Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Dalet (Mi SheHotziuhu) · 43b
וְאָסוּר לִשְׁתּוֹת יַיִן

O nazir e a vinda de Eliyahu; o tubo de Rabban Gamliel; Nechemya fora do techum

Eruvin 43b — Perek Dalet (Mi SheHotziuhu, Eruvin 41b:6-52b:15) · continuação da baraita: o nazir no dia em que vier o filho de David é proibido nos dias de semana · se há techumin, está bem; “Eis que Eu vos envio Eliyahu” · o Beit Din HaGadol; Eliyahu não vem nas vésperas de Shabat e de Yom Tov; o Mashiach vem · o primeiro dia da semana: o tanna em dúvida · quando fez o voto: no Shabat ou no Yom Tov · o tubo de Rabban Gamliel: duas mil amot em terra e no mar · a profundidade do vale, a altura da palmeira, a sombra do túmulo · Nechemya, filho de Rav Chanilai, fora do techum: a divisória de pessoas · Rav Nachman bar Yitzchak e Rava: qual era a dúvida de Rav Chisda? · continua de Eruvin 43a; a guemará continua em Eruvin 44a

Completa a baraita do fim de 43a: quem diz “Eis que sou nazir no dia em que vier o filho de David” pode beber vinho nos Shabatot e nos Yamim Tovim e não nos dias de semana. A guemará tenta provar disso que há techumin acima de dez palmos, e a prova é rejeitada: Eliyahu deve vir antes do Mashiach, e já foi assegurado que ele não vem nas vésperas de Shabat e de Yom Tov; a proibição no primeiro dia da semana mostraria que não há techumin, mas o tanna estava em dúvida e foi rigoroso; e a guemará pergunta em que dia o voto foi feito. Depois, a mishná do porto: a baraita sobre o tubo de Rabban Gamliel, que alcançava duas mil amot, e os modos de medir a profundidade de um vale, a altura de uma palmeira e a sombra de um túmulo. Por fim, Nechemya, filho de Rav Chanilai, saiu do techum absorvido no estudo, Rav Nachman mandou fazer-lhe uma divisória de pessoas, e Rav Nachman bar Yitzchak pergunta a Rava qual era a dúvida de Rav Chisda, pergunta que continua em 44a.

O nazir no dia em que vier o filho de David · הֲרֵינִי נָזִיר

1498…e é proibido beber vinho em todos os dias de semana
A guemará
וְאָסוּר לִשְׁתּוֹת יַיִן כׇּל יְמוֹת הַחוֹל.

Continuação da baraita: “…e é proibido a ele beber vinho em todos os dias de semana.”

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “ve’assur kol yemot hachol”
ואסור כל ימות החול - דילמא אתי:

“E é proibido em todos os dias de semana” — pois talvez ele venha.

Nota

A baraita começa no fim de Eruvin 43a (bloco 1497) e se lê inteira assim: “Eis que sou nazir no dia em que vier o filho de David”: é permitido a ele beber vinho nos Shabatot e nos Yamim Tovim, e é proibido beber vinho em todos os dias de semana. Segundo o Rashi, nos dias de semana teme-se que o filho de David venha naquele dia, e então o voto de nazir entraria em vigor e o vinho lhe seria proibido; nos Shabatot e nos Yamim Tovim, como diz o Rashi em 43a, certamente o Mashiach não vem. O lema do Rashi diz “ואסור כל ימות החול”, sem “לִשְׁתּוֹת יַיִן”, “beber vinho”.

1499Se há techumin, está bem
A guemará
אִי אָמְרַתְּ בִּשְׁלָמָא יֵשׁ תְּחוּמִין — הַיְינוּ דִּבְשַׁבָּתוֹת וּבְיָמִים טוֹבִים מוּתָּר. אֶלָּא אִי אָמְרַתְּ אֵין תְּחוּמִין, בְּשַׁבָּתוֹת וּבְיָמִים טוֹבִים אַמַּאי מוּתָּר?

A guemará explica a prova: Está bem, se dizes que há techumin (os limites que se pode andar no Shabat) acima de dez palmos: é por isso que nos Shabatot e nos Yamim Tovim é permitido a ele beber. Mas, se dizes que não há techumin acima de dez, nos Shabatot e nos Yamim Tovim por que é permitido?

Nota

Segundo a tradução de referência, se há techumin acima de dez palmos, o Mashiach não poderia chegar no Shabat ou no Yom Tov vindo de fora do techum, e por isso o nazir pode beber nesses dias; mas, se não há techumin acima de dez palmos, ele poderia vir pelo ar mesmo no Shabat, e não haveria razão para permitir. É a pergunta de Rav Chananya em Eruvin 43a (bloco 1487). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1500Ali é diferente: “Eis que Eu vos envio Eliyahu”
A guemará
שָׁאנֵי הָתָם, דְּאָמַר קְרָא: ״הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא וְגוֹ׳״, וְהָא לָא אֲתָא אֵלִיָּהוּ מֵאֶתְמוֹל.

A guemará rejeita a prova: Ali, no caso do nazir, é diferente, pois disse o versículo: “Eis que Eu vos envio Eliyahu, o profeta” etc.; e no Shabat e no Yom Tov, Eliyahu não veio desde ontem.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lifnei bo yom Hashem”
לפני בא יום ה' - לפני ביאת בן דוד יבא אליהו לבשר:

“Antes que venha o dia do Eterno” — antes da vinda do filho de David, virá Eliyahu para a anunciar.

Nota

O versículo é Malachi 3:23: “Eis que Eu vos envio Eliyahu, o profeta, antes que venha o dia do Eterno, grande e terrível” (conferido). A guemará cita só o começo, e o Rashi comenta as palavras seguintes do versículo, “לפני בא יום ה'”, onde o texto bíblico diz “לִפְנֵי בּוֹא יוֹם יְהֹוָה”. Segundo o Rashi, Eliyahu virá antes do filho de David para anunciar a sua vinda; segundo a tradução de referência, ele virá na véspera, e, como Eliyahu não veio no dia anterior, o Mashiach não virá hoje, haja ou não techumin acima de dez palmos.

1501Então também nos dias de semana!
A guemará
אִי הָכִי, בְּחוֹל כֹּל יוֹמָא וְיוֹמָא נָמֵי לִישְׁתְּרֵי, דְּהָא לָא אֲתָא אֵלִיָּהוּ מֵאֶתְמוֹל? אֶלָּא אָמְרִינַן: לְבֵית דִּין הַגָּדוֹל אֲתָא. הָכָא נָמֵי לֵימָא: לְבֵית דִּין הַגָּדוֹל אֲתָא?

A guemará objeta: Se é assim, também nos dias de semana, cada dia, deveria ser permitido, pois Eliyahu não veio desde ontem! Mas é porque dizemos: Talvez tenha vindo ao Beit Din HaGadol (o Grande Tribunal). Aqui também, digamos: Talvez tenha vindo ao Beit Din HaGadol na véspera do Shabat ou do Yom Tov!

Nota

Segundo a tradução de referência, Eliyahu poderia ter vindo ao Beit Din HaGadol sem que isso ainda fosse sabido do povo; por isso, nos dias de semana, o nazir não pode contar com o fato de não ter ouvido falar da sua vinda. O Rashi diz o mesmo sobre o segmento 9 (bloco 1506): “talvez tenha vindo ao Beit Din HaGadol desde ontem”. A palavra “talvez” é acréscimo nosso; o hebraico diz, literalmente, “ao Beit Din HaGadol veio”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1502Eliyahu não vem nas vésperas de Shabat e de Yom Tov
A guemará
כְּבָר מוּבְטָח לָהֶן לְיִשְׂרָאֵל שֶׁאֵין אֵלִיָּהוּ בָּא לֹא בְּעַרְבֵי שַׁבָּתוֹת וְלֹא בְּעַרְבֵי יָמִים טוֹבִים, מִפְּנֵי הַטּוֹרַח.

A guemará responde: Não é assim, pois já foi assegurado a Israel que Eliyahu não vem nem nas vésperas de Shabatot nem nas vésperas de Yamim Tovim, por causa do esforço que isso causaria.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “mipnei hatorach”
מפני הטורח - שמניחין צרכי שבת והולכין להקביל פניו:

“Por causa do esforço” — pois deixariam as necessidades do Shabat e iriam ao seu encontro.

Nota

Segundo o Rashi, se Eliyahu viesse na véspera do Shabat ou do Yom Tov, o povo deixaria os preparativos do dia santo para ir recebê-lo. Por isso, se Eliyahu não veio antes da véspera, ele não terá vindo nem mesmo ao Beit Din HaGadol, e o Mashiach não virá no Shabat ou no Yom Tov. “Ir ao seu encontro” traduz “להקביל פניו”, literalmente “receber o seu rosto”.

1503Eliyahu não vem; o Mashiach vem
A guemará
קָא סָלְקָא דַּעְתָּךְ מִדְּאֵלִיָּהוּ לָא אֲתָא, מָשִׁיחַ נָמֵי לָא אָתֵי, בְּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא לִישְׁתְּרֵי! אֵלִיָּהוּ לָא אָתֵי, מָשִׁיחַ אָתֵי. דְּכֵיוָן דְּאָתֵי מְשִׁיחָא — הַכֹּל עֲבָדִים הֵן לְיִשְׂרָאֵל.

A guemará comenta: Poderia passar pela tua mente que, já que Eliyahu não vem, também o Mashiach não vem; então, na véspera do Shabat, deveria ser permitido beber! Não é assim: Eliyahu não vem; o Mashiach vem; pois, uma vez que vem o Mashiach, todos são servos de Israel.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “avadim hen”
עבדים הן - ואין לישראל טורח דאיכא דטרח להו:

“São servos” — e Israel não tem esforço algum, pois há quem se esforce por eles.

Nota

Segundo o Rashi, a razão por que Eliyahu não vem na véspera do Shabat, o esforço que causaria, não vale para o Mashiach, pois depois da sua vinda haverá quem faça o trabalho por Israel; por isso, na véspera do Shabat, o nazir continua proibido. A tradução de referência explica que “todos” são as nações. “Na véspera do Shabat” traduz “בְּמַעֲלֵי שַׁבְּתָא”, literalmente “na entrada do Shabat”. O lema do Rashi diz “עבדים הן”, onde a guemará diz “הַכֹּל עֲבָדִים הֵן”.

1504No primeiro dia da semana deveria ser permitido
A guemará
בְּחַד בְּשַׁבָּא לִישְׁתְּרֵי? לִפְשׁוֹט מִינַּהּ דְּאֵין תְּחוּמִין, דְּאִי יֵשׁ תְּחוּמִין — בְּחַד בְּשַׁבָּא לִישְׁתְּרֵי, דְּלָא אֲתָא אֵלִיָּהוּ בְּשַׁבָּת?!

A guemará pergunta: No primeiro dia da semana, que seja permitido! Se não é, resolve-se daqui que não há techumin acima de dez; pois, se há techumin, no primeiro dia da semana deveria ser permitido, já que Eliyahu não veio no Shabat!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bechad beshaba lishtrei”
בחד בשבא לשתרי - דודאי לא אתי משיח היום דהא אתמול בשבת לא אתא אליהו ומדקאסר ליה ליפשוט דחייש לדילמא אתא אליהו ואין תחומין למעלה מעשרה: ומשנינן מהא לא תיפשוט דאין תחומין דדילמא ספוקי מספקא ליה להאי תנא דדילמא אין תחומין ומש"ה אסר בחד בשבא ולחומרא אבל מפשט לא פשיטא ליה דתילף התירא מיניה:

“No primeiro dia da semana, que seja permitido” — pois certamente o Mashiach não vem hoje, já que ontem, no Shabat, Eliyahu não veio; e, como a baraita o proíbe, resolva-se que teme que talvez Eliyahu tenha vindo, e que não há techumin acima de dez. E respondemos: disto não se resolve que não há techumin, pois talvez este tanna estivesse em dúvida, pensando que talvez não haja techumin, e por isso proíbe no primeiro dia da semana, e é para o rigor; mas não lhe era resolvido a ponto de se aprender dele uma permissão.

Nota

Segundo o Rashi, se houvesse techumin acima de dez palmos, Eliyahu não poderia vir no Shabat, e o Mashiach não viria no primeiro dia da semana; como a baraita só permite nos Shabatot e nos Yamim Tovim, parece que ela teme que Eliyahu tenha vindo pelo ar no Shabat. O comentário do Rashi já inclui a resposta da guemará, que vem no segmento seguinte (bloco 1505). “O primeiro dia da semana” traduz “חַד בְּשַׁבָּא”, literalmente “um na semana”, o domingo. O lema do Rashi escreve “לשתרי”, onde a guemará escreve “לִישְׁתְּרֵי”.

1505Este tanna estava em dúvida
A guemará
הַאי תַּנָּא סַפּוֹקֵי מְסַפְּקָא לֵיהּ אִי יֵשׁ תְּחוּמִין אוֹ אֵין תְּחוּמִין, וּלְחוּמְרָא.

A guemará responde: Este tanna (sábio da Mishná) estava em dúvida se há techumin ou não há techumin, e proibiu para o rigor.

Nota

Ver o Rashi no bloco 1504: por estar em dúvida, o tanna proíbe no primeiro dia da semana por rigor, mas a dúvida não permite concluir que não há techumin acima de dez palmos. A permissão nos Shabatot e nos Yamim Tovim não depende dos techumin, pois Eliyahu não vem na véspera (bloco 1502). O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1506Quando fez o voto? Num dia de semana?
A guemará
דְּקָאֵי אֵימַת דְּקָא נָדַר? אִילֵּימָא דְּקָאֵי בְּחוֹל — כֵּיוָן דְּחָל עֲלֵיהּ נְזִירוּת, הֵיכִי אָתְיָא שַׁבְּתָא וּמַפְקְעָא לֵיהּ?

A guemará pergunta: E em que dia estava quando fez o voto? Se dizes que estava num dia de semana, uma vez que o nezirut (nazirato) recaiu sobre ele, como vem o Shabat e o anula?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “keivan dechal alei nezirut”
כיון דחל עליה נזירות - בע"ש ומספקא דילמא אתי משיח היום לב"ד הגדול היכי מישתרי לשתות למחר בשבת ליחוש דילמא אתא לב"ד הגדול מאתמול:

“Uma vez que o nazirato recaiu sobre ele” — na véspera do Shabat, e ele está em dúvida se talvez o Mashiach venha hoje ao Beit Din HaGadol: como lhe será permitido beber amanhã, no Shabat? Que tema que talvez tenha vindo ao Beit Din HaGadol desde ontem!

Nota

Seguimos o Rashi: o nazirato recai sobre ele num dia de semana, como a véspera do Shabat, por causa da dúvida de que o Mashiach venha naquele dia ao Beit Din HaGadol; e, no Shabat, a mesma dúvida continua, a de que ele tenha vindo no dia anterior, de modo que não há razão para permitir o vinho. A tradução de referência explica de outro modo: o nazirato, uma vez em vigor, não pode cessar num dia e voltar no outro.

1507Fez o voto no Shabat ou no Yom Tov
A guemará
אֶלָּא דְּקָאֵי בְּשַׁבְּתָא וְקָא נָדַר, וּבְיוֹם טוֹב וְקָא נָדַר, וְהָהוּא יוֹמָא דְּשָׁרֵי לֵיהּ, מִיכָּן וְאֵילָךְ — אֲסִיר לֵיהּ.

A guemará responde: Mas trata-se de quem estava no Shabat e fez o voto, ou no Yom Tov e fez o voto; e aquele dia lhe é permitido, mas daí em diante lhe é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “dekaei beShabat veka nadar, beYom Tov veka nadar”
דקאי בשבת וקא נדר ביו"ט וקא נדר - כלומר כשקיבל נדר זה היה שבת או יו"ט והיינו דקתני מותר לשתות בשבתות וימים טובים אותה שבת או אותו יו"ט שנדר אבל מכאן ואילך אסור ואפילו בשבת דילמא אתא אתמול בן דוד וחל עליה נזירות:

“Estava no Shabat e fez o voto, no Yom Tov e fez o voto” — isto é, quando aceitou este voto era Shabat ou Yom Tov; e é isto que ensina: “é permitido beber nos Shabatot e nos Yamim Tovim”, isto é, naquele Shabat ou naquele Yom Tov em que fez o voto; mas daí em diante é proibido, mesmo no Shabat, pois talvez o filho de David tenha vindo ontem, e o nazirato recaiu sobre ele.

Nota

Segundo o Rashi, a permissão da baraita, “nos Shabatot e nos Yamim Tovim”, vale só para o Shabat ou o Yom Tov em que o voto foi feito; desde o primeiro dia de semana o nazirato pode ter recaído sobre ele, e então fica proibido mesmo nos Shabatot seguintes. O lema do Rashi diz “דקאי בשבת”, onde a guemará diz “דְּקָאֵי בְּשַׁבְּתָא”, e “ביו"ט וקא נדר”, sem o “וּ” inicial.

O tubo de Rabban Gamliel · שְׁפוֹפֶרֶת

1508Certa vez não entraram no namal
A guemará
פַּעַם אַחַת לֹא נִכְנְסוּ לַנָּמָל וְכוּ׳.

Foi ensinado na mishná: “Certa vez não entraram no namal (porto)” etc.

Nota

A citação é da Mishná Eruvin 4:2, em Eruvin 41b (bloco 1422), na mesma redação; a guemará traz só o começo, como cabeçalho do que vem a seguir. A mishná prossegue com a resposta de Rabban Gamliel: “eu já estava observando, e estávamos dentro do techum antes que escurecesse” (bloco 1423); a baraita seguinte explica como ele observava. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1509O tubo de Rabban Gamliel
A guemará
תָּנָא: שְׁפוֹפֶרֶת הָיְתָה לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָיָה מַבִּיט וְצוֹפֶה בָּהּ אַלְפַּיִם אַמָּה בַּיַּבָּשָׁה, וּכְנֶגְדָּהּ אַלְפַּיִם בַּיָּם.

Foi ensinado numa baraita: Rabban Gamliel tinha uma shefoferet (tubo) pela qual olhava e avistava duas mil amot (côvados) em terra, e, correspondentes a elas, duas mil no mar.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shefoferet”
שפופרת - קנה חלול וכשהוא ארוך אין צופין בו למרחוק וכשהוא קצר צופין בו יותר והיתה שפופרת של רבן גמליאל מתוקנת למדת צפיית אלפים או בים או ביבשה:

“Tubo” — um caniço oco; quando é comprido, não se avista por ele ao longe, e, quando é curto, avista-se por ele mais longe; e o tubo de Rabban Gamliel estava ajustado à medida de avistar duas mil amot, ou no mar ou em terra.

Nota

Segundo o Rashi, o alcance do tubo dependia do seu comprimento, e o de Rabban Gamliel estava ajustado para duas mil amot, a medida do techum; assim ele sabia se o navio já estava dentro das duas mil amot da cidade antes do anoitecer. “Avistava” traduz “צוֹפֶה”; o hebraico diz “olhava e avistava por ela”.

1510A profundidade de um vale
A guemará
הָרוֹצֶה לֵידַע כַּמָּה עוֹמְקוֹ שֶׁל גֵּיא, מֵבִיא שְׁפוֹפֶרֶת וּמַבִּיט בָּהּ, וְיֵדַע כַּמָּה עוֹמְקוֹ שֶׁל גַּיְא.

Do mesmo modo, quem quer saber qual é a profundidade de um vale traz um tubo como este e olha por ele, e saberá qual é a profundidade do vale.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kama omko shel gai, mevi shefoferet umabit bah”
כמה עומקו של גיא מביא שפופרת ומביט בה - ביבשה וימדוד כמה אמות הוא יכול לצפות בה ואח"כ ילך על שפת הגיא ויצפה בה לעומקו ויתרחק לאחוריו עד שיבחין שבמקום שכלה עומקו של גיא שם כלה צפיית השפופרת שאם יתרחק עוד מעט לא יראה את קרקעית הגיא וידע שעומקו של גיא והרחקתו שנתרחק משפתו הוי כמדת צפיית השפופרת:

“Qual é a profundidade de um vale: traz um tubo e olha por ele” — em terra seca, e mede quantas amot consegue avistar por ele; e depois vai à beira do vale e avista por ele a sua profundidade, e se afasta para trás até perceber que, no lugar onde acaba a profundidade do vale, ali acaba o alcance do tubo, pois, se se afastasse mais um pouco, não veria o fundo do vale; e sabe que a profundidade do vale e o afastamento com que se afastou da sua beira equivalem à medida do alcance do tubo.

Nota

Segundo o Rashi, primeiro se mede em terra plana o alcance do tubo; depois, da beira do vale, a pessoa recua até que o fundo do vale fique exatamente no limite do que o tubo alcança. O Rashi não diz como se combinam a profundidade e o recuo para dar a medida do tubo; a leitura exata é incerta.

1511A altura de uma palmeira
A guemará
וְהָרוֹצֶה לֵידַע כַּמָּה גּוֹבְהוֹ שֶׁל דֶּקֶל — מוֹדֵד קוֹמָתוֹ וְצִלּוֹ, וְצֵל קוֹמָתוֹ וְיֵדַע כַּמָּה גּוֹבַהּ שֶׁל דֶּקֶל.

E quem quer saber qual é a altura de uma palmeira mede a sua própria altura e a sombra dela, da palmeira, e a sombra da sua própria altura, e saberá qual é a altura da palmeira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “govho shel dekel”
גובהו של דקל - ומתיירא לעלות בו ולמודדו:

“A altura de uma palmeira” — e tem medo de subir nela e medi-la.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “yimdod tzilo”
ימדוד צלו - של דקל:

“Medirá a sua sombra” — da palmeira.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vetzel komato”
וצל קומתו - של עצמו ופעמים שהצל רבה על המיצל ופעמים שהמיצל רבה על הצל כשחמה עומדת בגובה הרקיע צל כל דבר הוי קטן וכשחמה בשיפולו הוי צל ארוך הלכך מודד אף צל קומתו ולפי מה שיראה שירבה צל קומתו על קומתו ידע שריבוי צל הדקל על הדקל או כפלים או שליש או רביע:

“E a sombra da sua altura” — da sua própria; pois às vezes a sombra é maior que o que faz sombra, e às vezes o que faz sombra é maior que a sombra: quando o sol está no alto do céu, a sombra de tudo é pequena, e, quando está embaixo, a sombra é comprida. Por isso mede também a sombra da sua altura, e, conforme vir quanto a sombra da sua altura excede a sua altura, saberá quanto é o excesso da sombra da palmeira sobre a palmeira, ou o dobro, ou um terço, ou um quarto.

Nota

Seguimos o Rashi, que lê “וְצִלּוֹ”, “e a sombra dela”, como a sombra da palmeira, e “צֵל קוֹמָתוֹ”, “a sombra da sua altura”, como a sombra da própria pessoa; a proporção entre a altura da pessoa e a sua sombra dá a proporção entre a palmeira e a sombra dela. A tradução de referência lê ao contrário: “a sua própria sombra” e “a sombra da altura” da palmeira. O lema do Rashi diz “ימדוד צלו”, “medirá a sua sombra”, onde a guemará diz “מוֹדֵד קוֹמָתוֹ וְצִלּוֹ”; e, no fim da frase, a guemará escreve “גּוֹבַהּ”, onde antes escrevera “גּוֹבְהוֹ”.

1512A sombra do túmulo
A guemará
הָרוֹצֶה שֶׁלֹּא תִּשְׁרֶה חַיָּה רָעָה בְּצֵל קֶבֶר — נוֹעֵץ קָנֶה בְּאַרְבַּע שָׁעוֹת בַּיּוֹם, וְיִרְאֶה לְהֵיכָן צִלּוֹ נוֹטֶה, מְשַׁפֵּיעַ וְעוֹלֶה מְשַׁפֵּיעַ וְיוֹרֵד.

Quem quer que um animal feroz não pouse na sombra de um túmulo crava um caniço às quatro horas do dia e vê para onde se inclina a sua sombra; então faz a construção em declive, subindo, e em declive, descendo.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “harotze shelo tishre chaya ra’a betzel kever”
הרוצה שלא תשרה חיה רעה בצל קבר - כעין מצבה היו מציבין על הקבר כעין שאנו מגביהין וצוברין בו עפר ומשפע לכאן ולכאן והירא שלא תבא חיה רעה להסתופף בצל הקבר מפני חום השמש ויריח את המת ויחטטנו:

“Quem quer que um animal feroz não pouse na sombra de um túmulo” — erguiam sobre o túmulo algo como uma matzevá (monumento), como nós levantamos e amontoamos nele terra, em declive para cá e para lá; e trata-se de quem teme que um animal feroz venha abrigar-se na sombra do túmulo por causa do calor do sol, e sinta o cheiro do morto e o desenterre.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “no’etz kane be’arba sha’ot”
נועץ קנה בד' שעות - כשבא לעשות הבנין ינעוץ קנה בארבע שעות ביום שאותה שעה מתחיל השמש להתחמם והצל צונן ונוח כדאמרינן בברכות (ד' כז.) וחם השמש ונמס איזו שעה שהשמש חם והצל צונן הוי אומר זה ארבע שעות ולפיכך חיות מתאוות לצל באותה שעה ולאותו צד שיראה זה שצל הקנה נוטה. ישפע הבנין ויעשה שיפוע ארוך שלא יהא נוטה לו צל ואע"פ שכשתסוב החמה יהיה לו צל לצד אחר כיון דבההיא שעתא ליכא צל תו לא אתיא חיה להתלונן בצילו דההיא שעתא אזלא עד דמשכחא ועוד דלאחר ארבע שעות אף הצל חם ולא איכפת לה לחיה בצל:

“Crava um caniço às quatro horas” — quando vem fazer a construção, crave um caniço às quatro horas do dia, pois nessa hora o sol começa a esquentar, e a sombra é fresca e agradável, como dizemos em Berachot (folha 27a): “E o sol esquentava, e derretia”: qual é a hora em que o sol é quente e a sombra é fresca? Dize: são quatro horas. Por isso os animais desejam a sombra naquela hora. E para o lado para o qual vir que se inclina a sombra do caniço, fará a construção em declive, e fará um declive comprido, para que não se incline para ela sombra alguma. E, embora, quando o sol girar, ela tenha sombra para outro lado, uma vez que naquela hora não há sombra, o animal não volta mais a pernoitar na sua sombra, pois naquela hora vai embora até encontrar outra; e, além disso, depois de quatro horas também a sombra é quente, e o animal não se importa com a sombra.

Nota

Segundo o Rashi, sobre o túmulo se erguia um monte de terra em declive, e o caniço mostra para que lado vai a sombra na quarta hora do dia, quando o sol começa a esquentar e os animais buscam a sombra; para esse lado se faz um declive comprido, que não deixa sombra naquela hora. A tradução de referência fala em inclinar a lápide, e põe o caniço no fim da quarta hora; seguimos o Rashi. A passagem citada pelo Rashi está em Berachot 27a: “qual é a hora em que o sol é quente e a sombra é fresca? Dize: quatro horas”, sobre o versículo “וְחַם הַשֶּׁמֶשׁ וְנָמָס”, Shemot 16:21 (conferido). O lema do Rashi diz “בד' שעות”, onde a guemará diz “בְּאַרְבַּע שָׁעוֹת”.

Nechemya, filho de Rav Chanilai, fora do techum · מְחִיצָה שֶׁל בְּנֵי אָדָם

1513Nechemya, filho de Rav Chanilai, saiu do techum
A guemará
נְחֶמְיָה בְּרֵיהּ דְּרַב חֲנִילַאי מְשַׁכְתֵּיהּ שְׁמַעְתָּא, וּנְפַק חוּץ לַתְּחוּם. אֲמַר לֵיהּ רַב חִסְדָּא לְרַב נַחְמָן: נְחֶמְיָה תַּלְמִידְךָ שָׁרוּי בְּצַעַר.

A guemará conta: Nechemya, filho de Rav Chanilai, foi arrastado pelo ensinamento que estudava, e saiu para fora do techum no Shabat. Disse Rav Chisda a Rav Nachman: Nechemya, teu discípulo, está em aflição.

Nota

Segundo a tradução de referência, Nechemya estava tão absorvido no estudo que não percebeu que saía do techum; e, estando fora dele, não podia voltar a entrar. “Foi arrastado pelo ensinamento” traduz “מְשַׁכְתֵּיהּ שְׁמַעְתָּא”, literalmente “o ensinamento o puxou”. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1514Faze-lhe uma divisória de pessoas
A guemará
אָמַר לוֹ: עֲשֵׂה לוֹ מְחִיצָה שֶׁל בְּנֵי אָדָם, וְיִכָּנֵס.

Rav Nachman lhe disse: Faze-lhe uma divisória de pessoas, e ele entrará.

Nota

Segundo o Rashi sobre o segmento 19 (bloco 1516), trata-se de pessoas que podem sair para fora do techum, por exemplo porque fizeram eruv, e formam uma divisória de um lado e outra do outro, desde o lugar onde ele está até o techum. O hebraico diz apenas “disse-lhe”; quem responde é Rav Nachman, a quem Rav Chisda falou. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1515Rav Nachman bar Yitzchak atrás de Rava
A guemará
יָתֵיב רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק אֲחוֹרֵיהּ דְּרָבָא, וְיָתֵיב רָבָא קַמֵּיהּ דְּרַב נַחְמָן. אֲמַר לֵיהּ רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק לְרָבָא: מַאי קָא מִבַּעְיָא לֵיהּ לְרַב חִסְדָּא?

A guemará conta: Rav Nachman bar Yitzchak estava sentado atrás de Rava, e Rava estava sentado diante de Rav Nachman. Disse Rav Nachman bar Yitzchak a Rava: Que dúvida tinha Rav Chisda ao dizer isso?

Nota

Rav Chisda não fez uma pergunta explícita, apenas disse que Nechemya estava em aflição; Rav Nachman bar Yitzchak pergunta qual era, de fato, a dúvida por trás dessas palavras. O Sefaria não liga nenhum comentário do Rashi a este segmento.

1516Se as pessoas enchiam o espaço…
A guemará
אִילֵּימָא בִּדְמָלוּ גַּבְרֵי עָסְקִינַן, וְקָא מִבַּעְיָא לֵיהּ: הִלְכְתָא כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל,

Se dizes que tratamos de um caso em que as pessoas enchiam o espaço até o techum, e o que ele perguntava era: A halachá (a lei estabelecida) é como Rabban Gamliel…

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bedamalu gavrei”
בדמלו גברי - שהיו לו אנשים הרבה שיכולין לצאת חוץ לתחום כגון שעירבו לעשות לו מחיצה מכאן ומחיצה מכאן ממקום שהוא שם עד התחום:

“Em que as pessoas enchiam” — que ele tinha muitas pessoas que podiam sair para fora do techum, por exemplo, que tinham feito eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat), para lhe fazer uma divisória daqui e uma divisória dali, desde o lugar onde ele está até o techum.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “halachá keRabban Gamliel”
הלכה כרבן גמליאל - דליהנו ליה מחיצות שלא שבת בהן מבעוד יום כדאמר לעיל גבי דיר וסהר או דילמא פשיטא ליה דהלכה כרבן גמליאל והכא הוא דלא מלו ליה גברי עד תוך התחום אלא עד ב' אמות סמוך לתחום:

“A halachá é como Rabban Gamliel” — que lhe sirvam divisórias nas quais não repousou enquanto ainda era dia, como disse acima a respeito do dir e do sahar; ou talvez lhe fosse evidente que a halachá é como Rabban Gamliel, e aqui é que as pessoas não lhe bastavam até dentro do techum, mas só até duas amot junto ao techum.

Nota

O daf termina no meio da frase, que continua em Eruvin 44a: “…ou não é a halachá como Rabban Gamliel? Ou talvez tratamos de quando as pessoas não enchiam, e ele perguntava: a halachá é como Rabi Eliezer, ou não é a halachá como Rabi Eliezer?” (conferido). Segundo o Rashi, a dúvida, no primeiro caso, é se as divisórias em que ele não estava antes do anoitecer lhe servem, como Rabban Gamliel ensina na Mishná sobre o dir e o sahar (Eruvin 41b, bloco 1420); a segunda parte do comentário do Rashi já explica a continuação, em que as pessoas só chegavam até duas amot do techum.

O daf termina aqui, no meio da explicação da dúvida de Rav Chisda sobre Nechemya: depois de completar a baraita do nazir e de rejeitar a prova de que não há techumin acima de dez palmos, a guemará explica a mishná do porto com o tubo de Rabban Gamliel e conta o caso de Nechemya, filho de Rav Chanilai, que saiu do techum. A guemará prossegue em Eruvin 44a.