adquiriu o eruv, contanto que diga “A minha shevitá é lá”; pois, já que queria sair, consideramo-lo como quem de fato saiu, e é pobre. E Rav Yossef disse: quanto a tomar o caminho não divergem, pois certamente requeremos tomar o caminho, já que, se não tomou o caminho, não é pobre; quando divergem, é quanto a dizer: pois Rabi Yehuda requer que diga “A minha shevitá é lá”, e isto se refere ao início da nossa mishná, que explicou nele “e disse: A minha shevitá é no seu tronco”, e não foi necessário repeti-lo e ensiná-lo no fim da mishná; e Rabi Yossi vem dizer: mesmo se não disse nada, adquiriu, já que tomou o caminho, pois a revelação de intenção é já uma aquisição. E, se disseres: já que, para Rabi Yehuda, fala de quem diz “A minha shevitá é em tal lugar”, por que Rabi Meir diverge dele e o faz chamar gamal? Responde-se que Rabi Meir não admite tomar o caminho de um modo como este, mas só quem vem pelo caminho de fato; e a este o considera como rico. E Rabi Meir sustenta: todo aquele que é rico e podia fazer eruv com pão, e não fez eruv com pão, mas por declaração, perdeu pela sua declaração as duas mil amot que tinha para o outro lado da sua casa, pois se retirou desse lado ao declarar a shevitá no outro; e no lugar da sua shevitá não ganhou nada, pois não é eruv; e não tem senão estas duas mil. E parece que as palavras são assim: que Rabi Meir diverge sobre todo aquele que é rico e diz “A minha shevitá é em tal lugar”, já que ensina “todo aquele que pode fazer eruv etc.”. Pois, se te ocorresse pensar que Rabi Meir faz este pobre, e que a razão é porque temos dúvida onde lhe é conveniente, já que não disse nada: se assim é, que significa “todo”? Esta dúvida não a encontras senão neste caso somente da mishná, de quem saiu e voltou; a mishná deveria dizer: “E eis que este é chamar gamal”!
Segundo a primeira explicação do Rashi, para Rav Yossef todos exigem que ele tenha tomado o caminho; Rabi Yehuda não exige que o companheiro lhe diga “pernoita aqui” (a mishná só fala do companheiro porque é o caso habitual), e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, exige as duas coisas, sendo mais rigoroso. O Rashi reconhece a dificuldade: a baraita diz “mais do que isso” e “mesmo”, que indicam leniência; por isso, segundo Rav Yossef, seria preciso ler a baraita sem essas palavras. O trecho de “E assim diz a baraita” até “O seu companheiro o encontrou etc.” está entre parênteses no Sefaria; traduzimo-lo sem eles. Na “outra versão”, o “dizer” é ele mesmo declarar “a minha shevitá é lá”: para Rabba, todos o exigem, e Rabi Yossi dispensa tomar o caminho; para Rav Yossef, todos exigem tomar o caminho, e Rabi Yossi dispensa a declaração, pois a intenção revelada basta. Nesta versão, o Rashi explica Rabi Meir: quem é rico e só declarou perde as duas mil amot do outro lado da sua casa sem ganhar as do lugar declarado, e por isso a mishná diz “todo aquele que pode fazer eruv”, e não só “este”. O Rashi diz “לישנא אחרינא” abreviado como “ל״א”. A expressão “נואש הן” traduzimos como “são desesperadas”, isto é, respostas sem saída.
Conforme quem vai isto que disse Ulla: Quem tomou o caminho na véspera do Shabat e o seu companheiro o fez voltar, eis que ele é muchzar (feito voltar) e muchzak (tido como quem tomou o caminho)?
“Muchzar” — dá a entender que não adquiriu shevitá de modo algum.
“Muchzak” — dá a entender que adquiriu shevitá.
A palavra de Ulla joga com duas formas da mesma raiz: “מוּחְזָר”, de “הֶחְזִירוֹ”, “o fez voltar”, e “מוּחְזָק”, de “הֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ”, “tomou o caminho”. Transliteramos os dois termos para conservar o jogo. Segundo o Rashi, “muchzar” indica que ele não adquiriu shevitá, e “muchzak” que adquiriu; daí a pergunta do bloco seguinte.
Se é muchzar, por que é chamado muchzak? E, se é muchzak, por que é chamado muchzar?
A guemará analisa a própria palavra de Ulla, que parece contraditória. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.
Assim diz Ulla: Embora seja muchzar, é muchzak. Conforme quem disse isso? Conforme Rav Yossef, e segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda.
“Conforme quem” — segundo a primeira versão, que expliquei, que Rav Yossef, segundo Rabi Yossi, requer duas coisas, o dizer “Pernoita aqui” e o tomar o caminho, assim pergunta a guemará: Conforme quem vai isto de Ulla, que requer duas coisas: “que tomou o caminho”, isto é o tomar o caminho; “e o seu companheiro o fez voltar”, isto é o “Pernoita aqui”.
“Conforme Rav Yossef, segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda” — que requer duas coisas; e o mesmo vale para Rabba segundo Rabi Yehuda, mas a guemará tomou só uma delas. E, segundo a última versão, assim é a explicação: Conforme quem vai isto de Ulla, que não requer dizer “A minha shevitá é em tal lugar”, pois diz “embora seja muchzar”, que dá a entender que voltou totalmente? Conforme Rav Yossef e segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, que disse que não requeremos dizer. Glosa: E, segundo esta versão, não se pode dizer que é conforme Rabba e segundo Rabi Yehuda, pois tanto Rabba quanto Rav Yossef sustentam que Rabi Yehuda requer as duas coisas. Até aqui a glosa.
Segundo a primeira explicação do Rashi, Ulla exige as duas coisas, tomar o caminho e o “pernoita aqui” do companheiro, como Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, na explicação de Rav Yossef; e o mesmo resultado vale para Rabi Yehuda na explicação de Rabba, mas a guemará menciona só uma das possibilidades. Segundo a outra versão, Ulla dispensa a declaração “a minha shevitá é em tal lugar”, como Rabi Yossi na explicação de Rav Yossef. A glosa final (“הג״ה ... עד כאן”) está entre parênteses no Sefaria; traduzimo-la sem eles. No primeiro comentário, o Sefaria traz “לי פה”, que lemos como “לין פה”, “pernoita aqui”. A tradução de referência segue a outra versão do Rashi.
Rav Yehuda bar Ishtata trouxe um cesto de frutas a Rav Natan bar Oshaya na véspera do Shabat. Quando ia embora, deixou-o até que descesse um degrau, e disse-lhe: Pernoita aqui. No dia seguinte madrugou e foi,
“Ishtata” — é nome de pessoa.
“Quando ia” — para a sua casa; e estava a distância dentro de quatro mil amot.
“Desceu um degrau” — um degrau da rampa pela qual descia do andar de cima; de modo que tomou o caminho.
“Bit hacha” — isto é, pernoita aqui.
Segundo o Rashi, Rav Yehuda bar Ishtata ia para a sua casa, a menos de quatro mil amot, e Rav Natan bar Oshaya esperou que ele descesse um degrau, para que tivesse tomado o caminho, e só então lhe disse “pernoita aqui”; assim, no dia seguinte, ele pôde ir para casa. O texto não nomeia o sujeito de “deixou-o” e “disse-lhe”; pelo contexto, é Rav Natan bar Oshaya. O lema do Rashi diz “נחת דרגא”, onde a guemará diz “דִּנְחֵית דַּרְגָּא”. “Bit hacha” é aramaico. O relato continua em Eruvin 52b.