O daf completa a baraita de Rabi Yehuda: faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura posta sobre um sepulcro, e o kohen vai até lá numa liteira, numa caixa ou num armário. A guemará explica que a terumá não se torna impura porque ainda não foi preparada para a impureza, ou porque foi amassada com suco de frutas, e que o kohen a traz com utensílios de madeira planos, de lado, sem fazer tenda sobre o sepulcro. Os Rabanan proíbem porque não se adquire casa com coisas proibidas em benefício; Rabi Yehuda permite porque as mitzvot não foram dadas para benefício. A guemará mostra que nem Rava nem Rav Yossef disseram a sua lei conforme só um dos lados de uma disputa de tannaim, e explica a discussão pelo eruv para assunto voluntário ou pela guarda do eruv depois do crepúsculo. Abre-se a segunda mishná do perek: faz-se eruv com demai, com maaser rishon cuja terumá foi tirada, com maaser sheni e hekdesh resgatados, e os kohanim com chalá, mas não com tevel nem com o que não foi corrigido ou resgatado. A guemará começa a explicar o eruv com demai pelo pobre, a quem é permitido comê-lo, e o daf termina no meio da citação de uma mishná.
…Faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura posta sobre um sepulcro, para que ele adquira ali o seu lugar de repouso do Shabat. Como ele vai até lá? Numa liteira, numa caixa ou num armário, que o protegem da impureza do sepulcro.
“Faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura sobre um sepulcro” — e com mais razão com chulin (alimento não consagrado), pois, ainda que se tornem impuros, são aptos para ele; mas a baraita ensina que até com terumá, que, se se torna impura, não é apta para ele, é possível fazer uma correção, como a guemará vai explicando. E disse precisamente “puro” com “pura”; mas com terumá impura, não, pois não é apta nem para um kohen impuro nem para um kohen puro; e um kohen impuro com terumá pura também não, pois não é apta para ele.
“Como vai? Numa liteira, numa caixa ou num armário. Mas, uma vez que foi posta, torna-se impura” — isto é, admitamos que, segundo Rabi Yehuda, até entre os sepulcros há remédio, que é ir numa liteira, numa caixa ou num armário, e com mais razão junto a um sepulcro isolado, junto ao qual o kohen pode ficar de pé; mas, em todo caso, a terumá, desde que foi depositada ali, torna-se impura pela tenda do sepulcro.
O texto continua a baraita de Rabi Yehuda cuja citação começou no fim de Eruvin 30b (bloco 1111). Steinsaltz acrescenta que o lugar é impuro e que o kohen não pode chegar até ele; seguimos o Rashi, segundo o qual, junto a um sepulcro isolado, o kohen pode ficar de pé ao lado, e a liteira, a caixa e o armário servem para o caso dos sepulcros. O segundo comentário do Rashi abrange também as primeiras palavras da pergunta seguinte, “Mas, uma vez que foi posta…”, que está no bloco 1113.
A guemará pergunta: Mas, uma vez que a terumá foi posta sobre o sepulcro, ela se tornou impura, e a terumá impura não é apta para ninguém comer! Responde a guemará: Trata-se do caso em que não foi preparada para receber impureza, pois ainda não teve contato com um líquido; ou de um pão que foi amassado com suco de frutas, que não está entre os líquidos que preparam o alimento para a impureza.
“Com suco de frutas” — que não preparam o alimento para receber impureza.
A guemará pergunta: E como o kohen a traz de cima do sepulcro, para comê-la? Responde a guemará: Com utensílios de madeira planos, que não têm forma de receptáculo e que não recebem impureza.
“E como a traz?” — para comê-la; pois Rabi Yehuda exige um eruv apto para ele comer, já que disse “puro” com “pura” e não declarou válido o eruv de um kohen impuro com terumá pura, por ser apta para outros; e, além disso, porque se ensina na mishná: “interpor-se e comer”.
“Com utensílios de madeira planos, que não recebem impureza” — mas com algo que recebe impureza, não; pois seria um utensílio impuro por causa de morto, que é av hatumá (fonte primária de impureza), que se torna impuro por causa da tenda e torna impura a pessoa; e o impuro é proibido de comer terumá pura, e incorre por ela em pena de morte pelas mãos do Céu. E, embora não haja nele uma abertura de um palmo, pois o traz de lado, como a guemará explica adiante, sustentamos (Shabat 17a), entre as dezoito coisas decretadas, que todos os objetos móveis trazem a impureza sobre si mesmos quando fizeram tenda sobre um morto, em qualquer medida; e o utensílio torna impura a pessoa que o segura, e a terumá já não seria apta para ele.
A referência do Rashi confere: em Shabat 17a, entre os dezoito decretos, Rabi Akiva estabelece que todos os objetos móveis trazem a impureza sobre a pessoa que os carrega quando têm a espessura de uma aguilhada, e sobre si mesmos em qualquer medida; a mishná que trata desse assunto é citada em Shabat 16b. As palavras da mishná que o Rashi cita, “interpor-se e comer”, são o fim da Mishná Eruvin 3:1, dada em Eruvin 26b; na edição avulsa da Mishná lê-se “porque pode ir para fora e comer”.
A guemará pergunta: Mas eis que o utensílio faz tenda sobre o sepulcro, e decretou-se impureza sobre quem segura um utensílio que cobre um morto! Responde a guemará: Trata-se do caso em que a traz de lado, sobre a borda do utensílio, de modo que este não cubra um palmo sobre o sepulcro.
“Mas eis que faz tenda” — a guemará pensava a princípio que se tratava do caso em que há no utensílio uma abertura de um palmo, ou um palmo na sua circunferência, e decretaram sobre a pessoa que o carrega quando tem a espessura da aguilhada, como se ensina no perek Yetziot HaShabat (Shabat 17a).
“Que a traz de lado” — pois um utensílio cuja borda não tem um palmo não é tenda.
O Rashi remete ao mesmo lugar que citou antes, indicando-o apenas com a palavra שם, “ali”: Shabat 17a, no primeiro perek do tratado, Yetziot HaShabat. Ali, Rabi Yanai explica que a aguilhada de que falaram não tem um palmo de espessura, mas tem um palmo de circunferência, e decretaram sobre a circunferência por causa da espessura.
A guemará pergunta: Se é assim, que há remédio para que a terumá permaneça pura e para que o kohen a alcance, qual é a razão dos Rabanan, que discordam de Rabi Yehuda e não permitem o eruv do kohen sobre um sepulcro? Responde a guemará: Eles pensam: É proibido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício, e quem adquire pelo eruv o seu lugar de repouso sobre o sepulcro tira benefício dele.
“Se é assim, qual é a razão dos Rabanan?” — quanto a um sepulcro isolado. Admitamos que discordaram na mishná quanto aos sepulcros, e não pensam que haja interposição com uma tenda que se move; mas aqui o kohen pode ficar de pé na sua beira e trazer o eruv para junto de si.
“É proibido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício” — isto é, com um sepulcro; e eis que é benefício, pois por meio dele lhe é permitido sair para fora do limite do Shabat; e todos os objetos de uso do morto são proibidos em benefício, como deduzimos em Sanhedrin (47b) de “E morreu ali Miriam”, e se aprende por analogia de “ali” e “ali” da eglá arufá (novilha desnucada). E até para um israelita os Rabanan também proíbem; e o que a baraita ensina, “kohen”, é para te dar a conhecer a força de Rabi Yehuda.
As referências do Rashi: “E morreu ali Miriam” é Bamidbar 20:1, e o versículo da novilha desnucada, “e desnucarão ali a novilha no vale”, é Devarim 21:4. Em Sanhedrin 47b, a guemará menciona a analogia “ali”–“ali” com a eglá arufá, mas o versículo de Miriam não é citado nessa página; a dedução completa, com os dois versículos, aparece em Avodá Zará 29b. A disputa da mishná sobre os sepulcros é a de Eruvin 3:1, explicada em Eruvin 30b pela tenda que se move.
A guemará pergunta: Daí se depreende, por inferência, que Rabi Yehuda pensa que é permitido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício? Responde a guemará: Ele pensa: As mitzvot (preceitos) não foram dadas para benefício, e, como o eruv só se faz para um propósito de preceito, adquirir por ele o lugar de repouso não é considerado benefício.
“As mitzvot não foram dadas para benefício” — e não se faz eruv senão para um propósito de preceito, como ir à casa do enlutado ou à casa do banquete, como se ensina adiante.
“Adiante” é a Mishná Eruvin 8:1, em Eruvin 82a, que fala de quem vai “à casa do enlutado ou à casa do banquete”; na guemará dessa mishná, Rav Yossef diz: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”.
A guemará sugere: Mas então, isto que disse Rava: “As mitzvot não foram dadas para benefício”, digamos que ele disse a sua lei somente conforme um dos lados de uma disputa de tannaim?! Responde a guemará: Rava poderia te dizer: Se eles pensam que não se faz eruv senão para um propósito de preceito, todos concordam que as mitzvot não foram dadas para benefício, e o eruv pode ser posto sobre o sepulcro. E aqui discordam nisto: um mestre, Rabi Yehuda, pensa: Não se faz eruv senão para um propósito de preceito, e por isso não há benefício proibido; e o outro mestre, os Rabanan, pensa: Faz-se eruv até para um assunto voluntário, e então o eruv é benefício, e por isso é proibido.
“Isto que disse Rabba” — está na massechet Rosh Hashaná (28a), no assunto de “Toca-se com o shofar de uma olá (oferta queimada)”.
“Os Rabanan pensam: Faz-se eruv até para um assunto voluntário” — e por isso é benefício.
No lema do Rashi lê-se רבה, “Rabba”, ao passo que o texto da guemará diz רָבָא, “Rava”; seguimos o texto da guemará e Steinsaltz. A referência confere: em Rosh Hashaná 28a, depois de Rav Yehuda ensinar que com o shofar de uma olá não se deve tocar, mas, se tocou, cumpriu, Rava conclui que, num caso e no outro, cumpriu, pois “as mitzvot não foram dadas para benefício”. As palavras do Rashi, “Toca-se com o shofar de uma olá”, indicam o assunto e não são citação literal.
A guemará sugere: Mas então, isto que disse Rav Yossef: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”, digamos que ele disse a sua lei somente conforme um dos lados de uma disputa de tannaim?
“Isto que disse Rav Yossef” — está no perek Keitzad Mishtatfin (Eruvin 82a).
A referência do Rashi confere: Keitzad Mishtatfin é o oitavo perek de Eruvin, que começa em Eruvin 82a; ali, na guemará da primeira mishná, Rav Yossef diz: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”.
Responde a guemará: Rav Yossef poderia te dizer: Todos concordam que não se faz eruv senão para um propósito de preceito, e todos concordam que as mitzvot não foram dadas para benefício; e discordam nisto: um mestre, Rabi Yehuda, pensa: Uma vez que o eruv lhe adquiriu o lugar de repouso, no crepúsculo, não lhe agrada que o eruv seja guardado, isto é, já não se importa com isso, e por isso não tira benefício do sepulcro; e o outro mestre, os Rabanan, pensa: Agrada-lhe que o eruv seja guardado, pois, se precisar dele no dia seguinte, o comerá, e assim tira benefício do sepulcro, que lhe guarda o alimento.
“Uma vez que o eruv lhe adquiriu” — no crepúsculo, já não lhe importa a guarda do eruv; e até a aquisição do eruv, mesmo que lhe agrade, não é benefício, pois é por causa do preceito.
MISHNÁ. Faz-se eruv com demai (produto de cujo dízimo se duvida), e com maaser rishon (primeiro dízimo) cuja terumá do dízimo, devida ao kohen, foi tirada, e com maaser sheni (segundo dízimo) e hekdesh (bens consagrados) que foram resgatados; e os kohanim fazem eruv com chalá (a porção da massa que se dá ao kohen).
Mishná: “Com demai” — com um pão que comprou de um am haaretz (pessoa pouco cuidadosa com os preceitos) e do qual não separou o dízimo de demai.
Encerrada a guemará sobre a primeira mishná do perek, inicia-se aqui a segunda mishná do Perek Guimel (BaKol Mearvin), que corresponde à primeira parte de Mishná Eruvin 3:2 na numeração das edições avulsas da Mishná, das palavras “Faz-se eruv com demai” até “que não foram resgatados”; a parte seguinte da mesma mishná avulsa, sobre quem envia o seu eruv por meio de um surdo-mudo, de um demente ou de um menor, vem mais adiante. Ela ensina com quais alimentos se pode fazer eruv: com demai, com maaser rishon cuja terumá foi tirada, com maaser sheni e hekdesh resgatados e, para os kohanim, com chalá; mas não com tevel, nem com maaser rishon cuja terumá não foi tirada, nem com maaser sheni e hekdesh não resgatados. Na edição avulsa da Mishná lê-se “e os kohanim, com chalá e com terumá” (וְהַכֹּהֲנִים, בְּחַלָּה וּבִתְרוּמָה); o texto do Talmud traz aqui apenas “com chalá”.
Mas não se faz eruv com tevel (produto do qual ainda não se separaram a terumá e os dízimos), nem com maaser rishon cuja terumá, devida ao kohen, não foi tirada, nem com maaser sheni e hekdesh que não foram resgatados.
“Nem com maaser sheni e hekdesh que não foram resgatados” — e, embora possa resgatá-los, em todo caso agora não estão resgatados.
GUEMARÁ. A guemará pergunta: Com demai se faz eruv? Mas não é apto para ele comer! Responde a guemará: Uma vez que, se quiser, pode declarar sem dono os seus bens, e será pobre, e o demai será apto para ele, pois ao pobre é permitido comer demai, agora também é considerado apto para ele. Pois aprendemos numa mishná: Pode-se dar de comer demai aos pobres…
A mishná citada é Mishná Demai 3:1, já citada em Eruvin 17b (bloco 585). O daf termina no meio da citação, que continua em Eruvin 31b.