Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Guimel (BaKol Mearvin)
מִצְוֹת לָאו לֵיהָנוֹת נִיתְּנוּ

O eruv do kohen sobre um sepulcro; as mitzvot não foram dadas para benefício; a mishná do eruv com demai, dízimos e bens consagrados

Eruvin 31a — Perek Guimel (BaKol Mearvin, Eruvin 26b:17-41b:5) · fim da guemará da primeira mishná (Eruvin 3:1) e segunda mishná do perek (Eruvin 3:2) · continua de Eruvin 30b; a guemará sobre o demai continua em 31b

O daf completa a baraita de Rabi Yehuda: faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura posta sobre um sepulcro, e o kohen vai até lá numa liteira, numa caixa ou num armário. A guemará explica que a terumá não se torna impura porque ainda não foi preparada para a impureza, ou porque foi amassada com suco de frutas, e que o kohen a traz com utensílios de madeira planos, de lado, sem fazer tenda sobre o sepulcro. Os Rabanan proíbem porque não se adquire casa com coisas proibidas em benefício; Rabi Yehuda permite porque as mitzvot não foram dadas para benefício. A guemará mostra que nem Rava nem Rav Yossef disseram a sua lei conforme só um dos lados de uma disputa de tannaim, e explica a discussão pelo eruv para assunto voluntário ou pela guarda do eruv depois do crepúsculo. Abre-se a segunda mishná do perek: faz-se eruv com demai, com maaser rishon cuja terumá foi tirada, com maaser sheni e hekdesh resgatados, e os kohanim com chalá, mas não com tevel nem com o que não foi corrigido ou resgatado. A guemará começa a explicar o eruv com demai pelo pobre, a quem é permitido comê-lo, e o daf termina no meio da citação de uma mishná.

O eruv do kohen sobre um sepulcro · מְעָרְבִין לְכֹהֵן טָהוֹר

1112Para um kohen puro, com terumá pura sobre um sepulcro
A guemará
מְעָרְבִין לְכֹהֵן טָהוֹר בִּתְרוּמָה טְהוֹרָה בְּקֶבֶר, הֵיכִי אָזֵיל? בְּשִׁידָּה תֵּיבָה וּמִגְדָּל.

…Faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura posta sobre um sepulcro, para que ele adquira ali o seu lugar de repouso do Shabat. Como ele vai até lá? Numa liteira, numa caixa ou num armário, que o protegem da impureza do sepulcro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mearvin lechohen tahor bitrumá tehorá bekever”
מערבין לכהן טהור בתרומה טהורה בקבר - וכ"ש בחולין דאי נמי מיטמו חזו ליה אלא אפי' בתרומה דאי מטמאה לא חזיא ליה אפשר למיעבד תקנתא כדמפרש ואזיל ודוקא נקט טהור בטהורה אבל בטמאה לא דלא חזיא ליה לא לכהן טמא ולא לכהן טהור וכהן טמא בטהורה נמי לא דלא חזיא ליה:

“Faz-se eruv para um kohen puro com terumá pura sobre um sepulcro” — e com mais razão com chulin (alimento não consagrado), pois, ainda que se tornem impuros, são aptos para ele; mas a baraita ensina que até com terumá, que, se se torna impura, não é apta para ele, é possível fazer uma correção, como a guemará vai explicando. E disse precisamente “puro” com “pura”; mas com terumá impura, não, pois não é apta nem para um kohen impuro nem para um kohen puro; e um kohen impuro com terumá pura também não, pois não é apta para ele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Heichi azil… vehá keivan deachta”
היכי אזיל בשידה תיבה ומגדל והא כיון דאחתא מיטמיא ליה - כלומר נהי דלר' יהודה אפילו בבית הקברות איכא תקנתא למיזל בשידה תיבה ומגדל וכ"ש קבר יחידי שיכול לעמוד אצלו אלא מיהא תרומה מכי אנחה התם מטמא באהילו של קבר:

“Como vai? Numa liteira, numa caixa ou num armário. Mas, uma vez que foi posta, torna-se impura” — isto é, admitamos que, segundo Rabi Yehuda, até entre os sepulcros há remédio, que é ir numa liteira, numa caixa ou num armário, e com mais razão junto a um sepulcro isolado, junto ao qual o kohen pode ficar de pé; mas, em todo caso, a terumá, desde que foi depositada ali, torna-se impura pela tenda do sepulcro.

Nota

O texto continua a baraita de Rabi Yehuda cuja citação começou no fim de Eruvin 30b (bloco 1111). Steinsaltz acrescenta que o lugar é impuro e que o kohen não pode chegar até ele; seguimos o Rashi, segundo o qual, junto a um sepulcro isolado, o kohen pode ficar de pé ao lado, e a liteira, a caixa e o armário servem para o caso dos sepulcros. O segundo comentário do Rashi abrange também as primeiras palavras da pergunta seguinte, “Mas, uma vez que foi posta…”, que está no bloco 1113.

1113Terumá não preparada para a impureza
A guemará
וְהָא כֵּיוָן דְּאַחֲתָא אִיטַּמְּיָא לַהּ! בְּשֶׁלֹּא הוּכְשְׁרָה, אוֹ שֶׁנִּילּוֹשָׁה בְּמֵי פֵּירוֹת.

A guemará pergunta: Mas, uma vez que a terumá foi posta sobre o sepulcro, ela se tornou impura, e a terumá impura não é apta para ninguém comer! Responde a guemará: Trata-se do caso em que não foi preparada para receber impureza, pois ainda não teve contato com um líquido; ou de um pão que foi amassado com suco de frutas, que não está entre os líquidos que preparam o alimento para a impureza.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bemei perot”
במי פירות - שאין מכשירין:

“Com suco de frutas” — que não preparam o alimento para receber impureza.

1114Com utensílios de madeira planos
A guemará
וְהֵיכִי מַיְיתֵי לַהּ? בִּפְשׁוּטֵי כְלֵי עֵץ דְּלָא מְקַבְּלִי טוּמְאָה.

A guemará pergunta: E como o kohen a traz de cima do sepulcro, para comê-la? Responde a guemará: Com utensílios de madeira planos, que não têm forma de receptáculo e que não recebem impureza.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Veheichi maytei lah”
והיכי מייתי לה - לאוכלה דהא רבי יהודה ראוי לאוכלו בעי מדנקט טהור בטהורה ולא אכשר טמא בטהורה משום דחזיא לאחריני ועוד מדתני במתניתין לחוץ ולאכול:

“E como a traz?” — para comê-la; pois Rabi Yehuda exige um eruv apto para ele comer, já que disse “puro” com “pura” e não declarou válido o eruv de um kohen impuro com terumá pura, por ser apta para outros; e, além disso, porque se ensina na mishná: “interpor-se e comer”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bifshutei chelei etz dela mekablei tumá”
בפשוטי כלי עץ דלא מקבלי טומאה - אבל במידי דמקבל טומאה לא דה"ל כלי טמא מת שהוא אב הטומאה דמיטמא מחמת אהל ומטמא ליה לאדם וטמא אסור בתרומה טהורה וקאי עליה במיתה ואע"ג דלית בה פותח טפח דמייתי ליה אחוריה כדמפרש לקמן קי"ל (שבת דף יז.) בי"ח דבר שכל המטלטלין מביאין את הטומאה על עצמן כשהאהילו על מת בכל שהן ומטמא ליה אדם האוחזו ותו לא חזיא ליה תרומה:

“Com utensílios de madeira planos, que não recebem impureza” — mas com algo que recebe impureza, não; pois seria um utensílio impuro por causa de morto, que é av hatumá (fonte primária de impureza), que se torna impuro por causa da tenda e torna impura a pessoa; e o impuro é proibido de comer terumá pura, e incorre por ela em pena de morte pelas mãos do Céu. E, embora não haja nele uma abertura de um palmo, pois o traz de lado, como a guemará explica adiante, sustentamos (Shabat 17a), entre as dezoito coisas decretadas, que todos os objetos móveis trazem a impureza sobre si mesmos quando fizeram tenda sobre um morto, em qualquer medida; e o utensílio torna impura a pessoa que o segura, e a terumá já não seria apta para ele.

Nota

A referência do Rashi confere: em Shabat 17a, entre os dezoito decretos, Rabi Akiva estabelece que todos os objetos móveis trazem a impureza sobre a pessoa que os carrega quando têm a espessura de uma aguilhada, e sobre si mesmos em qualquer medida; a mishná que trata desse assunto é citada em Shabat 16b. As palavras da mishná que o Rashi cita, “interpor-se e comer”, são o fim da Mishná Eruvin 3:1, dada em Eruvin 26b; na edição avulsa da Mishná lê-se “porque pode ir para fora e comer”.

1115Trazê-la de lado
A guemará
וְהָא קָא מַאֲהִיל?! דְּמַיְיתֵי לַהּ אֲחוֹרֵיהּ.

A guemará pergunta: Mas eis que o utensílio faz tenda sobre o sepulcro, e decretou-se impureza sobre quem segura um utensílio que cobre um morto! Responde a guemará: Trata-se do caso em que a traz de lado, sobre a borda do utensílio, de modo que este não cubra um palmo sobre o sepulcro.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Vehá ka maahil”
והא קא מאהיל - קס"ד כשיש בכלי פותח טפח או בהקיפו טפח וגזרו על האדם הנושאו בעובי המרדע ביציאות השבת (שם):

“Mas eis que faz tenda” — a guemará pensava a princípio que se tratava do caso em que há no utensílio uma abertura de um palmo, ou um palmo na sua circunferência, e decretaram sobre a pessoa que o carrega quando tem a espessura da aguilhada, como se ensina no perek Yetziot HaShabat (Shabat 17a).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Demaytei leh achorei”
דמייתי ליה אחוריה - דכלי שאין בחודו טפח לאו אוהל הוא:

“Que a traz de lado” — pois um utensílio cuja borda não tem um palmo não é tenda.

Nota

O Rashi remete ao mesmo lugar que citou antes, indicando-o apenas com a palavra שם, “ali”: Shabat 17a, no primeiro perek do tratado, Yetziot HaShabat. Ali, Rabi Yanai explica que a aguilhada de que falaram não tem um palmo de espessura, mas tem um palmo de circunferência, e decretaram sobre a circunferência por causa da espessura.

Adquirir casa com coisas proibidas em benefício · אִיסּוּרֵי הֲנָאָה

1116A razão dos Rabanan
A guemará
אִי הָכִי, מַאי טַעְמָא דְּרַבָּנַן? קָסָבְרִי: אָסוּר לִקְנוֹת בַּיִת בְּאִיסּוּרֵי הֲנָאָה.

A guemará pergunta: Se é assim, que há remédio para que a terumá permaneça pura e para que o kohen a alcance, qual é a razão dos Rabanan, que discordam de Rabi Yehuda e não permitem o eruv do kohen sobre um sepulcro? Responde a guemará: Eles pensam: É proibido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício, e quem adquire pelo eruv o seu lugar de repouso sobre o sepulcro tira benefício dele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ei hachi, mai taama deRabanan”
אי הכי מ"ט דרבנן - בקבר יחידי נהי דאיפלגו במתניתין בבית הקברות ולא סבירא להו דתיהוי חציצה באוהל זרוק אבל הכא יכול לעמוד על שפתו ויביאנו אצלו:

“Se é assim, qual é a razão dos Rabanan?” — quanto a um sepulcro isolado. Admitamos que discordaram na mishná quanto aos sepulcros, e não pensam que haja interposição com uma tenda que se move; mas aqui o kohen pode ficar de pé na sua beira e trazer o eruv para junto de si.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Assur liknot bayit beissurei hanaá”
אסור לקנות בית באיסורי הנאה - בקבר והא הנאה היא דמישתרי ביה למיפק חוץ לתחום וכל תשמישי המת אסורין בהנאה דנפקא לן בסנהדרין (ד' מז:) מותמת שם מרים וגמר שם שם מעגלה ערופה ואפילו בישראל נמי אסרי רבנן והא דתני כהן להודיעך כחו דרבי יהודה:

“É proibido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício” — isto é, com um sepulcro; e eis que é benefício, pois por meio dele lhe é permitido sair para fora do limite do Shabat; e todos os objetos de uso do morto são proibidos em benefício, como deduzimos em Sanhedrin (47b) de “E morreu ali Miriam”, e se aprende por analogia de “ali” e “ali” da eglá arufá (novilha desnucada). E até para um israelita os Rabanan também proíbem; e o que a baraita ensina, “kohen”, é para te dar a conhecer a força de Rabi Yehuda.

Nota

As referências do Rashi: “E morreu ali Miriam” é Bamidbar 20:1, e o versículo da novilha desnucada, “e desnucarão ali a novilha no vale”, é Devarim 21:4. Em Sanhedrin 47b, a guemará menciona a analogia “ali”–“ali” com a eglá arufá, mas o versículo de Miriam não é citado nessa página; a dedução completa, com os dois versículos, aparece em Avodá Zará 29b. A disputa da mishná sobre os sepulcros é a de Eruvin 3:1, explicada em Eruvin 30b pela tenda que se move.

1117As mitzvot não foram dadas para benefício
A guemará
מִכְּלָל דְּרַבִּי יְהוּדָה סָבַר מוּתָּר? קָסָבַר: מִצְוֹת לָאו לֵיהָנוֹת נִיתְּנוּ.

A guemará pergunta: Daí se depreende, por inferência, que Rabi Yehuda pensa que é permitido adquirir uma casa com coisas proibidas em benefício? Responde a guemará: Ele pensa: As mitzvot (preceitos) não foram dadas para benefício, e, como o eruv só se faz para um propósito de preceito, adquirir por ele o lugar de repouso não é considerado benefício.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Mitzvot lav lehanot nitnu”
מצות לאו ליהנות נתנו - ואין מערבין אלא לדבר מצוה ללכת לבית האבל או לבית המשתה כדלקמן:

“As mitzvot não foram dadas para benefício” — e não se faz eruv senão para um propósito de preceito, como ir à casa do enlutado ou à casa do banquete, como se ensina adiante.

Nota

“Adiante” é a Mishná Eruvin 8:1, em Eruvin 82a, que fala de quem vai “à casa do enlutado ou à casa do banquete”; na guemará dessa mishná, Rav Yossef diz: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”.

1118Rava e a disputa dos tannaim
A guemará
אֶלָּא הָא דְּאָמַר רָבָא: מִצְוֹת לָאו לֵיהָנוֹת נִיתְּנוּ, לֵימָא כְּתַנָּאֵי אַמְרַהּ לִשְׁמַעְתֵּיהּ?! אָמַר לָךְ רָבָא: אִי סְבִירָא לְהוּ דְּאֵין מְעָרְבִין אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה — דְּכוּלֵּי עָלְמָא מִצְוֹת לָאו לֵיהָנוֹת נִיתְּנוּ. וְהָכָא בְּהָא קָמִיפַּלְגִי: מָר סָבַר אֵין מְעָרְבִין אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה, וּמָר סָבַר מְעָרְבִין אֲפִילּוּ לִדְבַר הָרְשׁוּת.

A guemará sugere: Mas então, isto que disse Rava: “As mitzvot não foram dadas para benefício”, digamos que ele disse a sua lei somente conforme um dos lados de uma disputa de tannaim?! Responde a guemará: Rava poderia te dizer: Se eles pensam que não se faz eruv senão para um propósito de preceito, todos concordam que as mitzvot não foram dadas para benefício, e o eruv pode ser posto sobre o sepulcro. E aqui discordam nisto: um mestre, Rabi Yehuda, pensa: Não se faz eruv senão para um propósito de preceito, e por isso não há benefício proibido; e o outro mestre, os Rabanan, pensa: Faz-se eruv até para um assunto voluntário, e então o eruv é benefício, e por isso é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ha deRabba”
הא דרבה - במסכת ר"ה (דף כח.) תוקעין בשופר של עולה:

“Isto que disse Rabba” — está na massechet Rosh Hashaná (28a), no assunto de “Toca-se com o shofar de uma olá (oferta queimada)”.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Rabanan savrei mearvin afilu lidvar harshut”
רבנן סברי מערבין אפילו לדבר הרשות - והלכך הנאה היא:

“Os Rabanan pensam: Faz-se eruv até para um assunto voluntário” — e por isso é benefício.

Nota

No lema do Rashi lê-se רבה, “Rabba”, ao passo que o texto da guemará diz רָבָא, “Rava”; seguimos o texto da guemará e Steinsaltz. A referência confere: em Rosh Hashaná 28a, depois de Rav Yehuda ensinar que com o shofar de uma olá não se deve tocar, mas, se tocou, cumpriu, Rava conclui que, num caso e no outro, cumpriu, pois “as mitzvot não foram dadas para benefício”. As palavras do Rashi, “Toca-se com o shofar de uma olá”, indicam o assunto e não são citação literal.

1119Rav Yossef e a disputa dos tannaim
A guemará
אֶלָּא הָא דְּאָמַר רַב יוֹסֵף: אֵין מְעָרְבִין אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה, לֵימָא כְּתַנָּאֵי אַמְרַהּ לִשְׁמַעְתֵּיהּ?

A guemará sugere: Mas então, isto que disse Rav Yossef: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”, digamos que ele disse a sua lei somente conforme um dos lados de uma disputa de tannaim?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Ha deRav Yossef”
הא דרב יוסף - בכיצד משתתפין (דף פב.):

“Isto que disse Rav Yossef” — está no perek Keitzad Mishtatfin (Eruvin 82a).

Nota

A referência do Rashi confere: Keitzad Mishtatfin é o oitavo perek de Eruvin, que começa em Eruvin 82a; ali, na guemará da primeira mishná, Rav Yossef diz: “Não se faz eruv senão para um propósito de preceito”.

1120Agrada-lhe que o eruv seja guardado
A guemará
אָמַר לְךָ רַב יוֹסֵף: דְּכוּלֵּי עָלְמָא אֵין מְעָרְבִין אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה, וּדְכוּלֵּי עָלְמָא מִצְוֹת לָאו לֵיהָנוֹת נִיתְּנוּ, וּבְהָא קָמִיפַּלְגִי: מָר סָבַר כֵּיוָן דִּקְנָה לֵיהּ עֵירוּב — לָא נִיחָא לֵיהּ דְּמִינַּטְרָא. וּמָר סָבַר — נִיחָא לֵיהּ דְּמִינַּטְרָא, דְּאִי אִיצְטְרִיךְ אָכֵיל לֵיהּ.

Responde a guemará: Rav Yossef poderia te dizer: Todos concordam que não se faz eruv senão para um propósito de preceito, e todos concordam que as mitzvot não foram dadas para benefício; e discordam nisto: um mestre, Rabi Yehuda, pensa: Uma vez que o eruv lhe adquiriu o lugar de repouso, no crepúsculo, não lhe agrada que o eruv seja guardado, isto é, já não se importa com isso, e por isso não tira benefício do sepulcro; e o outro mestre, os Rabanan, pensa: Agrada-lhe que o eruv seja guardado, pois, se precisar dele no dia seguinte, o comerá, e assim tira benefício do sepulcro, que lhe guarda o alimento.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Keivan dekaná leh eruv”
כיון דקנה ליה עירוב - בין השמשות תו לא איכפת ליה בנטירותא ועד קניית עירוב אי נמי ניחא ליה לאו הנאה היא דמשום מצוה הוא:

“Uma vez que o eruv lhe adquiriu” — no crepúsculo, já não lhe importa a guarda do eruv; e até a aquisição do eruv, mesmo que lhe agrade, não é benefício, pois é por causa do preceito.

A Mishná: o eruv com demai, dízimos e bens consagrados · מַתְנִיתִין

1121Faz-se eruv com demai
Mishná
מַתְנִי׳ מְעָרְבִין בִּדְמַאי, וּבְמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁנִּטְּלָה תְּרוּמָתוֹ, וּבְמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁנִּפְדּוּ, וְהַכֹּהֲנִים בְּחַלָּה.

MISHNÁ. Faz-se eruv com demai (produto de cujo dízimo se duvida), e com maaser rishon (primeiro dízimo) cuja terumá do dízimo, devida ao kohen, foi tirada, e com maaser sheni (segundo dízimo) e hekdesh (bens consagrados) que foram resgatados; e os kohanim fazem eruv com chalá (a porção da massa que se dá ao kohen).

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Bidmai”
מתני' בדמאי - בככר שלקחה מעם הארץ ולא הפריש ממנה דמאי:

Mishná: “Com demai” — com um pão que comprou de um am haaretz (pessoa pouco cuidadosa com os preceitos) e do qual não separou o dízimo de demai.

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a primeira mishná do perek, inicia-se aqui a segunda mishná do Perek Guimel (BaKol Mearvin), que corresponde à primeira parte de Mishná Eruvin 3:2 na numeração das edições avulsas da Mishná, das palavras “Faz-se eruv com demai” até “que não foram resgatados”; a parte seguinte da mesma mishná avulsa, sobre quem envia o seu eruv por meio de um surdo-mudo, de um demente ou de um menor, vem mais adiante. Ela ensina com quais alimentos se pode fazer eruv: com demai, com maaser rishon cuja terumá foi tirada, com maaser sheni e hekdesh resgatados e, para os kohanim, com chalá; mas não com tevel, nem com maaser rishon cuja terumá não foi tirada, nem com maaser sheni e hekdesh não resgatados. Na edição avulsa da Mishná lê-se “e os kohanim, com chalá e com terumá” (וְהַכֹּהֲנִים, בְּחַלָּה וּבִתְרוּמָה); o texto do Talmud traz aqui apenas “com chalá”.

1122Mas não com tevel
Mishná
אֲבָל לֹא בְּטֶבֶל, וְלֹא בְּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁלֹּא נִטְּלָה תְּרוּמָתוֹ, וְלֹא בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁלֹּא נִפְדּוּ.

Mas não se faz eruv com tevel (produto do qual ainda não se separaram a terumá e os dízimos), nem com maaser rishon cuja terumá, devida ao kohen, não foi tirada, nem com maaser sheni e hekdesh que não foram resgatados.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “Velo bemaaser sheni vehekdesh shelo nifdu”
ולא במעשר שני והקדש שלא נפדו - ואע"ג דמצי פריק להו השתא מיהא לא מפרק:

“Nem com maaser sheni e hekdesh que não foram resgatados” — e, embora possa resgatá-los, em todo caso agora não estão resgatados.

O demai e o pobre · מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי

1123Se quiser, declara os seus bens sem dono
A guemará
גְּמָ׳ דְּמַאי, הָא לָא חֲזֵי לֵיהּ? מִיגּוֹ דְּאִי בָּעֵי מַפְקַר לְהוּ לְנִכְסֵיהּ וְהָוֵי עָנִי וַחֲזוּ לֵיהּ — הַשְׁתָּא נָמֵי חֲזֵי לֵיהּ. דִּתְנַן: מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי

GUEMARÁ. A guemará pergunta: Com demai se faz eruv? Mas não é apto para ele comer! Responde a guemará: Uma vez que, se quiser, pode declarar sem dono os seus bens, e será pobre, e o demai será apto para ele, pois ao pobre é permitido comer demai, agora também é considerado apto para ele. Pois aprendemos numa mishná: Pode-se dar de comer demai aos pobres…

Nota

A mishná citada é Mishná Demai 3:1, já citada em Eruvin 17b (bloco 585). O daf termina no meio da citação, que continua em Eruvin 31b.

O daf termina aqui, no meio da citação de uma mishná: depois de completar a baraita de Rabi Yehuda sobre o eruv do kohen com terumá pura sobre um sepulcro, e de explicar como a terumá permanece pura e como o kohen a traz, a guemará atribui a discussão dos Rabanan à proibição de adquirir casa com coisas proibidas em benefício e mostra que nem Rava nem Rav Yossef disseram a sua lei conforme só um dos lados de uma disputa de tannaim; abre-se então a segunda mishná do perek, sobre o eruv com demai, dízimos, bens consagrados e chalá, e a guemará começa a explicar o eruv com demai pelo pobre. A citação da mishná continua em Eruvin 31b.