Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 52a
מוּחְזָר וּמוּחְזָק

Rabba bar Rav Chanan e Tzinta; as quatro amot de quem deposita o eruv; a mishná de quem saiu e foi feito voltar; dizer e tomar o caminho; muchzar e muchzak

Eruvin 52a — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · Rabba bar Rav Chanan: “seja a minha shevitá em Tzinta”; Abaye: e Rav Nachman?; “retrato-me” · Rami bar Chama: quem deposita o seu eruv tem quatro amot?; Rava: “isto é para facilitar?” · nova mishná (Mishná Eruvin 4:10): quem saiu para ir a outra cidade e o seu companheiro o fez voltar; Rabi Meir: chamar gamal · Rav Huna: quem tem duas casas; a baraita: já que tomou o caminho, adquiriu o eruv · Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda: “pernoita aqui” · Rabba e Rav Yossef: dizer e tomar o caminho · Ulla: muchzar e muchzak · Rav Yehuda bar Ishtata e o cesto de frutas · continua de Eruvin 51b; a guemará continua em Eruvin 52b

O daf começa com o fim do caso de Rabba bar Rav Chanan, que dizia na véspera do Shabat “seja a minha shevitá em Tzinta”: Abaye lhe pergunta se se apoia em Rabi Yehuda segundo Rav Chisda, e lembra Rav Nachman e a baraita conforme ele; Rabba bar Rav Chanan se retrata. Rami bar Chama pergunta se quem deposita o seu eruv tem quatro amot, como quem repousou com os pés; Rava traz uma prova da mishná, que a guemará rejeita. Começa então a mishná de quem saiu para ir a uma cidade para a qual se faz eruv e o seu companheiro o fez voltar: segundo Rabi Yehuda, ele pode ir e os outros moradores não; segundo Rabi Meir, quem podia fazer eruv e não fez é “chamar gamal”. A guemará explica, com Rav Huna e uma baraita, que se trata de quem tem duas casas e tomou o caminho; Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, vai além, mesmo se o companheiro lhe disse “pernoita aqui”. Rabba e Rav Yossef divergem sobre o que é necessário para todos, dizer ou tomar o caminho, e a guemará explica a palavra de Ulla, “muchzar e muchzak”, conforme Rav Yossef e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda. O daf termina no meio do caso de Rav Yehuda bar Ishtata, que trouxe um cesto de frutas a Rav Natan bar Oshaya.

Rabba bar Rav Chanan e Tzinta · תְּהֵא שְׁבִיתָתִי בְּצִינְתָא

1812“Seja a minha shevitá em Tzinta”
A guemará
אָמַר: ״תְּהֵא שְׁבִיתָתִי בְּצִינְתָא״. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: מַאי דַּעְתָּיךְ, רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה — הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה, וְאָמַר רַב חִסְדָּא: מַחֲלוֹקֶת בְּ״מָקוֹם פְּלוֹנִי״,

Ele dizia na véspera do Shabat: “Seja a minha shevitá (lugar de repouso de Shabat) em Tzinta”. Disse-lhe Abaye: Qual é o teu raciocínio? Pensas que, na disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda, a halachá (a lei estabelecida) é como Rabi Yehuda, e disse Rav Chisda: A disputa é no caso de quem disse: “Em tal lugar”?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mai da’atach”
מאי דעתיך - דעשיר את ואמרת שביתתי במקום פלוני:

“Qual é o teu raciocínio?” — isto é, pois és rico (estás na tua casa) e disseste: “A minha shevitá é em tal lugar”.

Nota

O relato continua Eruvin 51b (bloco 1811): Rabba bar Rav Chanan costumava vir de Artivna a Pumbedita no Shabat e, segundo o Rashi (ali), dizia na véspera, em casa, “a minha shevitá é em Tzinta”, um lugar determinado entre os dois limites. Abaye supõe que ele se apoia em duas premissas: a halachá é como Rabi Yehuda (Rav, em Eruvin 51b, bloco 1810), e, segundo Rav Chisda (Eruvin 51b, bloco 1801), Rabi Yehuda permite “em tal lugar” também ao rico. O Rashi explica a pergunta: Rabba bar Rav Chanan, estando em casa, é “rico”, e declarou a shevitá à distância. “Tzinta” translitera “צִינְתָא”, que o Rashi trata como nome de lugar; a tradução de referência diz o mesmo.

1813Mas eis Rav Nachman! — Retrato-me
A guemará
וְהָא רַב נַחְמָן, וְתַנְיָא כְּווֹתֵיהּ! אֲמַר לֵיהּ: הֲדַרִי בִּי.

Mas eis que Rav Nachman explicou a disputa de outro modo, e foi ensinado numa baraita conforme ele! Disse-lhe: Retrato-me.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veha amar Rav Nachman”
והא אמר רב נחמן - דלא שרי ר' יהודה אלא במקומי ותניא כוותיה דרב נחמן לעיל:

“Mas eis que disse Rav Nachman” — que Rabi Yehuda não permite ao rico senão dizendo “no meu lugar”; e foi ensinado numa baraita conforme Rav Nachman, acima.

Nota

Segundo Rav Nachman (Eruvin 51a–51b, blocos 1797–1799), a disputa é em “no meu lugar”, e em “em tal lugar” também Rabi Yehuda só o permite ao pobre; a baraita conforme Rav Nachman está em Eruvin 51b (blocos 1803–1804), e a prova de Rav Ashi pela mishná, em Eruvin 51b (blocos 1806–1809). Logo, o rico que está em casa não pode dizer “a minha shevitá é em Tzinta”. O texto não nomeia quem responde “retrato-me”; pelo contexto, é Rabba bar Rav Chanan, como entende a tradução de referência. O lema do Rashi diz “והא אמר רב נחמן”, onde a guemará diz “וְהָא רַב נַחְמָן”, sem “disse”.

Rami bar Chama: quem deposita o seu eruv tem quatro amot? · הַנּוֹתֵן אֶת עֵירוּבוֹ

1814Rami bar Chama: quatro amot para quem deposita o eruv?
A guemará
אָמַר רָמֵי בַּר חָמָא: הֲרֵי אָמְרוּ שָׁבַת יֵשׁ לוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת. הַנּוֹתֵן אֶת עֵירוּבוֹ, יֵשׁ לוֹ אַרְבַּע אַמּוֹת, אוֹ לָא?

Disse Rami bar Chama: Eis que disseram: quem repousou (adquiriu a shevitá com os seus pés) tem quatro amot. Quem deposita o seu eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat), tem quatro amot no lugar do eruv, ou não?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shavat”
שבת - שקונה שביתה ברגליו יש לו ד' אמות לקניית בית לבד מאלפים לכל רוח:

“Repousou” — isto é, que adquire a shevitá com os seus pés: tem quatro amot como aquisição de casa (morada), além das duas mil amot para cada lado.

Nota

Quem adquire a shevitá com os pés, estando no lugar, tem ali quatro amot como sua “casa”, e as duas mil amot do limite contam-se a partir delas. Rami bar Chama pergunta se o mesmo vale para quem adquire a shevitá depositando pão (o eruv). O Rashi explica “repousou” como quem adquire a shevitá com os pés, e diz que as quatro amot são “como aquisição de casa”, além das duas mil para cada lado.

1815Rava: isto é para facilitar?
A guemará
אָמַר רָבָא, תָּא שְׁמַע: לֹא אָמְרוּ מְעָרְבִין בְּפַת אֶלָּא לְהָקֵל עַל הֶעָשִׁיר, שֶׁלֹּא יֵצֵא וִיעָרֵב בְּרַגְלָיו. וְאִי אָמְרַתְּ אֵין לוֹ — הַאי לְהָקֵל?! לְהַחֲמִיר הוּא!

Disse Rava: Vem e ouve: “Não disseram que se faz eruv com pão senão para facilitar ao rico, para que não precise sair e fazer eruv com os seus pés”. E, se disseres que quem faz eruv com pão não tem quatro amot, isto é para facilitar?! É para agravar!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lehachmir hu”
להחמיר הוא - דמפסיד ארבע אמות:

“É para agravar” — pois perde as quatro amot.

Nota

Rava cita o fim da Mishná Eruvin 4:9 (conferida; em Eruvin 49b, bloco 1743), e mantemos a tradução de lá: se o eruv de pão é uma facilidade para o rico, não pode ser que quem o faz perca as quatro amot de quem adquire a shevitá com os pés.

1816Mesmo assim, lhe é conveniente
A guemará
אֲפִילּוּ הָכִי נִיחָא לֵיהּ, כִּי הֵיכִי דְּלָא נִטְרַח וְנִיפּוֹק.

Mesmo assim, o eruv de pão lhe é conveniente, para que não se incomode e não saia.

Nota

A guemará rejeita a prova: mesmo perdendo as quatro amot, o rico prefere o eruv de pão, enviado por outro, a ter de sair ele mesmo; por isso ainda é chamado “facilidade”. A pergunta de Rami bar Chama fica sem resolução aqui. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

A Mishná: quem saiu e o companheiro o fez voltar · מַתְנִיתִין

1817Quem saiu para ir a outra cidade
Mishná
מַתְנִי׳ מִי שֶׁיָּצָא לֵילֵךְ בְּעִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ, וְהֶחְזִירוֹ חֲבֵירוֹ — הוּא מוּתָּר לֵילֵךְ, וְכׇל בְּנֵי הָעִיר אֲסוּרִין, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה.

MISHNÁ. Quem saiu na véspera do Shabat para ir a uma cidade para a qual se faz eruv (a menos de quatro mil amot da sua), e o seu companheiro o fez voltar para casa, ele está permitido a ir (no Shabat), e todos os outros moradores da cidade estão proibidos — palavras de Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “matnitin: mi sheyatza”
מתני' מי שיצא - מעירו לילך בעיר אחרת שמערבין בה שסמוכה לעירו בתוך ד' אלפים:

MISHNÁ. “Quem saiu” — da sua cidade, para ir a outra cidade para a qual se faz eruv, que é próxima à sua cidade, dentro de quatro mil amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hu mutar lelech”
הוא מותר לילך - ואע"פ שלא אמר כלום כדפירשתי לעיל דכיון שיש לו לשם בית ודאי לא עקר דעתו מהליכתו ונתכוון לקנות שביתה בסוף התחום והוי כעני האומר שביתתי במקום פלוני וקנה דהא עני הוא דהחזיק בדרך ולרבי מאיר ודאי עני הוא ואי אמר הוי קני אבל השתא דיכול היה לערב ולומר שביתתי במקום פלוני ולא אמר מספקא לן אי הוה דעתו לקנות שביתה בסוף התחום או בביתו והרי זה חמר גמל שאין לו אלא אלפים שבין ביתו לסוף התחום אבל אלפים שמעבר ביתו לצד השני הפסיד דשמא בסוף התחום קנה ומסוף התחום נמי לא קנה אלפים לצד עיר האחרת שמא לא קנה שביתה כאן כי אם בביתו:

“Ele está permitido a ir” — e isto, embora não tenha dito nada, como expliquei acima; pois, já que tem lá uma casa, certamente não desarraigou a sua intenção de ir, e teve a intenção de adquirir shevitá no fim do techum (limite de Shabat); e é como o pobre que diz “A minha shevitá é em tal lugar”, e adquiriu, pois ele é pobre, já que tomou o caminho. E, para Rabi Meir, certamente é pobre, e, se tivesse dito algo, teria adquirido; mas agora, que podia fazer eruv e dizer “A minha shevitá é em tal lugar” e não o disse, temos dúvida se a sua intenção era adquirir shevitá no fim do techum ou na sua casa; e eis que este é chamar gamal (condutor de jumento e condutor de camelo, puxado para os dois lados), que não tem senão as duas mil amot que estão entre a sua casa e o fim do techum. Mas as duas mil que estão além da sua casa, para o outro lado, perdeu, pois talvez tenha adquirido a shevitá no fim do techum; e, a partir do fim do techum, também não adquiriu duas mil amot para o lado da outra cidade, pois talvez não tenha adquirido shevitá ali, mas só na sua casa.

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a mishná de quem vinha pelo caminho e anoiteceu e do pobre que faz eruv com os pés (Mishná Eruvin 4:7–4:9, em Eruvin 49b–52a), inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Dalet (Mi SheHotziuhu), que corresponde à Mishná Eruvin 4:10 na numeração das edições avulsas da Mishná (conferido); ela continua no bloco 1818. Rav Ashi já a citou em Eruvin 51b (bloco 1806), com a redação “לְעִיר שֶׁמְּעָרְבִין לָהּ”; aqui se lê “בְּעִיר שֶׁמְּעָרְבִין בָּהּ”, como na edição avulsa, com o mesmo sentido, e mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, a outra cidade está a menos de quatro mil amot da sua, de modo que se pode ir de uma à outra por meio de eruv; e ele está permitido mesmo sem ter dito nada, pois, como tem casa lá (Rav Huna, bloco 1819), não desistiu de ir, e é “pobre” por ter tomado o caminho. Para Rabi Meir, segundo o Rashi, não se sabe se quis a shevitá no fim do limite ou em casa, e por isso fica restrito às duas mil amot entre a sua casa e o fim do limite. Na edição avulsa lê-se “חֲבֵרוֹ”, “מֻתָּר” e “וְכָל”, onde o Talmud diz “חֲבֵירוֹ”, “מוּתָּר” e “וְכׇל”; são diferenças de grafia.

1818Rabi Meir: chamar gamal
Mishná
רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: כֹּל שֶׁהוּא יָכוֹל לְעָרֵב וְלֹא עֵירַב — הֲרֵי זֶה חַמָּר גַּמָּל.

Rabi Meir diz: Todo aquele que pode fazer eruv e não fez eruv (nem disse nada), eis que este é chamar gamal (restrito pelos dois lugares).

Nota

Continuação da Mishná Eruvin 4:10 (conferida). Na edição avulsa lê-se “עֵרֵב”, onde o Talmud diz “עֵירַב”. A expressão “chamar gamal” já apareceu neste tratado (Eruvin 35a e Eruvin 51b, bloco 1808): quem conduz um jumento anda atrás dele, e quem conduz um camelo anda à frente, e quem conduz os dois fica preso entre ambos; assim, segundo o Rashi (bloco 1817), este fica restrito às duas mil amot comuns à sua casa e ao fim do limite. Segundo o Rashi em Eruvin 51b (bloco 1808), a mishná trata de quem não disse nada, e por isso Rabi Meir tem dúvida sobre onde ele quis adquirir a shevitá. A tradução de referência entende que ele não disse sequer que queria adquirir a shevitá em outro lugar; o sentido é próximo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Guemará: em que difere ele? · מַאי שְׁנָא אִיהוּ

1819Rav Huna: quem tem duas casas
A guemará
גְּמָ׳ מַאי שְׁנָא אִיהוּ וּמַאי שְׁנָא אִינְהוּ? אָמַר רַב הוּנָא: הָכָא בְּמַאי עָסְקִינַן — כְּגוֹן שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים, וּבֵינֵיהֶן שְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת.

GUEMARÁ. Em que difere ele, e em que diferem eles? Disse Rav Huna: Aqui, de que tratamos? De um caso em que tem duas casas (uma em cada cidade), e entre elas há dois techumim (quatro mil amot) de Shabat.

Nota

A pergunta e a resposta de Rav Huna já foram citadas por Rav Ashi em Eruvin 51b (bloco 1807), e mantemos a mesma redação; lá se lê “וּשְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת בֵּינֵיהֶן”, e aqui “וּבֵינֵיהֶן שְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת”, com o mesmo sentido. A explicação do Rashi sobre as duas casas está em Eruvin 51b (bloco 1807): ele não saiu para adquirir shevitá no fim do limite e voltar, mas para ir de fato à sua outra casa. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1820Ele é pobre, e eles são ricos
A guemará
אִיהוּ, כֵּיוָן דִּנְפַק לֵיהּ לְאוֹרְחָא — הָוֵה לֵיהּ עָנִי. וְהָנֵי עֲשִׁירֵי נִינְהוּ.

Quanto a ele, já que saiu para o caminho, tornou-se pobre (como quem está no caminho sem pão); e estes são ricos (pois estão nas suas casas).

Nota

Repete, quase palavra por palavra, Eruvin 51b (blocos 1808–1809), e mantemos a tradução de lá; ali se lê “דְּנָפְקָא”, “הֲוָה” e “וְהָנָךְ”, e aqui “דִּנְפַק”, “הָוֵה” e “וְהָנֵי”, com o mesmo sentido. Seguimos o Rashi (Eruvin 51b, bloco 1808): o “pobre” é quem está no caminho, e quem saiu para ir de fato à sua outra casa tem esse estatuto, mesmo sem ter dito nada. A tradução de referência explica que ele pode adquirir a shevitá declarando-a; o Rashi entende que a mishná trata de quem não disse nada. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

A baraita: quem tem duas casas · מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים

1821Já que tomou o caminho, adquiriu o eruv
A guemará
תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים, וּבֵינֵיהֶן שְׁנֵי תְּחוּמֵי שַׁבָּת, כֵּיוָן שֶׁהֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ — קָנָה עֵירוּב, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה.

Foi ensinado também assim numa baraita: Quem tem duas casas, e entre elas há dois techumim de Shabat, já que tomou o caminho, adquiriu o eruv (a shevitá no fim do techum) — palavras de Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “tanya nami hachi”
גמ' תניא נמי הכי - דכשיש לו שני בתים וביניהן שני תחומי שבת עסקינן:

“Foi ensinado também assim” — isto é, que tratamos do caso em que tem duas casas e entre elas há dois techumim de Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keivan shehechezik baderech kana eruv”
כיון שהחזיק בדרך קנה עירוב - אף אם לא אמר שביתתי בסוף התחום וחזר:

“Já que tomou o caminho, adquiriu o eruv” — mesmo se não disse “A minha shevitá é no fim do techum” e depois voltou.

Nota

A baraita confirma a explicação de Rav Huna. Na Tosefta Eruvin 3:10 (Lieberman; conferido) há um paralelo com outra redação: “מי שיצא לילך בעיר שמערבין בה והחזירו חבירו, ובין זו לזו כארבעת אלפים אמה חסר אחת, הואיל והחזיק בדרך מותר לילך דברי ר' יהודה”, isto é, entre uma cidade e a outra há quatro mil amot menos uma, e, já que tomou o caminho, pode ir. Segundo o Rashi, ele adquiriu mesmo sem ter dito “a minha shevitá é no fim do limite”. “Tomou o caminho” traduz “הֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ”, literalmente “firmou-se no caminho”, como em Eruvin 51b (blocos 1806 e 1808).

1822Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda: mesmo se o companheiro o encontrou
A guemará
יָתֵר עַל כֵּן אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה: אֲפִילּוּ מְצָאוֹ חֲבֵירוֹ וְאָמַר לוֹ: ״לִין פֹּה, עֵת חַמָּה הוּא, עֵת צִינָּה הוּא״ — לְמָחָר מַשְׁכִּים וְהוֹלֵךְ.

Mais do que isso disse Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda: Mesmo se o seu companheiro o encontrou antes de sair e lhe disse: “Pernoita aqui: é tempo de calor, é tempo de frio”, e ele ficou, no dia seguinte (no Shabat) madruga e vai à outra cidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yoter al ken”
יתר על כן - אפילו לא החזיק בדרך אלא אמר לצאת והחזירו חברו ואמר לין פה:

“Mais do que isso” — isto é, mesmo se não tomou o caminho, mas disse que ia sair, e o seu companheiro o fez voltar e lhe disse: “Pernoita aqui”.

Nota

As palavras “é tempo de calor, é tempo de frio” já foram citadas pelo Rashi em Eruvin 51b (bloco 1806), e mantemos a tradução de lá. Segundo o Rashi, “mais do que isso” significa que, para Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, nem é preciso ter tomado o caminho: basta ter dito que ia sair. Na Tosefta Eruvin 3:10 (Lieberman; conferido), o “mais do que isso” é atribuído ao próprio Rabi Yehuda: “יתר על כן אמ' ר' יהודה אפי' החזירו חבירו מן הדרך ללון בעיר, משכים והולך לתוך ביתו. החזירו מן העיר הרי הוא כאנשי העיר”, isto é, se o companheiro o fez voltar do caminho, vai de manhã; se o fez voltar de dentro da cidade, é como os moradores da cidade.

Rabba e Rav Yossef: dizer e tomar o caminho · לוֹמַר וּלְהַחְזִיק

1823Rabba: quanto a dizer, todos concordam
A guemará
אָמַר רַבָּה: לוֹמַר — כּוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּצְרִיךְ, כִּי פְּלִיגִי — לְהַחְזִיק.

Disse Rabba: Quanto a dizer (que o companheiro lhe diga “Pernoita aqui”), todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto a tomar o caminho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lomar kulei alma lo pliguei detzarich”
לומר כ"ע לא פליגי דצריך - שיאמר לו חברו לין פה כדקתני מתניתין בדר' יהודה והחזירו חברו דהשתא ודאי משום צינה וחמה הוא דהדר ביה ודעתיה למקני שביתה בסוף התחום ואע"פ שלא אמר אבל אם חזר מעצמו איכא למימר נמלך ולא קנה שביתה לשם דאפילו גלוי דעתא ליכא והרי הוא כבני עירו:

“Quanto a dizer, todos concordam que é necessário” — que o seu companheiro lhe diga “Pernoita aqui”, como ensina a nossa mishná nas palavras de Rabi Yehuda: “e o seu companheiro o fez voltar”; pois agora certamente foi por causa do frio e do calor que desistiu, e a sua intenção é adquirir shevitá no fim do techum, embora não o tenha dito. Mas, se voltou por si mesmo, pode-se dizer que mudou de ideia e não adquiriu shevitá lá, pois nem sequer há revelação de intenção, e eis que ele é como os moradores da sua cidade.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki pliguei lehachzik”
כי פליגי להחזיק - והיינו יתר על כן אפילו לא החזיק בדרך אלא שאמר לו חברו לין פה ששמע ממנו שהיה רוצה לצאת ואמר לו לין פה בביתך הלילה משום צינה:

“Quando divergem, é quanto a tomar o caminho” — e é isto o “mais do que isso”: Rabi Yossi diz que vale mesmo se não tomou o caminho, mas o seu companheiro lhe disse “Pernoita aqui”, pois ouviu dele que queria sair, e lhe disse: “Pernoita aqui na tua casa esta noite”, por causa do frio.

Nota

Seguimos a primeira explicação do Rashi: o “dizer” é o companheiro dizer “pernoita aqui”, como na mishná (“e o seu companheiro o fez voltar”); só então se sabe que ele voltou por causa do tempo e não por ter desistido. Segundo Rabba, isso é necessário para todos, e a disputa é se é preciso também ter tomado o caminho: Rabi Yehuda exige, e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, não. O Rashi traz também “outra versão”, que diz não ter ouvido dos seus mestres (bloco 1824): o “dizer” é ele mesmo declarar “a minha shevitá é lá”. Esta é a leitura da tradução de referência, que segue a outra versão; preferimos a primeira explicação do Rashi.

1824Rav Yossef: quanto a tomar o caminho, todos concordam
A guemará
וְרַב יוֹסֵף אָמַר: לְהַחְזִיק — דְּכוּלֵּי עָלְמָא לָא פְּלִיגִי דִּצְרִיךְ, כִּי פְּלִיגִי — לוֹמַר.

E Rav Yossef disse: Quanto a tomar o caminho, todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto ao dizer (do companheiro: “Pernoita aqui”).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veRav Yossef amar”
ורב יוסף אמר להחזיק כ"ע לא פליגי דצריך כי פליגי לומר - לין פה דלר' יהודה אם החזיק בדרך אע"פ שלא אמר לו חברו לין פה אלא שחזר מעצמו כמאן דאמר שביתתי במקום פלוני דמי והחזירו חברו דקתני מתניתין לר"י לאו דוקא דה"ה לחזר מעצמו אלא אורחא דמילתא נקט אבל ר' יוסי בר' יהודה תרוייהו בעי חזקה ואמירה (והכי קאמר מצאו חברו שהתחיל לצאת ואמר לו חברו לין פה עמדי הלילה וקסבר רב יוסף ר' יוסי בר' יהודה להחמיר ולא תנן בברייתא יתר על כן ואפילו אלא הכי תנן ר' יוסי אומר מצאו חברו כו') כך שמעתי והרבה גמגומין יש דקשיא ליה לר' יוסי מאי יתר על כן ומאי אפילו ויש מתרצין דרבי יוסי לא בעי חזקה כולי האי כדר' יהודה אבל אמרי נואש הן דפסיעה אחת חוץ לביתו הויא חזקה ובציר מהכי ליכא חזקה ועוד רב יוסף אמר דבחזקה לא פליגי אלא בלומר וא"כ אף בחזקה פליגי: ל"א ולא שמעתיו אמר רבה לומר שביתתי בתוך התחום כ"ע לא פליגי דצריך זה החוזר לומר כן וכי פליג ר' יוסי ואתא לאקולי אחזקה פליג דשמעיה לר' יהודה דאמר החזיק ואתא איהו למימר אפילו מצאו חברו שהיה רוצה להחזיק ולא הניחו קנה עירוב ובלבד שיאמר שביתתי לשם דהואיל והיה רוצה לצאת חשבינן ליה כיוצא והוי עני ורב יוסף אמר להחזיק לא פליגי דודאי חזקה בעינן דאי לא החזיק לא הוי עני כי פליגי לומר דר' יהודה בעי שיאמר שביתתי לשם וארישא דמתניתין קאי דפריש בה ואמר שביתתי בעיקרו ולא איצטריך למיהדר ומיתנייא בסיפא ואתא ר' יוסי למימר אפילו לא אמר מידי קני הואיל והחזיק דגלוי דעתא קנייה היא וא"ת כיון דלרבי יהודה באומר שביתתי במקום פלוני קאמר אמאי פליג ר"מ עליה ומשוי ליה חמר גמל ר"מ לית ליה חזקה כי האי גוונא אלא בא בדרך ממש אבל האי כעשיר משוי ליה וקסבר ר"מ כל שהוא עשיר והיה לו לערב בפת ולא עירב בפת אלא באמירה הפסיד באמירתו אלפים שהיה לו לעבר הלז מביתו שסילק עצמו מרוח זו ובמקום שביתתו לא נשתכר דלאו עירוב הוא ואין לו אלא אלפים הללו ונראין הדברים דר' מאיר אכל מי שהוא עשיר פליג ובאומר שביתתי במקום פלוני מדקתני כל שיש בידו לערב כו' דאי ס"ד ר"מ עני משוי ליה להאי וטעמא משום דמספקא לן היכא ניחא ליה הוא הואיל ולא אמר אם כן מאי כל הא לא משכחת לה הך ספיקא אלא בהך לחודיה שיצא וחזר והרי זה חמר גמל מיבעי ליה:

“E Rav Yossef disse: Quanto a tomar o caminho, todos concordam que é necessário; quando divergem, é quanto a dizer” — o dizer “Pernoita aqui”. Pois, para Rabi Yehuda, se tomou o caminho, embora o seu companheiro não lhe tenha dito “Pernoita aqui”, mas voltou por si mesmo, é como quem disse “A minha shevitá é em tal lugar”, e adquiriu; e o “e o seu companheiro o fez voltar” que a nossa mishná ensina para Rabi Yehuda não é preciso, pois o mesmo vale para quem voltou por si mesmo, mas a mishná tomou o modo habitual das coisas. Mas Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, requer ambos os requisitos: tomar o caminho e dizer. E assim diz a baraita: o seu companheiro o encontrou quando começou a sair, e o seu companheiro lhe disse: “Pernoita aqui comigo esta noite”; e Rav Yossef sustenta que Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, vem para agravar, e não ensinamos na baraita “mais do que isso” e “mesmo”, mas assim ensinamos: “Rabi Yossi diz: O seu companheiro o encontrou etc.”. Assim ouvi dos meus mestres; e há muitas hesitações nisto, pois lhe é difícil: para Rabi Yossi, que é o “mais do que isso” e que é o “mesmo”? E há quem responda que Rabi Yossi não requer tomar o caminho tanto quanto Rabi Yehuda; mas eu digo que estas respostas são desesperadas, pois já um passo fora da sua casa é tomar o caminho, e menos que isso não há tomar o caminho. E mais: Rav Yossef disse que quanto a tomar o caminho não divergem, mas só quanto a dizer; e, se assim é, divergem também quanto a tomar o caminho! Outra versão, e não a ouvi dos meus mestres: Disse Rabba: Quanto a dizer “A minha shevitá é dentro do techum”, todos concordam que é necessário que este que volta diga assim; e, quando Rabi Yossi diverge e vem facilitar, é quanto a tomar o caminho que diverge; pois ouviu Rabi Yehuda, que disse “tomou o caminho”, e ele (Rabi Yossi) vem dizer: mesmo se o seu companheiro o encontrou quando queria tomar o caminho e não o deixou, adquiriu o eruv, contanto que diga “A minha shevitá é lá”; pois, já que queria sair, consideramo-lo como quem de fato saiu, e é pobre. E Rav Yossef disse: quanto a tomar o caminho não divergem, pois certamente requeremos tomar o caminho, já que, se não tomou o caminho, não é pobre; quando divergem, é quanto a dizer: pois Rabi Yehuda requer que diga “A minha shevitá é lá”, e isto se refere ao início da nossa mishná, que explicou nele “e disse: A minha shevitá é no seu tronco”, e não foi necessário repeti-lo e ensiná-lo no fim da mishná; e Rabi Yossi vem dizer: mesmo se não disse nada, adquiriu, já que tomou o caminho, pois a revelação de intenção é já uma aquisição. E, se disseres: já que, para Rabi Yehuda, fala de quem diz “A minha shevitá é em tal lugar”, por que Rabi Meir diverge dele e o faz chamar gamal? Responde-se que Rabi Meir não admite tomar o caminho de um modo como este, mas só quem vem pelo caminho de fato; e a este o considera como rico. E Rabi Meir sustenta: todo aquele que é rico e podia fazer eruv com pão, e não fez eruv com pão, mas por declaração, perdeu pela sua declaração as duas mil amot que tinha para o outro lado da sua casa, pois se retirou desse lado ao declarar a shevitá no outro; e no lugar da sua shevitá não ganhou nada, pois não é eruv; e não tem senão estas duas mil. E parece que as palavras são assim: que Rabi Meir diverge sobre todo aquele que é rico e diz “A minha shevitá é em tal lugar”, já que ensina “todo aquele que pode fazer eruv etc.”. Pois, se te ocorresse pensar que Rabi Meir faz este pobre, e que a razão é porque temos dúvida onde lhe é conveniente, já que não disse nada: se assim é, que significa “todo”? Esta dúvida não a encontras senão neste caso somente da mishná, de quem saiu e voltou; a mishná deveria dizer: “E eis que este é chamar gamal”!

Nota

Segundo a primeira explicação do Rashi, para Rav Yossef todos exigem que ele tenha tomado o caminho; Rabi Yehuda não exige que o companheiro lhe diga “pernoita aqui” (a mishná só fala do companheiro porque é o caso habitual), e Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, exige as duas coisas, sendo mais rigoroso. O Rashi reconhece a dificuldade: a baraita diz “mais do que isso” e “mesmo”, que indicam leniência; por isso, segundo Rav Yossef, seria preciso ler a baraita sem essas palavras. O trecho de “E assim diz a baraita” até “O seu companheiro o encontrou etc.” está entre parênteses no Sefaria; traduzimo-lo sem eles. Na “outra versão”, o “dizer” é ele mesmo declarar “a minha shevitá é lá”: para Rabba, todos o exigem, e Rabi Yossi dispensa tomar o caminho; para Rav Yossef, todos exigem tomar o caminho, e Rabi Yossi dispensa a declaração, pois a intenção revelada basta. Nesta versão, o Rashi explica Rabi Meir: quem é rico e só declarou perde as duas mil amot do outro lado da sua casa sem ganhar as do lugar declarado, e por isso a mishná diz “todo aquele que pode fazer eruv”, e não só “este”. O Rashi diz “לישנא אחרינא” abreviado como “ל״א”. A expressão “נואש הן” traduzimos como “são desesperadas”, isto é, respostas sem saída.

Ulla: muchzar e muchzak · מוּחְזָר וּמוּחְזָק

1825Conforme quem vai a palavra de Ulla?
A guemará
כְּמַאן אָזְלָא הָא דְּאָמַר עוּלָּא: מִי שֶׁהֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ וְהֶחְזִירוֹ חֲבֵירוֹ — הֲרֵי הוּא מוּחְזָר וּמוּחְזָק.

Conforme quem vai isto que disse Ulla: Quem tomou o caminho na véspera do Shabat e o seu companheiro o fez voltar, eis que ele é muchzar (feito voltar) e muchzak (tido como quem tomou o caminho)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “muchzar”
מוחזר - משמע שלא קנה שביתה כלל:

“Muchzar” — dá a entender que não adquiriu shevitá de modo algum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “muchzak”
מוחזק - משמע דקנה:

“Muchzak” — dá a entender que adquiriu shevitá.

Nota

A palavra de Ulla joga com duas formas da mesma raiz: “מוּחְזָר”, de “הֶחְזִירוֹ”, “o fez voltar”, e “מוּחְזָק”, de “הֶחְזִיק בַּדֶּרֶךְ”, “tomou o caminho”. Transliteramos os dois termos para conservar o jogo. Segundo o Rashi, “muchzar” indica que ele não adquiriu shevitá, e “muchzak” que adquiriu; daí a pergunta do bloco seguinte.

1826Se é muchzar, por que muchzak?
A guemará
אִי מוּחְזָר, לָמָּה מוּחְזָק? וְאִי מוּחְזָק, לָמָּה מוּחְזָר?

Se é muchzar, por que é chamado muchzak? E, se é muchzak, por que é chamado muchzar?

Nota

A guemará analisa a própria palavra de Ulla, que parece contraditória. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1827Embora seja muchzar, é muchzak
A guemará
הָכִי קָאָמַר: אַף עַל פִּי שֶׁמּוּחְזָר — מוּחְזָק. כְּמַאן — כְּרַב יוֹסֵף, וְאַלִּיבָּא דְּרַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה.

Assim diz Ulla: Embora seja muchzar, é muchzak. Conforme quem disse isso? Conforme Rav Yossef, e segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keman”
כמאן - ללישנא קמא דפרשי דרב יוסף אליבא דר' יוסי תרתי בעי אמירה דלין פה וחזקה הכי בעי ליה כמאן אזלה הא דעולא דבעי תרתי שהחזיק היינו חזקה והחזירו חברו היינו לי פה:

“Conforme quem” — segundo a primeira versão, que expliquei, que Rav Yossef, segundo Rabi Yossi, requer duas coisas, o dizer “Pernoita aqui” e o tomar o caminho, assim pergunta a guemará: Conforme quem vai isto de Ulla, que requer duas coisas: “que tomou o caminho”, isto é o tomar o caminho; “e o seu companheiro o fez voltar”, isto é o “Pernoita aqui”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keRav Yossef aliba deRabi Yossi”
כרב יוסף אליבא דר' יוסי בר' יהודה - דבעי תרתי והוא הדין לרבה אליבא דר' יהודה אלא חדא מינייהו נקט וללישנא בתרא הכי פירושא כמאן אזלא הא דעולא דלא בעי למימר שביתתי במקום פלוני דקאמר אע"פ שמוחזר דמשמע לגמרי כרב יוסף ואליבא דרבי יוסי ברבי יהודה דאמר לא בעינן לומר (הג"ה ואהך לישנא ליכא למימר כרבה ואליבא דר' יהודה דבין רבה ובין רב יוסף תרוייהו סבירא להו דרבי יהודה תרתי בעי. עד כאן):

“Conforme Rav Yossef, segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda” — que requer duas coisas; e o mesmo vale para Rabba segundo Rabi Yehuda, mas a guemará tomou só uma delas. E, segundo a última versão, assim é a explicação: Conforme quem vai isto de Ulla, que não requer dizer “A minha shevitá é em tal lugar”, pois diz “embora seja muchzar”, que dá a entender que voltou totalmente? Conforme Rav Yossef e segundo Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, que disse que não requeremos dizer. Glosa: E, segundo esta versão, não se pode dizer que é conforme Rabba e segundo Rabi Yehuda, pois tanto Rabba quanto Rav Yossef sustentam que Rabi Yehuda requer as duas coisas. Até aqui a glosa.

Nota

Segundo a primeira explicação do Rashi, Ulla exige as duas coisas, tomar o caminho e o “pernoita aqui” do companheiro, como Rabi Yossi, filho de Rabi Yehuda, na explicação de Rav Yossef; e o mesmo resultado vale para Rabi Yehuda na explicação de Rabba, mas a guemará menciona só uma das possibilidades. Segundo a outra versão, Ulla dispensa a declaração “a minha shevitá é em tal lugar”, como Rabi Yossi na explicação de Rav Yossef. A glosa final (“הג״ה ... עד כאן”) está entre parênteses no Sefaria; traduzimo-la sem eles. No primeiro comentário, o Sefaria traz “לי פה”, que lemos como “לין פה”, “pernoita aqui”. A tradução de referência segue a outra versão do Rashi.

Rav Yehuda bar Ishtata e Rav Natan bar Oshaya · כַּלְכַּלָּה דְפֵירֵי

1828O cesto de frutas e o degrau
A guemará
רַב יְהוּדָה בַּר אִישְׁתָּתָא אַיְיתִי לֵיהּ כַּלְכַּלָּה דְפֵירֵי לְרַב נָתָן בַּר אוֹשַׁעְיָא. כִּי הֲוָה אָזֵיל, שַׁבְקֵיהּ עַד דִּנְחֵית דַּרְגָּא, אֲמַר לֵיהּ: בִּית הָכָא. לִמְחַר קַדֵּים וֶאֱזִיל,

Rav Yehuda bar Ishtata trouxe um cesto de frutas a Rav Natan bar Oshaya na véspera do Shabat. Quando ia embora, deixou-o até que descesse um degrau, e disse-lhe: Pernoita aqui. No dia seguinte madrugou e foi,

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ishtata”
אישתתא - שם אדם:

“Ishtata” — é nome de pessoa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ki hava azil”
כי הוה אזיל - לביתיה ובתוך ד' אלפים הוה:

“Quando ia” — para a sua casa; e estava a distância dentro de quatro mil amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nachat darga”
נחת דרגא - מעלה מן הכבש שהיה יורד מן העליה דהוה ליה החזיק בדרך:

“Desceu um degrau” — um degrau da rampa pela qual descia do andar de cima; de modo que tomou o caminho.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bit hacha”
בית הכא - לין פה:

“Bit hacha” — isto é, pernoita aqui.

Nota

Segundo o Rashi, Rav Yehuda bar Ishtata ia para a sua casa, a menos de quatro mil amot, e Rav Natan bar Oshaya esperou que ele descesse um degrau, para que tivesse tomado o caminho, e só então lhe disse “pernoita aqui”; assim, no dia seguinte, ele pôde ir para casa. O texto não nomeia o sujeito de “deixou-o” e “disse-lhe”; pelo contexto, é Rav Natan bar Oshaya. O lema do Rashi diz “נחת דרגא”, onde a guemará diz “דִּנְחֵית דַּרְגָּא”. “Bit hacha” é aramaico. O relato continua em Eruvin 52b.

O daf termina aqui, no meio do caso de Rav Yehuda bar Ishtata e Rav Natan bar Oshaya: depois do fim do caso de Rabba bar Rav Chanan e de Tzinta, da pergunta de Rami bar Chama sobre as quatro amot de quem deposita o seu eruv, da mishná de quem saiu para ir a outra cidade e o seu companheiro o fez voltar, da explicação de Rav Huna e da baraita das duas casas, da disputa de Rabba e Rav Yossef sobre dizer e tomar o caminho e da palavra de Ulla sobre muchzar e muchzak. A guemará prossegue em Eruvin 52b.