Quinta halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que uma pessoa pode pôr condição sobre o seu eruv: se vierem goyim do oriente, o eruv vale a ocidente; se do ocidente, a oriente; se de ambos os lados, irá aonde quiser; e, se não vierem, será como os moradores da sua cidade. A guemará corrige a Mishná para “os seus eruvin” e pergunta quem é o tana da condição dupla, “se vierem” e “se não vierem”: os colegas dizem que é o Rabi Meir de kidushin, que exige duplicar o tnai, e Rabi Yossi diz que é o Rabi Meir de Eruvin, o do chamar gamal; traz o simfon, o contrato de noivado redigido segundo Rabi Meir, com a pergunta de Rabi Chinena e a resposta de Rabi Matanyá sobre o rigor nas arayot; pergunta o que acontece a quem não fez condição, com a baraita dos dois techumin e do animal de dois sócios, e a discussão de Rav e Ula bar Yishmael sobre o animal abatido; e termina com outra correção da Mishná e com os tanaim que ensinam “no oriente”, explicados pelos oficiais e pelos romanos. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 36b.
Mishná: Uma pessoa faz condição sobre o seu eruv (a refeição depositada que fixa a residência de Shabat) e diz: se vierem goyim (gentios) do oriente, o meu eruv fica a ocidente; e, se vierem do ocidente, o meu eruv fica a oriente; se vierem daqui e dali, de ambos os lados, irei ao lugar que eu quiser; se não vierem nem daqui nem dali, eis que sou como os moradores da minha cidade.
“Uma pessoa faz condição sobre o seu eruv” etc. Assim é o texto da Mishná: “sobre os seus eruvin”, no plural. Disse Rabi Lazar: quem é o tana (mestre da Mishná) que ensina “se vierem”, “se não vierem”? Rabi Meir. Qual Rabi Meir? Os colegas dizem: o Rabi Meir de kidushin (o ato do noivado).
Pois foi ensinado: quem diz a uma mulher: “Eis que tu me és desposada com a condição de que caiam chuvas”, se caíram chuvas, ela é desposada; e, se não, não é desposada. Rabi Meir diz: quer tenham caído, quer não tenham caído, ela é desposada, até que ele duplique o seu tnai (condição). Todos concordam que, se disse à mulher: “Eis que tu me és desposada depois que caírem chuvas”, se caíram chuvas, ela é desposada; e, se não, não é desposada. Mas, segundo os rabanan (os sábios), quer tenham caído, quer não tenham caído, ela é desposada.
Rabi Yossi disse: é o Rabi Meir de Eruvin, pois ensinamos: “Se é dúvida, Rabi Meir e Rabi Yudá dizem: eis que ele é chamar gamal (condutor de jumento e condutor de camelo); Rabi Yossi e Rabi Shimon dizem: a dúvida do eruv é válida.” Disse Rabi Yossi: Rabi Meir não disse isso senão para os rigores. Disse Rabi Mana: e está certo o que disse Rabi Yossi. No seu eruv, ele não está, porque o seu eruv não lhe adquiriu o lugar; e não está como os da sua cidade, porque quis arrancar os seus pés e separar-se dos moradores da sua cidade.
E aqui, no caso da mulher, ao primeiro ela não é desposada, porque não caíram chuvas; e ao segundo ela não é desposada, porque o primeiro não duplicou o seu tnai. Rabi Chagai perguntou diante de Rabi Yossi: aquele “se não” do versículo, acaso não é uma só coisa com “não”? Disse ele: é diferente, pois a terra já estava diante deles, e ele queria tirá-la da mão deles.
Rabi Yudá ben Shalom, Rabi Yudá ben Pazi, em nome de Rabi Yochanan: desceram a redigir o simfon (contrato de acordo) segundo a linha do Rabi Meir de kidushin. Rabi Yirmeyá, Rabi Chinena, que era colega dos rabanan, perguntou: e por que redigiram segundo Rabi Meir? Valeria mesmo segundo os rabanan!
Não é assim? Pois disse Rabi Abahu em nome de Rabi Yochanan: a ordem do texto do simfon é assim: “Eu, Fulano filho de Fulano, desposo a ti, Fulana filha de Fulano, com a condição de te dar tal valor em bens e de te recolher em casamento no dia tal; se chegar o dia tal e eu não te tiver recolhido, então não haverá para mim nada sobre ti.”
E que ele diga apenas “com a condição”, sem duplicar o seu tnai! Mas se não tivesse duplicado o seu tnai, acaso isso arrancaria o seu kidushin? Disse Rabi Yossi beRabi Bun: em todo lugar Rabi Meir sustenta que, da implicação do “não”, tu ouves o “sim”; e aqui não sustenta isso? Disse Rabi Matanyá: é por causa do rigor nas arayot (relações proibidas).
Se não fez condição, o que se faz? Ouçamo-lo desta: “Eis quem fez eruv entre dois techumin (limites de Shabat): anda no sul conforme o seu eruv no norte, e no norte conforme o seu eruv no sul. Se dividiu ao meio o techum, não se mova do seu lugar.”
Um animal que pertence a dois sócios: um fez eruv no norte, e o outro no sul; o animal anda no sul conforme o eruv deste, no norte, e no norte conforme o eruv deste, no sul. Se dividiram ao meio o techum, não se mova do seu lugar. Se o abateram, o que acontece com a carne? Rav disse: os membros sugam um do outro. Ula bar Yishmael disse: os membros não sugam um do outro. Rav concorda quanto a um barril de dois sócios, que é a sua parte desde a primeira hora.
Assim é a Mishná: “vieram goyim daqui e dali”, “não vieram goyim nem daqui nem dali”. Sobre “vieram goyim do oriente, o meu eruv fica a ocidente”, há tanaim (mestres que recitam a Mishná) que ensinam “no oriente”. Quem diz “no oriente” fala desses taksiotei (oficiais do governo); quem diz “no ocidente” fala desses romanos.
Esta é a quinta halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin, e a sua Mishná corresponde à primeira metade da Mishná Eruvin 3:5 da Mishná avulsa. As diferenças são estas: אָדַם onde a avulsa tem אָדָם; עֵירוּבוֹ e עֵירוּבִי, com yod, onde a avulsa tem עֵרוּבוֹ e עֵרוּבִי; גוֹיִם onde a avulsa tem גוֹיִים; וְאִם בָּאוּ מִן הַמַּעֲרָב onde a avulsa tem só מִן הַמַּעֲרָב; לַמִּזְרַח, com patach, na segunda vez, onde a avulsa tem לַמִּזְרָח; מִיכָּן וּמִיכָּן onde a avulsa tem מִכָּאן וּמִכָּאן; e לְמָקוֹם onde a avulsa tem לִמְקוֹם. A avulsa continua com o caso do sábio, אִם בָּא חָכָם מִן הַמִּזְרָח, e com a palavra de Rabi Yehudá sobre o mestre; no Yerushalmi, essa parte é a Mishná da halachá seguinte, Eruvin 3:6. No Bavli, a Mishná inteira está em Eruvin 36b, com לְכָאן וּלְכָאן no lugar de מִיכָּן וּמִיכָּן. A halachá ocupa cinco segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e os outros quatro são as seções 01 a 04; o segundo segmento foi dividido em quatro blocos dentro da seção 01, e o terceiro, em três blocos dentro da seção 02.
Sobre a seção 01. A guemará diz que o texto deve ser “sobre os seus eruvin”, porque a pessoa deposita dois eruvin, um de cada lado. A condição da Mishná tem as duas faces, “se vierem” e “se não vierem”, e Rabi Lazar atribui essa forma a Rabi Meir. Os colegas pensam no Rabi Meir de kidushin, para quem uma condição só vale se for duplicada, com a face positiva e a negativa, como a condição dos filhos de Gad e de Reuven. Rabi Yossi pensa no Rabi Meir da Mishná anterior, que, na dúvida, faz da pessoa um chamar gamal, preso entre o eruv e a cidade; segundo Rabi Yossi, Rabi Meir só disse isso para agravar. Rabi Mana explica, ao que parece, que o chamar gamal não tem o eruv, que não lhe adquiriu o lugar, e também não tem a cidade, porque quis sair dela; e a guemará aplica o mesmo rigor duplo à mulher que recebeu dois noivados, um condicionado à chuva: não é desposada ao primeiro, porque não choveu, nem ao segundo, porque o primeiro não duplicou a condição. A frase בְּרַם כְּרַבָּנִן בֵּין שׁיָּרְדוּ בֵין שֶׁלֹּא יָרְדוּ מְקוּדֶּשֶׁת contradiz o que vem antes dela, e não está no paralelo do Yerushalmi Kidushin; foi traduzida como está no texto. A pergunta de Rabi Chagai trata, ao que parece, do versículo dos filhos de Gad e de Reuven, que repete a condição com וְאִם לֹא, e a resposta diz que ali a repetição era necessária porque a terra já estava diante deles; o hebraico não diz quem responde, e a tradução não nomeou ninguém.
Sobre a seção 02. O simfon é o documento de noivado condicional. Rabi Yochanan diz que ele foi redigido segundo Rabi Meir, isto é, com a condição duplicada: “se chegar o dia tal e eu não te tiver recolhido, não haverá para mim nada sobre ti”. Rabi Chinena pergunta por que seria preciso Rabi Meir, se o texto valeria também para os rabanan; a guemará responde que, se bastasse “com a condição”, não seria preciso duplicar, e que, para Rabi Meir, sem a duplicação, o noivado não se desfaria. Rabi Yossi beRabi Bun estranha que Rabi Meir, que em outros lugares deduz o “sim” do “não”, aqui não deduza, e Rabi Matanyá explica que, nas arayot, se é mais rigoroso. O hebraico justapõe os nomes no início, רִבִּי יוּדָה בֶּן שָׁלוֹם רִבִּי יוּדָה בֶּן פָּזִי, e depois רִבִּי יִרְמְיָה רִבִּי חִינְנָא, sem dizer como se ligam; a tradução manteve a justaposição.
Sobre a seção 03. A guemará pergunta o que acontece a quem depositou dois eruvin sem fazer condição. A baraita responde que ele fica com o mais restrito dos dois: só anda para o sul até onde o eruv do norte permite, e para o norte até onde o eruv do sul permite; se os dois limites só se tocam no lugar onde ele está, não se move dali. O mesmo vale para o animal de dois sócios, cada um com o seu eruv, já que o animal anda conforme os pés dos donos. Se o abateram, Rav diz que cada membro “suga” dos outros, de modo que as partes continuam presas aos dois limites, e Ula bar Yishmael diz que não; Rav concorda que, no barril de dois sócios, a parte de cada um se considera separada desde o início.
Sobre a seção 04. A guemará corrige a Mishná para que diga “goyim” também nos casos “daqui e dali” e “nem daqui nem dali”. Há quem ensine “no oriente”, isto é, que quem foge dos goyim do oriente põe o eruv no próprio oriente; a guemará explica que uma leitura fala dos taksiotei, oficiais diante dos quais a pessoa quer ir, e a outra fala dos soldados romanos, dos quais a pessoa quer fugir.
Referências conferidas no Sefaria. A Mishná citada por Rabi Yossi na seção 01 é a Mishná Eruvin 3:4, אִם סָפֵק, רַבִּי מֵאִיר וְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמְרִים, הֲרֵי זֶה חַמָּר גַּמָּל. A condição duplicada de Rabi Meir está na Mishná Kidushin 3:4, כָּל תְּנַאי שֶׁאֵינוֹ כִתְנַאי בְּנֵי גָד וּבְנֵי רְאוּבֵן, אֵינוֹ תְנַאי, com Bamidbar 32:29–30. As seções 01 e 02 têm paralelo no Yerushalmi Kidushin 3:3, que traz רִבִּי אֶלְעָזָר, רִבִּי יוּדָה בַּר סִיסִין רִבִּי יוּדָה בַּר פָּזִי בְשֵׁם רִבִּי אָחָא, רִבִּי חֲנַנְיָה חֲבֵרִין דְּרַבָּנִין e אָמַר לֵיהּ na resposta a Rabi Chagai, e não tem a frase dos rabanan sobre a chuva. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 36b, e a guemará segue até Eruvin 37b: em Eruvin 36b, Rabi Yitzchak ensina a Mishná invertida, e a guemará resolve a contradição dos goyim com הָא — בְּפַרְהַגְבָּנָא, הָא — בְּמָרֵי דְמָתָא, paralelo às duas leituras da seção 04; ali também Rav diz que a Mishná não segue o que ensinou Ayo em nome de Rabi Yehudá, אֵין אָדָם מַתְנֶה עַל שְׁנֵי דְבָרִים כְּאֶחָד, e a guemará fala de בְּרֵירָה; Eruvin 37a e 37b continuam a discussão sobre bereirá de Rabi Yehudá, Rabi Yossi e Rabi Shimon. A baraita da seção 03 está na Tosefta Eruvin 3:4, na numeração do Sefaria, com טעה ועירב לב' רוחות e אל יזוז ממקומו, e no Bavli Eruvin 50b, טָעָה וְעֵירַב לִשְׁתֵּי רוּחוֹת e וְאִם מִיצְּעוּ עָלָיו אֶת הַתְּחוּם — לֹא יָזוּז מִמְּקוֹמוֹ. No Bavli Beitzá 37b, Rav diz, sobre dois que compraram em sociedade um barril e um animal, חָבִית מוּתֶּרֶת וּבְהֵמָה אֲסוּרָה, e explica que no animal קָא יָנְקִי תְּחוּמִין מֵהֲדָדֵי. A Tosefta Eruvin 3:1 traz a palavra de Rabi Yehudá sobre o sábio e o mestre, e 3:2 começa com מתנה אדם על עירובו, sobre condições de um Shabat para outro.
Leituras incertas. בְּעֵירוּבוֹ אֵינוֹ. שֶׁלֹּא זָכָה לוֹ עֵירוּבוֹ. לַעֲקוֹר אֶת רַגְלָיו מִבְּנֵי עִירוֹ, na seção 01, é elíptico; a tradução completou em itálico a segunda parte com o paralelo do Yerushalmi Kidushin, que tem כִּבְנֵי עִירוֹ. שֶׁנָּתֶן דַּעְתּוֹ לַעֲקוֹר אֶת רַגְלָיו מִבְּנֵי עִירוֹ. הָהֵן אִם לֹא כִּי לֹא חַד הוּא foi traduzido “aquele ‘se não’, acaso não é uma só coisa com ‘não’”. יָרְדוּ לְסִימְפּוֹן foi traduzido “desceram a redigir o simfon”. לֵית כֵּן foi traduzido “não é assim?”. מִקְּמַת פַּלָּן foi traduzido “tal valor em bens”. וְיֵימַר. עַל מְנָת. שֶׁלֹּא יַכְפִּיל תְּנָייוֹ foi traduzido como uma proposta, “e que diga apenas ‘com a condição’, sem duplicar o seu tnai”. מִיצֵּע אֶת הַתְּחוּם foi traduzido “dividiu ao meio o techum”. אֵיבָרִים יוֹנְקִין זֶה מִזֶּה foi traduzido literalmente, “os membros sugam um do outro”. טַקְסִיווֹטֵי foi traduzido “oficiais do governo”, como em Guggenheimer, que o deriva do grego.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer põe entre parênteses e manda apagar a frase בְּרַם כְּרַבָּנִן, com o paralelo de Kidushin; aqui ela foi traduzida. Ele traduz רִבִּי לָעְזָר por “Rebbi Eleazar” e רִבִּי חִינְנָא por “Rebbi Ḥananiah”, como no paralelo de Kidushin; aqui ficaram os nomes do texto, Rabi Lazar e Rabi Chinena. Ele traduz רִבִּי יוּדָה בֶּן פָּזִי por “Rebbi Jehudah bar Pazy”; aqui ficou ben, como no hebraico. Ele traduz בַּמִּזְרָח por “to the East”, como direção; aqui ficou “no oriente”. Na seção 04, ele anota que לֹא בָאוּ deveria ser lido com אִם; aqui ficou como está.
Nomes nesta página: Rabi Lazar, רִבִּי לָעְזָר; Rabi Meir, רִבִּי מֵאִיר; Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵה e רִבִּי יוֹסֵי; Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָה; Rabi Shimon, רִבִּי שִׁמְעוֹן; Rabi Mana, רִבִּי מָנָא; Rabi Chagai, רִבִּי חַגַּיי; Rabi Yudá ben Shalom, רִבִּי יוּדָה בֶּן שָׁלוֹם; Rabi Yudá ben Pazi, רִבִּי יוּדָה בֶּן פָּזִי; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Rabi Yirmeyá, רִבִּי יִרְמְיָה; Rabi Chinena, רִבִּי חִינְנָא; Rabi Abahu, רִבִּי אַבָּהוּ; Rabi Yossi beRabi Bun, רִבִּי יוֹסֵה בֵּירִבִּי בּוּן; Rabi Matanyá, רִבִּי מַתַּנְיָיה; Rav, רַב; e Ula bar Yishmael, עוּלָּא בַּר יִשְׁמָעֵאל.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá, o marcador de coluna de Veneza, 21b, no início da seção 01, antes de עֵירוּבוֹ כול׳, e os marcadores de folha de Vilna: 24a, na seção 01, antes de וְלַשֵּׁינִי; e 24b, na seção 03, antes de מִיצֵּע אֶת הַתְּחוּם. O texto do Sefaria não tem marcador numérico nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. A marca פיס׳ e a abreviação כול׳, no início da seção 01, foram mantidas, assim como grafias do Sefaria como אָדַם, שׁיָּרְדוּ, שֶׁלְשְׁנֵי e מִיצַּעת.