Talmud Bavli · Massechet Eruvin · Perek Bet (Osin Passin)
כּוֹחָן שֶׁל מְחִיצּוֹת

Negras como o corvo; longânimo com justos e ímpios; a cisterna e os passin de Rabi Yehuda; o caminho do domínio público e a força das divisórias

Eruvin 22a — Perek Bet (Osin Passin) · fim da guemará sobre a primeira mishná e início da segunda mishná do perek · a guemará prossegue em 22b

A guemará conclui a exposição sobre “negras como o corvo”: as palavras da Torá se encontram em quem madruga e anoitece por causa delas na casa de estudo, em quem enegrece o rosto por elas, segundo Rabba, e em quem se faz cruel com os filhos e a casa, como o corvo, segundo Rava, como fez Rav Adda bar Matna. Rabi Yehoshua ben Levi expõe “e retribui aos que O odeiam, em face”, Rabi Ila ensina que Deus tarda para os justos completos, e “hoje, para fazê-los” ensina que a recompensa vem amanhã; Rabi Chagai explica o plural de erech apayim. Volta-se à mishná: o beit sata’im de Rabi Yehuda refere-se à cisterna com os passin ou sem eles? A guemará traz a baraita de Rabi Yehuda, dos Sábios e de Rabi Shimon ben Elazar, e a regra sobre o espaço cujo uso é para moradia. Segue a segunda mishná do perek, sobre o caminho do domínio público que passa entre os passin; Rabi Yochanan e Rabi Elazar veem nela a força das divisórias, e a guemará confronta isso com Jerusalém e as suas portas, e as palavras de Rabi Yehuda e dos Rabanan com a baraita das duas casas dos dois lados do domínio público. Por fim, Rabi Yochanan ensina que na Terra de Israel não se é culpado por domínio público, e Abaye pergunta a razão.

Negras como o corvo · שְׁחוֹרוֹת כָּעוֹרֵב

782Quem madruga e anoitece na casa de estudo
A guemará
שֶׁמַּשְׁכִּים וּמַעֲרִיב עֲלֵיהֶן לְבֵית הַמִּדְרָשׁ. רַבָּה אָמַר: בְּמִי שֶׁמַּשְׁחִיר פָּנָיו עֲלֵיהֶן כְּעוֹרֵב.

…naquele que madruga e anoitece, por causa delas, indo para a casa de estudo; pois a guemará lê shechorot (negras) como shachar (madrugada), e kaorev (como o corvo) como erev (tarde). Rabba disse: Encontram-se naquele que, por causa delas, enegrece o seu rosto como o corvo, isto é, que jejua e se priva por amor ao estudo da Torá.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “shemashkim umaariv”
שמשכים ומעריב - שחורות לשון שחרית כעורב לשון ערבית:

“Que madruga e anoitece” — shechorot (negras) é expressão de shacharit (manhã); kaorev (como o corvo) é expressão de arvit (tarde).

783Cruel com os seus filhos, como o corvo
A guemará
רָבָא אָמַר: בְּמִי שֶׁמֵּשִׂים עַצְמוֹ אַכְזָרִי עַל בָּנָיו וְעַל בְּנֵי בֵּיתוֹ כְּעוֹרֵב. כִּי הָא דְּרַב אַדָּא בַּר מַתְנָא הֲוָה קָאָזֵיל לְבֵי רַב, אֲמַרָה לֵיהּ דְּבֵיתְהוּ: יָנוֹקֵי דִידָךְ מַאי אֶעֱבֵיד לְהוּ? אֲמַר לַהּ: מִי שְׁלִימוּ קוּרָמֵי בְּאַגְמָא?

Rava disse: Encontram-se naquele que se faz cruel com os seus filhos e com os membros da sua casa como o corvo, por amor à Torá. Como no caso de Rav Adda bar Matna, que estava indo à casa do mestre para estudar Torá, e a sua mulher lhe disse: Os teus filhos, que farei com eles, como os sustentarei na tua ausência? Disse-lhe: Acaso se acabaram os kurmei (juncos) no pântano? Se não houver outro pão, que comam o que se prepara com eles.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “orev achzari al banav”
עורב אכזרי על בניו - כדכתיב (תהילים קמ״ז:ט׳) לבני עורב אשר יקראו והקב"ה מזמן להן יתושים ונכנסין לתוך פיהן:

“O corvo é cruel com os seus filhos” — como está escrito (Tehilim 147:9): “Aos filhos do corvo, que clamam” por alimento; e o Santo, bendito seja, lhes prepara mosquitos, que entram na sua boca.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kurmei”
קורמי - ירקות לישנא אחרינא: גמי לח כי עקרת לההוא רכיכא דאית ביה וטחני ליה ועבדי ריפתא באל"ף בי"ת דר' מכיר מצאתיו:

“Kurmei” — são verduras. Outra versão: junco fresco; quando arrancas aquela parte macia que há nele, moem-na e fazem dela pão. No léxico do alef-bet de Rabi Machir eu o encontrei, este segundo sentido.

Nota

A referência entre parênteses no hebraico do Rashi, (תהילים קמ״ז:ט׳), é marca editorial da edição do Sefaria; foi traduzida como referência, (Tehilim 147:9). O “alef-bet de Rabi Machir” é um léxico em ordem alfabética que Rashi cita como fonte da segunda explicação.

Longânimo com os justos e com os ímpios · אֶרֶךְ אַפַּיִם

784Como quem carrega um fardo sobre o rosto
A guemará
״וּמְשַׁלֵּם לְשׂוֹנְאָיו אֶל פָּנָיו לְהַאֲבִידוֹ״, אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: אִילְמָלֵא מִקְרָא כָּתוּב, אִי אֶפְשָׁר לְאוֹמְרוֹ — כִּבְיָכוֹל כְּאָדָם שֶׁנּוֹשֵׂא מַשּׂוֹי עַל פָּנָיו, וּמְבַקֵּשׁ לְהַשְׁלִיכוֹ מִמֶּנּוּ.

A guemará expõe outro versículo: “E retribui aos que O odeiam, em face, para destruí-los” (Devarim 7:10). Disse Rabi Yehoshua ben Levi: Se o versículo não estivesse escrito, seria impossível dizê-lo, em respeito ao Santo, bendito seja: é, por assim dizer, como uma pessoa que carrega um fardo sobre o rosto e procura lançá-lo de si, como se Ele não suportasse os ímpios e precisasse puni-los de imediato.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “el panav”
אל פניו - של הקב"ה ודומה לו כמשאוי לפניו:

“Em face” — na face do Santo, bendito seja; e o ímpio Lhe é semelhante a um fardo diante dEle.

785Não tarda para quem O odeia
A guemará
״לֹא יְאַחֵר לְשׂוֹנְאוֹ״, אָמַר רַבִּי אִילָא: לְשׂוֹנְאָיו הוּא דְּלֹא יְאַחֵר, אֲבָל יְאַחֵר לַצַּדִּיקִים גְּמוּרִים.

Sobre as palavras “Não tardará para quem O odeia” (Devarim 7:10), disse Rabi Ila: Para os que O odeiam é que não tarda em trazer o castigo; mas tarda para os justos completos, pois a sua recompensa não chega de imediato, neste mundo, mas no Mundo Vindouro.

786Hoje para fazê-los, amanhã para receber a recompensa
A guemará
וְהַיְינוּ דְּאָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: מַאי דִּכְתִיב ״אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוְּךָ הַיּוֹם לַעֲשׂוֹתָם״, ״הַיּוֹם לַעֲשׂוֹתָם״ — וְלֹא לְמָחָר לַעֲשׂוֹתָם, ״הַיּוֹם לַעֲשׂוֹתָם״ — לְמָחָר לְקַבֵּל שְׂכָרָם.

E é isto que disse Rabi Yehoshua ben Levi: Que é que está escrito: “Que Eu te ordeno hoje, para fazê-los” (Devarim 7:11)? “Hoje, para fazê-los” — e não amanhã para fazê-los, pois no Mundo Vindouro já não há ocasião de cumprir os preceitos; “hoje, para fazê-los” — e amanhã, no futuro vindouro, para receber a sua recompensa.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “velo lemachar laasotam”
ולא למחר לעשותם - שלאחר מיתה לעתיד לבוא אם בא לקיים מצות אינו מועיל דמי שטרח בערב שבת. יאכל בשבת כדאמר במס' ע"ג:

“E não amanhã, para fazê-los” — pois, depois da morte, no futuro vindouro, se alguém vier a cumprir preceitos, isso não lhe adianta; pois quem se esforçou na véspera do Shabat comerá no Shabat, como se diz no tratado Avodá Zará (3a).

Nota

Rashi remete apenas ao “tratado Avodá Zará”, sem indicar a página; a frase “quem se esforçou na véspera do Shabat comerá no Shabat” está em Avodá Zará 3a, e a indicação (3a) foi acrescentada na tradução.

787Erech apayim, no plural
A guemará
אָמַר רַבִּי חַגַּי, וְאִיתֵּימָא רַבִּי שְׁמוּאֵל בַּר נַחְמָנִי: מַאי דִּכְתִיב ״אֶרֶךְ אַפַּיִם״? ״אֶרֶךְ אַף״ מִבְּעֵי לֵיהּ!

Disse Rabi Chagai, e há quem diga que foi Rabi Shmuel bar Nachmani: Que é que está escrito: “Erech apayim” (longânimo; literalmente, “longo de faces”, no plural) (Shemot 34:6)? Erech af (no singular) deveria ter dito!

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “apayim”
אפים - משמע פנים בין שוחקות בין זעומות אפים שוחקות מאריך ומאחר לצדיקים לעתיד לבא ואפים זעומות ומאריך לרשעים ומאחר פורענותם לעוה"ב:

“Apayim” — significa faces, tanto sorridentes como iradas: com a face sorridente, é longânimo e tarda em pagar aos justos, dando-lhes a recompensa no futuro vindouro; e com a face irada, é longânimo com os ímpios e adia o seu castigo para o Mundo Vindouro.

788Para os justos e para os ímpios
A guemará
אֶלָּא אֶרֶךְ אַפַּיִם לְצַדִּיקִים, אֶרֶךְ אַפַּיִם לָרְשָׁעִים.

Antes, o plural ensina que Ele é longânimo com os justos, tardando em lhes dar a recompensa, e longânimo com os ímpios, não os castigando de imediato.

O beit sata’im de Rabi Yehuda: a cisterna e os passin · בּוֹר וּפַסִּין

789A cisterna e os passin, ou a cisterna sem os passin?
A guemará
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר עַד בֵּית סָאתַיִם וְכוּ׳. אִיבַּעְיָא לְהוּ: בּוֹר וּפַסִּין קָאָמַר, אוֹ דִילְמָא בּוֹר וְלֹא פַּסִּין קָאָמַר?

Na mishná se ensinou: “Rabi Yehuda diz: Até um beit sata’im (área de semeadura de duas seá, cinco mil amot quadradas)” etc. Foi-lhes perguntado aos Sábios da academia: Rabi Yehuda fala da cisterna e dos passin, isto é, que toda a área cercada pelas tábuas, com a cisterna, não pode exceder um beit sata’im? Ou talvez fale da cisterna, e não dos passin, isto é, que a própria cisterna pode ter até um beit sata’im, e a área cercada pode exceder essa medida?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “bor ufassin”
בור ופסין - רוחב הבור עם חלל היקף הפסין הרחוקין שתי אמות:

“A cisterna e os passin” — a largura da cisterna com o espaço do cercado dos passin, que estão afastados duas amot dela.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o dilma bor”
או דילמא בור - לחודיה שרי בבית סאתים לבד הרחקת ב' אמות:

“Ou talvez a cisterna” — sozinha é permitida em até um beit sata’im, além do afastamento de duas amot das tábuas.

790A pessoa põe os olhos na sua cisterna
A guemará
אָדָם נוֹתֵן עֵינָיו בְּבוֹרוֹ, וְלָא גָּזְרִינַן דִּילְמָא אָתֵי לְטַלְטוֹלֵי יוֹתֵר מִבֵּית סָאתַיִם בְּקַרְפֵּף;

A dúvida depende disto: A pessoa põe os olhos na sua cisterna, sabendo que a divisória foi feita por causa dela; e, como a cisterna não excede um beit sata’im, não decretamos que talvez venha a carregar numa área de mais de um beit sata’im num karpef (cercado fora da cidade, não feito para moradia)?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “adam noten einav beboro”
אדם נותן עיניו בבורו - ואם בא ללמוד מכאן היתר למקום אחר מן הבור הוא למד והרי אינו אלא בית סאתים הלכך אע"פ שהוקף יותר על כן לא אתו למישרי קרפף יותר מבית סאתים דעלמא שלא הוקף לדירה:

“A pessoa põe os olhos na sua cisterna” — e, se vier a aprender daqui uma permissão para outro lugar, é da cisterna que aprende, e ela não tem mais que um beit sata’im; por isso, embora a área tenha sido cercada com mais do que isso, não virão a permitir um karpef comum de mais de um beit sata’im, que não foi cercado para moradia.

791Ou põe os olhos na sua divisória
A guemará
אוֹ דִילְמָא, אָדָם נוֹתֵן עֵינָיו בִּמְחִיצָתוֹ, וְגָזְרִינַן דִּילְמָא אָתֵי לְאִיחַלּוֹפֵי יוֹתֵר מִבֵּית סָאתַיִם בְּקַרְפֵּף.

Ou talvez a pessoa ponha os olhos na sua divisória, e não na cisterna, e decretamos que talvez venha a confundir este caso com o de uma área de mais de um beit sata’im num karpef, e venha a carregar ali?

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “o dilma bimchitzato”
או דילמא במחיצתו אדם נותן עיניו - ואם בא ללמוד מכאן היתר למקום אחר מן המחיצה ילמוד הלכך אתי למישרי בעלמא יותר מבית סאתים אי שרית הכא:

“Ou talvez a pessoa ponha os olhos na sua divisória” — e, se vier a aprender daqui uma permissão para outro lugar, da divisória aprenderá; por isso, virão a permitir em geral um cercado de mais de um beit sata’im, se permitires aqui.

792Quão perto e quão longe
A guemará
תָּא שְׁמַע: כַּמָּה הֵן מְקוֹרָבִין — כְּדֵי רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ שֶׁל פָּרָה, וְכַמָּה הֵן מְרוּחָקִין — אֲפִילּוּ כּוֹר אֲפִילּוּ כּוֹרַיִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: בֵּית סָאתַיִם — מוּתָּר, יָתֵר מִבֵּית סָאתַיִם — אָסוּר.

Vem e ouve uma prova de uma baraita: Quão próximas do poço podem estar as tábuas? Na medida da cabeça e da maior parte do corpo de uma vaca. E quão afastadas podem estar? Mesmo uma área de um kor (área de semeadura de um kor, quinze vezes um beit sata’im), mesmo de dois kor, contanto que se aumente o número de passin. Rabi Yehuda diz: Um cercado de beit sata’im é permitido; mais de beit sata’im é proibido.

793O curral, o estábulo e o pátio
A guemará
אָמְרוּ לְרַבִּי יְהוּדָה: אִי אַתָּה מוֹדֶה בְּדִיר וְסַהַר מוּקְצֶה וְחָצֵר, אֲפִילּוּ בֵּית חֲמֵשֶׁת כּוֹרִים וּבֵית עֲשֶׂרֶת כּוֹרִים, שֶׁמּוּתָּר.

Os Sábios disseram a Rabi Yehuda: Não concordas, a respeito de um dir (curral), um sahar (estábulo), um muktze (pátio dos fundos) e um pátio, que, mesmo com área de cinco beit kor e de dez beit kor, é permitido carregar neles?

794Esta é uma divisória, e estes são passin
A guemará
אָמַר לָהֶם: זוֹ מְחִיצָה, וְאֵלּוּ פַּסִּין.

Rabi Yehuda disse-lhes: Esta é uma divisória, e estes são passin. O cercado do curral, do estábulo e do pátio é uma divisória verdadeira, e por isso se permite carregar neles ainda que excedam um beit sata’im; mas os passin são apenas tábuas, e só permitem carregar quando a área não excede um beit sata’im.

795Beit sata’im por beit sata’im
A guemará
רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר אוֹמֵר: בּוֹר בֵּית סָאתַיִם אַבֵּית סָאתַיִם — מוּתָּר, וְלֹא אָמְרוּ לְהַרְחִיק אֶלָּא כְּדֵי רֹאשָׁהּ וְרוּבָּהּ שֶׁל פָּרָה.

Rabi Shimon ben Elazar diz: Uma cisterna de beit sata’im por beit sata’im, isto é, um quadrado com a área de um beit sata’im, é permitida; e não disseram que se devem afastar as tábuas da cisterna senão na medida da cabeça e da maior parte do corpo de uma vaca.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “lo ameru leharchik”
לא אמרו להרחיק - ההיקף לבד בית סאתים של רוחב הבור אלא שתי אמות:

“Não disseram que se devem afastar” — o cercado, além do beit sata’im da largura da cisterna, senão duas amot.

796A dedução e a sua rejeição
A guemará
הָא מִדְּקָאָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר בּוֹר וְלֹא פַּסִּין, מִכְּלָל דְּרַבִּי יְהוּדָה בּוֹר וּפַסִּין קָאָמַר. וְלָא הִיא, רַבִּי יְהוּדָה בּוֹר בְּלֹא פַּסִּין קָאָמַר.

A guemará deduz: Ora, pelo fato de Rabi Shimon ben Elazar falar da cisterna, e não dos passin, deduz-se que Rabi Yehuda fala da cisterna e dos passin. A guemará rejeita: Mas não é assim: Rabi Yehuda fala da cisterna sem os passin, e a área cercada pode exceder um beit sata’im.

797Comprida e estreita
A guemará
אִי הָכִי, הַיְינוּ דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר! אִיכָּא בֵּינַיְיהוּ אֲרִיךְ וְקַטִּין.

A guemará pergunta: Se é assim, isto é o mesmo que diz Rabi Shimon ben Elazar! A guemará responde: Há diferença entre eles no caso de uma cisterna comprida e estreita: segundo Rabi Yehuda, é permitida; segundo Rabi Shimon ben Elazar, é preciso que seja quadrada.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “arich vekatin”
אריך וקטין - ק' על נ' דהוו סאתים כחצר המשכן לר' יהודה אע"פ שאינו מרובע מותר ובלבד שלא יהא בין ארכו ורחבו יותר מבית סאתים ולר"'ש בעינן מרובע כדאמר בהדיא בית סאתים על בית סאתים דהוי שבעים אמה ושיריים על שבעים אמה ושיריים כדאמר בהאי פירקין (ד' כג.) קטין קצר ברחבו:

“Comprida e estreita” — cem amot por cinquenta, que são um beit sata’im, como o pátio do Mishkan: segundo Rabi Yehuda, embora não seja quadrada, é permitida, contanto que não haja, entre o seu comprimento e a sua largura, isto é, na área que formam, mais de um beit sata’im; e, segundo Rabi Shimon, exigimos que seja quadrada, como ele diz explicitamente: beit sata’im por beit sata’im, que são setenta amot e uma fração por setenta amot e uma fração, como se diz neste perek (23a). Katin significa estreito na sua largura.

Nota

O pátio do Mishkan media cem amot de comprimento por cinquenta de largura (Shemot 27:18), isto é, cinco mil amot quadradas, a área de um beit sata’im; o quadrado de mesma área tem cerca de setenta amot e uma fração de lado. A referência entre parênteses no Rashi, (ד׳ כג.), é marca editorial do Sefaria e foi traduzida como (23a): a discussão sobre a área cujo comprimento excede a largura começa na mishná de Eruvin 23a, e a expressão “comprida e estreita” reaparece em Eruvin 23b.

798Todo espaço cujo uso é para moradia
A guemará
כְּלָל אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן אֶלְעָזָר: כׇּל אֲוִיר שֶׁתַּשְׁמִישׁוֹ לְדִירָה, כְּגוֹן דִּיר וְסַהַר מוּקְצֶה וְחָצֵר, אֲפִילּוּ בֵּית חֲמֵשֶׁת כּוֹרִים וּבֵית עֲשֶׂרֶת כּוֹרִים — מוּתָּר.

A guemará acrescenta: Rabi Shimon ben Elazar disse uma regra: Todo espaço cujo uso é para moradia, como um dir, um sahar, um muktze e um pátio, mesmo com área de cinco beit kor e de dez beit kor, é permitido carregar nele.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “kol avir”
כל אויר - אף על פי שאינו מקורה אם תשמישו לדירת אדם לכניסה וליציאה תמיד:

“Todo espaço” — ainda que não seja coberto, se o seu uso é para a moradia do homem, para entrar e sair dele constantemente.

799Toda moradia cujo uso é para o espaço
A guemará
וְכׇל דִּירָה שֶׁתַּשְׁמִישָׁהּ לַאֲוִיר, כְּגוֹן בּוּרְגָּנִין שֶׁבַּשָּׂדוֹת, בֵּית סָאתַיִם — מוּתָּר, יֶתֶר מִבֵּית סָאתַיִם — אָסוּר.

E toda moradia cujo uso é para o espaço de fora, como os burganin (cabanas de guarda) que há nos campos: se tiver beit sata’im, é permitido carregar nela; mais de beit sata’im, é proibido.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “vechol dirá”
וכל דירה - שהיא מכוסה בגג והיא עשויה לשמירת אויר שחוצה לה:

“E toda moradia” — que é coberta com teto e é feita para a guarda do espaço que está fora dela, como a cabana do guarda do campo.

A Mishná: o caminho do domínio público entre os passin · מַתְנִיתִין

800Desviar o caminho para os lados
Mishná
מַתְנִי׳ רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: אִם הָיָה דֶּרֶךְ רְשׁוּת הָרַבִּים מַפְסַקְתָּן — יְסַלְּקֶנָּה לִצְדָדִין. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים: אֵינוֹ צָרִיךְ.

MISHNÁ. Rabi Yehuda diz: Se o caminho do domínio público os interrompe, passando entre os passin do poço, a pessoa deve desviá-lo para os lados, para que o público passe por fora do cercado. E os Sábios dizem: Não é necessário, pois a divisória vale ainda que muitos passem por ela.

Nota — nova Mishná

Encerrada a guemará sobre a primeira mishná do perek, inicia-se aqui a segunda mishná do Perek Bet (Osin Passin), que corresponde à primeira parte de Mishná Eruvin 2:4 na numeração das edições avulsas da Mishná; a parte seguinte da mesma mishná avulsa abre outra mishná em Eruvin 22b. Ela traz a disputa entre Rabi Yehuda e os Sábios sobre o caminho do domínio público que passa entre os passin dos poços: segundo Rabi Yehuda, é preciso desviá-lo para os lados; segundo os Sábios, não é necessário.

A força das divisórias · כּוֹחָן שֶׁל מְחִיצּוֹת

801Aqui te deram a conhecer
A guemará
גְּמָ׳ רַבִּי יוֹחָנָן וְרַבִּי אֶלְעָזָר דְּאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ: כָּאן הוֹדִיעֲךָ כּוֹחָן שֶׁל מְחִיצּוֹת.

GUEMARÁ. Rabi Yochanan e Rabi Elazar disseram ambos: Aqui os Sábios te deram a conhecer a força das divisórias, que não se anulam ainda que o caminho do domínio público passe entre elas.

802Jerusalém e as suas portas
A guemará
כָּאן, וּסְבִירָא לֵיהּ? וְהָאָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: יְרוּשָׁלַיִם, אִילְמָלֵא דַּלְתוֹתֶיהָ נִנְעָלוֹת בַּלַּיְלָה, חַיָּיבִין עָלֶיהָ מִשּׁוּם רְשׁוּת הָרַבִּים.

A guemará pergunta: Aqui é que os Sábios o disseram, e ele, Rabi Yochanan, concorda com isso? Mas eis que Rabba bar bar Chana disse que Rabi Yochanan disse: Jerusalém, se as suas portas não fossem trancadas à noite, seriam culpados por carregar nela no Shabat, por ser domínio público! Vê-se que, segundo ele, a passagem de muitos anula as divisórias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “chayavin aleha”
גמ' חייבין עליה - אלמא אתו רבים ומבטלי מחיצה:

GUEMARÁ. “Seriam culpados por ela” — logo, os muitos vêm e anulam a divisória.

803Aqui, mas ele não concorda
A guemará
אֶלָּא: כָּאן — וְלָא סְבִירָא לֵיהּ.

Antes, assim se deve entender as suas palavras: Aqui os Sábios o disseram, mas ele não concorda com isso.

804Rabi Yehuda contra Rabi Yehuda
A guemará
וּרְמִי דְּרַבִּי יְהוּדָה אַדְּרַבִּי יְהוּדָה. וּרְמִי דְּרַבָּנַן אַדְּרַבָּנַן.

E contrapôs-se uma palavra de Rabi Yehuda a outra palavra de Rabi Yehuda, e contrapôs-se uma palavra dos Rabanan a outra palavra dos Rabanan.

805As duas casas dos dois lados do domínio público
A guemará
דְּתַנְיָא, יָתֵר עַל כֵּן אָמַר רַבִּי יְהוּדָה: מִי שֶׁהָיוּ לוֹ שְׁנֵי בָתִּים מִשְּׁנֵי צִידֵּי רְשׁוּת הָרַבִּים, עוֹשֶׂה לוֹ לֶחִי מִכָּאן וְלֶחִי מִכָּאן, אוֹ קוֹרָה מִכָּאן וְקוֹרָה מִכָּאן, וְנוֹשֵׂא וְנוֹתֵן בָּאֶמְצַע. אָמְרוּ לוֹ: אֵין מְעָרְבִין רְשׁוּת הָרַבִּים בְּכָךְ.

Pois foi ensinado numa baraita: Mais do que isso disse Rabi Yehuda: Quem tinha duas casas dos dois lados do domínio público e quer carregar de uma para a outra no Shabat faz para si um lechi (poste lateral) daqui e um lechi dali, ou uma korá (viga transversal) daqui e uma korá dali, e carrega e põe objetos no meio, pois as duas novas divisórias fazem do espaço entre as casas um domínio privado. Disseram-lhe: Não se faz eruv do domínio público desse modo, só com lechi ou korá, quando muitos continuam a passar pelo meio.

806Uma dificuldade e outra dificuldade
A guemará
קַשְׁיָא דְּרַבִּי יְהוּדָה אַדְּרַבִּי יְהוּדָה, קַשְׁיָא דְּרַבָּנַן אַדְּרַבָּנַן.

Há, portanto, uma dificuldade entre a palavra de Rabi Yehuda e a de Rabi Yehuda, e uma dificuldade entre a palavra dos Rabanan e a dos Rabanan: no poço, Rabi Yehuda exige desviar o caminho, e nas duas casas permite carregar com o caminho no meio; os Rabanan, ao contrário, permitem no poço e proíbem nas casas.

807Duas divisórias apropriadas
A guemará
דְּרַבִּי יְהוּדָה אַדְּרַבִּי יְהוּדָה לָא קַשְׁיָא: הָתָם — דְּאִיכָּא שְׁתֵּי מְחִיצּוֹת מְעַלְּיָיתָא. הָכָא — לֵיכָּא שְׁתֵּי מְחִיצּוֹת מְעַלְּיָיתָא,

A contradição entre a palavra de Rabi Yehuda e a de Rabi Yehuda não é dificuldade: ali, nas duas casas, há duas divisórias apropriadas, as paredes das casas; aqui, nos passin do poço, não há duas divisórias apropriadas, pois os passin não são divisórias verdadeiras.

808O nome de quatro divisórias
A guemará
דְּרַבָּנַן אַדְּרַבָּנַן [נָמֵי] לָא קַשְׁיָא: הָכָא — אִיכָּא שֵׁם אַרְבַּע מְחִיצּוֹת, הָתָם — לֵיכָּא שֵׁם אַרְבַּע מְחִיצּוֹת.

A contradição entre a palavra dos Rabanan e a dos Rabanan também não é dificuldade: aqui, nos passin, há o nome de quatro divisórias, pois há de cada lado ao menos duas amot de divisória; ali, nas duas casas, não há o nome de quatro divisórias.

Rashi · רַשִּׁי
Sobre “hacha ika shem arba mechitzot”
הכא איכא שם ד' מחיצות - שיש שתי אמות היכר היקף דופן לכל רוח:

“Aqui há o nome de quatro divisórias” — pois há duas amot como sinal de cercado de parede para cada lado do poço.

Nota

No hebraico da guemará, a palavra נָמֵי (“também”) aparece entre colchetes: é marca editorial da edição do Sefaria, que a acrescenta ao texto; a tradução a mantém.

A Terra de Israel e o domínio público · אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל

809Qual é a razão?
A guemará
אָמַר רַבִּי יִצְחָק בַּר יוֹסֵף אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל אֵין חַיָּיבִין עָלֶיהָ מִשּׁוּם רְשׁוּת הָרַבִּים. יָתֵיב רַב דִּימִי וְקָאֲמַר לֵיהּ לְהָא שְׁמַעְתָּא. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַב דִּימִי: מַאי טַעְמָא?

Disse Rabi Yitzchak bar Yossef que Rabi Yochanan disse: Na Terra de Israel não se é culpado por carregar nela no Shabat por ser domínio público. Rav Dimi estava sentado e dizia esta lei. Disse-lhe Abaye, a Rav Dimi: Qual é a razão desta lei?

O daf termina aqui: a guemará conclui a exposição sobre “negras como o corvo”, com as palavras de Rabba e de Rava e o caso de Rav Adda bar Matna; expõe “e retribui aos que O odeiam, em face”, “hoje, para fazê-los” e o plural de erech apayim; examina se o beit sata’im de Rabi Yehuda se refere à cisterna com os passin ou sem eles, pela baraita de Rabi Yehuda, dos Sábios e de Rabi Shimon ben Elazar; traz a segunda mishná do perek, sobre o caminho do domínio público entre os passin, e a força das divisórias segundo Rabi Yochanan e Rabi Elazar, confrontada com Jerusalém e as suas portas e com a baraita das duas casas; e começa o ensino de Rabi Yochanan de que na Terra de Israel não se é culpado por domínio público, com a pergunta de Abaye a Rav Dimi. A guemará prossegue em Eruvin 22b.