Segunda halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que se faz eruv com demai, com maaser rishon do qual foi tirada a terumá e com maaser sheni e hekdesh resgatados, e que os kohanim fazem eruv com a chalá e a terumá; mas não com o tevel nem com o que não foi tirado ou resgatado. E quem manda o seu eruv por meio de um surdo-mudo, de um demente, de um menor ou de quem não reconhece o eruv, não fez eruv, a não ser que tenha dito a outro que o recebesse. A guemará pergunta, com Rabi Yaakov Deromaya, se a Mishná não contraria Beit Shammai, que invalidam o etrog de demai; traz o tevel com condição, que se pode mover no Shabat, e a palavra de Beit Shammai sobre o maaser sheni em Jerusalém, que Rabi Yirmeyá restringe aos pátios; registra a idade do menino cujo eruv vale, segundo Shmuel e Rabi Yossi, e a história da mulher que fez as pazes por causa do eruv dos pátios; e termina comparando o mensageiro do eruv com quem dizima pelo companheiro. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 31a.
Mishná: Faz-se eruv (a junção que permite transportar ou caminhar no Shabat) com demai (produto duvidoso quanto ao dízimo), e com maaser rishon (primeiro dízimo) do qual foi tirada a sua terumá (a porção do sacerdote), e com maaser sheni (segundo dízimo) e hekdesh (bens consagrados) que foram resgatados. Os kohanim (sacerdotes) fazem eruv com a chalá (a porção da massa dada ao kohen) e com a terumá. Mas não se faz eruv com o tevel (produto ainda não dizimado), nem com maaser rishon do qual não foi tirada a sua terumá, nem com maaser sheni e hekdesh que não foram resgatados. Quem manda o seu eruv por meio de um cheresh, shoté vekatan (surdo-mudo, demente e menor, que não têm plena capacidade legal), ou por meio de quem não reconhece a validade do eruv, o que foi posto não é eruv. Se disse a outro que o recebesse dele, eis que é eruv.
“Faz-se eruv com demai e com maaser rishon” etc. Rabi Yaakov Deromaya perguntou: a Mishná não é como Beit Shammai (a escola de Shammai)? Pois ensinamos sobre o etrog (a cidra): “E o de demai, Beit Shammai o declaram inválido, e Beit Hillel (a escola de Hillel) o declaram válido. E o de maaser sheni em Jerusalém, não se tome; e se o tomou, é válido.”
Rav Sheshet em nome de Rabi Chiya Rabá: o tevel sobre o qual há uma condição, é permitido movê-lo no Shabat. Como ele faz? Põe os seus olhos numa parte dele para a terumá e os dízimos, e come o restante no Shabat. E foi ensinado numa baraita: Beit Shammai dizem: não se faz eruv com maaser sheni em Jerusalém. Disse Rabi Yirmeyá: isto que tu dizes vale nos eruvei chatzerot (o eruv dos pátios); mas nos eruvei techumin (o eruv dos limites de caminhada do Shabat), um aldeão que pôs o seu eruv em Jerusalém fez eruv, pois ele pode subir até lá e comê-lo ali.
Shmuel disse: um menino como de nove anos, como de dez anos, o seu eruv é eruv. Disse Rabi Yossi: isto que dizes vale nos eruvei techumin; mas nos eruvei chatzerot, mesmo um menor mais novo. Disse Rabi Yehoshua: por que se faz eruv nos pátios? Por causa dos caminhos da paz entre os vizinhos. Aconteceu com uma mulher que era hostil à sua companheira, e ela mandou o seu eruv por meio do seu filho à casa dela. A outra tomou-o, abraçou-o e beijou-o. Ele veio e o contou diante da sua mãe. A mãe disse: assim ela me amava, e eu não sabia! Por causa disso, as duas fizeram as pazes. É o que está escrito: “Os seus caminhos são caminhos de amenidade, e todas as suas veredas são paz” (Mishlei 3:17).
“Quem manda o seu eruv por meio de um cheresh, shoté ou katan” etc. Disse Rabi Lazar: e precisa o que envia ficar junto com ele. Ali, em outro lugar, disse Rabi Yossi em nome de Rav Sheshet, e Rabi Lazar beRabi Yossi em nome de Rabi Avun: quando alguém diz ao seu companheiro: eis que eu dizimo por ti, este não precisa ficar junto com ele. E aqui tu dizes assim, que precisa? Disse Rabi Chiya bar Ada: aqui se trata de um adulto, e aqui de um menor. Rabi Achá em nome de Rabi Chinena: e mesmo que digas que aqui e aqui se trata de um adulto, e aqui de um menor, ali é quando lhe diz: eis que eu dizimo por ti, caso em que não precisa ficar junto com ele; mas aqui é quando lhe diz: faze eruv por mim, e então precisa. Esta regra aprende daquela, e aquela aprende desta. Esta aprende daquela o seguinte: que, se lhe disse: eu dizimo por ti, não precisa ficar junto com ele. E aquela aprende desta o seguinte: que, se lhe disse: faze eruv por mim, precisa ficar junto com ele.
Esta é a segunda halachá do Perek Guimel, BaKol Mearvin, de Massechet Eruvin, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 3:2 da Mishná avulsa. As diferenças são de grafia e de algumas palavras: בַּדְּמַאי onde a avulsa tem בִּדְמַאי; שֶׁנִּיטְלָה e נִיטְּלָה, com yod, onde a avulsa tem שֶׁנִטְּלָה e נִטְּלָה; הַכֹּהֲנִים, sem vav, onde a avulsa tem וְהַכֹּהֲנִים; בַּחַלָּה וּבַתְּרוּמָה, com artigo, onde a avulsa tem בְּחַלָּה וּבִתְרוּמָה; בַטֶּבֶל onde a avulsa tem בְטֶבֶל; הַשּׁוֹלֵחַ אֶת עֵירוּבוֹ, com אֶת, onde a avulsa tem הַשּׁוֹלֵחַ עֵרוּבוֹ; עֵירוּב, com yod, nas quatro ocorrências, onde a avulsa tem עֵרוּב; e אִם אָמַר, sem vav, onde a avulsa tem וְאִם אָמַר. Há ainda diferenças apenas na ordem dos sinais vocálicos, que não mudam a leitura. No Bavli, a primeira parte da Mishná está em Eruvin 31a, com וְהַכֹּהֲנִים בְּחַלָּה, sem a terumá, e a segunda parte, a do mensageiro, em Eruvin 31b. A halachá ocupa cinco segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e os outros quatro são as seções 01 a 04.
Sobre a seção 01. Rabi Yaakov Deromaya cita a Mishná sobre o etrog, Mishná Sukká 3:5, em que Beit Shammai declaram inválido o etrog de demai e Beit Hillel o declaram válido. Ao que parece, a pergunta é esta: se, para Beit Shammai, o demai não serve sequer para o etrog, também não serviria para o eruv, e a nossa Mishná, que permite o eruv com demai, seria só de Beit Hillel. A segunda parte da citação, sobre o etrog de maaser sheni em Jerusalém, prepara a baraita da seção 02. Na citação do Yerushalmi lê-se וְשֶׁלְדְּמַאי, בֵּית שַׁמַּי, שֵׁינִי, בִּירוּשָׁלֵם e יִטּוֹל, onde a Mishná avulsa de Sukká tem שֶׁל דְּמַאי, בֵּית שַׁמַּאי, שֵׁנִי, בִּירוּשָׁלַיִם e יִטֹּל.
Sobre a seção 02. O tevel não pode ser comido e, por isso, ao que parece, não se move no Shabat; mas o tevel sobre o qual há uma condição, isto é, cujo dono decidiu que uma parte dele será a terumá e os dízimos, pode ser movido, porque basta pôr os olhos nessa parte para comer o restante. A relação com a seção 01 não é dita; ao que parece, a palavra de Rabi Chiya Rabá mostra que o que pode ser tornado comestível conta como alimento, como o demai para Beit Hillel. A baraita de Beit Shammai proíbe o eruv com maaser sheni em Jerusalém, e Rabi Yirmeyá a restringe ao eruv dos pátios, em que o alimento não é para ser comido; no eruv de techumin, o aldeão que pôs o eruv em Jerusalém pode subir e comê-lo ali, como se deve comer o maaser sheni.
Sobre a seção 03. A palavra de Shmuel trata, ao que parece, do menino que leva o eruv, conforme a Mishná, que invalida o eruv mandado por meio de um menor; e Rabi Yossi diz que a idade de nove ou dez anos só é exigida no eruv de techumin, e que no eruv dos pátios basta mesmo um menor mais novo. A palavra de Rabi Yehoshua explica por que se faz eruv nos pátios: para que os vizinhos se aproximem, como na história da mulher. O versículo, Mishlei 3:17, fala da Torá, e a guemará o aplica ao eruv.
Sobre a seção 04. A palavra de Rabi Lazar trata, ao que parece, do fim da Mishná: quem manda o eruv por meio de um menor e diz a outro que o receba precisa ficar ali, junto com o menor, para ver que o eruv chegou. “Ali” é a lei de quem diz ao companheiro que dizima por ele, que não precisa ficar junto. Rabi Chiya bar Ada responde que um caso é de adulto e o outro de menor; Rabi Achá em nome de Rabi Chinena responde que a diferença está em quem toma a iniciativa: quando é o outro que se oferece, eu dizimo por ti, não é preciso ficar junto; quando é o próprio dono que pede, faze eruv por mim, é preciso. O texto diz כָּאן וְכָאן בְּגָדוֹל וְכָאן בְּקָטוֹן, “aqui e aqui de um adulto, e aqui de um menor”; o paralelo do Yerushalmi Maasrot 2:1 tem כָּאן וְכָאן בְּגָדוֹל. כָּאן וְכָאן בְּקָטוֹן, “aqui e aqui de um adulto, aqui e aqui de um menor”; a tradução seguiu o hebraico desta halachá. Na última frase, a aprendizagem cruzada repete os casos já ditos; em Maasrot 2:1 ela vem trocada, com אֲנִי מְעָרֵב עַל יָדֶיךָ, “eu faço eruv por ti”, e עֲשֵּׂר עַל יָדַיי, “dizima por mim”, o que dá sentido à frase; aqui se traduziu o hebraico como está.
Referências conferidas no Sefaria. Na Mishná Sukká 3:5, שֶׁל דְּמַאי, בֵּית שַׁמַּאי פּוֹסְלִין, וּבֵית הִלֵּל מַכְשִׁירִין. שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם, לֹא יִטֹּל, וְאִם נָטַל, כָּשֵׁר. Na Mishná Demai 1:4, הַדְּמַאי, מְעָרְבִין בּוֹ, וּמִשְׁתַּתְּפִין בּוֹ, “com o demai se faz eruv e shituf”. No Bavli Eruvin 31a, a guemará pergunta como o demai serve, se não é próprio para ele, e responde que, se quisesse, declararia os seus bens sem dono, ficaria pobre e o demai lhe seria próprio, conforme a Mishná Demai 3:1, מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי, וְאֶת הָאַכְסַנְיָא דְּמַאי, “dá-se demai de comer aos pobres e aos hóspedes”; e em Eruvin 31b Rav Huna traz a baraita em que Beit Shammai dizem que não se dá demai de comer aos pobres e Beit Hillel dizem que se dá. Também em Eruvin 31b, sobre o menor, a guemará pergunta וְקָטָן לָא? וְהָאָמַר רַב הוּנָא: קָטָן גּוֹבֶה אֶת הָעֵירוּב, “e o menor não? Pois Rav Huna disse que o menor recolhe o eruv”, e responde כָּאן בְּעֵירוּבֵי תְּחוּמִין, כָּאן בְּעֵירוּבֵי חֲצֵירוֹת, a mesma distinção de Rabi Yossi; sobre quem não reconhece o eruv, Rav Chisda diz que são os cuteus; e, sobre quem disse a outro que o recebesse, Rav Chisda diz בְּעוֹמֵד וְרוֹאֵהוּ, “quando está de pé e o vê”. A idade de nove ou dez anos não aparece ali. Na Tosefta Eruvin, na numeração do Sefaria, em 2:7, מערבין במעשר שני בירושלים, “faz-se eruv com maaser sheni em Jerusalém”, sem nome, ao contrário da baraita de Beit Shammai. No Yerushalmi Shabat 18:1, a mesma regra do tevel com condição vem numa dedução de Rabi Zeira: כֵּיצַד עוֹשֶׂה. נוֹתֵן עֵינָיו בְּמִקְצָתוֹ וְאוֹכֵל הַשְּׁאָר. No Yerushalmi Eruvin 7:9, a história da mulher se repete em nome de רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי, Rabi Yehoshua ben Levi. No Yerushalmi Maasrot 2:1, a discussão da seção 04 se repete, com רִבִּי שֵׁשֶׁת, רַב אָבִין e רִבִּי חֲנַנְיָה בְשֵׁם רִבִּי חֲנִינָא.
Leituras incertas. (בְּקַרְ)תָּנִי, na seção 02, está com parênteses no Sefaria; com as letras entre parênteses, lê-se בְּקַרְתָּנִי, “aldeão”, e foi assim que se traduziu; sem elas, ler-se-ia תָּנִי, “foi ensinado”, que não dá sentido à frase. טֶבֶל שֶׁיֵּשׁ עָלָיו תְּנַיי foi traduzido “tevel sobre o qual há uma condição”. Na palavra de Shmuel, o sujeito, “um menino”, foi acrescentado; e אֲפִילוּ קָטָן foi traduzido “mesmo um menor mais novo”, isto é, menor que nove anos. Na palavra de Rabi Lazar, o hebraico não diz quem precisa ficar junto com quem; completou-se “o que envia”, conforme a leitura da nota. הָכֵין הֲוָות רַחְמָה לִי foi traduzido “assim ela me amava”, como exclamação.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer acrescenta “ben Levi” ao nome de Rabi Yehoshua, a partir do paralelo; aqui ficou Rabi Yehoshua. Ele escreve “Rebbi Eleazar” onde o hebraico diz רִבִּי לָעְזָר, e “Rebbi Sheshet”, na seção 04, onde o hebraico diz רַב שֵׁשֶׁת. Traduz כָּאן בְּגָדוֹל וְכָאן בְּקָטָן com “here” e “there”, e a resposta de Rabi Achá como “em ambos os casos de adulto ou em ambos de menor”, que é a leitura de Maasrot; e traduz a frase da mãe com “obviously she loves me”. Na seção 02, ele traduz שֶׁנָּתַן עֵירוּבוֹ “who deposits”; aqui ficou “que pôs”.
Nomes nesta página: Rabi Yaakov Deromaya, רִבִּי יַעֲקֹב דְּרוֹמִיָּא, como Rabi Yehoshua Deromaya na halachá 1:7; Rav Sheshet, רַב שֵׁשֶׁת; Rabi Chiya Rabá, רִבִּי חִיָיה רֹבָה; Rabi Yirmeyá, רִבִּי יִרְמְיָה; Shmuel, שְׁמוּאֵל; Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵה; Rabi Yehoshua, רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ; Rabi Lazar, רִבִּי לָעְזָר; Rabi Lazar beRabi Yossi, רִבִּי לָעְזָר בְּרִבִּי יוֹסֵי; Rabi Avun, רִבִּי אַבּוּן; Rabi Chiya bar Ada, רִבִּי חִיָיה בַּר אָדָא; Rabi Achá, רִבִּי אָחָא; e Rabi Chinena, רִבִּי חִינְנָא.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e o marcador de folha da edição de Vilna 20b, na seção 02, antes de שֶׁנָּתַן עֵירוּבוֹ. O texto do Sefaria não tem marcador numérico nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. As marcas פיס׳, no início das seções 01 e 04, e a abreviação כול׳ foram mantidas, assim como os parênteses de (בְּקַרְ)תָּנִי e grafias anômalas, como בְּקָטוֹן, na seção 04, e וְכָלִ, com chiriq, no versículo da seção 03; os dois pontos no fim da Mishná são do Sefaria.