Segunda halachá do Perek Dalet, Mi SheHotziuhu (aquele a quem levaram para fora), de Massechet Eruvin. A Mishná continua a viagem de Raban Gamliel e dos sábios no navio: certa vez, só entraram no porto depois de escurecer, e perguntaram a Raban Gamliel se podiam descer; ele lhes disse que era permitido, porque estivera observando e eles já estavam dentro do techum (limite de Shabat) antes que escurecesse. A guemará conta que Raban Gamliel tinha um instrumento de mira com que avaliava, a olho, as distâncias na planície; depois pergunta por que a Mishná precisa de “antes que escurecesse”, se o porto é um lugar cercado e Raban Gamliel permite andar por todo o lugar cercado, e responde que o porto tinha mais do que beit sata’im, ou que as suas divisórias não eram altas dez palmos. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 43b.
Mishná: Certa vez, não entraram no nimel (porto) até que escureceu. Disseram a Raban Gamliel: como ficamos nós quanto a descer do navio? Disse-lhes: é permitido, pois eu já estava observando, e estávamos dentro do techum da cidade antes que escurecesse.
“Certa vez, não entraram no limen (porto)” etc. Raban Gamliel tinha metzudot (um instrumento de mira), com o qual avaliava com os seus olhos as distâncias na planície.
E para que preciso de que a Mishná diga “antes que escurecesse”? Seria permitido mesmo depois que escureceu! E não é esta a opinião de Raban Gamliel? Explica-se a Mishná: que havia no limen mais do que beit sata’im (área de semeadura de duas seás); e que não houvesse mechitzot (divisórias) altas dez palmos; e que não houvesse brechas de mais de dez amot; e que não estivesse omed (a parte em pé) diante de omed e parutz (a parte arrombada) diante de parutz.
Esta é a segunda halachá do Perek Dalet de Massechet Eruvin, Mi SheHotziuhu, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 4:2 da Mishná avulsa, inteira. As diferenças são estas: לַנִּמֵל onde a avulsa tem לַנָּמָל; חָשֵׁיכָה onde a avulsa tem חֲשֵׁכָה, nas duas vezes; e מוּתָּר, sem a palavra seguinte, onde a avulsa tem מֻתָּר אַתֶּם, “estais permitidos”. Não há diferença de conteúdo. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo é a seção 01, dividida aqui em dois pares de hebraico e português. No Bavli, este episódio faz parte da Mishná que começa em Eruvin 41b, e ali se lê לַנָּמָל e מוּתָּרִים אַתֶּם.
Sobre a Mishná. O episódio continua o da halachá anterior, em que Raban Gamliel, Rabi Elazar ben Azarya, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva vinham de Perundin num navio. Quem, ao escurecer na véspera de Shabat, estava fora do techum da cidade a que chega não tem senão quatro amot; por isso perguntaram se podiam descer do navio para a cidade. Raban Gamliel respondeu que estivera observando, e que o navio já estava dentro das duas mil amot da cidade antes de escurecer. No Bavli, Eruvin 43b, a guemará começa com פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל וְכוּ׳ e traz a baraita תָּנָא: שְׁפוֹפֶרֶת הָיְתָה לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָיָה מַבִּיט וְצוֹפֶה בָּהּ אַלְפַּיִם אַמָּה בַּיַּבָּשָׁה, וּכְנֶגְדָּהּ אַלְפַּיִם בַּיָּם, “Raban Gamliel tinha uma shefoferet (tubo) pela qual olhava e avistava duas mil amot em terra, e, correspondentes a elas, duas mil no mar”. Em Eruvin 43a, a mesma Mishná é trazida como prova de que há techumin acima de dez palmos: תָּא שְׁמַע: פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל עַד שֶׁחָשֵׁיכָה וְכוּ׳. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא יֵשׁ תְּחוּמִין — שַׁפִּיר.
Sobre a seção 01. A guemará começa pelo instrumento com que Raban Gamliel observava, e o Yerushalmi o chama מְצוּדוֹת; uma expressão próxima aparece no Yerushalmi Eruvin 5:3, em que Rabi Chisdai, ao tratar da medida de um vale torto, diz מְצוֹפוֹת וּמְשַׁעֵר בָּהּ בְּעֵינָיו בַּמִּישֹׁר. A pergunta seguinte parte da Mishná anterior, Eruvin 4:1, em que Raban Gamliel diz que quem foi posto num curral ou num estábulo anda por todo ele: o porto também é um lugar cercado, e por isso deveria ser permitido descer e andar por todo ele mesmo depois de escurecer. A resposta é que o porto não era um cercado que valesse para isso: ou tinha mais do que beit sata’im, ou as suas divisórias não eram altas dez palmos. A medida de beit sata’im está na Mishná Eruvin 2:3, לֹא אָמְרוּ בֵית סָאתַיִם אֶלָּא לְגִנָּה וּלְקַרְפֵּף, e a Tosefta, Eruvin 3:12 na numeração do Sefaria e 3:15 na edição de Lieberman, diz de quem fixa o seu lugar de Shabat numa horta cercada ובגנה מוקפת גדר גבוה עשרה טפחים אין יתר מבית סאתים. A altura de dez palmos e a brecha de dez amot estão na Mishná Eruvin 1:8, sobre a caravana: וּבִלְבַד שֶׁיְּהֵא גָדֵר גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה טְפָחִים e כָּל פִּרְצָה שֶׁהִיא כְעֶשֶׂר אַמּוֹת, מֻתֶּרֶת. A regra de que não esteja omed diante de omed e parutz diante de parutz está numa baraita trazida no Yerushalmi Eruvin 1:8, sobre as divisórias feitas de selas e de camelos.
Leituras incertas. נִּמֵל, na Mishná, e לִּמֵן, na guemará, são, ao que parece, duas formas da mesma palavra, o grego limen, “porto”; foram transliteradas como estão vocalizadas, nimel e limen. A palavra מְצוּדוֹת significa, ao pé da letra, “fortalezas” ou “redes”; o contexto pede um instrumento de observação, e a tradução usou “instrumento de mira”; o pronome בָּהּ está no singular, e por isso se traduziu “com o qual”. מְשַׁעֵיר בָּהּ עֵינָיו foi traduzido “avaliava com os seus olhos”. וְלֹא רַבָּן גַּמְלִיאֵל הִיא foi traduzido literalmente, “e não é esta a opinião de Raban Gamliel?”, isto é, a de quem permite andar por todo o lugar cercado. A sequência וְלֹא יִהְיוּ מְחִיצוֹת, וְלֹא יִהְיוּ פִרְצוֹת e ולֹא יְהֵא עוֹמֵד foi traduzida literalmente, com “e que” nas três vezes; o sentido parece ser que as divisórias do porto não tinham dez palmos, embora as brechas não passassem de dez amot nem houvesse omed diante de omed, de modo que só a altura as invalidava. As palavras “palmos” e “amot” não estão no hebraico e foram completadas pelas Mishnayot citadas acima.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer corrige מְצוּדוֹת para uma forma que lê como “instrumento para ver longe” e traduz “telescope”, com base em Rabeinu Chananel ao Bavli 43b e em outros autores medievais; aqui se traduziu a palavra do texto, e a interpretação ficou nesta nota. Ele traduz פיס׳ apenas como “Paragraph”, e lê a terceira e a quarta frase da resposta como restrição da segunda, “but were not open wider than ten”; aqui ficou o “e” do hebraico.
Nomes nesta página: Raban Gamliel, רַבָּן גַּמְלִיאֵל.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá; o texto do Sefaria desta halachá não tem marcadores de folha das edições de Vilna e de Veneza, nem marcador numérico, e nenhum foi acrescentado; não há colchetes nem parênteses no hebraico. As abreviações פיס׳ e כוּל׳ foram mantidas, e também a grafia ולֹא, sem sinal vocálico no vav; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria.