Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Dalet · Halachá 3
עֵרוּבִין

Quem saiu com permissão para salvar e as armas das cidades da fronteira

Perek Dalet, Mi SheHotziuhu, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Terceira halachá do Perek Dalet, Mi SheHotziuhu (aquele a quem levaram para fora), de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que quem saiu do seu techum (limite de Shabat) com permissão, para salvar, e ouviu no caminho que o fato já foi feito, tem duas mil amot para cada lado; se estava dentro do techum, é como se não tivesse saído, pois todos os que saem para salvar voltam ao seu lugar. A guemará explica por que a Mishná precisou dizê-lo; traz Rav Huna sobre o techum de Tiberíades e o de Magdala, e a palavra, em nome de Rav Ada bar Ahava e de Rabi Shimon ben Lakish, de que mesmo quem foi até Magdala e voltou é como se não tivesse saído; Rabi Yehoshua Deromaya pergunta sobre quem saiu intencionalmente, e Rabi Pinchas responde com a própria Mishná; e termina com a baraita dos gentios que vêm às cidades próximas da fronteira, contra os quais se sai com armas, e com a casa junto à muralha onde, no princípio, se guardavam as armas. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 44b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מִי שֶׁיָצָא בִרְשׁוּת אָמְרוּ לוֹ כְּבָר נַעֲשָׂה מַעֲשֶׂה יֶשׁ לוֹ אַלְפַּיִים אַמָּה לְכָל רוּחַ. אִם הָיָה בְתוֹךְ הַתְּחוּם כִאִילּוּ לֹא יָצָא שֶׁכָּל הַיוֹצְאִין לְהַצִּיל חוֹזְרִין לִמְקוֹמָן:

Mishná: Aquele que saiu do seu techum com reshut (permissão), e lhe disseram: “o fato já foi feito”, tem alpayim amá (dois mil côvados) para cada lado. Se estava dentro do techum, é como se não tivesse saído, pois todos os que saem para salvar voltam ao seu lugar.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01Por que duas mil amot; Tiberíades e Magdala; quem saiu intencionalmente
Yerushalmi · Eruvin 4:3
פיס׳. מִי שֶׁיָצָא בִרְשׁוּת כול׳. דִּלֹ כֵן מַה אֲנָן אָמְרִין. יֵעָשֶׁה כְמִי שֶׁיָּצָא בְאוֹנֶס וְלֹא יִהְיֶה לוֹ אֶלָּא אַרְבַּע אַמּוֹת. לְפוּם כֵן צָרַךְ מֵימַר. יֶשׁ לוֹ אַלְפַּיִים אַמָּה לְכָל רוּחַ.

“Aquele que saiu com reshut” etc. Pois, se não fosse assim, isto é, se a Mishná não o dissesse, o que diríamos? Que ele seja tratado como quem saiu do techum à força, e não tenha senão quatro amot (côvados). Por isso a Mishná precisou dizer: “tem alpayim amá para cada lado”.

אָמַר רַב חוּנָה. וְהֵן שֶׁיְּהוּ אַרְבַּע אַמּוֹת אוֹכְלוֹת מִתְּחוּם טִבֵּרִיָּה וּמִתְּחוּם מַגְדָּלָה. רִבִּי חוּנָה בְשֵׁם רַב אָדָא בַּר אַחֲוָוה רִבִּי לָא בְשֵׁם רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ. וַאֲפִילוּ יָצָא לְמַגָדָּלָה וְחָזַר כְּאִילּוּ לֹא יָצָא. רִבִּי יוֹשׁוּעַ דְּרוֹמִיָּה בָעֵי. עַד כְּדוֹן בְּשֶׁיָּצָא שׁוֹגֵג. וַאֲפִילוּ יָצָא מֵזִיד. אָמַר רִבִּי פִינְחָס. מַתְנִיתָה אָמְרָה כֵן. שֶׁכָּל הַיוֹצְאִין לְהַצִּיל חוֹזְרִין לִמְקוֹמָן. חוֹזְרִין אֲפִילוּ בְזַיְינָן.

Disse Rav Huna: e isso desde que quatro amot dele avancem sobre o techum de Tiberíades e sobre o techum de Magdala. Rav Huna, em nome de Rav Ada bar Ahava, e Rabi La, em nome de Rabi Shimon ben Lakish, disseram: mesmo que tenha saído até Magdala e voltado, é como se não tivesse saído. Rabi Yehoshua Deromaya perguntou: até aqui, isso vale quando saiu por engano; vale mesmo se saiu intencionalmente? Disse Rabi Pinchas: a matnita (Mishná) diz assim: “pois todos os que saem para salvar voltam ao seu lugar”. Voltam mesmo com as suas armas.

02Os gentios que vêm às cidades da fronteira e a casa junto à muralha
Yerushalmi · Eruvin 4:3
תַּנֵּי. גּוֹיִם שֶׁבָּאוּ לָעַיָירוֹת הַסְּמוּכוֹת לַסְּפַר לִיטּוֹל מֵהֶן אֲפִילוּ תֵּבֶן אֲפִילוּ עֵצִים. יוֹצְאִין עֲלֵיהֶן בְּזַיִין וּמַחֲזִיריִן אֶת הַזַּיִין לִמְקוֹמָן. בָּאוּ לָעַיָירוֹת הַמּובְלָעוֹת. אֵין יוֹצְאִין עֲלֵיהֶן בְּזַיִין אֶלָּא אִם כֵּן בָּאוּ לְעִיסְקֵי נְפָשׁוֹת.

Foi ensinado numa baraita: goyim (gentios) que vieram às cidades próximas da sefar (fronteira) para tomar delas mesmo teven (palha), mesmo lenha: sai-se contra eles com armas, e levam-se as armas de volta ao seu lugar. Se vieram às cidades encravadas no interior do país, não se sai contra eles com armas, a não ser que tenham vindo por questões de vidas.

בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ מוֹלִיכִין אֶת הַזַּיִין לַבַּיִת שֶׁהוּא סָמוּךְ לַחוֹמָה. פַּעַם אַחַת בָּאוּ עֲלֵיהֶן הַשּׂוֹנְאִין. הָיוּ מַדְחִיקִין לִיטּוֹל אֶת הַזַּיִין וְהָרְגוּ אֵילּוּ מֵאֵילּוּ יוֹתֵר מִמָּה שֶׁהָרְגוּ מֵהֶן הַשּׂוֹנְאִין. הִתְקִינוּ שֶׁיְּהֵא כָל אֶחָד וְאֶחָד נוֹטֵל בְּבֵיתוֹ.

No princípio, levavam as armas de volta para a casa que fica junto à muralha. Certa vez, quando vieram contra eles os inimigos, espremiam-se para tomar as armas, e mataram uns aos outros mais do que os inimigos mataram deles. Por isso instituíram que cada um tomasse as suas armas em sua casa.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Dalet de Massechet Eruvin, Mi SheHotziuhu, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 4:3 da Mishná avulsa, inteira. As diferenças são estas: אָמְרוּ לוֹ, sem a conjunção, onde a avulsa tem וְאָמְרוּ לוֹ; אַלְפַּיִים onde a avulsa tem אַלְפַּיִם; כִאִילּוּ onde a avulsa tem כְּאִלּוּ; הַיוֹצְאִין onde a avulsa tem הַיּוֹצְאִים; e שֶׁיָצָא, sem dagesh no yud, onde a avulsa tem שֶׁיָּצָא. Não há diferença de conteúdo. A halachá ocupa três segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, o segundo é a seção 01 e o terceiro é a seção 02, cada seção dividida aqui em dois pares de hebraico e português. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 44b, e ali se lê וְאָמְרוּ לוֹ e כׇּל הַיּוֹצְאִים לְהַצִּיל, sem a palavra que abre a frase no Yerushalmi.

Sobre a Mishná. Quem saiu do seu techum com permissão, para testemunhar ou para salvar, e ouviu no caminho que já não era necessário, não fica reduzido às quatro amot de quem saiu à força, como na Mishná Eruvin 4:1, mas tem duas mil amot a partir do lugar em que está; e, se ainda estava dentro do techum da sua cidade, volta como se não tivesse saído. No Bavli, Eruvin 44b, Rabba explica que, se estava dentro do seu próprio techum, é como se não tivesse saído da sua casa, e Rav Shimi bar Chiya explica que, se as duas mil amot que os sábios lhe deram ficam encravadas dentro do techum da sua cidade, é como se não tivesse saído do seu techum: אִם הָיוּ תְּחוּמִין שֶׁנָּתְנוּ לוֹ חֲכָמִים מוּבְלָעִין בְּתוֹךְ הַתְּחוּם שֶׁלּוֹ, כְּאִילּוּ לֹא יָצָא מִתְּחוּמוֹ.

Sobre a seção 01. A guemará começa como na halachá 4:1, mas ao contrário: lá, se a Mishná não o dissesse, quem foi levado à força seria tratado como quem saiu com permissão; aqui, quem saiu com permissão seria tratado como quem saiu à força. A palavra de Rav Huna parece tratar de quem saiu de Tiberíades e ouviu, já dentro do techum de Magdala, que não era mais necessário: as suas duas mil amot devem alcançar quatro amot dentro do techum de Tiberíades, e então é como se não tivesse saído; é essa a leitura de Guggenheimer, que remete ao Bavli 44b. A segunda palavra estende isso a quem chegou até a própria Magdala. A pergunta de Rabi Yehoshua Deromaya é se a regra vale só para quem saiu por engano, julgando que era necessário, ou também para quem saiu sabendo; Rabi Pinchas responde com a palavra “todos” da Mishná. A frase final, “voltam mesmo com as suas armas”, tem paralelo no Bavli, Eruvin 45a, em nome de Rav Yehudá, que disse em nome de Rav: שֶׁחוֹזְרִין בִּכְלֵי זַיִין לִמְקוֹמָן, “que voltam com as armas ao seu lugar”.

Sobre a seção 02. A baraita está na Tosefta, Eruvin 3:5 na numeração do Sefaria e 3:5–6 na edição de Lieberman, que diz: באו לעיירות הסמוכות לספר, אפי' ליטול את התבן, ואפי' ליטול את הפת, יוצאין עליהן בזיין ומחללין עליהן את השבת, e, sobre a casa junto à muralha, בראשנה היו מניחין זינן בבית הסמוך לחומה, terminando com התקינו שיהא כל אחד ואחד מחזיר לביתו; ali a Tosefta abre com os gentios que vieram sobre cidades de Israel, contra os quais só se sai com armas por questões de vidas. No Bavli, Eruvin 45a, Rav Yehudá diz em nome de Rav נׇכְרִים שֶׁצָּרוּ עַל עַיְירוֹת יִשְׂרָאֵל — אֵין יוֹצְאִין עֲלֵיהֶם בִּכְלֵי זֵיינָן, e a baraita ali acrescenta que, se vieram por questões de vidas, sai-se contra eles com armas e profana-se por eles o Shabat, e que, na cidade próxima da fronteira, isso vale mesmo se vieram só por palha e restolho: וּבָעִיר הַסְּמוּכָה לַסְּפָר, אֲפִילּוּ לֹא בָּאוּ עַל עִסְקֵי נְפָשׁוֹת אֶלָּא עַל עִסְקֵי תֶּבֶן וָקַשׁ. Ali também está o episódio da casa junto à muralha, em que os inimigos os reconheceram, os perseguiram e entraram atrás deles, e a instituição foi que voltassem ao seu lugar com as armas.

Leituras incertas. אוֹכְלוֹת, ao pé da letra, é “comem”, e foi traduzido “avancem sobre”. לְמַגָדָּלָה foi traduzido “até Magdala”. הַמּובְלָעוֹת, “encravadas”, foi completado com “no interior do país”, em oposição às cidades da fronteira; עֵצִים foi traduzido “lenha”. נוֹטֵל בְּבֵיתוֹ foi traduzido literalmente, “tomasse em sua casa”, isto é, que cada um guardasse as suas armas em casa; a Tosefta diz מחזיר לביתו. A frase חוֹזְרִין אֲפִילוּ בְזַיְינָן foi deixada sem atribuição, como está no hebraico; pode ser continuação da palavra de Rabi Pinchas ou da guemará.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer não traduz a frase חוֹזְרִין אֲפִילוּ בְזַיְינָן, que está no hebraico e foi traduzida aqui. Ele chama Rebbi Ḥuna ao segundo רִבִּי חוּנָה; aqui ficou “Rav Huna”, segundo a grafia do site para חוּנָה, e o registro fica nesta nota. Ele traduz פיס׳ apenas como “Paragraph”.

Nomes nesta página: Rav Huna, רַב חוּנָה e רִבִּי חוּנָה; Rav Ada bar Ahava, רַב אָדָא בַּר אַחֲוָוה; Rabi La, רִבִּי לָא; Rabi Shimon ben Lakish, רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ; Rabi Yehoshua Deromaya, רִבִּי יוֹשׁוּעַ דְּרוֹמִיָּה; Rabi Pinchas, רִבִּי פִינְחָס.

Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e um marcador de folha da edição de Vilna, 28b, antes de הַמּובְלָעוֹת; o texto do Sefaria desta halachá não tem marcador numérico, e nenhum foi acrescentado; não há colchetes nem parênteses no hebraico. As abreviações פיס׳ e כול׳ foram mantidas, e também a grafia דִּלֹ כֵן e הַמּובְלָעוֹת, como estão; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria.