Talmud Yerushalmi · Massechet Eruvin · Perek Dalet · Halachá 2
עֵרוּבִין

O porto depois de escurecer e o instrumento de mira de Raban Gamliel

Perek Dalet, Mi SheHotziuhu, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Eruvin

Segunda halachá do Perek Dalet, Mi SheHotziuhu (aquele a quem levaram para fora), de Massechet Eruvin. A Mishná continua a viagem de Raban Gamliel e dos sábios no navio: certa vez, só entraram no porto depois de escurecer, e perguntaram a Raban Gamliel se podiam descer; ele lhes disse que era permitido, porque estivera observando e eles já estavam dentro do techum (limite de Shabat) antes que escurecesse. A guemará conta que Raban Gamliel tinha um instrumento de mira com que avaliava, a olho, as distâncias na planície; depois pergunta por que a Mishná precisa de “antes que escurecesse”, se o porto é um lugar cercado e Raban Gamliel permite andar por todo o lugar cercado, e responde que o porto tinha mais do que beit sata’im, ou que as suas divisórias não eram altas dez palmos. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 43b.

A Mishná · מַתְנִיתִין

פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנִּמֵל עַד שֶׁחָשֵׁיכָה אָמְרוּ לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל מָה אָנוּ לֵירֵד אָמַר לָהֶן מוּתָּר שֶׁכְּבָר הָיִיתִי מִסְתַּכֵּל וְהָיִינוּ בְתוֹךְ הַתְּחוּם עַד שֶׁלֹּא חָשֵׁיכָה:

Mishná: Certa vez, não entraram no nimel (porto) até que escureceu. Disseram a Raban Gamliel: como ficamos nós quanto a descer do navio? Disse-lhes: é permitido, pois eu já estava observando, e estávamos dentro do techum da cidade antes que escurecesse.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01O instrumento de mira de Raban Gamliel e o porto cercado
Yerushalmi · Eruvin 4:2
פיס׳. פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַלִּמֵן כוּל׳. מְצוּדוֹת הָיוּ לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָיָה מְשַׁעֵיר בָּהּ עֵינָיו בַּמֵּישָׁר.

“Certa vez, não entraram no limen (porto)” etc. Raban Gamliel tinha metzudot (um instrumento de mira), com o qual avaliava com os seus olhos as distâncias na planície.

וְלָמָּה לִי עַד שֶׁלֹּא חָשֵׁיכָה. וַאֲפִילּוּ מִשֶּׁחֲשֵׁיכָה. וְלֹא רַבָּן גַּמְלִיאֵל הִיא. תִּיפְתָּר שֶׁהָיָה בַלִּמֵן יוֹתֵר מִבֵּית סְאָתַיִם. וְלֹא יִהְיוּ מְחִיצוֹת גְּבוֹהוֹת עֲשָׁרָה. וְלֹא יִהְיוּ פִרְצוֹת יוֹתֵר מֵעֶשֶׂר. ולֹא יְהֵא עוֹמֵד כְּנֶגֶד עוֹמֵד וּפָרוּץ כְּנֶגֶד פָּרוּץ.

E para que preciso de que a Mishná diga “antes que escurecesse”? Seria permitido mesmo depois que escureceu! E não é esta a opinião de Raban Gamliel? Explica-se a Mishná: que havia no limen mais do que beit sata’im (área de semeadura de duas seás); e que não houvesse mechitzot (divisórias) altas dez palmos; e que não houvesse brechas de mais de dez amot; e que não estivesse omed (a parte em pé) diante de omed e parutz (a parte arrombada) diante de parutz.

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Dalet de Massechet Eruvin, Mi SheHotziuhu, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 4:2 da Mishná avulsa, inteira. As diferenças são estas: לַנִּמֵל onde a avulsa tem לַנָּמָל; חָשֵׁיכָה onde a avulsa tem חֲשֵׁכָה, nas duas vezes; e מוּתָּר, sem a palavra seguinte, onde a avulsa tem מֻתָּר אַתֶּם, “estais permitidos”. Não há diferença de conteúdo. A halachá ocupa dois segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e o segundo é a seção 01, dividida aqui em dois pares de hebraico e português. No Bavli, este episódio faz parte da Mishná que começa em Eruvin 41b, e ali se lê לַנָּמָל e מוּתָּרִים אַתֶּם.

Sobre a Mishná. O episódio continua o da halachá anterior, em que Raban Gamliel, Rabi Elazar ben Azarya, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva vinham de Perundin num navio. Quem, ao escurecer na véspera de Shabat, estava fora do techum da cidade a que chega não tem senão quatro amot; por isso perguntaram se podiam descer do navio para a cidade. Raban Gamliel respondeu que estivera observando, e que o navio já estava dentro das duas mil amot da cidade antes de escurecer. No Bavli, Eruvin 43b, a guemará começa com פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל וְכוּ׳ e traz a baraita תָּנָא: שְׁפוֹפֶרֶת הָיְתָה לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָיָה מַבִּיט וְצוֹפֶה בָּהּ אַלְפַּיִם אַמָּה בַּיַּבָּשָׁה, וּכְנֶגְדָּהּ אַלְפַּיִם בַּיָּם, “Raban Gamliel tinha uma shefoferet (tubo) pela qual olhava e avistava duas mil amot em terra, e, correspondentes a elas, duas mil no mar”. Em Eruvin 43a, a mesma Mishná é trazida como prova de que há techumin acima de dez palmos: תָּא שְׁמַע: פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל עַד שֶׁחָשֵׁיכָה וְכוּ׳. אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא יֵשׁ תְּחוּמִין — שַׁפִּיר.

Sobre a seção 01. A guemará começa pelo instrumento com que Raban Gamliel observava, e o Yerushalmi o chama מְצוּדוֹת; uma expressão próxima aparece no Yerushalmi Eruvin 5:3, em que Rabi Chisdai, ao tratar da medida de um vale torto, diz מְצוֹפוֹת וּמְשַׁעֵר בָּהּ בְּעֵינָיו בַּמִּישֹׁר. A pergunta seguinte parte da Mishná anterior, Eruvin 4:1, em que Raban Gamliel diz que quem foi posto num curral ou num estábulo anda por todo ele: o porto também é um lugar cercado, e por isso deveria ser permitido descer e andar por todo ele mesmo depois de escurecer. A resposta é que o porto não era um cercado que valesse para isso: ou tinha mais do que beit sata’im, ou as suas divisórias não eram altas dez palmos. A medida de beit sata’im está na Mishná Eruvin 2:3, לֹא אָמְרוּ בֵית סָאתַיִם אֶלָּא לְגִנָּה וּלְקַרְפֵּף, e a Tosefta, Eruvin 3:12 na numeração do Sefaria e 3:15 na edição de Lieberman, diz de quem fixa o seu lugar de Shabat numa horta cercada ובגנה מוקפת גדר גבוה עשרה טפחים אין יתר מבית סאתים. A altura de dez palmos e a brecha de dez amot estão na Mishná Eruvin 1:8, sobre a caravana: וּבִלְבַד שֶׁיְּהֵא גָדֵר גָּבוֹהַּ עֲשָׂרָה טְפָחִים e כָּל פִּרְצָה שֶׁהִיא כְעֶשֶׂר אַמּוֹת, מֻתֶּרֶת. A regra de que não esteja omed diante de omed e parutz diante de parutz está numa baraita trazida no Yerushalmi Eruvin 1:8, sobre as divisórias feitas de selas e de camelos.

Leituras incertas. נִּמֵל, na Mishná, e לִּמֵן, na guemará, são, ao que parece, duas formas da mesma palavra, o grego limen, “porto”; foram transliteradas como estão vocalizadas, nimel e limen. A palavra מְצוּדוֹת significa, ao pé da letra, “fortalezas” ou “redes”; o contexto pede um instrumento de observação, e a tradução usou “instrumento de mira”; o pronome בָּהּ está no singular, e por isso se traduziu “com o qual”. מְשַׁעֵיר בָּהּ עֵינָיו foi traduzido “avaliava com os seus olhos”. וְלֹא רַבָּן גַּמְלִיאֵל הִיא foi traduzido literalmente, “e não é esta a opinião de Raban Gamliel?”, isto é, a de quem permite andar por todo o lugar cercado. A sequência וְלֹא יִהְיוּ מְחִיצוֹת, וְלֹא יִהְיוּ פִרְצוֹת e ולֹא יְהֵא עוֹמֵד foi traduzida literalmente, com “e que” nas três vezes; o sentido parece ser que as divisórias do porto não tinham dez palmos, embora as brechas não passassem de dez amot nem houvesse omed diante de omed, de modo que só a altura as invalidava. As palavras “palmos” e “amot” não estão no hebraico e foram completadas pelas Mishnayot citadas acima.

Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer corrige מְצוּדוֹת para uma forma que lê como “instrumento para ver longe” e traduz “telescope”, com base em Rabeinu Chananel ao Bavli 43b e em outros autores medievais; aqui se traduziu a palavra do texto, e a interpretação ficou nesta nota. Ele traduz פיס׳ apenas como “Paragraph”, e lê a terceira e a quarta frase da resposta como restrição da segunda, “but were not open wider than ten”; aqui ficou o “e” do hebraico.

Nomes nesta página: Raban Gamliel, רַבָּן גַּמְלִיאֵל.

Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá; o texto do Sefaria desta halachá não tem marcadores de folha das edições de Vilna e de Veneza, nem marcador numérico, e nenhum foi acrescentado; não há colchetes nem parênteses no hebraico. As abreviações פיס׳ e כוּל׳ foram mantidas, e também a grafia ולֹא, sem sinal vocálico no vav; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria.