A palavra de Rava continua: se o início do dia adquirisse o eruv, a terumat maaser do frasco do tevul yom seria válida para o eruv; Rav Pappa responde que é preciso uma refeição própria enquanto ainda é dia. Começa então uma nova mishná: uma pessoa pode pôr dois eruvin e fazer uma condição, fugindo dos gentios ou indo ao encontro de um chacham, e Rabi Yehuda diz que, se um deles era o seu mestre, vai até o seu mestre. Na guemará, Rabi Yitzchak ensina toda a mishná ao contrário, e a guemará distingue entre o cobrador de impostos e o senhor da cidade, e entre quem expõe lições e quem ensina o Shemá às crianças. Os Rabanan explicam que às vezes se prefere o colega ao mestre. Rav rejeita a mishná por causa da baraita de Ayo, segundo a qual Rabi Yehuda não admite condição sobre duas coisas; a guemará pergunta por que, então, vale a condição sobre um só chacham, e Rabi Yochanan responde que o chacham já tinha vindo. A guemará começa a provar, pela mishná de quem compra vinho entre os kutim, que Rabi Yehuda não sustenta que há bererá. O texto continua em Eruvin 37a.
Pois, se te ocorresse dizer que é o início do dia de Shabat, isto é, o momento depois de escurecer, que adquire o eruv, então, se disse: Fazei eruv para mim com este, com o que está neste frasco, por que não disse nada? Afinal, depois que escurece, quando começa o Shabat, o frasco já está puro, e por isso a terumat maaser (a terumá do dízimo) que está nele também está pura e é própria para o eruv.
“Pois, se disseres que o início do dia” — de Shabat — adquire o eruv, isto é, que o fim do crepúsculo adquire o eruv, por que então não disse nada? Pois no fim do crepúsculo o frasco já está puro.
Esta frase continua a palavra de Rava, que termina Eruvin 36a (bloco 1262): “Isto quer dizer que o fim do dia adquire o eruv”. O lema do Rashi diz “דאי אמרת”, “pois, se disseres”, onde o texto diz “דְּאִי סָלְקָא דַעְתָּךְ”, “pois, se te ocorresse”; o sentido é o mesmo.
Rav Pappa disse: Isto não é prova; mesmo que digas que o início do dia adquire o eruv, ainda assim precisamos de uma refeição própria para ser comida enquanto ainda é dia, antes da entrada do Shabat, para que o eruv seja válido, e aqui não há, pois, enquanto ainda era dia, era proibido comer o conteúdo do frasco, que ainda era tevel (produto do qual ainda não se separaram as porções devidas).
MISHNÁ. Uma pessoa pode fazer uma condição sobre o seu eruv de techumin, sem decidir de antemão em que direção o seu eruv valerá; por exemplo, põe um eruv em cada um dos dois lados da sua cidade, e diz: Se vierem gentios do oriente, o meu eruv será o do ocidente, para que eu possa fugir para lá; se vierem do ocidente, o meu eruv será o do oriente. Se vierem para cá e para lá, isto é, dos dois lados, irei ao lugar que eu quiser, e o meu eruv valerá retroativamente naquela direção. Se não vierem, nem para cá nem para lá, eis que sou como os demais habitantes da minha cidade, e renuncio aos dois eruvin, e tenho duas mil amot para cada lado a partir da cidade.
Mishná: “Uma pessoa faz uma condição sobre o seu eruv” — uma pessoa põe dois eruvin, um no fim de duas mil amot a oriente da sua casa, e um no fim de duas mil amot a ocidente da sua casa.
“E diz: Se vierem gentios do oriente” — e eu preciso fugir deles, que me adquira a morada o meu eruv que está no ocidente, e terei, a ocidente da minha casa, quatro mil amot. Embora não venham até amanhã, dizemos que há bererá (designação retroativa), pois no crepúsculo o seu eruv do outro lado lhe adquiriu a morada.
“Eis que sou como os habitantes da minha cidade” — tenho duas mil amot a partir da minha cidade para cada lado, e não preciso ganhar aqui e perder ali.
Encerrada a guemará sobre o eruv que se queimou ou, sendo terumá, se tornou impuro (Mishná Eruvin 3:4), inicia-se aqui uma nova mishná do Perek Guimel (BaKol Mearvin), que corresponde à Mishná Eruvin 3:5 na numeração das edições avulsas da Mishná; aqui vem a sua primeira parte, das palavras “Uma pessoa faz uma condição sobre o seu eruv” até “eis que sou como os habitantes da minha cidade”, e ela continua no bloco 1266. Ela ensina que se pode pôr dois eruvin, um de cada lado da cidade, e deixar a escolha entre eles depender do que acontecer, como a chegada de gentios ou de um chacham. Na edição avulsa lê-se “עֵרוּבוֹ”, “גוֹיִים”, “מִכָּאן וּמִכָּאן” e “לֹא בָאוּ לֹא מִכָּאן וְלֹא מִכָּאן”, onde o Talmud diz “עֵירוּבוֹ”, “גּוֹיִם”, “לְכָאן וּלְכָאן” e “לֹא בָּאוּ לֹא לְכָאן וְלֹא לְכָאן”; são diferenças de grafia e de preposição, e o sentido é o mesmo. O lema do Rashi diz “נכרים” onde o texto diz “גּוֹיִם”; ambas as palavras designam os gentios. A palavra “retroativamente” segue a tradução de referência e o Rashi, que diz que aqui há bererá.
Se vier um chacham (sábio) do oriente, e for passar o Shabat fora do techum da minha cidade, o meu eruv será o do oriente, para que eu possa ir ao seu encontro; se vier do ocidente, o meu eruv será o do ocidente. Se um vier para cá e outro para lá, irei ao lugar que eu quiser; se não vier nem para cá nem para lá, eis que sou como os demais habitantes da minha cidade. Rabi Yehuda diz: Se um deles era o seu mestre, vai somente até o seu mestre, pois se presume que esta era a sua intenção desde o início; e, se ambos eram os seus mestres, de modo que não há razão para supor que preferia um ao outro, irá ao lugar que quiser.
“Veio um chacham para o oriente” — fora do techum da minha cidade, e quero aprender Torá da sua boca, e agora não sei para que lado virá; e amanhã ouvirei isso de pessoas que vêm de lá para cá, e irei até ele por meio do eruv.
“Rabi Yehuda diz” — se vieram para cá e para lá, e um deles é o seu mestre, vai até o seu mestre, e não até o outro chacham, pois temos por certo, a seu respeito, que na hora da aquisição do eruv a sua intenção era adquirir aquele eruv que está do lado do seu mestre; mas ele mesmo é que não sabia para qual dos lados o mestre viria; e agora, que sabe, que vá para lá.
Com estas palavras termina a Mishná Eruvin 3:5 das edições avulsas, cujo início veio no bloco 1265. Na edição avulsa lê-se “עֵרוּבִי”, “כִבְנֵי” e “שְׁנֵיהֶם”, onde o Talmud diz “עֵירוּבִי”, “כִּבְנֵי” e “שְׁנֵיהֶן”; são diferenças de grafia. O lema do Rashi diz “בא חכם למזרח”, “veio um chacham para o oriente”, onde a mishná diz “אִם בָּא חָכָם מִן הַמִּזְרָח”, “se vier um chacham do oriente”; o sentido é o mesmo.
GUEMARÁ. Quando Rabi Yitzchak veio da Terra de Israel para a Babilônia, ensinou toda a mishná ao contrário, numa baraita (ensinamento dos tanaítas não incluído na Mishná): se vierem gentios do oriente, o seu eruv será o do oriente; e, se vier um chacham do oriente, o seu eruv será o do ocidente. Mas, então, é difícil a regra dos gentios na mishná contra a dos gentios na baraita, e é difícil a regra do chacham na mishná contra a do chacham na baraita!
Guemará: “Ensinou ao contrário” — trouxe na sua mão uma baraita que ensina ao contrário: a pessoa foge do chacham, e faz a condição: Se vier um chacham para o oriente, o seu eruv será o do ocidente etc.; e, quanto aos gentios, ensina que, para aquele lado para onde vierem os gentios, para esse lado o seu eruv lhe adquira a morada.
O Rashi chama de “מתניתא” o texto que Rabi Yitzchak trouxe, isto é, uma baraita, como também diz a tradução de referência; e diz “נכרי׳” onde o texto da mishná diz “גּוֹיִם”.
A guemará responde: A contradição entre os gentios da mishná e os gentios da baraita não é difícil: esta, a mishná, trata de um parhagbana (cobrador de impostos), do qual se quer fugir; aquela, a baraita, trata do senhor da cidade, com quem se quer falar; por isso, às vezes se quer ir ao encontro do gentio, e às vezes se quer fugir dele.
“Parhagbanei” — os cobradores do imposto, e ele foge deles.
“O senhor da cidade” — ele precisa ir até ele para apaziguá-lo ou para clamar diante dele.
O lema do Rashi diz “פרהגבני”, no plural, onde o texto diz “פַרְהַגְבָּנָא”; o sentido é o mesmo.
Também a contradição entre o chacham da mishná e o chacham da baraita não é difícil: esta, a mishná, trata de quem senta e expõe publicamente pirkei (lições de Torá), e de quem se quer ir aprender; aquela, a baraita, trata de quem ensina as crianças a recitar o Shemá, isto é, a rezar, de quem não se tem necessidade; e a baraita ensina que, se este vier de um lado, e quem expõe lições vier do lado oposto, o seu eruv será o do lado de quem expõe lições.
“Quem senta e expõe lições” — para expor a Torá em público; a intenção da pessoa é ir e ouvir.
“Quem ensina a recitar o Shemá” — isto é, os mestres das crianças, que as ensinam a rezar. E a mishná de Rabi Yitzchak, isto é, a baraita que ele trouxe, trata do caso em que vieram dois, um para este lado e um para aquele lado; e a nossa mishná se refere a quem expõe lições, e assim diz: Se veio quem expõe lições para o oriente, ou veio um para cá e outro para lá, que ambos expõem lições, irei ao lugar que eu quiser; e, quando ele escolher amanhã, dizemos: O assunto se esclareceu, e se vê que na hora da aquisição do eruv a sua intenção era por aquele chacham. E a baraita de Rabi Yitzchak se refere a quem ensina o Shemá, e assim diz: Se veio quem ensina o Shemá para o oriente, o meu eruv será o do lado de quem expõe lições, no ocidente; se veio quem ensina o Shemá para o ocidente, o meu eruv será o do lado de quem expõe lições, no oriente; se vieram para cá e para lá, e ambos expõem lições, ou ambos são iguais, irei ao lugar que eu quiser. Assim ouvi.
O Rashi chama aqui de “מתני׳ דר׳ יצחק”, “a mishná de Rabi Yitzchak”, a baraita que Rabi Yitzchak trouxe; por isso, no texto, a palavra foi explicada como baraita. A expressão “O assunto se esclareceu” é a fórmula da bererá: o que se decide depois revela qual era a intenção desde o início.
Aprendemos na mishná: “Rabi Yehuda diz: Se um deles era” etc., isto é, se um deles era o seu mestre, vai somente até o seu mestre. E os Rabanan, por que não aceitam esta razão? Porque às vezes alguém prefere o seu colega mais do que o seu mestre, pois às vezes se aprende mais dos colegas do que dos mestres.
“E os Rabanan” — que divergem de Rabi Yehuda, e dizem que, mesmo se um deles é o seu mestre, irá ao que quiser.
“Pois às vezes a pessoa prefere o seu colega mais do que o seu mestre” — e os Rabanan sustentam que há bererá também aqui.
O lema do Rashi diz “דזמנין דניחא ליה לאיניש”, com “לאיניש” (“a pessoa”), que não está no texto. A abreviação “וי״ל” do Rashi foi entendida no sentido de que, para os Rabanan, há bererá também neste caso, em que um deles é o seu mestre.
Rav disse: Esta versão da mishná não deve ser aceita, por causa do que Ayo ensinou, em sentido contrário; pois Ayo ensinou numa baraita: Rabi Yehuda diz: Uma pessoa não pode fazer condição sobre duas coisas ao mesmo tempo, isto é, não pode dizer que, se um chacham vier de um lado e outro chacham do outro lado, irá aonde quiser; mas pode dizer: Se veio um chacham para o oriente, o seu eruv será o do oriente; e, se veio um chacham para o ocidente, o seu eruv será o do ocidente; mas dizer que, se vier um para cá e outro para lá, irá aonde quiser, não.
“A mishná não é” — pois ensina, segundo Rabi Yehuda: Se ambos eram os seus mestres, irá ao lugar que quiser; logo, Rabi Yehuda sustenta que há bererá, pois o eruv adquiriu a morada desde ontem, e só agora ele o esclarece, e dizemos: O assunto se esclareceu, e se vê que desde ontem também a sua intenção era por este.
“A mishná não é” — não é a principal, por causa do que Ayo ensinou, já que encontramos uma mishná, isto é, uma baraita, que Ayo ensinou, dizendo que não é assim.
“Ayo” — nome de um chacham.
“Sobre duas coisas” — isto é, dizer: Se veio para cá e para lá, irei ao lugar que eu quiser; pois não há bererá. Mas sobre um só, quando não sabe para onde virá, pode fazer condição e dizer: Se veio um chacham para o oriente etc.
A palavra “(כֵּן)” entre parênteses, depois de “אִם”, é uma marca de editor no hebraico, mantida; a tradução de referência não a traduz, e ela ficou sem tradução. O Rashi traz duas explicações sob o mesmo lema “ליתא למתני׳” / “ליתא למתניתין”: na primeira, Rav rejeita a cláusula “se ambos eram os seus mestres, irá ao lugar que quiser”, que supõe bererá; na segunda, a mishná “não é a principal”, por causa da baraita de Ayo. O lema “איו” é grafia do nome Ayo (“אַיּוֹ”).
A guemará pergunta: Em que difere a condição sobre para cá e para lá, em que o eruv não vale? É porque não há bererá (designação retroativa), isto é, não se pode esclarecer depois o que estava indeterminado antes. Mas, então, no caso de oriente e ocidente, quando um só chacham pode vir de qualquer dos lados, também não há bererá, e ele não deveria poder decidir depois qual dos eruvin lhe adquiriu a morada!
“Em que difere para cá e para lá” — em que se fez depender, dizendo: Ao que eu quiser irei, que Rabi Yehuda não permite?
“Pois não há bererá” — pois, quando esclarece amanhã, dizemos: Talvez ontem, quando o eruv adquiriu, a sua intenção não fosse por este, mas pelo outro.
“Oriente e ocidente também” — quando não veio senão um; e agora supões que, no crepúsculo, o chacham ainda não tinha vindo para o oriente, pois ainda estava distante do eruv seis mil amot menos duas amot, e depois que escureceu andou duas mil e entrou dentro das quatro mil da cidade; e este, que pôs o seu eruv e o fez depender da intenção do chacham, e disse: Se vier para o oriente, o meu eruv será o do oriente, e, se não vier nem para cá nem para lá, eis que sou como os habitantes da minha cidade, e não haverá eruv; e amanhã ouviu que veio para o oriente: quem dirá que, na hora da aquisição do eruv, a intenção do chacham era entrar dentro das quatro mil da cidade? Talvez não estivesse na sua intenção mover-se, e o eruv deste não lhe adquiriu a morada. E Rabi Yehuda diz que adquiriu, pois dizemos: O assunto se esclareceu, pois o fim provou que, no crepúsculo, a sua intenção era vir para cá.
O lema do Rashi diz “מזרח ומערב נמי”, onde o texto diz “לַמִּזְרָח לַמַּעֲרָב — נָמֵי”; o sentido é o mesmo. As distâncias do Rashi (“seis mil menos duas amot”, “duas mil”, “quatro mil da cidade”) foram mantidas literalmente.
Rabi Yochanan disse: Isto não é um caso de bererá, pois a mishná trata do caso em que o chacham já tinha vindo antes do crepúsculo, mas quem fez o eruv ainda não sabia para que lado da cidade ele tinha vindo; assim, na hora em que o eruv adquire a morada, já está determinado qual eruv ele quer, embora ele mesmo só o venha a saber depois.
“Rabi Yochanan disse: E o chacham já tinha vindo” — a nossa mishná trata deste caso: o chacham já tinha vindo antes do crepúsculo, mas este não sabia para onde tinha vindo, ou se tinha vindo ou não; e amanhã, quando isso se torna conhecido para ele, é uma mera revelação do assunto, e revelou-se que aquele eruv adquiriu; e isto não é apoiar-se no esclarecimento de uma dúvida, mas uma aquisição certa, pois ele disse: Do lado do chacham, que o eruv me adquira; e o chacham já tinha vindo antes da aquisição do eruv, e o eruv adquiriu.
O lema do Rashi abrevia “אמר רבי” como “א״ר”.
A guemará pergunta sobre a palavra de Rav: Por que rejeitar a mishná por causa da baraita? Ao contrário, digamos que a baraita de Ayo não deve ser aceita por causa da mishná!
“Ao contrário, a de Ayo não é” — pois a mishná é a principal, e aquela é só uma baraita.
A guemará responde: Não te ocorra sustentar a mishná, pois ela contradiz outras fontes, pois já ouvimos que Rabi Yehuda não sustenta que há bererá; pois aprendemos numa mishná: Quem compra vinho entre os kutim (samaritanos, que não separam corretamente os dízimos)…
“Não te ocorra” — isto é, não te ocorra excluir aquela de Ayo.
“Quem compra vinho entre os kutim” — antes que decretassem sobre o seu vinho, como se explica em Shechitat Chulin; e os kutim, em geral, não separam terumá, e este não tem vasilhas para separar nelas a terumá e o maaser.
A mishná citada é a Mishná Demai 7:4 (numeração do Sefaria), que começa com “הַלּוֹקֵחַ יַיִן מִבֵּין הַכּוּתִים”. A tradução de referência diz que a fonte é a Tosefta, mas o hebraico diz “דִּתְנַן”, expressão que introduz uma mishná, e o texto está na Mishná Demai 7:4. “Shechitat Chulin”, no Rashi, é o tratado Chulin; o decreto dos Sábios sobre o vinho dos kutim é narrado em Chulin 6a. O daf termina no meio da citação, que continua em Eruvin 37a.