Nona halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que se pode cercar o lugar com três chavalim, cordas, uma acima da outra, desde que entre uma corda e a seguinte não haja três tefachim, e que as cordas, com a sua espessura, somem mais de um tefach, para que o todo chegue a dez tefachim. A guemará abre com Rabi Zeira, que limita a regra a dez tefachim ou mais, e com a baraita da parede erguida do chão menos de três tefachim. Em seguida trata da peá, a cerca simbólica feita de quatro canas fincadas nos cantos da vinha e de um junco amarrado por cima: Rabi Shimon ben Lakish em nome de Rabi Yudá ben Chananiá, a regra de Rabi Yochanan de que a divisória do Shabat e a de kilayim são iguais, o caso de Rabi Yehoshua ben Korchá com Rabi Yochanan ben Nuri e a prova de Rabi Chagai a partir desta Mishná. Vêm depois a pergunta de Rav Hoshayá sobre a peá posta por cima ou do lado, a altura da peá comparada com a da korá, as tetrapuliyot das vinhas, a peá na sucá, a advertência de Rabi Abahu e a pergunta sobre o tana que ensina que a peá salva. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 16b.
Mishná: Cerca-se o lugar com três chavalim (cordas), uma acima da outra, e esta acima daquela, desde que não haja entre uma corda e a sua companheira três tefachim (palmos). A medida das cordas e a sua espessura devem ser mais de um tefach (palmo), para que o todo seja de dez tefachim.
“Cerca-se com três chavalim” etc. Disse Rabi Zeira: não disseram isto senão em dez e em mais de dez tefachim; mas menos que isso, não. E assim foi ensinado: se alguém trouxe uma dofen (parede lateral da sucá) de sete tefachim e a ergueu do chão menos de três tefachim, é permitido. Lá tu dizes: tudo o que é menos de três tefachim é como fechado; e aqui tu dizes: tudo o que é menos de três é como fechado. Se queres objetar, objeta assim: se alguém trouxe uma dofen de quatro tefachim e um pouco, e a ergueu do chão dois tefachim menos um pouco, isso viria conforme o que disse Rabi Yochanan: o omed (a parte em pé) e o chalal (o vão) se somam em quatro tefachim, desde que o omed seja maior que o chalal.
Rabi Shimon ben Lakish em nome de Rabi Yudá ben Chananiá: se alguém fincou quatro kanim (canas) nos quatro cantos da vinha e amarrou gami (junco) por cima, salva por causa da peá (cerca simbólica). Disse Rabi Yochanan: como a mechitzá (divisória) do Shabat, assim é a mechitzá de kilayim (mistura proibida de espécies).
Disse Rabi Yochanan: houve um caso em que Rabi Yehoshua ben Korchá foi até Rabi Yochanan ben Nuri, em Nagnigad, e este lhe mostrou um campo, e o campo era chamado Beit Chaverata. E havia ali brechas de mais de dez amot, e ele tomava paus e tapava, dukranin (estacas de duas pontas) e tapava, até que as reduziu a menos de dez amot. Disse: como esta, assim é a mechitzá do Shabat.
Disse Rabi Zeira: Rabi Shimon ben Lakish concorda, quanto ao Shabat, que a peá não salva uma abertura de mais de dez amot. Disse Rabi Chagai: a Mishná diz assim: “Cerca-se com três chavalim, uma acima da outra.” Se dizes que a peá salva uma abertura de mais de dez, do mesmo modo bastaria uma só corda em vez de três.
Rabi Yona disse: Rav Hoshayá perguntou: esta peá, como foi dita? Por cima ou do lado? Se dizes que vale por cima, tanto mais do lado. Se dizes que vale do lado, então por cima, não. Se dizes por cima, disse bem Rabi Chagai; se dizes do lado, Rabi Chagai não disse nada. Seja como for: se é por cima, eis que a Mishná fala por cima; se é do lado, eis que fala do lado. Os rabinos de Cesareia disseram em nome de Rabi Yirmeyá: explica-se o caso quando as canas estão feitas como uma espécie de dikran (estaca de duas pontas).
Rabi Zeira e Rabi Avdimi de Cheifa disseram em nome de Rabi Shimon ben Lakish: em altura, a peá vale mesmo até cem amot (côvados). Disse Rabi Yudan: isto que dizes é quanto a kilayim; mas quanto ao Shabat, a peá não há de ser mais alta que a korá (viga transversal). Disse Rabi Yossi: disse Rabi: a mesma regra é para kilayim, é para o Shabat. Segundo a opinião de Rabi, que diferença há entre a korá e a peá? A korá salva o beco por um lado; a peá não salva o lugar até que esteja cercada pelos seus quatro lados. E isto vem conforme o que disse Rabi Zeira em nome de Rav Hamnuna: a peá não salva até que esteja cercada pelos seus quatro lados.
Disse Rabi Ba bar Mamal: as tetrapuliyot (pavilhões de quatro colunas) que há nas vinhas, é proibido transportar no Shabat debaixo delas, porque são o fim de um teto, e o fim de um teto não salva o lugar por causa da peá. Disse Rabi Pinchas: veio um caso diante de Rabi Yirmeyá, a respeito de quatro colunas e, sobre elas, quatro patztuliyot (arquitraves, vigas assentadas sobre as colunas), e ele permitiu transportar debaixo delas por causa da peá.
Rabi Bun e Rabi Bun perguntaram diante de Rabi Zeira: a peá, o que é quanto a salvar na sucá (a cabana da festa de Sucot)? Disse-lhes: a peá salva na sucá. O fim do sechach (a cobertura vegetal da sucá), o que é quanto a salvar na sucá? Disse-lhes: o fim do sechach não salva na sucá. Que diferença há entre este caso e aquele? Este é feito para cá, e aquele é feito para cá. Disse Rabi Abahu: todas estas palavras são para efeito de discussão; mas para instruir na prática, é proibido. Para instruir: se, quanto à sucá, que é leve, tu dizes que é proibido, quanto ao Shabat, que é grave, não tanto mais será proibido?
Rabi Bun bar Chiya perguntou diante de Rabi Zeira: quem ensinou que a peá salva? Não foi Rabi Yochanan ben Nuri? Disse-lhe: este a ensinou.
Esta é a nona halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná do Yerushalmi corresponde à Mishná Eruvin 1:9 da Mishná avulsa, com algumas diferenças: o Yerushalmi escreve זוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ וְזוֹ לְמַעְלָה מִזּוֹ, no feminino, onde a avulsa tem זֶה לְמַעְלָה מִזֶּה, וְזֶה לְמַעְלָה מִזֶּה; לַחֲבֵירוֹ, com yud, onde a avulsa tem לַחֲבֵרוֹ; שִׁיעוּר e וְעוֹבְיָין onde a avulsa tem שִׁעוּר e וְעָבְיָן; יוֹתֵר onde a avulsa tem יָתֵר; e שֶׁיְהֵא, sem preposição, onde a avulsa tem כְּדֵי שֶׁיְּהֵא. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 16b e lê יְהוּ, no plural, em lugar de יְהֵא, e, como a avulsa, יָתֵר e כְּדֵי שֶׁיְּהֵא. A halachá ocupa seis segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros cinco é aqui uma seção, de 01 a 05, dividida em pares de hebraico e português: um na seção 01, três na seção 02, um nas seções 03 e 04, e três na seção 05.
As três cordas formam uma divisória feita só de elementos horizontais: entre uma corda e outra o vão é menor que três tefachim, e pela regra do lavud (junção de um vão menor que três palmos) o conjunto conta como fechado. Como três vãos de quase três tefachim somam quase nove, as cordas, com a sua espessura, precisam somar mais de um tefach para que a divisória chegue a dez. A seção 01 aplica a mesma regra ao vão entre o chão e a parede: a parede de sete tefachim erguida menos de três do chão conta como se tocasse o chão; o caso da parede de quatro tefachim e um pouco, erguida dois tefachim menos um pouco, é explicado pela regra de Rabi Yochanan de que a parte em pé e o vão se somam para formar quatro tefachim, quando a parte em pé é maior. As seções 02 a 05 tratam da peá, palavra que, neste contexto e em kilayim, não designa o canto do campo deixado aos pobres, mas o junco ou o cordão estendido de poste a poste ao redor da vinha ou do campo, como uma cerca simbólica. Rabi Zeira restringe a peá, quanto ao Shabat, a aberturas de até dez amot; Rabi Chagai prova da Mishná, pois, se um só cordão no alto bastasse, não seriam necessárias três cordas. A pergunta de Rav Hoshayá é se a peá vale quando o junco passa por cima das canas ou quando passa do lado, entre elas; a resposta dos rabinos de Cesareia trata das canas feitas como uma estaca de duas pontas, em que o junco fica apoiado no alto. A seção 04 distingue a peá da korá: esta corrige o beco de um só lado, a entrada, enquanto a peá só vale se cerca o lugar pelos quatro lados. A seção 05 nega a condição de peá ao fim de um teto, que não foi feito para cercar, mas Rabi Yirmeyá a reconhece nas quatro colunas com quatro vigas; Rabi Abahu restringe tudo isso ao estudo, e Rabi Zeira atribui a opinião de que a peá salva a Rabi Yochanan ben Nuri.
Referências conferidas no Sefaria. Em Eruvin 16b, o Bavli traz esta Mishná e a dos caniços, e, na guemará, a palavra de Rav Hamnuna em nome de Rav de que a divisória feita só de urdidura, com a parte em pé maior que a brecha, conta como em pé, e a dúvida de Rav Hamnuna sobre a divisória feita só de trama; Abaye a resolve pela cláusula da Mishná sobre a espessura das cordas, de mais de um tefach, e a guemará traz em seguida o caso da esteira de sete tefachim e um pouco, com um vão de três tefachim, posta a menos de três do chão, e a resposta de Rav Ashi sobre a mechitzá teluyá (divisória suspensa). Em Eruvin 11a, Ravin bar Rav Adda conta, em nome de Rabi Yitzchak, o caso de quem fincou quatro estacas nos quatro cantos do campo e estendeu sobre elas um ramo de videira, o que os sábios permitiram quanto a kilayim; Rabi Shimon ben Lakish diz que o mesmo vale para o Shabat, e Rabi Yochanan diz que não. Ali mesmo, entre 11a e 11b, Rabi Shimon ben Lakish diz, em nome de Rabi Yehudá beRabi Chaniná, que a peá vale quanto a kilayim, mas não quanto ao Shabat, e Rabi Yochanan responde que, assim como não vale para o Shabat, não vale para kilayim; a guemará explica que uma palavra é de Rabi Shimon ben Lakish e a outra, do seu mestre. Em 11b, Rabi Yochanan conta que Rabi Yehoshua foi estudar com Rabi Yochanan ben Nuri, estendeu um ramo de árvore em árvore e ouviu dele que, até dez amot, é permitido semear, e mais que dez, proibido; ali está também a baraita das canas bifurcadas sobre as quais se fez uma peá por cima, que valem mesmo com mais de dez amot, a palavra de Rav Chisda de que a tzurat petach (forma de porta: dois postes e uma viga sobre eles) feita do lado não vale nada, e a baraita de que a tzurat petach é uma cana de cada lado e uma cana por cima. Na Tosefta Eruvin, ed. Lieberman, 2:1 traz a caravana cercada com camelos, avitin, selas, caniços e outras coisas, e mesmo três cordas uma acima da outra; e 2:2 permite fincar estacas de dez tefachim e cercá-las com três cordas cuja espessura passe de um tefach, ou com quatro mesmo sem essa espessura, desde que nenhuma brecha passe de dez amot. As seções 02 a 05 também estão no Yerushalmi Kilayim 4:2, segmentos 3 a 8 no Sefaria, e no Yerushalmi Sucá 1:1, segmentos 11 a 14. A Mishná Kilayim 6 foi consultada, mas não traz as tetrapuliyot, e por isso não é citada aqui.
Leituras incertas. Na seção 01, a frase de Rabi Zeira, “não disseram senão em dez e em mais de dez”, não diz a que se refere, e foi traduzida sem completar; “e assim foi ensinado” traduz וְתַנֵּי כֵן, que Guggenheimer lê como pergunta; o hebraico traz (אַרְבָּעָה) [שִׁבְעָה], o primeiro do escriba e o segundo do corretor; traduziu-se “quatro”, a leitura do escriba, que Guggenheimer considera a correta; e יָיבֹא, “viria”, pode ser entendido como afirmação ou como pergunta. Na seção 02, Nagnigad translitera לְנגנגד, sem vocalização no texto, e Beit Chaverata translitera בֵּית חֲבֵירָתָה; não fica claro quem tomava os paus e tapava as brechas; “salva” traduz מַצִּיל, isto é, faz que o lugar conte como cercado. Na seção 03, “como foi dita” traduz אֲמָה אִיתְאֲמַר, forma rara, onde os paralelos têm מַה אַתְּ אָמְרָת, “o que dizes”; “seja como for” traduz מַה נַפְשָׁךְ. Na seção 04, o hebraico diz אָמַר רִבִּי יוֹסֵה אָמַר רִבִּי, “disse Rabi Yossi: disse Rabi”, e depois עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי, “segundo a opinião de Rabi”, sem nome; os dois foram traduzidos como estão. Na seção 05, “este é feito para cá, e aquele é feito para cá” traduz זֶה נַעֲשֶׂה לְכָאן. וְזֶה נַעֲשֶׂה לְכָאן, que parece dizer que cada um é feito para a sua função; “para efeito de discussão” traduz לְעִנְיַין מֵיסַב וּמִיתַּן; e “este a ensinou” traduz אַדָּא תַנָּהּ.
Diferenças em relação aos paralelos. Na seção 02, Kilayim lê רִבִּי יוּדָה בֶּן חֲנִינָה, Sucá lê רִבִּי יוֹסֵי בֶּן חֲנִינָא, e o Bavli, רַבִּי יְהוּדָה בְּרַבִּי חֲנִינָא; aqui o hebraico diz חֲנַנְיָה, e por isso se escreve Rabi Yudá ben Chananiá. O lugar é לְנגנינר em Kilayim e לִנגינר em Sucá, e o campo é בֵית רָתָה em Sucá. Onde aqui se lê כְּמוֹ כֵן חֶבֶל אֶחָד, os paralelos têm דַּיּוֹ חֶבֶל אֶחָד, “basta-lhe uma só corda”. Na seção 03, Kilayim tem רִבִּי יֹאשִׁיָּה onde aqui e em Sucá está רַב הוֹשַׁעְיָה; a estaca é דּוּקְרָן em Kilayim e דִּקְרִים em Sucá, e a frase “seja como for” falta em Sucá. Na seção 04, Kilayim tem אֶבוּדָמָא e Sucá אֶבְדַּיְמָא; Kilayim diz que a peá não seja “maior” que a korá, גְדוֹלָה, onde aqui e em Sucá se lê גְבוֹהָה, “mais alta”; e os paralelos dizem apenas “disse Rabi Yossi” e “segundo a opinião de Rabi Yossi”. Na seção 05, os paralelos têm תַּחְתֵּיהֶן, “debaixo delas”, depois de “permitiu transportar”, palavra que aqui falta e foi suprida em itálico; têm פִּיסְטֻלִיּוֹת onde aqui está פַּצְטֻלִיּוֹת; Kilayim tem רִבִּי בּוּן וְרַבָּנִין, “Rabi Bun e os rabinos”, onde aqui e em Sucá está “Rabi Bun e Rabi Bun”; os dois paralelos dizem זֶה נַעֲשֶׂה לְכָךְ וְזֶה אֵינוֹ נַעֲשֶׂה לְכָךְ, “este é feito para isso, e aquele não é feito para isso”; têm מַשָּׂא וּמַתָּן onde aqui está מֵיסַב וּמִיתַּן; e אַדְהִי תַּנָּא, “este é o tana”, onde aqui está אַדָּא תַנָּהּ.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Guggenheimer escreve “Judah ben Ḥaninah”, conforme os paralelos, onde o hebraico diz חֲנַנְיָה; traduz a pergunta de Rav Hoshayá pelos paralelos; na seção 04, risca “em nome de Rabi” e acrescenta “Yose” depois de “Rabi”, e traduz גְבוֹהָה como “melhor”; na seção 05, acrescenta “não” em “aquele não é feito para isso”, e escreve “Abba bar Mamal” e “Abun” onde o hebraico diz רִבִּי בָּא בַּר מָמָל e רִבִּי בּוּן. Aqui se manteve o que diz o hebraico. Nomes: Rabi Zeira traduz זְעִירָא e זְעִירָה; Rabi Shimon ben Lakish traduz שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ; Rabi Yona traduz יוֹנָה; Rav Hoshayá traduz רַב הוֹשַׁעְיָה; Rabi Avdimi de Cheifa traduz אֶבְדַּיְמִי דְחֵיפָה; Rabi Yossi traduz יוֹסֵה; Rabi Chagai traduz חַגַּיי; Rabi Yirmeyá traduz יִרְמְיָה; Rabi Pinchas traduz פִּינְחָס; Rabi Bun bar Chiya traduz בּוּן בַּר חִיָיא.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e os marcadores de folha da edição de Vilna 11a, na seção 02, antes de מִשּׁוּם פֵּיאָה, e 11b, na seção 04, antes de מֵאַרְבַּע רוּחוֹתֶיהָ. O texto do Sefaria não tem marcadores numéricos nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. Grafias anômalas foram mantidas no hebraico, como לְנגנגד, sem vocalização, na seção 02, מִּלְּמַעֲלָן, na seção 03, e כִלאַיִם, na seção 04.