Completa a discussão de 44a sobre as baraitot da parede da sucá que caiu: resolvida a contradição entre os utensílios, resta a contradição entre a pessoa que não se pode pôr no lugar da parede e a pessoa que se faz parede; a guemará responde que uma fala de quem sabe que serve de divisória, e a outra de quem não sabe; e assim também se explica o caso de Nechemya, filho de Rav Chanilai. Seguem os casos dos bnei gananá, que Shmuel mandou açoitar, dos odres de Rava em Machoza e das coisas levadas para Levi, Zeiri e Rav Shimi bar Chiya. Começa então uma nova mishná: quem saiu do techum com permissão e soube que já não era preciso tem duas mil amot para cada lado; se estava dentro do techum, é como se não tivesse saído; e os que saem para salvar voltam para os seus lugares. Na guemará, Rabba explica que ele volta a medir a partir da sua casa, e Rav Shimi bar Chiya, que os techumin absorvidos no seu techum o levam de volta; divergem sobre a absorção de techumin, e Abaye objeta a Rabba com o caso de quem repousou numa caverna.
A guemará objeta: Mas pessoa contra pessoa (as duas baraitot sobre a parede de pessoa) é difícil!
“Mas pessoa contra pessoa é difícil” — pois, de fato, quanto à cama contra cama, há como responder, como disseste (em 44a): aquela baraita que ensina “e ergue a cama” fala da quarta parede, pois ensina “para que o sol não caia sobre o morto nem sobre os alimentos”; logo, a cama não vem para tornar a sucá válida. Mas a pessoa: eis que ensina “para que coma, beba e durma”; logo, vem para cumprir com ela (com a sucá fechada pela pessoa) a obrigação da sucá. Estabelece-se ali que estas três coisas são a mitzvá (preceito) da sucá; logo, é a terceira parede que falta (a que torna a sucá válida); pois, se fosse a quarta parede, a sucá não seria invalidada por ela, como dissemos. E, embora faça uma tenda com a pessoa, é permitido segundo essa baraita.
A contradição entre os utensílios das duas baraitot, a cama que se proíbe erguer e a cama que se ergue, foi resolvida em Eruvin 44a (bloco 1530): uma trata da terceira parede, e a outra, da quarta. Segundo o Rashi, isso não serve para a pessoa: a baraita que permite fazer do companheiro uma parede (bloco 1521) diz “para que coma, beba e durma”, e estas três coisas são a mitzvá da sucá; então ela fala da terceira parede, a que torna a sucá válida, e mesmo assim permite. A frase “אוקמיה התם”, que traduzimos “estabelece-se ali”, tem leitura incerta; o sentido do argumento, porém, é claro. A última frase do Rashi, “ואע"ג דעביד אהל. שרי”, conclui a leitura da baraita: embora faça uma tenda com a pessoa, ela permite.
A guemará responde: Também pessoa contra pessoa não é difícil: aqui, quando é com conhecimento (é proibido); aqui, sem conhecimento (é permitido).
“Com conhecimento” — que quem está ali sabe que o puseram ali no lugar da parede caída para servir de divisória: é proibido (e disto fala a baraita que proíbe).
“Sem conhecimento” — é permitido (e disto fala a baraita que permite); pois não se pode falar de proibição por fazer uma tenda, já que esse não é o modo de construir (com uma pessoa que está ali sem saber). Mas, com um utensílio (como a cama), esse é o modo de construir; por isso, a terceira parede é proibida com ele.
Seguimos o Rashi: a baraita que proíbe pôr uma pessoa no lugar da parede caída fala de quem sabe que foi posto ali para servir de divisória; a que permite, de quem não sabe, pois uma pessoa que está ali sem saber não é um modo de construir. Com um utensílio, que é o modo de construir, o Rashi diz que a terceira parede é proibida, isto é, a distinção de 44a entre a terceira parede e a quarta continua valendo. A tradução de referência diz que o utensílio, que não tem conhecimento, conta sempre como divisória e é proibido em todos os casos; o Rashi limita a proibição à terceira parede.
A guemará objeta: Mas o caso de Nechemya, filho de Rav Chanilai, foi com conhecimento! Responde: Foi sem conhecimento.
“Foi sem conhecimento” — no caso de Nechemya, as pessoas não sabiam para que as tinham reunido ali (para servir de divisória).
O caso está em Eruvin 43b (blocos 1513 e 1514): Rav Nachman disse a Rav Chisda “faze-lhe uma divisória de pessoas, e ele entrará”. O hebraico não diz por que o caso parecia ser com conhecimento; segundo a tradução de referência, porque as pessoas foram chamadas para servir de divisória. Aqui o hebraico diz “רַבִּי נְחֶמְיָה בְּרֵיהּ דְּרַבִּי חֲנִילַאי”, “Rabi Nechemya, filho de Rabi Chanilai”, onde em 43b dissera “נְחֶמְיָה בְּרֵיהּ דְּרַב חֲנִילַאי”; mantemos a forma usada nas páginas anteriores.
A guemará objeta: Rav Chisda, ao menos, foi com conhecimento! Responde: Rav Chisda não era do número dos que formavam a divisória.
“Rav Chisda, ao menos” — que fez a divisória por ordem de Rav Nachman e se colocou ali como um deles: ele sabia para que estavam ali.
“Não era do número” — dos que faziam a divisória (não era contado entre eles, pois ela estava completa sem ele).
Seguimos o Rashi: Rav Chisda, que fez a divisória por ordem de Rav Nachman, colocou-se entre as pessoas, e ele sabia para que estavam ali; a resposta é que ele não era contado entre os que formavam a divisória, que estava completa sem ele. A tradução de referência diz que Rav Chisda reuniu as pessoas naquele lugar.
A guemará conta: Aqueles bnei gananá (os que preparam os dosséis nupciais), que levaram água para dentro por uma divisória de pessoas: Shmuel mandou açoitá-los. Disse Shmuel: Se disseram que se permite sem conhecimento, dirão que se permite com conhecimento?!
“Que levaram água para dentro” — do domínio público para o domínio privado (passando entre as pessoas); e os que formavam a divisória foram postos ali com conhecimento, pois lhes avisaram que era para isso que estavam sendo reunidos.
A expressão “בְּנֵי גְנָנָא” aparece também em Eruvin 40a (bloco 1371), onde o Rashi a explica como os que amarram dosséis para os noivos; seguimos essa explicação. A tradução de referência entende aqui os membros de um cortejo de casamento. “Mandou açoitá-los” traduz “נַגְּדִינְהוּ”; o hebraico não diz que tipo de açoite. O Rashi esclarece que a água foi levada do domínio público para o domínio privado, e que as pessoas sabiam para que tinham sido reunidas.
A guemará conta: Aqueles odres que estavam jogados no ristaka (rua) de Machoza: quando Rava veio da sua pirka (lição pública), levaram-nos para dentro para ele. Noutro Shabat, quiseram levá-los para dentro da mesma forma, e Rava os proibiu, pois é como com conhecimento, e é proibido.
“Os odres” — isto é, bolsas de couro para líquidos; e eram de Rava.
“Ristaka” — a rua da cidade, que é domínio público (onde é proibido carregar no Shabat).
“Quando Rava veio da sua lição” — e uma multidão dos que tinham ouvido a derashá (exposição pública) vinha atrás dele; o servidor de Rava tomou-os (os odres) e trouxe-os para dentro de casa, entre as divisórias formadas pelos que vinham.
O hebraico não diz por que, no outro Shabat, já era “como com conhecimento”; segundo a tradução de referência, porque as pessoas já sabiam que eram usadas para isso. O hebraico “זִיקֵי” e o comentário do Rashi “נודות” designam odres ou bolsas de couro para líquidos. Grafamos Machoza, como no resto do tratado.
A guemará conta: Para Levi levaram para dentro palha; para Zeiri, aspasta (forragem); para Rav Shimi bar Chiya, água.
“Aspasta” — é forragem verde de cereal (para os animais).
O hebraico não diz como levaram essas coisas; segundo a tradução de referência, por divisórias de pessoas que não sabiam para que eram usadas, como no caso de Rava. Rav Shimi bar Chiya é o mesmo amora cuja explicação da mishná vem no bloco 1543.
MISHNÁ. Quem saiu com permissão para fora do techum (o limite de duas mil amot que se pode andar no Shabat), e lhe disseram: “Já foi feito o ato” (e não precisas ir), tem duas mil amot (côvados) para cada lado.
MISHNÁ. “Quem saiu com permissão” — isto é, para uma mitzvá ou para salvar vidas, por exemplo, para o testemunho do mês novo (perante o tribunal), ou para salvar pessoas das tropas ou do rio, ou a parteira que vem para fazer um parto no Shabat.
“Já foi feito o ato” — dizem-lhe que o que ia fazer já foi feito, e não precisas ir adiante.
“Tem duas mil amot para cada lado” — a partir do lugar onde lhe foi dito que já foi feito o ato.
Encerrada a guemará sobre a mishná de quem foi tirado do techum (Mishnayot Eruvin 4:1 e 4:2, em Eruvin 41b), inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Dalet (Mi SheHotziuhu), que corresponde à Mishná Eruvin 4:3 na numeração das edições avulsas da Mishná (conferido); ela continua no bloco 1540. Trata de quem saiu do techum com permissão, isto é, para uma mitzvá ou para salvar vidas, e soube no caminho que já não era preciso. Os exemplos do Rashi correspondem à Mishná Rosh Hashaná 2:5, segundo a qual Rabban Gamliel, o Velho, instituiu que as testemunhas do mês novo tenham duas mil amot para cada lado, e não só elas, mas também a parteira que vem fazer um parto e quem vem salvar do incêndio, das tropas, do rio e do desabamento (conferido); a guemará cita essa regra em Eruvin 45a. Na edição avulsa lê-se “בִרְשׁוּת”, “יֶשׁ” e “לְכָל”, onde o Talmud diz “בִּרְשׁוּת”, “יֵשׁ” e “לְכׇל”; são diferenças de vocalização.
Se estava dentro do techum quando lhe disseram isso, é como se não tivesse saído. Todos os que saem para salvar alguém voltam para os seus lugares.
“É como se não tivesse saído” — o sentido explica-se na guemará (Rabba e Rav Shimi bar Chiya, a seguir).
“Voltam para os seus lugares” — o sentido explica-se na guemará (Eruvin 45a).
Continuação da Mishná Eruvin 4:3. O que significa “dentro do techum” é discutido logo a seguir, por Rabba e por Rav Shimi bar Chiya (blocos 1541 a 1544). A regra dos que saem para salvar é explicada em Eruvin 45a, onde Rav Yehuda diz em nome de Rav que eles voltam com as suas armas para os seus lugares (conferido). Na edição avulsa lê-se “שֶׁכָּל הַיּוֹצְאִים”, “pois todos os que saem”, onde o Talmud diz “כׇּל הַיּוֹצְאִים”, “todos os que saem”; na edição avulsa a última frase é a razão da anterior. Lê-se também “בְתוֹךְ” e “כְּאִלּוּ”, onde o Talmud diz “בְּתוֹךְ” e “כְּאִילּוּ”, diferenças de grafia e de vocalização.
GUEMARÁ. Que quer dizer “se estava dentro do techum, é como se não tivesse saído”? Rabba disse: Assim a mishná diz: Se estava dentro do seu techum, o da sua casa, é considerado como se não tivesse saído de dentro da sua casa.
GUEMARÁ. “Que quer dizer ‘como se não tivesse saído’?” — a guemará pergunta: Eis que certamente não saiu, pois ainda está dentro do techum (e a mishná parece dizer o óbvio).
Assim lemos o texto da guemará: “Disse Rabba: Assim diz: E se estava dentro do seu techum, é considerado como se não tivesse saído da sua casa”; isto é, este “como se não tivesse saído” refere-se à sua casa. E assim diz a mishná: Se ainda estava dentro do techum da sua casa, volta para a sua casa, e é como se não tivesse arrancado os pés de casa; por isso tem, a partir da sua casa, duas mil amot para cada lado, como no início; e não dizemos que tem duas mil amot para cada lado a partir do lugar onde lhe foi dito (como quem já saiu do techum).
Segundo o Rashi, a pergunta é que a mishná diz o óbvio: quem está dentro do techum não saiu dele. Rabba responde que “como se não tivesse saído” se refere à casa: quem saiu com permissão e ainda estava dentro do seu techum original quando lhe disseram que não era preciso continuar mede de novo as duas mil amot a partir da sua casa, e não a partir do lugar onde estava. O Rashi abre o comentário com “ה"ג”, “assim lemos”, e cita “ואם היה” e “כאילו לא יצא מביתו דמי”, onde o nosso texto diz “אִם הָיָה” e “כְּאִילּוּ לֹא יָצָא מִתּוֹךְ בֵּיתוֹ דָּמֵי”, “de dentro da sua casa”.
A guemará objeta: É evidente! Responde: Poderias dizer que, uma vez que se arrancou de casa, arrancou-se; ela (a mishná) nos ensina que não.
“É evidente” — pois, uma vez que ainda não saiu do techum da sua casa, é considerado como se estivesse na sua casa (e a mishná não precisaria ensiná-lo).
“Poderias dizer: uma vez que se arrancou” — para sair com permissão do techum, e os Rabanan (os sábios) lhe instituíram duas mil amot para cada lado a partir do lugar onde lhe foi dito; dirias que também aqui, embora esteja dentro do seu techum, meçamos para ele a partir dali (do lugar onde lhe foi dito), e, se quiser sair para além do techum da sua casa, que saia. Ela nos ensina que não.
Seguimos o Rashi: “arrancou-se” traduz “עָקַר”, arrancar os pés do lugar, isto é, partir com a intenção de sair do techum. Poderia pensar-se que, ao partir, ele perdeu o lugar de repouso da sua casa, e que as duas mil amot se medem a partir do lugar onde lhe disseram que não era preciso continuar; a mishná ensina que não é assim. O lema do Rashi diz “כיון דעקר”, onde a guemará diz “הוֹאִיל וְעָקַר”.
Rav Shimi bar Chiya disse: Assim a mishná diz: Se os techumin que os sábios lhe deram, a partir do lugar onde lhe disseram, estavam absorvidos dentro do seu techum, o da sua casa, é como se não tivesse saído do seu techum, e volta para a sua casa.
“Rav Shimi bar Chiya disse: Assim diz: Se os techumin que os sábios lhe deram estavam absorvidos dentro do seu techum, é considerado como se não tivesse saído do seu techum” — isto é, na mishná tratamos de quem já saiu do seu techum, e “como se não tivesse saído” refere-se aos techumin, como se pensou de início. E que quer dizer “se estava dentro do techum”? Assim diz a mishná: Se aquelas duas mil amot que lhe foram dadas para cada lado, a partir do lugar onde lhe foi dito que já foi feito o ato, entram dentro das duas mil do techum da sua casa (isto é, se as duas áreas se sobrepõem), é considerado como se não tivesse saído do seu techum, e anda até a sua casa, e eis que está como no início.
Seguimos o Rashi: para Rav Shimi bar Chiya, a mishná fala de quem já tinha saído do seu techum original; se as duas mil amot medidas a partir do lugar onde lhe disseram alcançam o techum da sua casa, ele pode andar até lá e voltar para a sua casa. “Absorvidos” traduz “מוּבְלָעִין”, literalmente “engolidos”. O lema do Rashi termina com “מתחומו דמי”, “é considerado como se não tivesse saído do seu techum”, onde a guemará diz só “מִתְּחוּמוֹ”.
Em que divergem? Um mestre, Rav Shimi, sustenta que a havla’at techumin (absorção de um techum no outro) é algo; e um mestre, Rabba, sustenta que não é algo.
“Rav Shimi sustenta: a absorção é algo” — isto é, tem efeito; e, uma vez que os techumin estão absorvidos no seu techum e o levam para dentro do seu techum original, tornam-se como um só techum, e ele é como quem não saiu do techum. “E Rabba sustenta: não é algo”; por isso Rabba não pode explicar “como se não tivesse saído” numa mishná que trata de quem já saiu para fora do techum; pois, se saiu, perdeu a shevitá (o lugar de repouso de Shabat, a partir do qual se mede o techum) da sua casa e adquiriu-a para si a partir do lugar onde lhe foi dito. E Rabba não aceita aquilo que os de Neharde’a ensinaram acima (Eruvin 41b): “E, se é esperto, entra no seu techum, e, uma vez que entrou, entrou.” E há quem leia de outra forma (segunda leitura): que tanto Rabba como Rav Shimi a estabelecem em quem já saiu do seu techum, e em ambos se lê: “Se os techumin que os sábios lhe deram estavam absorvidos dentro do seu techum”; mas, no de Rabba, lê-se “como se não tivesse saído da sua casa”, e, no de Rav Shimi, lê-se “como se não tivesse saído do seu techum”. E nisto divergem: para Rabba, a absorção não os torna um só techum, de modo que tenha durante todo o dia oito mil amot; mas, quando os techumin que lhe foram dados o levam até dentro do seu techum, é como se não tivesse saído da sua casa de modo algum, e não adquiriu shevitá em outro lugar, e tem duas mil amot a partir da sua casa para cada lado, como no início. E Rav Shimi sustenta: “como se não tivesse saído da sua casa” não dizemos, mas certamente adquiriu shevitá no lugar onde lhe foi dito; mas “como se não tivesse saído do seu techum” dizemos, e não perdeu o seu primeiro techum, e tem quase oito mil amot (os dois techumin juntos): por exemplo, do lugar onde lhe foi dito para o leste, duas mil; e para o oeste, duas mil; e dali até a sua casa, duas mil; e da sua casa para além, duas mil; pois a absorção de techumin torna todos os techumin como um só techum. E Rabba sustenta: não é algo, para torná-los um só techum; por isso, forçosamente, não se pode estabelecer “como se não tivesse saído” só quanto ao techum, e dizer que não perdeu o seu techum, mas que o consideramos como quem saiu, para ser leniente, de modo que tenha shevitá também no lugar onde lhe foi dito (e assim teria as duas shevitot); mas diz “como se não tivesse saído” de todo (também da sua casa), e eis que está como no início (só com o techum da sua casa).
O Rashi traz duas leituras. Na primeira, Rabba explica a mishná em quem ainda está dentro do seu techum, porque para ele a absorção não tem efeito, e Rav Shimi, em quem já saiu, porque para ele os techumin absorvidos se tornam um só. Na segunda, ambos falam de quem já saiu; para Rabba, ele volta a ter só o techum da sua casa, como no início, e para Rav Shimi tem os dois techumin juntos, quase oito mil amot. No fim do comentário sobre o segmento 15 (bloco 1546), o Rashi diz que a primeira leitura parece a adequada, e é ela que a tradução de referência segue. A palavra dos de Neharde’a está em Eruvin 41b (bloco 1439), sobre quem saiu do techum com permissão para as suas necessidades (conferido). “É algo” traduz “מִילְּתָא הִיא”, literalmente “é uma coisa”, isto é, tem efeito. Os nomes de Rav Shimi e de Rabba como os dois mestres vêm do Rashi.
Abaye disse a Rabba: E tu não sustentas que a havla’at techumin é algo? E que dizer se ele repousou numa caverna que por dentro tem quatro mil amot, e sobre o seu teto, de uma abertura à outra, menos de quatro mil amot: não se acha que ele anda por toda ela, pelo teto, e fora dela duas mil amot para cada lado?
“E se ele repousou numa caverna que por dentro tem quatro mil e sobre o seu teto menos de quatro mil, não se acha” etc. — isto é, não admites tu, Rabba, que ele anda por todo o seu teto e fora dela duas mil amot para cada lado? Uma caverna comum tem duas aberturas, nas suas duas extremidades: uma abertura para o leste e uma abertura para o oeste. A partir da abertura do leste, dá-se a ele, fora dela, para o lado do leste, duas mil amot, e para o lado do seu teto, duas mil; e da mesma forma, a partir da abertura do oeste, dá-se a ele, fora dela, para o lado do oeste, duas mil, e para o lado do seu teto, duas mil. E, uma vez que o seu teto tem menos de quatro mil, porque as suas paredes são inclinadas para o lado do teto (estreitando-se para cima) e se alargam embaixo, no seu fundo, acha-se que as duas mil que ele tem sobre o seu teto, quando sai pela abertura do leste, são absorvidas dentro das duas mil que ele tem sobre o seu teto quando sai pela abertura do oeste. E não admites que, se vier a sair por qualquer delas que quiser, pode andar por todo o seu teto e fora dela duas mil amot para cada lado? Porque a absorção de techumin torna os techumin das duas saídas como um só techum. E, se o seu teto tivesse quatro mil inteiras, e ele saísse pela abertura do leste, não poderia andar para o lado do teto senão duas mil amot (e as duas medidas não se tocariam); e, se quisesse andar nas duas mil do oeste, teria de voltar sobre os calcanhares, entrar e ir ao oeste pela caverna, e tornar a sair pela abertura do oeste. Logo, a absorção é algo; e é difícil para ambas as versões (as duas leituras do comentário anterior).
Seguimos o Rashi: a caverna tem duas aberturas, e de cada uma se medem duas mil amot para fora e duas mil por cima do teto; como as paredes se inclinam e o teto é mais curto que o fundo, as duas medidas sobre o teto se sobrepõem, e ele pode andar por todo o teto e ainda duas mil amot fora de cada abertura; isso só é possível se a absorção de techumin tem efeito. Segundo a tradução de referência, todo o interior da caverna conta como quatro amot, por estar cercado de divisórias, e por isso ele pode sair por qualquer das aberturas. Na edição do Sefaria, o comentário do Rashi traz aqui um pequeno desenho da caverna, que não reproduzimos. “Entrar e ir ao oeste pela caverna” traduz “וליכנס במערב”, literalmente “e entrar no oeste”; a leitura é incerta. “Ambas as versões” são as duas leituras do Rashi no bloco 1544.
Rabba lhe disse: E não há diferença para ti entre onde repousou no espaço de divisórias enquanto ainda era dia, como na caverna, e onde não repousou no espaço de divisórias enquanto ainda era dia, como na mishná?
“E não há diferença para ti” etc. — responde Rabba: aqui, na caverna, os dois techumin vêm por causa de uma só shevitá (adquirida dentro das divisórias enquanto ainda era dia), e, uma vez que se absorvem em cima, são um só techum. Mas, quanto à mishná, ele não repousou no espaço de divisórias na segunda shevitá (no lugar onde lhe foi dito); por isso, uma vez que adquiriu a última shevitá, já não tem a primeira shevitá (a da sua casa); e, quando saiu para fora do techum, só tem duas mil amot a partir do lugar onde lhe foi dito, e, mesmo que entrem dentro do seu techum, não anda nada além do lugar onde terminaram (as duas mil). E, segundo a outra versão, assim responde Rabba: uma vez que não repousou no espaço de divisórias na segunda shevitá, não lhe damos duas shevitot; mas ou tem esta, ou tem aquela: se estão absorvidas (as duas mil no seu techum), tem a shevitá da sua casa, e, a partir do lugar onde lhe foi dito, só tem o bastante para vir e entrar no seu techum; e, se não estão absorvidas, adquiriu o seu lugar e perdeu a sua casa. E a primeira versão parece adequada (a primeira leitura do bloco 1544).
Seguimos o Rashi: na caverna, os dois techumin vêm de uma só shevitá, adquirida dentro das divisórias antes do Shabat, e por isso se juntam; na mishná, a segunda shevitá foi adquirida no Shabat, no caminho, fora de divisórias, e ela anula a primeira. “No espaço de divisórias” traduz “בַּאֲוִיר מְחִיצּוֹת”, literalmente “no ar de divisórias”; “enquanto ainda era dia” traduz “מִבְּעוֹד יוֹם”, antes do início do Shabat. O hebraico diz só “disse-lhe”; quem responde é Rabba, a quem Abaye objetou.
E onde não repousou dentro de divisórias enquanto ainda era dia, não?
O hebraico não diz quem objeta; a tradução de referência atribui a objeção a Abaye, que contesta a distinção de Rabba: também onde não adquiriu a shevitá dentro de divisórias antes do Shabat, a absorção de techumin deveria valer. A frase continua em Eruvin 45a. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.