Quinta halachá do Perek Bet, Osin Passin, de Massechet Eruvin. Na Mishná, Rabi Yehudá ben Bava diz que na horta e no karpef de setenta amot e restos por setenta amot e restos, cercados por uma cerca de dez palmos, se transporta no Shabat, contanto que haja neles uma cabana de vigia ou uma casa de moradia, ou que estejam perto da cidade. A guemará traz, em nome de Rabi Shmuel bar Nachman, que a medida foi aprendida do pátio do Mishkan, e faz a conta dos dois terços de amá que Shmuel dá aos restos; discute, entre Rabi Zeira e Rabi La, em nome de Rabi Yochanan, se dois cercados vizinhos se completam um ao outro; traz a palavra de Rabi Abahu sobre quem atira do domínio público para dentro do karpef e a objeção de Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak; e termina com o pátio aberto para o karpef e a pergunta de Rabi Yudan Antodraya. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 23a.
Mishná: E disse ainda Rabi Yehudá ben Bava: a giná (horta) e o karpef (cercado) que têm setenta amot (côvados) e restos por setenta amot e restos, cercada por uma geder (cerca) alta de dez tefachim (palmos), transporta-se dentro dela, contanto que haja nela uma shomirá (cabana de vigia) ou uma beit dirá (casa de moradia), ou que esteja próxima da cidade.
“E disse ainda Rabi Yehudá ben Bava” etc. Rabi Shmuel bar Nachman em nome de Rabi Yonatan: do pátio do Mishkan (Tabernáculo) o aprenderam: “O comprimento do pátio, cem pela amá, e a largura, cinquenta por cinquenta”. E cinquenta vezes cem, eis cinco mil amot quadradas. Setenta por setenta, eis que dá cinco mil menos cem; e por isso ensinamos na Mishná: “setenta e restos”.
E Shmuel ensinou: setenta amot e dois terços de amá ensinaram. Setenta vezes dois terços e setenta vezes dois terços, que fazem cento e quarenta terços de um lado e cento e quarenta terços do outro, que são ao todo noventa e três amot e um terço. Tira deles quatro nonos para os quatro lados; restam ali dezenove terços menos um nono. Como isto que foi ensinado numa baraita: há aqui uma coisa leve, e os sábios não puderam estabelecê-la com exatidão.
Um karpef que tem a medida de sata’im (duas seás de semeadura): não é permitido transportar nele senão dentro de quatro amot. Se eram dois cercados, um ao lado do outro: neste, um beit seá (área de semeadura de uma seá), e naquele, um beit seá, menos quatro amot. Rabi Zeira em nome de Rabi Yochanan: transporta-se no segundo como complemento do primeiro. Rabi La em nome de Rabi Yochanan: não se transporta no segundo como complemento do primeiro. Disse Rabi Zeira: Rabi La admite que, se eram três cercados, neste um beit seá, e neste um beit seá, e neste um beit seá, todos admitem que se transporta no segundo como complemento do primeiro.
Um karpef que tem até beit sata’im (área de semeadura de duas seás): disse Rabi Abahu: visto que ele é apto a ser permitido por meio de uma shayará (caravana), se alguém atirou no Shabat de reshut harabim (domínio público) para dentro dele, é culpado. Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak perguntou: só quando uma shayará o quiser é que ele se torna permitido; enquanto isso, quanto a proibir, é proibido; eis que obrigação de chatat (oferta de expiação) não há aqui. Sendo assim, um mavoi (beco) cuja korá (viga transversal) está acima de vinte amot, visto que ele é válido segundo a opinião de Rabi Yudá, de treze, e alguém atirou de reshut harabim para dentro dele, é culpado? Um mavoi que foi arrombado mais de dez amot, visto que a brecha do mavoi, segundo a opinião de Rabi Yudá, é de treze, e alguém atirou de reshut harabim para dentro dele, é culpado?
Um chatzer (pátio) que está aberto para um karpef: transporta-se no Shabat do chatzer para o karpef, mas não do karpef para o chatzer. Rabi Yudan Antodraya perguntou: qual é a regra quanto a transportar de um karpef para outro karpef por meio do chatzer?
Esta é a quinta halachá do Perek Bet, Osin Passin, de Massechet Eruvin, e a sua Mishná corresponde ao começo da Mishná Eruvin 2:5 da Mishná avulsa, que continua com as palavras de Rabi Yehudá e de Rabi Akiva, que no Yerushalmi abrem a Mishná da halachá 2:6, e com as de Rabi Eliezer e de Rabi Yossi, que abrem a da halachá 2:7. No trecho comum, as diferenças são de grafia: רִבִּי onde a avulsa tem רַבִּי; בֶּן בָּבָא onde a avulsa tem בֶן בָּבָא; הַגִּינָּה, com yod, onde a avulsa tem הַגִּנָּה; מוּקֶּפֶת onde a avulsa tem מֻקֶּפֶת; גָדֵר, sem daguesh, onde a avulsa tem גָּדֵר; e שׁוֹמִירָה onde a avulsa tem שׁוֹמֵירָה. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 23a, com הַמּוּקָּפוֹת, no plural. O particípio מוּקֶּפֶת e os pronomes de בְּתוֹכָהּ e בָהּ estão no feminino singular, referidos, ao que parece, à horta, e a tradução os manteve assim. A halachá ocupa cinco segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e os outros quatro são as seções 01 a 04; a seção 01, que é um só segmento, foi dividida em dois pares de hebraico e português.
A marca פיס׳, que abre a seção 01, é a abreviação de pisqa, “trecho”, e assinala que a guemará cita em seguida um trecho da Mishná; foi mantida no hebraico e não foi traduzida como palavra, porque o trecho citado logo depois basta. A marca כול׳, abreviação de “etc.”, foi traduzida assim.
Sobre a conta da seção 01. O versículo do pátio do Mishkan, Shemot 27:18, dá cem amot de comprimento e cinquenta de largura, e a guemará lê daí a área de cinco mil amot quadradas, que é a de beit sata’im. Um quadrado de setenta por setenta tem só quatro mil e novecentas; por isso a Mishná diz “setenta e restos”. Shmuel fixa os restos em dois terços de amá, e a guemará mede o que esses dois terços acrescentam: duas faixas de setenta por dois terços, de cento e quarenta terços cada uma, isto é, noventa e três amot e um terço ao todo, e ainda o pequeno quadrado do canto, de dois terços por dois terços, que são quatro nonos. Para chegar a cinco mil, faltam, ao que parece, dezenove terços menos um nono, isto é, seis amot e dois nonos, e é essa a “coisa leve” que os sábios não puderam estabelecer, porque a raiz exata de cinco mil não se deixa escrever com frações.
Sobre as seções 02 a 04. Na seção 02, o karpef de sata’im em que só se transporta dentro de quatro amot é, ao que parece, um cercado sem divisória completa, como a cerca de cordas da caravana do Perek Alef; e a discussão é se dois cercados vizinhos, de pouco menos de um beit seá cada um, podem somar-se para formar a área permitida. Rabi Zeira observa que, havendo três, como numa caravana, até Rabi La admite. Na seção 03, Rabi Abahu faz do karpef um domínio privado da Torá, de modo que quem atira para dentro dele é culpado, porque ele poderia ser permitido a uma caravana; Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak responde que, enquanto não houver caravana, ele é apenas proibido, e não há obrigação de oferta de expiação; e mostra o absurdo da regra com dois casos de mavoi que só são válidos segundo Rabi Yudá. Na seção 04, o karpef é, ao que parece, um anexo do chatzer, e por isso se transporta do chatzer para ele e não o contrário; a pergunta de Rabi Yudan Antodraya fica sem resposta.
Referências conferidas no Sefaria. Em Shemot 27:18, אֹרֶךְ הֶחָצֵר מֵאָה בָאַמָּה וְרֹחַב חֲמִשִּׁים בַּחֲמִשִּׁים. Em Eruvin 23a, logo antes desta Mishná, termina a anterior com אָמַר רַב יוֹסֵף אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא, “Rav Yosef disse que Rav Yehudá disse que Shmuel disse: a halachá é como Rabi Yehudá ben Bava”, dito da Mishná dos poços; vem depois esta Mishná, com שִׁבְעִים אַמָּה וְשִׁירַיִים, e a guemará pergunta מַאי תַּנָּא דְּקָתָנֵי ״וְעוֹד״, “qual é o tana que ensina ‘e ainda’?”. Em Eruvin 23b, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: דָּבָר מוּעָט יֵשׁ עַל שִׁבְעִים אַמָּה וְשִׁירַיִם, וְלֹא נָתְנוּ חֲכָמִים בּוֹ שִׁיעוּר, “Rabi Yehudá diz: há uma coisa pequena sobre setenta amot e restos, e os sábios não lhe deram medida”, paralela à baraita citada no fim da seção 01; וְכַמָּה שִׁיעוּר סָאתַיִם? כַּחֲצַר הַמִּשְׁכָּן, “e quanto é a medida de sata’im? Como o pátio do Mishkan”, com o mesmo versículo e a leitura טוֹל חֲמִשִּׁים, וְסַבֵּב חֲמִשִּׁים, “toma cinquenta e circunda cinquenta”; e קַרְפֵּף שֶׁהוּא יוֹתֵר מִבֵּית סָאתַיִם שֶׁהוּקַּף לְדִירָה, “o karpef de mais de beit sata’im que foi cercado para moradia”. Em Eruvin 24a, אָמַר רַב כָּהֲנָא: רְחָבָה שֶׁאֲחוֹרֵי הַבָּתִּים — אֵין מְטַלְטְלִין בּוֹ אֶלָּא בְּאַרְבַּע אַמּוֹת, “Rav Kahana disse: o espaço atrás das casas, não se transporta nele senão em quatro amot”, que lembra a regra das quatro amot da seção 02. Na Tosefta Eruvin, ed. Lieberman, na numeração do Sefaria, em 1:15, היתה חצר פתוחה לביניהן, מותר לטלטל מחצר לפסין ומפסין לחצר, “se um chatzer estava aberto para o espaço entre eles, é permitido transportar do chatzer para os passin e dos passin para o chatzer”, regra diferente da do karpef da seção 04; e em 1:16, ר' יהודה בן בבא אומ' אין עושין פסין אלא לבור ברשות הרבים בלבד, “Rabi Yehudá ben Bava diz: não se fazem passin senão para a cisterna no domínio público somente”, paralela à palavra de Rabi Yehudá ben Bava na Mishná anterior, à qual se liga o “e disse ainda” desta Mishná.
Leituras incertas. Na Mishná, שׁוֹמִירָה foi traduzido “cabana de vigia”. Na seção 01, מֵאָה בָאַמָּה foi traduzido literalmente, “cem pela amá”; אַמָּה וּשְׁנֵי שְׁלִישֵׁי אַמָּה שָׁנוּ foi entendido como “setenta amot e dois terços de amá”, com o número acrescentado; לְאַרְבַּע רוּחוֹת foi traduzido “para os quatro lados”, embora a conta, ao que parece, trate de um só canto; e לַעֲמוֹד עָלָיו foi traduzido “estabelecê-la”. Na seção 02, a primeira frase foi entendida como regra do cercado sem divisória completa; não é claro se חָסֵר אַרְבַּע אָמּוֹת, “menos quatro amot”, vale só para o segundo cercado ou para os dois, e a tradução mantém a ordem do hebraico; na palavra de Rabi Zeira em nome de Rabi Yochanan, o hebraico tem בִּשְׁנֵי תַשְׁלוּמִין, e nas outras duas vezes בַּשֵּׁנִי תַשְׁלוּמִין, e as três foram traduzidas “no segundo como complemento”. Na seção 03, בָעֵי foi traduzido “perguntou”, embora seja aqui uma objeção; as duas perguntas finais, “é culpado?”, foram entendidas como redução ao absurdo; e מִשְׁלשׁ עֶשְׂרֵה, na frase da korá acima de vinte amot, foi traduzido “de treze”, como está. Na seção 04, עַנְתוֹדְרַיָּא foi mantido como nome de lugar, Antodraya, como em outras páginas do site.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Na seção 03, o hebraico traz duas leituras, (לֹא לִכְשֶׁתַּתִּירֶנּוּ), a do escriba, entre parênteses, e [לִכְשֶׁתִּירְצוּ], a do corretor, entre colchetes; Guggenheimer prefere a do escriba, “não é quando a caravana o permitir?”, e a tradução segue a do corretor, “quando uma shayará o quiser”, como na halachá 1:1. Guggenheimer propõe apagar מִשְׁלשׁ עֶשְׂרֵה na frase da korá, que lhe parece copiado da frase seguinte, e aqui foi traduzido; fala de quatro nonos “para o canto”, onde o hebraico diz לְאַרְבַּע רוּחוֹת; traduz “cada um um beit seá menos quatro amot”, onde o hebraico não diz “cada um”; e escreve “Rebbi Jehudah” onde a guemará diz רִבִּי יוּדָה. No fim da seção 04, o texto inglês do Sefaria traz ainda a discussão sobre a linha trocada de Rabi Yehudá e a palavra de Rabi Mana, que no hebraico do Sefaria está na halachá 2:6 e não nesta, e por isso não foi traduzida aqui. Nas notas, Guggenheimer remete também ao Bavli 23b, conferido acima, e a outros lugares que não foram conferidos e por isso não são citados.
Nomes nesta página: Rabi Yehudá ben Bava, רִבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא; Rabi Shmuel bar Nachman, רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָן; Rabi Yonatan, רִבִּי יוֹנָתָן; Shmuel, שְׁמוּאֵל; Rabi Zeira, רִבִּי זְעִירָה e רִבִּי זְעִירָא; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Rabi La, רִבִּי לָא, como na halachá 1:1; Rabi Abahu, רִבִּי אַבָּהוּ; Rabi Shmuel bar Rav Yitzchak, רִבִּי שְׁמוּאֵל בַּר רַב יִצְחָק; Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָה; Rabi Yudan Antodraya, רִבִּי יוּדָן עַנְתוֹדְרַיָּא.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e, na seção 01, o marcador da folha 17a da edição de Vilna, embutido no texto do Sefaria. O texto do Sefaria não tem marcador numérico nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. Os parênteses e colchetes da seção 03 foram mantidos no hebraico. As marcas פיס׳ e כול׳ foram mantidas, e grafias anômalas também, como וְשִׁירַיִים, אָמּוֹת e קַרָפֵּף.