Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 51a
הָנֵי אַלְפַּיִם אַמָּה הֵיכָן כְּתִיבָן

Correndo até o tronco; Rabba e Rav Yossef no caminho; onde estão escritas as duas mil amot; as amot redondas e a diagonal

Eruvin 51a — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · Rava: desde que, correndo, chegue ao tronco; Abaye: “anoiteceu para ele” · “anoiteceu” para a sua casa; ou: quando anda devagar · Rabba e Rav Yossef: a palmeira que carrega o seu irmão · Rabi Yossi: eram dois, um conhece e outro não · nimuko imo · “ficai cada um no seu lugar”, “ninguém saia do seu lugar” · Rav Chisda: makom de makom, até chutz de chutz · “do muro da cidade para fora, mil amot” · a escola de Rabi Yishmael: a volta e a vinda · Rabi Chanina ben Antigonos e as amot redondas · Rav Chananya: como isto sejam todos · Rabi Acha bar Yaakov: elas e a sua diagonal · Rav Pappa: Rava nos examinou com uma coluna · Rav Nachman: a disputa é em “no meu lugar” · continua de Eruvin 50b; a guemará continua em Eruvin 51b

O daf começa com a palavra de Rava sobre a mishná de quem disse “a minha shevitá é no seu tronco”: isso só vale se, correndo, ele chegaria à árvore antes de anoitecer; à objeção de Abaye, “anoiteceu para ele”, responde-se que anoiteceu para ir à sua casa, e outra versão diz que anoiteceu para quem anda devagar. Segue-se o caso de Rabba e Rav Yossef, que iam pelo caminho: Rabba fixou a shevitá dos dois junto a uma palmeira conhecida e disse a Rav Yossef que confiasse nele, citando em nome de Rabi Yossi a baraita dos dois viajantes, um que conhece o lugar e outro não; a guemará observa que ele a atribuiu a Rabi Yossi para que fosse aceita, porque a razão de Rabi Yossi está com ele. Depois de citar a mishná sobre quem não conhece ou não é perito, a guemará pergunta onde estão escritas as duas mil amot: “ninguém saia do seu lugar” se liga, pela cadeia de analogias de Rav Chisda, ao “fora da cidade, duas mil amot” das cidades dos levitas, e não ao “do muro da cidade para fora, mil amot”, pois se deduz chutz de chutz e não de chutza, embora a escola de Rabi Yishmael deduza “voltar” de “vir”. Quanto às amot redondas de Rabi Chanina ben Antigonos, o “isto” do versículo dá lados só aos arrabaldes das cidades; os Sábios, com Rav Chananya, leem “como isto sejam todos os que repousam no Shabat”. Daí Rabi Acha bar Yaakov ensina que quem transporta quatro amot só é culpado pela diagonal, e Rava examinou os seus alunos sobre a coluna de quatro tefachim. O daf termina com a mishná do pobre que faz eruv com os pés e o começo da palavra de Rav Nachman, que situa a disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda em quem disse “no meu lugar”.

Correndo até o tronco · וְהוּא דְּכִי רָהֵיט

1780Rava: desde que, correndo, chegue ao tronco
A guemará
אָמַר רָבָא: וְהוּא דְּכִי רָהֵיט לְעִיקָּרוֹ מָטֵי. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וְהָא ״חָשְׁכָה לוֹ״ קָתָנֵי!

Disse Rava: E isto é quando, se corresse ao seu tronco, chegaria lá antes de anoitecer. Disse-lhe Abaye: Mas a mishná ensina “anoiteceu para ele” (e então não chegaria)!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vehu dechi rahet matei”
והוא דכי רהיט מטי - הא דקתני מתניתין דאם סיים קנה שביתה בעיקרו הוא דכי הוה רהיט מטי התם קודם שתחשך התם מהניא אמירה ואי קני התם מצי למיזל לביתו בנחת:

“E isto quando, se corre, chega” — o que ensina a nossa mishná, que, se especificou o lugar, adquiriu shevitá (lugar de repouso de Shabat) no seu tronco, é quando, se corresse, chegaria lá antes que anoitecesse: só então lá a declaração é eficaz; e, se adquire lá, pode ir no Shabat à sua casa com calma.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chashecha lo”
חשכה לו - לילך עד ביתו אפילו במרוצה אבל לעיקרו הוה מטי במרוצה אי הוה רהיט:

“Anoiteceu para ele” — isto é, para ir até a sua casa, mesmo correndo; mas ao seu tronco da árvore chegaria correndo, se corresse.

Nota

A palavra de Rava explica a frase da mishná citada no fim de Eruvin 50b (bloco 1779; Mishná Eruvin 4:7, em Eruvin 49b, bloco 1740): quem disse “a minha shevitá é no seu tronco” adquire ali a shevitá e anda quatro mil amot. Segundo o Rashi, isso só vale se, correndo, ele chegaria à árvore antes de anoitecer; só então a declaração é eficaz, e depois pode ir à sua casa com calma. Abaye objeta com as palavras da mishná, “וְחָשְׁכָה לוֹ”, “e anoiteceu para ele” (bloco 1739). O lema do primeiro comentário do Rashi diz “והוא דכי רהיט מטי”, sem “לְעִיקָּרוֹ”, “ao seu tronco”. O segundo comentário, “חשכה לו”, explica a resposta que vem no bloco seguinte, mas o Sefaria o liga a este segmento, e mantemo-lo aqui. A tradução de referência explica do mesmo modo.

1781“Anoiteceu” para a sua casa; ou: andando devagar
A guemará
״חָשְׁכָה״ — לְבֵיתוֹ, אֲבָל לְעִיקָּרוֹ שֶׁל אִילָן מָצֵי אָזֵיל. אִיכָּא דְּאָמְרִי אָמַר רָבָא: חָשְׁכָה לוֹ כִּי מְסַגֵּי קַלִּי קַלִּי, אֲבָל רָהֵיט — מָטֵי.

“Anoiteceu” para ir à sua casa; mas ao tronco da árvore pode ir correndo. Há quem diga de outro modo: Disse Rava: “Anoiteceu para ele” é quando anda devagar, devagar; mas, se corre, chega.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “messagei kalei”
מסגי קלי - הולך מעט מעט:

“Anda devagar” — isto é, anda pouco a pouco.

Nota

A resposta segue o Rashi (comentário ligado ao bloco 1780): “anoiteceu” quer dizer que já não chegaria à sua casa, nem correndo, mas ainda chegaria ao tronco correndo. Na segunda versão, o próprio Rava lê “anoiteceu para ele” como “se andasse devagar”; o hebraico não diz aonde ele chegaria correndo, e a tradução o deixa assim; a tradução de referência completa “à sua casa”. “Devagar, devagar” traduz “קַלִּי קַלִּי”.

Rabba e Rav Yossef no caminho · תּוּתֵי דִּיקְלָא

1782A palmeira que carrega o seu irmão
A guemará
רַבָּה וְרַב יוֹסֵף הֲווֹ קָא אָזְלִי בְּאוֹרְחָא. אֲמַר לֵיהּ רַבָּה לְרַב יוֹסֵף: תְּהֵא שְׁבִיתָתֵנוּ תּוּתֵי דִּיקְלָא דְּסָבֵיל אֲחוּהּ. וְאָמְרִי לַהּ: תּוּתֵי דִּיקְלָא דְּפָרֵיק מָרֵיהּ מִכְּרָגָא.

Rabba e Rav Yossef iam pelo caminho na véspera do Shabat. Disse Rabba a Rav Yossef: Seja a nossa shevitá debaixo da palmeira que carrega o seu irmão (outra palmeira apoiada nela). E há quem o diga assim: debaixo da palmeira que livrou o seu dono do karga (imposto).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “desavil achuh”
דסביל אחוה - אילן אחר היה נסמך עליו:

“Que carrega o seu irmão” — isto é, outra árvore estava apoiada nela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “defarik mareh mikarga”
דפריק מריה מכרגא - טוען פירות הרבה ומוכרן ופורע מהן המס:

“Que livrou o seu dono do karga” — isto é, a palmeira carrega muitos frutos, e o dono os vende e paga com eles o imposto.

Nota

Segundo o Rashi, “a palmeira que carrega o seu irmão” é uma palmeira em que outra árvore estava apoiada, e “a que livrou o seu dono do karga” é uma palmeira que dá tantos frutos que o dono, vendendo-os, paga com eles o imposto. Em ambas as versões, Rabba declara a shevitá dos dois junto a uma árvore conhecida, à distância, como na mishná. “Karga” (“כְּרָגָא”) é o imposto por cabeça ou sobre a terra; a tradução de referência diz “imposto sobre a terra”.

1783“Confia em mim”: Rabi Yossi e os dois viajantes
A guemará
יָדַע לֵיהּ מָר? אֲמַר לֵיהּ: לָא יָדַעְנָא לֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: סְמוֹךְ עֲלַי, דְּתַנְיָא, רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: אִם הָיוּ שְׁנַיִם, אֶחָד מַכִּיר וְאֶחָד שֶׁאֵינוֹ מַכִּיר — זֶה שֶׁאֵינוֹ מַכִּיר מוֹסֵר שְׁבִיתָתוֹ לַמַּכִּיר, זֶה שֶׁמַּכִּיר אוֹמֵר: תְּהֵא ״שְׁבִיתָתֵנוּ בְּמָקוֹם פְּלוֹנִי״.

O mestre a conhece (a palmeira)? Disse-lhe: Não a conheço. Disse-lhe: Confia em mim (e entrega-me a tua shevitá), pois foi ensinado numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): Rabi Yossi diz: Se eram dois, um que conhece o lugar e um que não o conhece, aquele que não conhece entrega a sua shevitá ao que conhece, e o que conhece diz: “Seja a nossa shevitá em tal lugar”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “la yad’ana leh”
לא ידענא ליה - איני מכיר אותו אילן:

“Não a conheço” — isto é, não conheço aquela árvore.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “moser shevitato lamakir”
מוסר שביתתו למכיר - אומר שביתתי עמך:

“Entrega a sua shevitá ao que conhece” — diz a ele: “A minha shevitá seja contigo”.

Nota

A pergunta “o mestre a conhece?” e as duas respostas não trazem nomes; a tradução de referência atribui a pergunta a Rabba e a resposta a Rav Yossef, e o contexto o indica. A baraita citada é a mesma ensinada anonimamente em Eruvin 50b (bloco 1772), aqui em nome de Rabi Yossi e com “תְּהֵא שְׁבִיתָתֵנוּ”, “seja a nossa shevitá”, onde lá se lê “שְׁבִיתָתִי”, “a minha shevitá”. Segundo o Rashi, quem não conhece entrega a sua shevitá dizendo ao outro: “A minha shevitá seja contigo”. Na Tosefta Eruvin 3:16 (Lieberman; conferido), a palavra semelhante está em nome de “ר' יוסה”: “היו שנים, אחד מכיר ואחד שאינו מכיר, הואיל ואחד מהן מכיר, שניהן מותרין”.

1784Mas não é assim: “nimuko imo”
A guemará
וְלָא הִיא, לָא תְּנָא לֵיהּ כְּרַבִּי יוֹסֵי, אֶלָּא כִּי הֵיכִי דְּלִיקַבֵּל לַהּ מִינֵּיהּ, מִשּׁוּם דְּרַבִּי יוֹסֵי נִימּוּקוֹ עִמּוֹ.

Mas não é assim: Rabba não a aprendeu como de Rabi Yossi; mas disse-a em nome dele para que Rav Yossef a aceitasse dele, porque Rabi Yossi, nimuko imo (a sua razão está com ele).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “velo hi”
ולא היא - הא דאמר ליה משמיה דר' יוסי ליתא דלא תניא ליה בשם ר' יוסי אלא סתמא תניא ליה לעיל ומשום הכי אמרה בשם רבי יוסי כי היכי דליקבלה מיניה:

“Mas não é assim” — o que Rabba lhe disse em nome de Rabi Yossi não é assim; pois não lhe foi ensinada a baraita em nome de Rabi Yossi, mas foi-lhe ensinada anonimamente acima; e por isso a disse em nome de Rabi Yossi, para que Rav Yossef a aceitasse dele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre a leitura do texto
ה"ג ולא היא לא תניא ליה כדר' יוסי:

Assim lemos: “Mas não é assim: não lhe foi ensinada como palavra de Rabi Yossi”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “nimuko imo”
נימוקו עמו - טעמו במסכת גיטין (דף סז.) מונה שבחן של חכמים ואמר ר"י נמוקו עמו נים וקו דבר ישר כקו המשקולת:

“Nimuko imo” — isto é, a sua razão está com ele. No tratado Gittin (folha 67a), quem enumera os louvores dos Sábios disse: Rabi Yossi, nimuko imo; a palavra se lê nim vekav (fio e linha): coisa reta como a linha do prumo.

Nota

Segundo o Rashi, a baraita não foi ensinada a Rabba em nome de Rabi Yossi, mas anonimamente (como em Eruvin 50b, bloco 1772); Rabba a disse em nome de Rabi Yossi para que Rav Yossef a aceitasse, pois a halachá costuma seguir Rabi Yossi. O Rashi lê “לא תניא ליה כדר' יוסי”, “não lhe foi ensinada como de Rabi Yossi”, onde o texto do Sefaria traz “לָא תְּנָא לֵיהּ כְּרַבִּי יוֹסֵי”, “não a aprendeu como de Rabi Yossi”; o sentido é o mesmo. A tradução de referência diz “Rabba só a ensinou como se fosse de Rabi Yossi”. “Nimuko imo” está em Gittin 67a (conferido), na lista dos louvores dos Sábios: “רַבִּי יוֹסֵי – נִמּוּקוֹ עִמּוֹ”; ali quem a enumera é Isi ben Yehuda, que o Rashi não nomeia. O Rashi lê a palavra como “נים וקו”, “fio e linha”, isto é, reta como o prumo.

Quem não conhece ou não é perito · אִם אֵינוֹ מַכִּיר

1785A mishná: se não conhece ou não é perito
A guemará
אִם אֵינוֹ מַכִּיר אוֹ שֶׁאֵינוֹ בָּקִי וְכוּ׳.

A mishná diz: Se não conhece, ou se não é perito etc.

Nota

A guemará cita a continuação da mishná (Mishná Eruvin 4:8, em Eruvin 49b, bloco 1741), onde a tradução completa é: “Se não conhece uma árvore ou uma cerca, ou se não é perito na halachá, e por isso disse: ‘A minha shevitá é no meu lugar’, o seu lugar lhe adquire duas mil amot para cada lado”. Aqui a mishná é citada com “וְכוּ׳”, “etc.”, e “בַּהֲלָכָה” não aparece. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

Onde estão escritas as duas mil amot? · הָנֵי אַלְפַּיִם אַמָּה הֵיכָן כְּתִיבָן

1786“Ficai cada um no seu lugar”, “ninguém saia do seu lugar”
A guemará
הָנֵי אַלְפַּיִם אַמָּה הֵיכָן כְּתִיבָן? דְּתַנְיָא: ״שְׁבוּ אִישׁ תַּחְתָּיו״ — אֵלּוּ אַרְבַּע אַמּוֹת. ״אַל יֵצֵא אִישׁ מִמְּקוֹמוֹ״ — אֵלּוּ אַלְפַּיִם אַמָּה.

Estas duas mil amot, onde estão escritas na Torá? Como foi ensinado numa baraita: “Ficai cada um no seu lugar” (Shemot 16:29): estas são as quatro amot (de quem saiu do seu limite). “Ninguém saia do seu lugar” (Shemot 16:29): estas são as duas mil amot.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “elu arba amot”
אלו ד' אמות - ליוצא חוץ לתחום:

“Estas são quatro amot” — isto é, para quem sai para fora do techum (limite de Shabat).

Nota

O versículo é Shemot 16:29 (conferido): “שְׁבוּ אִישׁ תַּחְתָּיו אַל־יֵצֵא אִישׁ מִמְּקֹמוֹ בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי”. As duas metades já foram traduzidas antes: “Ficai cada um no seu lugar” em Eruvin 48a (bloco 1689), onde a baraita define as quatro amot do “תַּחְתָּיו”, e “Ninguém saia do seu lugar” em Eruvin 17b; mantemos a mesma redação. Segundo o Rashi, as quatro amot são as de quem saiu para fora do techum, e as duas mil são o limite de quem está no seu lugar. A tradução de referência explica do mesmo modo.

1787Rav Chisda: makom de makom, até chutz de chutz
A guemará
מְנָא לַן? אָמַר רַב חִסְדָּא: לָמַדְנוּ ׳מָקוֹם׳ מִ׳מָּקוֹם׳, וּ׳מָקוֹם׳ מִ׳נִּיסָה׳, וְ׳נִיסָּה׳ מִ׳נִּיסָה׳, וְ׳נִיסָּה׳ מִ׳גְּבוּל׳, וּ׳גְבוּל׳ מִ׳גְּבוּל׳, וּ׳גְבוּל׳ מִ׳חוּץ׳, וְ׳חוּץ׳ מִ׳חוּץ׳. דִּכְתִיב: ״וּמַדּוֹתֶם מִחוּץ לָעִיר אֶת פְּאַת קֵדְמָה אַלְפַּיִם בָּאַמָּה וְגוֹ׳״.

De onde o temos (que o “lugar” são duas mil amot)? Disse Rav Chisda: Aprendemos por analogia makom (lugar) de makom, e makom de nisá (fuga), e nisá de nisá, e nisá de gevul (limite), e gevul de gevul, e gevul de chutz (fora), e chutz de chutz; pois está escrito: “E medireis de fora da cidade o lado do oriente, duas mil amot etc.” (Bamidbar 35:5).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “makom mimakom umakom minisá”
מקום ממקום ומקום מניסה - פסוק שנאמר בו מקום ולא נאמר בו ניסה דנין אותו מפסוק אחר שנאמר בו מקום וניסה כגון אל יצא איש ממקומו דנין מושמתי לך מקום אשר ינוס שמה מה להלן כתיב ניסה אשר ינוס אף מקרא דאל יצא איש ממקומו מרבי ביה ניסה והוי כמאן דכתיב ביה ניסה והדר דנין ניסה מניסה וניסה מגבול כלומר דנין ניסה זו שלא נאמר בו גבול מניסה שנאמר בו גבול דכתיב מגבול עיר מקלטו אשר ינוס ומרבינן נמי באידך ניסה דאל יצא איש ממקומו כאילו כתיב ביה גבול והדר דנין גבול מגבול וגבול מחוץ דנין גבול זה שלא נאמר בו חוץ מגבול שנאמר בו חוץ שנאמר ומצא אותו גואל הדם מחוץ לגבול ומרבינן חוץ מג"ש להאי גבול דאל יצא איש ממקומו והדר דנין האי חוץ מחוץ דומדותם מחוץ לעיר דכתיב ביה אלפים באמה:

“Makom de makom, e makom de nisá” — um versículo em que se diz makom e não se diz nisá, deduzimo-lo de outro versículo em que se diz makom e nisá. Por exemplo, “Ninguém saia do seu lugar” (Shemot 16:29): deduzimo-lo de “E te designarei um lugar para onde fugirá” (Shemot 21:13). Assim como lá está escrito nisá, “para onde fugirá”, assim também no versículo “Ninguém saia do seu lugar” incluímos nisá, e é como se estivesse escrito nele nisá. E depois deduzimos nisá de nisá, e nisá de gevul; isto é, deduzimos esta nisá, em que não se diz gevul, da nisá em que se diz gevul, pois está escrito: “Do limite da cidade do seu refúgio, para onde fugirá” (Bamidbar 35:26); e incluímos também na outra nisá, a de “Ninguém saia do seu lugar”, a palavra gevul, como se estivesse escrito nela gevul. E depois deduzimos gevul de gevul, e gevul de chutz; isto é, deduzimos este gevul, em que não se diz chutz, do gevul em que se diz chutz, pois se diz: “E o vingador do sangue o encontrar fora do limite” (Bamidbar 35:27); e incluímos chutz, por gezerá shavá, neste gevul de “Ninguém saia do seu lugar”. E depois deduzimos este chutz do chutz de “E medireis de fora da cidade”, em que está escrito “duas mil amot” (e assim o “lugar” do Shabat é de duas mil amot).

Nota

Rav Chisda liga, por uma cadeia de analogias verbais, o “lugar” do Shabat (Shemot 16:29) às duas mil amot das cidades dos levitas: “מָקוֹם” e “יָנוּס” aparecem juntos em Shemot 21:13 (conferido), “וְשַׂמְתִּי לְךָ מָקוֹם אֲשֶׁר יָנוּס שָׁמָּה”; “יָנוּס” e “גְּבוּל” em Bamidbar 35:26 (conferido), “אֶת־גְּבוּל עִיר מִקְלָטוֹ אֲשֶׁר יָנוּס שָׁמָּה”; “גְּבוּל” e “מִחוּץ” em Bamidbar 35:27 (conferido), “מִחוּץ לִגְבוּל עִיר מִקְלָטוֹ”; e “מִחוּץ” com as duas mil amot em Bamidbar 35:5 (conferido), “וּמַדֹּתֶם מִחוּץ לָעִיר אֶת־פְּאַת־קֵדְמָה אַלְפַּיִם בָּאַמָּה”. Segundo o Rashi, em cada passo o versículo que não tem a segunda palavra “recebe-a” do que tem as duas, e assim “ninguém saia do seu lugar” equivale a “fora”, com duas mil amot. O Rashi cita Bamidbar 35:26 como “מגבול עיר מקלטו אשר ינוס”, onde o versículo diz “אֶת־גְּבוּל”. A tradução de referência explica do mesmo modo.

1788“Do muro da cidade para fora, mil amot”?
A guemará
וְנֵילַף מִ״קִּיר הָעִיר וָחוּצָה אֶלֶף אַמָּה״? דָּנִין ׳חוּץ׳ מִ׳חוּץ׳, וְאֵין דָּנִין ׳חוּץ׳ מֵ׳חוּצָה׳.

E aprendamos antes de “do muro da cidade para fora, mil amot” (Bamidbar 35:4) (que o limite é de mil amot)? Deduz-se chutz de chutz, e não se deduz chutz de chutza (para fora).

Nota

Bamidbar 35:4 (conferido): “מִקִּיר הָעִיר וָחוּצָה אֶלֶף אַמָּה סָבִיב”. A pergunta é por que não deduzir o limite de Shabat desse versículo, de mil amot; a resposta é que a analogia se faz entre a mesma forma, “חוּץ”, e não entre “חוּץ” e “חוּצָה”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1789A escola de Rabi Yishmael: a volta e a vinda
A guemará
וּמַאי נָפְקָא מִינַּהּ? הָא תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: ״וְשָׁב הַכֹּהֵן״ ״וּבָא הַכֹּהֵן״ — זוֹ הִיא שִׁיבָה, זוֹ הִיא בִּיאָה!

E que diferença faz entre chutz e chutza? Eis que ensinou a escola de Rabi Yishmael a respeito das pragas das casas: “E voltará o sacerdote” (Vayikra 14:39), “e virá o sacerdote” (Vayikra 14:44): esta é a volta, esta é a vinda (a mesma coisa), e deduz-se uma da outra!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “veshav hacohen uva hacohen”
ושב הכהן ובא הכהן - בתורת כהנים שנויה בנגעי בתים בשבוע של הסגר ראשון כתיב ושב הכהן ביום השביעי וראה והנה פשה הנגע בקירות הבית וכתיב בתריה וחלצו את האבנים ואת הבית יקציע מבית יקלף עפר הבית סביב הקיר ועפר אחר יקח וטח את הבית וכתיב ואם ישוב הנגע ופרח בבית וגו' ונתץ את הבית ותניא ופרח יכול לא יהא טמא עד שיחזור ויפשה ת"ל צרעת ממארת צרעת ממארת לג"ש מה צרעת ממארת האמורה בבגדים טימא את החוזר אע"פ שאינו פושה אף צרעת ממארת האמורה בבתים טימא את החוזר אע"פ שאינו פושה יכול חזר ופרח בו ביום יהא טמא נאמר ואם ישוב הנגע ונאמר ושב הכהן מה שיבה האמורה להלן בסוף שבוע אף שיבה האמורה כאן בסוף שבוע למדנו שנותן לו שבוע אחר החליצה וקיצה וטיחה אם חזר הנגע נותצו ואם לא חזר מטהרו אין לי אלא חולץ וקוצה וטח ונותן שבוע אלא בפושה בשבוע של הסגר ראשון מניין לנגע שעמד בעיניו בראשון שלא פשה והכהן לא חלץ ולא קצה ולא טח והמתין שבוע שני ופשה בשבוע שני מניין שהוא חולץ וקוצה וטח ונותן לו שבוע ואינו נותצו מיד ת"ל ובא הכהן והנה פשה וגו' ואע"ג דהאי קרא בתריה דאם ישוב הנגע כתיב דמשמע דבנגע החוזר קאי מפקינן ליה התם מהאי משמעות ומרבינן נתיצה לנגע החוזר ואע"פ שלא פשה והאי ובא הכהן וראה והנה פשה דמשמע דבעי פשיון מוקמינן ליה בנגע שעמד בראשון ופשה בשני ואע"ג דכתיב נתיצה בתריה יליף בג"ש נאמר כאן בפשה בשני ובא הכהן ונאמר בפשה בראשון ושב הכהן היא שיבה היא ביאה כלומר זו כזו מה להלן חולץ וקוצה וטח ונותן לו שבוע אף כאן חולץ וקוצה וטח ונותן לו שבוע ואם חזר שוב בעי נתיצה אלמא אע"ג דלאו שיבה היא כיון דשיבה וביאה חדא מילתא היא דתרוייהו משמע שבא מביתו לבית המנוגע דיינינן גזירה שוה מינייהו:

“E voltará o sacerdote”, “e virá o sacerdote” — está ensinado no Torat Kohanim, nas pragas das casas. Na semana do primeiro isolamento está escrito: “E voltará o sacerdote no sétimo dia e verá, e eis que a praga se espalhou nas paredes da casa” (Vayikra 14:39); e está escrito depois dele: “E arrancarão as pedras” (Vayikra 14:40), “e a casa raspará por dentro” (Vayikra 14:41), isto é, descascará a terra da casa ao redor da parede, “e outra terra tomará e rebocará a casa” (Vayikra 14:42); e está escrito: “E, se voltar a praga e brotar na casa etc.” (Vayikra 14:43), “e derrubará a casa” (Vayikra 14:45). E foi ensinado: “E brotar”: poderia pensar-se que não seja impura até que volte e se espalhe; diz o ensino: “lepra maligna”, “lepra maligna”, para a gezerá shavá: assim como a lepra maligna dita nas roupas tornou impura a praga que volta, embora não se espalhe, assim também a lepra maligna dita nas casas tornou impura a que volta, embora não se espalhe. Poderia pensar-se que, se voltou e brotou nela naquele mesmo dia, seja impura; diz-se “E, se voltar a praga”, e diz-se “E voltará o sacerdote”: assim como a volta dita lá é no fim da semana, assim também a volta dita aqui é no fim da semana. Aprendemos que lhe dá uma semana depois do arrancar, do raspar e do rebocar: se a praga voltou, derruba-a; e, se não voltou, purifica-a. Não tenho senão que arranca, raspa, reboca e dá uma semana no caso do que se espalhou na semana do primeiro isolamento; de onde se aprende que, na praga que ficou no seu aspecto na primeira semana, que não se espalhou, e o sacerdote não arrancou, nem raspou, nem rebocou, e esperou uma segunda semana, e se espalhou na segunda semana, de onde se aprende que arranca, raspa e reboca e lhe dá uma semana, e não a derruba logo? Diz o ensino: “E virá o sacerdote, e eis que se espalhou etc.”. E, embora este versículo esteja escrito depois de “E, se voltar a praga”, o que dá a entender que trata da praga que volta, tiramo-lo lá deste sentido, e incluímos a derrubada para a praga que volta, embora não se tenha espalhado; e este versículo, “E virá o sacerdote e verá, e eis que se espalhou”, que dá a entender que requer espalhamento, estabelecemo-lo na praga que ficou igual na primeira semana e se espalhou na segunda. E, embora a derrubada esteja escrita depois dele, deduz-se por gezerá shavá: diz-se aqui, no que se espalhou na segunda, “E virá o sacerdote”, e diz-se no que se espalhou na primeira “E voltará o sacerdote”: é a volta, é a vinda, isto é, esta como aquela: assim como lá arranca, raspa, reboca e lhe dá uma semana, assim também aqui arranca, raspa, reboca e lhe dá uma semana; e, se voltou de novo, requer derrubada. Vê-se, pois, que, embora a vinda não seja volta, já que volta e vinda são uma só coisa, pois ambas significam que o sacerdote vem da sua casa para a casa atingida, aplicamos entre elas a gezerá shavá.

Nota

Vayikra 14:39 (conferido): “וְשָׁב הַכֹּהֵן בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי”; Vayikra 14:44 (conferido): “וּבָא הַכֹּהֵן וְרָאָה וְהִנֵּה פָּשָׂה הַנֶּגַע בַּבָּיִת”. A escola de Rabi Yishmael faz analogia entre “voltar” e “vir”, palavras diferentes; com mais razão se faria entre “חוּץ” e “חוּצָה”. O Rashi expõe a passagem do Torat Kohanim (o Sifra) sobre as pragas das casas: a praga que se espalhou na primeira semana exige arrancar as pedras, raspar e rebocar, e outra semana; a que volta depois disso exige derrubar a casa, mesmo sem se espalhar, pela analogia de “צָרַעַת מַמְאֶרֶת”, “lepra maligna”, dita das roupas (Vayikra 13:51, conferido) e das casas (Vayikra 14:44); e a praga que só se espalhou na segunda semana recebe o mesmo tratamento que a da primeira, por causa da analogia entre “וְשָׁב” e “וּבָא”. Os versículos que o Rashi cita foram conferidos (Vayikra 14:39–45); o Rashi parafraseia Vayikra 14:41, “וְאֶת־הַבַּיִת יַקְצִעַ מִבַּיִת סָבִיב”, com “יקלף עפר הבית סביב הקיר”, “descascará a terra da casa ao redor da parede”. A tradução de referência explica do mesmo modo.

1790Onde há uma palavra igual, deduz-se da igual
A guemará
הָנֵי מִילֵּי הֵיכָא דְּלֵיכָּא מִידֵּי דְּדָמֵי לֵיהּ, אֲבָל הֵיכָא דְּאִיכָּא מִידֵּי דְּדָמֵי לֵיהּ — מִדָּמֵי לֵיהּ יָלְפִינַן.

Estas palavras valem onde não há coisa semelhante a ela (à palavra); mas, onde há coisa semelhante a ela (como chutz e chutz), deduzimos do semelhante a ela.

Nota

A resposta: a analogia entre palavras diferentes só se faz quando não há outra palavra idêntica; havendo “חוּץ” e “חוּץ”, deduz-se da idêntica. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

As amot redondas · אַלְפַּיִם אַמָּה עֲגוּלּוֹת

1791Rabi Chanina ben Antigonos: seja como for
A guemará
אַלְפַּיִם אַמָּה עֲגוּלּוֹת. וְרַבִּי חֲנִינָא בֶּן אַנְטִיגְנוֹס מָה נַפְשָׁךְ: אִי אִית לֵיהּ גְּזֵירָה שָׁוָה — פֵּיאוֹת כְּתִיבָן, אִי לֵית לֵיהּ גְּזֵירָה שָׁוָה — אַלְפַּיִם אַמָּה מְנָא לֵיהּ?

A mishná diz: Duas mil amot agulot (em círculo). E Rabi Chanina ben Antigonos, seja como for é difícil: se ele aceita a gezerá shavá (analogia verbal), “lados” está escrito (e o limite seria quadrado); se ele não aceita a gezerá shavá, as duas mil amot, de onde as tira?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “i it leh gezerá shavá”
אי אית ליה ג"ש - דמקום מניסה וחוץ מחוץ כדאמר לעיל:

“Se ele aceita a gezerá shavá” — isto é, a de makom de nisá, e a de chutz de chutz, como a guemará disse acima.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “pe’ot ketiv”
פיאות כתיב - דכתיב פאת (נגב) ופאת משמע מרובע:

“Lados está escrito” — pois está escrito “o lado do sul” e “o lado”, o que significa um quadrado.

Nota

A guemará cita a mishná (Mishná Eruvin 4:8, em Eruvin 49b, bloco 1742), aqui com “אַלְפַּיִם אַמָּה” antes de “עֲגוּלּוֹת”. Segundo o Rashi, a gezerá shavá é a de Rav Chisda (bloco 1787), e “lados” refere-se a “פְּאַת” em Bamidbar 35:5, que significa quadrado. No texto do Rashi, a palavra “(נגב)”, “do sul”, está entre parênteses no Sefaria; a tradução a inclui sem marca. A tradução de referência explica do mesmo modo.

1792“Isto lhes será”: a isto dás lados
A guemará
לְעוֹלָם אִית לֵיהּ גְּזֵירָה שָׁוָה, וְשָׁאנֵי הָכָא דְּאָמַר קְרָא: ״זֶה יִהְיֶה לָהֶם מִגְרְשֵׁי הֶעָרִים״ — לָזֶה אַתָּה נוֹתֵן פֵּיאוֹת, וְאִי אַתָּה נוֹתֵן פֵּיאוֹת לְשׁוֹבְתֵי שַׁבָּת.

Na verdade, ele aceita a gezerá shavá de Rav Chisda; mas aqui (nas cidades dos levitas) é diferente, pois diz o versículo: “Isto lhes será os arrabaldes das cidades” (Bamidbar 35:5): a isto (aos arrabaldes) dás lados, e não dás lados aos que repousam no Shabat (cujo limite é redondo).

Nota

Bamidbar 35:5 termina com “זֶה יִהְיֶה לָהֶם מִגְרְשֵׁי הֶעָרִים” (conferido). Para Rabi Chanina ben Antigonos, o “isto” restringe os lados (o quadrado) aos arrabaldes das cidades dos levitas; o limite de quem repousa no Shabat tem duas mil amot, mas em círculo. “Arrabaldes” traduz “מִגְרְשֵׁי”, os espaços abertos em volta das cidades. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1793Rav Chananya: como isto sejam todos
A guemará
וְרַבָּנַן? תָּנֵי, רַב חֲנַנְיָה אוֹמֵר: כָּזֶה יְהוּ כׇּל שׁוֹבְתֵי שַׁבָּת.

E os Sábios (o que fazem do “isto”)? Foi ensinado: Rav Chananya diz: Como isto (em quadrado) sejam todos os que repousam no Shabat.

Nota

Os Sábios, que dizem que as duas mil amot são quadradas (Mishná Eruvin 4:8), leem o “isto” ao contrário: como isto, isto é, em quadrado, seja o limite de todos os que repousam no Shabat. A tradução de referência explica do mesmo modo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1794Rabi Acha bar Yaakov: elas e a sua diagonal
A guemará
אָמַר רַבִּי אַחָא בַּר יַעֲקֹב: הַמַּעֲבִיר אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים אֵינוֹ חַיָּיב עַד שֶׁמַּעֲבִיר הֵן וַאֲלַכְסוֹנָן.

Disse Rabi Acha bar Yaakov: Quem transporta um objeto por quatro amot no domínio público não é culpado até que o transporte por elas e pela sua diagonal.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hen ve’alachsonan”
הן ואלכסונן - ד"א וח' חומשי אמה דאמרן כזה יהיו כל שובתי שבת פיאות תן להן וגבי העברה ליכא למיתב פיאות אלא כי האי גוונא שנותנין להן שיעור אלכסונן דהא ליכא למימר בהו רבוע ועיגול:

“Elas e a sua diagonal” — quatro amot e oito quintos de amá; pois dissemos: “Como isto sejam todos os que repousam no Shabat”: dá-lhes lados (em quadrado). E, a respeito de transportar, não é possível dar lados senão desta maneira: que se lhes dá a medida da sua diagonal; pois não se pode falar nelas de quadrado e círculo (já que se transporta numa só linha).

Nota

Segundo o Rashi, quem transporta no domínio público só é culpado se transportou quatro amot mais oito quintos de amá, a diagonal de um quadrado de quatro amot; pois, já que a Torá dá “lados” às medidas do Shabat, e no transporte não se pode falar de quadrado nem de círculo, a medida é a da diagonal. A regra de que a diagonal é uma amá e dois quintos para cada amá está em Eruvin 57a e Sukkah 8a (conferidos): “כל אמתא בריבועא אמתא ותרי חומשי באלכסונא”. No texto do Sefaria, o nome é “רַבִּי אַחָא בַּר יַעֲקֹב”; em Eruvin 17b o amora é chamado Rav Acha bar Yaakov, e assim o identifica o Rashi em Eruvin 40b, e a tradução de referência diz aqui “Rav”. Seguimos o texto: Rabi.

1795Rav Pappa: Rava nos examinou com uma coluna
A guemará
אָמַר רַב פָּפָּא בָּדֵיק לַן רָבָא: עַמּוּד בִּרְשׁוּת הָרַבִּים גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה וְרוֹחַב אַרְבָּעָה, צָרִיךְ הֵן וַאֲלַכְסוֹנָן אוֹ לָא? וְאָמְרִינַן לֵיהּ: לָאו הַיְינוּ דְּרַב חֲנַנְיָה? דְּתַנְיָא, רַב חֲנַנְיָה אוֹמֵר: כָּזֶה יְהוּ כׇּל שׁוֹבְתֵי שַׁבָּת.

Disse Rav Pappa: Rava nos examinou: Uma coluna no domínio público, alta dez tefachim (palmos) e larga quatro, precisa ter elas e a sua diagonal (isto é, de quatro em quadrado, para ser domínio privado), ou não? E lhe dissemos: Não é isto o que ensinou Rav Chananya? Pois foi ensinado: Rav Chananya diz: Como isto (em quadrado) sejam todos os que repousam no Shabat.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “badik lan”
בדיק לן - מנסה אותנו:

“Examinou-nos” — isto é, pôs-nos à prova.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mi ba’inan hen ve’alachsonan”
מי בעינן הן ואלכסונן - שיהא רחב ד' בריבוע שתוכל למצוא בו אלכסון דדבר עגול אין לו אלכסון:

“Precisamos delas e da sua diagonal?” — isto é, que seja larga quatro tefachim em quadrado, de modo que possas achar nela diagonal; pois uma coisa redonda não tem diagonal.

Nota

Uma coluna de dez tefachim de altura e quatro de largura no domínio público é domínio privado. Rava perguntou se os quatro tefachim precisam ser “elas e a sua diagonal”. Seguimos o Rashi: a pergunta é se a coluna precisa ser quatro por quatro em quadrado, de modo que tenha diagonal, pois uma coisa redonda não tem diagonal; e os alunos responderam com a palavra de Rav Chananya, “como isto sejam todos”, isto é, em quadrado. A tradução de referência entende que a largura precisa medir quatro tefachim mais a diagonal. O lema do segundo comentário diz “מי בעינן”, “precisamos?”, onde a guemará diz “צָרִיךְ”. Quem conta é Rav Pappa, aluno de Rava.

O pobre faz eruv com os pés · הֶעָנִי מְעָרֵב בְּרַגְלָיו

1796A mishná: “o pobre faz eruv com os seus pés”
A guemará
וְזֶה הוּא שֶׁאָמְרוּ הֶעָנִי מְעָרֵב בְּרַגְלָיו. אָמַר רַבִּי מֵאִיר: אָנוּ אֵין לָנוּ אֶלָּא עָנִי וְכוּ׳.

A mishná diz: E é isto que disseram: O pobre faz eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat) com os seus pés. Disse Rabi Meir: Nós não temos esta lei senão para o pobre etc.

Nota

A guemará cita a Mishná Eruvin 4:9 (em Eruvin 49b, bloco 1743), mantendo ali a tradução: “E é isto que disseram: O pobre faz eruv com os seus pés. Disse Rabi Meir: Nós não temos esta lei senão para o pobre”. Aqui o Talmud lê “וְזֶה הוּא שֶׁאָמְרוּ”, onde em 49b se lê “וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ” e em Eruvin 47a “וְזֶהוּ שֶׁאָמְרוּ”; o sentido é o mesmo. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1797Rav Nachman: a disputa é em “no meu lugar”
A guemará
אָמַר רַב נַחְמָן: מַחֲלוֹקֶת ״בִּמְקוֹמִי״, דְּרַבִּי מֵאִיר סָבַר: עִיקָּר עֵירוּב בְּפַת,

Disse Rav Nachman: A disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda é no caso de quem disse: “A minha shevitá é no meu lugar”; pois Rabi Meir sustenta: o principal do eruv é com pão,

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “machloket bimkomi”
מחלוקת במקומי - גרסינן ביו"ד מחלוקת דר' מאיר ור' יהודה דקא שרי ר' יהודה אפילו לעשיר לערב ברגליו באומר שביתתי במקומי וזהו שאמרו דמתני' לקמן מפרש אהיכא קאי אי אמכיר אילן דקתני דאמר שביתתי במקום פלוני או אאינו בקי דקתני דאמר שביתתי במקומי:

“A disputa é em ‘no meu lugar’” — lemos com yod (bimkomi, “no meu lugar”). A disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda, em que Rabi Yehuda permite mesmo ao rico fazer eruv com os pés, é no que diz: “A minha shevitá é no meu lugar”. E o “é isto que disseram” da mishná, adiante a guemará explica a que se refere: se ao que conhece uma árvore, de que ensina que disse “A minha shevitá é em tal lugar”, ou ao que não é perito, de que ensina que disse “A minha shevitá é no meu lugar”.

Nota

Segundo o Rashi, deve-se ler “בִּמְקוֹמִי”, “no meu lugar”, com yod: a disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda, em que Rabi Yehuda permite também ao rico fazer eruv com os pés, é sobre quem diz “a minha shevitá é no meu lugar”; e a guemará vai explicar adiante se o “é isto que disseram” da mishná se refere ao que conhece a árvore ou ao que não é perito. O Rashi parafraseia a mishná como “שביתתי במקום פלוני”, “a minha shevitá é em tal lugar”, para quem conhece a árvore, e chama de “זהו שאמרו” o que a guemará cita como “וְזֶה הוּא שֶׁאָמְרוּ”. A frase de Rav Nachman continua em Eruvin 51b.

O daf termina aqui, no meio da palavra de Rav Nachman sobre a disputa de Rabi Meir e Rabi Yehuda: depois da palavra de Rava sobre quem, correndo, chega ao tronco, do caso de Rabba e Rav Yossef no caminho, da fonte das duas mil amot na cadeia de analogias de Rav Chisda, das amot redondas de Rabi Chanina ben Antigonos e da diagonal. A guemará prossegue em Eruvin 51b.