Oitava halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin. Na Mishná, Rabi Yudá diz que, num Rosh HaShaná em que se temia que o mês fosse intercalado, a pessoa pode depositar dois eruvin e escolher uma direção para cada um dos dois dias, ou ficar num deles como os moradores da sua cidade; e os sábios não concordaram com ele. A guemará traz a divergência sobre os restos de mecha, de fogueira e de azeite que se apagaram no Shabat e se podem ser acesos no Yom Tov, a palavra dos quatro anciãos sobre quem teve o eruv comido no primeiro dia, a halachá de Rav como eles e a objeção de Rav Chisdai de que a linha de Rav está trocada; depois, Rabi Achá e Rabi Yossi dizem que os quatro anciãos seguem Rabi Eliezer, Rabi Mana objeta a partir de Rabi Yudá, e a halachá termina com as regras do eruv feito com o pão e com os pés, de um dia para o outro. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 39a.
Mishná: Rabi Yudá diz: num Rosh HaShaná (Ano-Novo) em que temia que o mês sofresse ibur (intercalação), a pessoa deposita dois eruvin (refeições depositadas que fixam a residência de Shabat) e diz: o meu eruv do primeiro dia a oriente, e o do segundo a ocidente; o do primeiro a ocidente, e o do segundo a oriente; o meu eruv vale para o primeiro, e no segundo sou como os moradores da minha cidade; para o segundo, e no primeiro sou como os moradores da minha cidade. E os sábios não concordaram com ele.
“Rabi Yehudá diz: num Rosh HaShaná em que temia que o mês sofresse ibur” etc. Pois divergiram: restos de mecha, restos de fogueira, restos de azeite que se apagaram no Shabat, pode-se acendê-los no Yom Tov (dia festivo)? Rav e Rabi Chanina, os dois, dizem: é proibido. Rabi Yochanan disse: é permitido.
Disse Rabi Mana diante de Rabi Yudan: emparelha-se a mecha com o caso do ovo? Disse-lhe: pelo que vemos, os rabanan (os sábios) a comparam ao ovo. Isso quer dizer: é esta, é aquela, a mesma regra.
Em nome de quatro zekenim (anciãos) disseram: aquele cujo eruv foi comido no primeiro dia, eis que é como os moradores da sua cidade no segundo. Rav Huna disse em nome de Rav: a halachá é como os quatro anciãos.
Rav Chisdai perguntou: a linha de Rav está trocada. Lá, ele faz dos dois dias duas kedushot (santidades), e aqui faz deles uma santidade só.
Pois divergiram: restos de mecha, restos de fogueira, restos de azeite que se apagaram no Shabat, pode-se acendê-los no Yom Tov seguinte? Rav e Rabi Chanina, os dois, dizem: é proibido. Rabi Yochanan disse: é permitido. Disse Rabi Mana diante de Rabi Yudan: emparelha-se a mecha com o caso do ovo? Disse-lhe: pelo que vemos, os rabanan a comparam ao ovo. Isso quer dizer: seja esta, seja aquela, a regra é uma só.
Rabi Achá o disse a partir de ulpan (tradição aprendida); Rabi Yossi o disse a partir de deá (raciocínio): os quatro anciãos são como Rabi Eliezer.
Disse Rabi Mana diante de Rabi Yossi: entre Rabi Meir e Rabi Yudá, não é a halachá como Rabi Yudá? E os quatro anciãos seriam como Rabi Eliezer? Se lá, onde o seu eruv não adquiriu para ele, não diria eu que ele arranca os seus pés dos moradores da sua cidade, aqui, onde o seu eruv adquiriu para ele, não se dirá isso com mais razão?
Se depositou eruv com o kikar (pão) no primeiro dia, deposita eruv com o pão no segundo, contanto que com o mesmo pão. Se depositou eruv com os pés no primeiro, deposita eruv com os pés no segundo. Se depositou eruv com os pés, deposita eruv com o pão no segundo? Se com o pão, não deposita eruv com os pés?
Assim como dizes lá: quem depositou eruv com os pés não deposita eruv com o pão no segundo dia; do mesmo modo, quem depositou com o pão não deposita eruv com os pés? Isso é para facilitar ao pobre, que não tem pão.
Assim como dizes lá: quem depositou eruv com os pés não deposita eruv com o pão no segundo dia; do mesmo modo, quem depositou com o pão não deposita eruv com os pés? Isso é para facilitar ao rico, para que não saia a depositar eruv com os pés.
Assim como dizes lá: quem depositou eruv com os pés não deposita eruv com o pão no segundo dia; do mesmo modo, quem depositou com o pão não deposita eruv com o pão? Rabi Avun disse em nome dos rabanan de lá: fizeram-no como quem vai para a sua cidade.
Esta é a oitava halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 3:7 da Mishná avulsa, inteira. As diferenças são estas: רִבִּי יוּדָה onde a avulsa tem רַבִּי יְהוּדָה; תִתְעַבֵּר onde a avulsa tem תִּתְעַבֵּר; עֵירוּבִין e עֵירוּבִי, com yod, onde a avulsa tem עֵרוּבִין e עֵרוּבִי; הָרִאשׁוֹן e וְהַשֵּׁנִי, nas três primeiras opções, onde a avulsa tem בָרִאשׁוֹן ou בָּרִאשׁוֹן e וּבַשֵּׁנִי; e הַשֵּׁנִי וְהָרִאשׁוֹן כִּבְנֵי עִירִי onde a avulsa tem עֵרוּבִי בַּשֵּׁנִי, וּבָרִאשׁוֹן כִּבְנֵי עִירִי. A tradução da última opção acompanhou o hebraico deste texto, que não repete עֵירוּבִי. A halachá ocupa três segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e os outros dois são as seções 01 e 02, um segmento para cada seção. No Yerushalmi, Rabi Yudá é רִבִּי יוּדָה na Mishná e רִבִּי יְהוּדָה na citação que abre a seção 01, e a tradução manteve as duas formas.
Sobre a Mishná. Na época em que o mês era fixado pelo testemunho da lua nova, Elul podia ter vinte e nove ou trinta dias, e quem não sabia se as testemunhas tinham chegado guardava os dois dias. Rabi Yudá vê nos dois dias de Rosh HaShaná um caso de dúvida: um deles é o dia santo e o outro é dia comum, e por isso permite um eruv diferente para cada um, como Rabi Eliezer, na halachá anterior, permite para o Yom Tov junto ao Shabat. Os sábios não concordaram. A Mishná Rosh HaShaná 4:4 ensina que, se as testemunhas chegavam da hora de minchá em diante, se guardava aquele dia como santo e também o dia seguinte. No Bavli, Eruvin 39a, Rav diz que quem não concordou foi Rabi Yossi, e cita a baraita מוֹדִים חֲכָמִים לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּרֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁהָיָה יָרֵא שֶׁמָּא תִּתְעַבֵּר, que termina em רַבִּי יוֹסֵי אוֹסֵר, com a pergunta de Rabi Yossi sobre as testemunhas que chegam depois da minchá; a mesma discussão está na Tosefta Eruvin 4:2, na edição de Lieberman, que diz ור' יוסה אוסר, שקדושת שניהם אחת היא, e, na numeração simples do Sefaria, no fim da Tosefta Eruvin 4:1. Na Mishná do Bavli seguem ainda as palavras de Rabi Yehudá sobre o cesto de frutos e o ovo, e a de Rabi Dossa sobre a oração de Rosh HaShaná; a discussão vai até Eruvin 40a.
Sobre a seção 01. A citação de abertura vem desta Mishná, mas a discussão é a da halachá anterior: se o Yom Tov e o Shabat seguidos são duas santidades ou uma só. A passagem tem paralelos no próprio Yerushalmi, em Beitzá 1:1 e em Sheviit 9:1, e só lá a palavra דְּאִיתְפַּלְּגוֹן, “pois divergiram”, liga o que vem antes ao que vem depois; Guggenheimer considera Beitzá o lugar original. Restos de combustível que se apagaram no Shabat não podiam ser usados naquele dia; a pergunta é se ficam permitidos no Yom Tov do dia seguinte, ou se o Shabat não prepara para o Yom Tov e eles continuam proibidos, como o ovo posto num dia, que, para os rabanan, se compara a esses restos. Os quatro anciãos dizem que quem teve o eruv comido no primeiro dia está, no segundo, como os moradores da sua cidade, isto é, cada dia tem o seu eruv; Rav decide como eles, e Rav Chisdai objeta que no eruv Rav trata os dois dias como duas santidades, e nos restos de mecha, ao proibi-los, como uma santidade só. A repetição da divergência no fim do segmento é do próprio texto do Sefaria e foi traduzida.
Sobre a seção 02. Rabi Achá recebeu de tradição, e Rabi Yossi deduziu, que os quatro anciãos seguem Rabi Eliezer. Rabi Mana objeta: entre Rabi Meir e Rabi Yudá a halachá é como Rabi Yudá, e da posição de Rabi Yudá já se tira a mesma coisa. Lá, na Mishná Eruvin 4:10 da Mishná avulsa, Rabi Yehudá diz que quem saiu para ir a uma cidade onde se deposita eruv e foi feito voltar pelo companheiro pode ir, embora o eruv não tenha sido feito para ele; aqui, onde o eruv do primeiro dia valeu e foi comido, com mais razão. As regras seguintes tratam do eruv feito com pão e do eruv feito com os pés, isto é, indo a pé ao lugar escolhido e declarando ali o repouso. A Mishná Eruvin 4:9 diz הֶעָנִי מְעָרֵב בְּרַגְלָיו e registra que, para Rabi Yehudá, o eruv com pão foi dado לְהָקֵל עַל הֶעָשִׁיר, שֶׁלֹּא יֵצֵא וִיעָרֵב בְּרַגְלָיו, que é a resposta do Yerushalmi na segunda das três perguntas. No Bavli, Eruvin 39a, Rav Yehudá ensina que quem depositou com os pés no primeiro dia deposita com os pés no segundo, e com o pão, com o pão; e que quem depositou com o pão pode depositar com os pés, mas quem depositou com os pés não deposita com o pão, שֶׁאֵין מְעָרְבִין בַּתְּחִלָּה בְּפַת; Shmuel acrescenta וּבְאוֹתָהּ הַפַּת, que no Yerushalmi aparece sem nome. A resposta de Rabi Avun, “fizeram-no como quem vai para a sua cidade”, parece dizer que usar de novo o mesmo pão não é fazer um eruv novo no Yom Tov.
Referências conferidas no Sefaria. Bavli Eruvin 38b: Rav diz הֲלָכָה כְּאַרְבָּעָה זְקֵנִים הַלָּלוּ, וְאַלִּיבָּא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר דְּאָמַר שְׁתֵּי קְדוּשּׁוֹת הֵן, e os quatro são Raban Shimon ben Gamliel, Rabi Yishmael filho de Rabi Yochanan ben Beroká, Rabi Eliezer filho de Rabi Shimon e Rabi Yossi bar Yehudá; ali também Rav Chisda, quando morreu Rav Huna, opôs Rav a Rav a partir do ovo, נוֹלְדָה בָּזֶה אֲסוּרָה בָּזֶה. A Tosefta Eruvin 4:2, na edição de Lieberman, traz a opinião de Raban Shimon ben Gamliel e de Rabi Yishmael, נאכל עירובו עד שלא חשיכה יוצא עליו ביום השני, contra a de Rabi Meir. A Tosefta Beitzá 1:3, na edição de Lieberman, traz נולדה בשבת, תיאכל ביום טוב, e Rabi Yehudá, em nome de Rabi Eliezer, diz que a divergência continua. Bavli Eruvin 46b: Rabi Yaakov bar Idi, em nome de Rabi Yochanan, רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה — הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. O paralelo de Beitzá 1:1 lê מַה אַפְכַּן לָהּ פְּתִילָה גַּבֵּי בֵיצָה e רַב חוּנָה, e o de Sheviit 9:1 lê רַב הוּנָא e רַב חִסְדָּא.
Leituras incertas. מְכַפְּלָה פְתִילָה גַּבֵּי בֵיצָה foi traduzido “emparelha-se a mecha com o caso do ovo?”, a partir de כפל, dobrar; os paralelos têm אַפְכַּן, inverter, e daí a leitura de Guggenheimer, “é o reverso quanto ao ovo?”. הִיא הָדָא הִיא הָדָא e, na repetição, אִי אִידָא אִי אִידָא foram traduzidos “é esta, é aquela” e “seja esta, seja aquela”, no sentido de que a regra é a mesma. כַשֵּׁינִי, onde os paralelos têm בַּשֵּׁינִי, foi traduzido “no segundo”. לֹא הָיִיתִי אוֹמֵר foi lido como pergunta retórica, “não diria eu”. As frases do eruv com o pão e com os pés não têm pontuação no hebraico e foram lidas como perguntas, porque a afirmação seguinte, “com os pés não deposita eruv com o pão”, contradiria a leitura afirmativa. Na primeira das três perguntas, (בְּרַגְלָיו), entre parênteses, é a leitura do escriba, seguida da correção בַּכִּכָּר; a tradução seguiu a correção, embora Guggenheimer a considere errada; o (בַּכִּכָּר) da última pergunta foi traduzido, porque não há outra palavra no lugar. “Lá”, em מִחְלְפָה שִׁיטָּתֵיהּ דְּרַב. תַּמָּן, é o eruv, e “aqui” são os restos de mecha.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês. O Sefaria tem רִבִּי חוּנָה בְשֵׁם רַב, e Guggenheimer traduz “Rav Ḥuna”; aqui ficou “Rav Huna”, segundo os paralelos e a grafia do site, e o registro fica feito. Guggenheimer traduz רַב חַסְדַּאי como “Rav Ḥisda”; aqui ficou “Rav Chisdai”, como no hebraico. Ele traduz מְכַפְּלָה como os paralelos; aqui seguiu-se o hebraico.
Nomes nesta página: Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָה, e Rabi Yehudá, רִבִּי יְהוּדָה; Rav, רַב; Rabi Chanina, רִבִּי חֲנִינָה; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Rabi Mana, רִבִּי מָנָא; Rabi Yudan, רִבִּי יוּדָן; Rav Huna, רִבִּי חוּנָה; Rav Chisdai, רַב חַסְדַּאי; Rabi Achá, רִבִּי אָחָא; Rabi Yossi, רִבִּי יוּסֵי e רִבִּי יוֹסֵה; Rabi Eliezer, רִבִּי אֱלִיעֶזֶר; Rabi Meir, רִבִּי מֵאִיר; Rabi Avun, רִבִּי אָבוּן.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e dois marcadores de folha, o de Vilna, 26a, e o de Veneza, 21c, ambos na seção 02. A marca פיס׳ e a abreviação כול׳, no início da seção 01, foram mantidas, assim como os parênteses do Sefaria; o texto não tem marcador numérico, e nenhum foi acrescentado.