Quarta halachá do Perek Bet, Osin Passin, de Massechet Eruvin. A Mishná traz a frase, que a guemará atribui a Rabi Yehudá, de que o caminho público que corta a área cercada pelos passin deve ser desviado para os lados, e a resposta dos sábios, de que não é preciso; e a discussão entre Rabi Akiva, que dá passin ao poço público, à cisterna pública e ao poço particular, mas exige da cisterna particular uma divisória de dez palmos, e Rabi Yehudá ben Bava, que só os dá ao poço público. A guemará traz a palavra de Rabi Yochanan, para quem a linha de Rabi Yudá está trocada diante da Mishná das pontes abertas, as respostas de Rabi Elazar, de Rabi Yirmeyá e dos rabinos de Cesareia; explica por que a cisterna particular difere da pública; e traz, em nome de Shmuel, que a halachá é como Rabi Yudá ben Bava. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 22a.
Mishná: Se um derech harabim (caminho público) a cortava, a área cercada pelos passin, quem os faz deve desviá-lo para os lados. E os sábios dizem: não é preciso. Tanto o poço público como a cisterna pública e o poço particular, fazem-se para eles passin (tábuas verticais); mas, para a cisterna particular, faz-se para ela uma mechitzá (divisória) alta de dez tefachim (palmos): palavras de Rabi Akiva. Rabi Yehudá ben Bava diz: não se fazem passin senão para o poço público somente; e para os demais casos faz-se uma chagorá (cinta) alta de dez tefachim.
“Rabi Yehudá diz: até beit sata’im (área de semeadura de duas seás)” etc. Rabi Yochanan disse: a linha de raciocínio de Rabi Yudá está trocada, pois ensinamos lá: “E assim também as pontes mefulashin (abertas de ponta a ponta): transporta-se debaixo delas no Shabat. Palavras de Rabi Yehudá; e os sábios proíbem.” Rabi Elazar disse: não está trocada. Rabi Yirmeyá disse: porque ele sustenta como Rav Yehudá, pois Rav Yehudá disse: isto que dizes é nas pontes abertas para uma bik’á (vale); mas, se estavam abertas para reshut harabim (domínio público), é proibido.
Rabi Yossi disse: em todo lugar Rabi Lazar se apoia em Rabi Chiyá Rabá. Rabi Chiyá ensinou: como se torna permitido transportar em reshut harabim? Rabi Yudá diz: faz-se um lechi (poste lateral) daqui e um lechi dali; uma korá (viga transversal) daqui e uma korá dali. E os sábios dizem: faz-se lechi e korá daqui, e faça-se uma tzurat hapetach (forma de porta: dois postes e uma viga sobre eles) dali. E aqui ele diz assim? Aqui, em dez amot; e aqui, em treze amot.
As palavras dos rabinos divergem. Rabi Achá disse: Rav Hoshayá perguntou a meu pai: quanto pode ser a brecha do mavoi (beco) segundo a opinião de Rabi Yudá? E ele lhe disse: de treze amot. E aqui ele diz assim? Os rabinos de Cesareia dizem: lá, o omed (a parte em pé) é maior que o parutz (a parte arrombada); mas aqui, o parutz é maior que o omed.
“Rabi Yehudá diz: se o derech harabim a cortava” etc. Que diferença há entre a cisterna pública e a cisterna particular quanto aos passin? A cisterna pública tem kol (voz, isto é, notoriedade); a cisterna particular não tem kol. Sendo assim, mesmo para o seu poço particular, que tampouco tem kol, deveria ser preciso uma mechitzá! Mas a diferença é que a cisterna pública, as suas águas costumam acabar; a cisterna particular, as suas águas não costumam acabar.
Rabi Yaakov bar Achá, Amram, Rav Yehudá em nome de Shmuel: a halachá (a norma prática) é como Rabi Yudá ben Bava. Rabi Yudá, pai de Rabi Matanyá, disse: a matnita (Mishná) diz assim, como ele: “Fazem-se passin para os poços”, e não para as cisternas. Mas não ensinamos na Mishná: “mas para a cisterna particular faz-se para ela uma mechitzá alta de dez tefachim: palavras de Rabi Akiva”, e, portanto, para a cisterna pública se fazem passin? Mas então assim estamos tratando: da cisterna pública. E igualmente, “fazem-se passin para os poços”: isto é, para o poço público.
Esta é a quarta halachá do Perek Bet, Osin Passin, de Massechet Eruvin, e a sua Mishná corresponde à Mishná Eruvin 2:4 da Mishná avulsa. A diferença principal é que o Yerushalmi começa a Mishná sem atribuição, אִם הָיְתָה דֶרֶךְ הָרַבִּים, enquanto a avulsa abre com רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, “Rabi Yehudá diz”; a própria guemará, na seção 02, cita o trecho com רִבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, e por isso a primeira frase é de Rabi Yehudá, embora a tradução da Mishná, que segue o hebraico desta página, não lhe dê nome. As demais diferenças: מַפְסְקָתָהּ, “a corta”, no feminino singular, onde a avulsa tem מַפְסַקְתָּן, “os corta”, no plural, referido aos passin; יְסַלָּקֶנָּה onde a avulsa tem יְסַלְּקֶנָּה; אוֹמְרִין onde a avulsa tem אוֹמְרִים; a ordem בְּאֵר הָרַבִּים וּבוֹר הָרַבִּים, “o poço público e a cisterna pública”, onde a avulsa tem בּוֹר הָרַבִּים, וּבְאֵר הָרַבִּים, com a cisterna primeiro; הַיָחִיד, duas vezes, sem daguesh, onde a avulsa tem הַיָּחִיד; פַּסִּים, duas vezes, onde a avulsa tem פַּסִּין; גְבוֹהָה, duas vezes, onde a avulsa tem גָבוֹהַּ; רִבִּי onde a avulsa tem רַבִּי; עֲקִיבָה, com he, onde a avulsa tem עֲקִיבָא; בֶּן בָּבָא onde a avulsa tem בֶן בָּבָא; e בִּלְבָד onde a avulsa tem בִּלְבַד. No Bavli, a Mishná está dividida: a frase de Rabi Yehudá sobre o caminho, com דֶּרֶךְ רְשׁוּת הָרַבִּים מַפְסַקְתָּן, em Eruvin 22a, e o resto, a partir de אֶחָד בּוֹר הָרַבִּים וּבְאֵר הָרַבִּים, em Eruvin 22b. A halachá ocupa quatro segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e os outros três são as seções 01 a 03; a seção 01, que é um só segmento, foi dividida em três pares de hebraico e português.
A marca פיס׳, que abre as seções 01 e 02, é a abreviação de pisqa, “trecho”, e assinala que a guemará cita em seguida um trecho da Mishná; foi mantida no hebraico e não foi traduzida como palavra, porque o trecho citado logo depois basta. O trecho citado na seção 01, “Rabi Yehudá diz: até beit sata’im”, é da Mishná anterior, 2:3, mas a discussão que segue trata, ao que parece, da primeira frase desta Mishná, em que Rabi Yehudá não deixa o caminho público atravessar a área cercada pelos passin.
Sobre o fio da seção 01. Rabi Yochanan acha que a posição de Rabi Yudá está trocada: aqui ele não admite que os passin valham quando o caminho público os atravessa, e na Mishná das pontes ele permite transportar debaixo das pontes abertas de ponta a ponta, que estão na Mishná Eruvin 9:4 da avulsa e na halachá 9:5 do Yerushalmi. Rabi Elazar responde que não está trocada, e Rabi Yirmeyá explica: Rabi Yudá sustenta a palavra de Rav Yehudá, que está também na halachá 9:5 do Yerushalmi, de que a permissão das pontes vale quando estão abertas para um vale, e não para o domínio público. Rabi Yossi observa que Rabi Lazar, ao que parece o mesmo Rabi Elazar, se apoia sempre em Rabi Chiyá Rabá, e traz a baraita de Rabi Chiyá, que está também na halachá 1:1 do Yerushalmi: segundo Rabi Yudá, o domínio público se permite com um lechi ou uma korá em cada ponta. Daí a pergunta “e aqui ele diz assim?”, isto é, ao que parece, como aqui ele proíbe, se lá permite. A resposta “aqui, em dez; e aqui, em treze” distingue, ao que parece, a abertura de dez amot, a largura máxima do mavoi, da de treze amot, que é a distância entre os passin segundo Rabi Yehudá na Tosefta. A palavra de Rav Hoshayá, de que segundo Rabi Yudá a brecha do mavoi pode ser de treze amot, desfaz essa distinção, e os rabinos de Cesareia respondem com outra: no mavoi a parte em pé é maior que a arrombada, e nos passin a arrombada é maior que a parte em pé.
Sobre as seções 02 e 03. Rabi Akiva dá passin à cisterna pública e não à particular, e a guemará pergunta a razão: a cisterna pública tem notoriedade, e todos sabem quando ela secou; a objeção é que, então, o poço particular também deveria precisar de divisória, e a resposta distingue pela água que acaba. Na seção 03, a regra em nome de Shmuel é que a halachá segue Rabi Yudá ben Bava; Rabi Yudá, pai de Rabi Matanyá, apoia-a na Mishná 2:1, “fazem-se passin para os poços”, e não para as cisternas; a objeção vem de Rabi Akiva, que dá passin à cisterna pública, e a resposta é que a Mishná trata da cisterna pública e, do mesmo modo, do poço público.
Referências conferidas no Sefaria. Em Eruvin 22a, o Bavli traz a Mishná de Rabi Yehudá sobre o caminho, e Rabi Yochanan e Rabi Elazar dizem juntos כָּאן הוֹדִיעֲךָ כּוֹחָן שֶׁל מְחִיצּוֹת, “aqui te fez saber a força das divisórias”; o Bavli opõe Rabi Yehudá a Rabi Yehudá com a baraita de quem tinha duas casas dos dois lados do domínio público, עוֹשֶׂה לוֹ לֶחִי מִכָּאן וְלֶחִי מִכָּאן, אוֹ קוֹרָה מִכָּאן וְקוֹרָה מִכָּאן, “faz para si um lechi daqui e um lechi dali, ou uma korá daqui e uma korá dali”, e responde que lá há duas divisórias completas e aqui não. Em Eruvin 22b está o resto da Mishná, sobre a cisterna e o poço. Em Eruvin 23a, אָמַר רַב יוֹסֵף אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא, “Rav Yosef disse que Rav Yehudá disse que Shmuel disse: a halachá é como Rabi Yehudá ben Bava”, e, na mesma cadeia, לֹא הוּתְּרוּ פַּסֵּי בֵירָאוֹת אֶלָּא לִבְאֵר מַיִם חַיִּים בִּלְבַד, “os passin dos poços só foram permitidos para o poço de água viva”. Na Tosefta Eruvin, ed. Lieberman, 1:13, na numeração do Sefaria, Rabi Yehudá diz que entre os passin pode haver כשלש עשרה, וכארבע עשרה אמה, “como treze e como catorze amot”; e em 1:16, ר' יהודה בן בבא אומ' אין עושין פסין אלא לבור ברשות הרבים בלבד, ר' עקיבא אומ' לכל עושין פסין, חוץ מבור של רשות היחיד בלבד, “Rabi Yehudá ben Bava diz: não se fazem passin senão para a cisterna no domínio público somente; Rabi Akiva diz: para tudo se fazem passin, exceto somente a cisterna do domínio privado”.
Leituras incertas. Na Mishná, מַפְסְקָתָהּ, “a cortava”, tem objeto feminino singular, que foi entendido como a área cercada pelos passin; “quem os faz” completa o sujeito de יְסַלָּקֶנָּה; e חֲגוֹרָה foi traduzido “cinta”, que é, ao que parece, uma cerca de cordas. Na seção 01, מִחְלְפָה שִׁיטָּתֵיהּ foi traduzido “a linha de raciocínio está trocada”; o sujeito de דִּי סְבַר foi entendido como Rabi Yudá; כָּאן בְּעֶשֶׂר. וְכָאן בִּשְׁלשׁ עֶשְׂרֵה diz “aqui” nas duas vezes, e “amot” foi acrescentado; מִילֵּיהוֹן דְּרַבָּנִן פְּלִיגִין, “as palavras dos rabinos divergem”, foi entendido como introdução a uma tradição que contradiz a resposta anterior; לְאַבָּא foi traduzido “a meu pai”, mas pode ser o nome de um sábio, Abá; e מִשְּׁלשׁ עֶשְׂרֵה foi traduzido “de treze”. Na seção 02, קוֹל foi entendido como notoriedade, e a última resposta, que fala de בּוֹר, cisterna, nos dois membros, tem lógica incerta. Na seção 03, a cadeia רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא עַמְרָם רַב יְהוּדָה בְשֵׁם שְׁמוּאֵל foi mantida como está, sem acrescentar “em nome de” entre os nomes.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer traduz a Mishná com a cisterna pública antes do poço público, onde o Yerushalmi tem o poço primeiro; escreve “Rebbi Jehudah” onde a guemará diz רִבִּי יוּדָה, também em “Rabi Yudá ben Bava” e em “Rabi Yudá, pai de Rabi Matanyá”; traduz לֶחִי מִיכָּן וְלֶחִי מִיכָּן. קוֹרָה מִיכָּן וְקוֹרָה מִיכָּן com “ou” entre as duas partes, que o hebraico não tem; traduz כָּאן ... וְכָאן como “aqui ... lá”; e traduz a última resposta da seção 02 como se falasse do poço público, onde o hebraico diz בּוֹר הָרַבִּים, a cisterna pública. Nas notas, ele remete ao Bavli 22a e 23a, ambos conferidos acima.
Nomes nesta página: Rabi Yehudá traduz רִבִּי יְהוּדָה e רַבִּי יְהוּדָה, e Rabi Yudá, רִבִּי יוּדָה; Rabi Yehudá ben Bava, רִבִּי יְהוּדָה בֶּן בָּבָא, na Mishná, e Rabi Yudá ben Bava, רִבִּי יוּדָה בֶּן בָּבָא, na seção 03; Rabi Akiva, רִבִּי עֲקִיבָה; Rabi Yochanan, רִבִּי יוֹחָנָן; Rabi Elazar, רִבִּי אֶלְעָזָר, e Rabi Lazar, רִבִּי לָעְזָר; Rabi Yirmeyá, רִבִּי יִרְמְיָה; Rav Yehudá, רַב יְהוּדָה; Rabi Yossi, רִבִּי יוֹסֵה; Rabi Chiyá Rabá, רִבִּי חִיָיה רוֹבָה, e Rabi Chiyá, רִבִּי חִיָיה; Rabi Achá, רִבִּי אָחָא; Rav Hoshayá, רַב הוֹשַׁעְיָה; os rabinos de Cesareia, רַבָּנִן דְּקַיְסָרִין; Rabi Yaakov bar Achá, רִבִּי יַעֲקֹב בַּר אָחָא; Amram, עַמְרָם, sem título, como no hebraico; Shmuel, שְׁמוּאֵל; Rabi Matanyá, רִבִּי מַתַּנְיָה.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e, na seção 01, dois marcadores de folha embutidos no texto do Sefaria, o da coluna 20b da edição de Veneza e o da folha 16b da edição de Vilna. O texto do Sefaria não tem marcador numérico nesta halachá, e nenhum foi acrescentado; não há colchetes nem parênteses no hebraico. As marcas פיס׳ e כול׳ foram mantidas, e grafias anômalas também, como הָדָא דְתֵימַר e מִיכָּן.