Oitava halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que a shayará, a caravana, que acampou num vale e se cercou com os kelei behemá, os arreios e as selas dos animais, pode transportar no Shabat dentro do cercado, desde que a cerca tenha dez tefachim de altura e as brechas não sejam maiores que a parte construída; a brecha de até dez amot é como uma entrada, e a maior que isso proíbe. A guemará pergunta para quem esta Mishná foi necessária e responde, em nome de Rav Chisdai: para Rabi Yossi beRabi Yudá, que exige divisórias de urdidura e de trama e aqui concorda. Traz a baraita das selas, das almofadas de sela e dos camelos, com a exigência de que a parte em pé fique diante da brecha. Em seguida, as medidas da divisória quanto a kilayim e quanto ao Shabat, a objeção de Rabi Yochanan à faixa de três a quatro tefachim, a pergunta de Rabi Mana sobre a cerca de caniços e a regra de Rav. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 15b.
Mishná: Uma shayará (caravana) que acampou na bik’á (vale), e a cercaram com kelei behemá (arreios, selas dos animais): transporta-se dentro dela, desde que haja uma cerca alta de dez tefachim (palmos), e que as pirtzot (brechas) não sejam maiores que a construção. Toda pirtzá que é como de dez amot (côvados) é permitida, porque é como uma entrada; mais que isso, é proibido.
“Uma shayará que acampou no vale” etc. Rabi Achá disse em nome de Rav Chisdai: para quem foi necessária esta Mishná? Para Rabi Yossi beRabi Yudá, pois Rabi Yossi beRabi Yudá diz: “Toda mechitzá (divisória) que não é de shti (urdidura, isto é, de elementos verticais) e de erev (trama, isto é, de elementos horizontais) não é mechitzá”, palavras de Rabi Yossi beRabi Yudá. E ele concorda aqui que se transporta dentro dela.
E assim foi ensinado: com tudo se fazem mechitzot (divisórias), mesmo ukafin (selas), mesmo avitin (almofadas de sela), mesmo camelos, desde que não haja entre uma sela e outra sela o espaço de uma sela inteira, entre um avit e outro avit o espaço de um avit inteiro, entre um camelo e outro camelo como o espaço de um camelo inteiro; e desde que não esteja omed (a parte em pé) diante de omed e parutz (a parte arrombada) diante de parutz, mas omed diante de parutz e parutz diante de omed.
Resulta que dizes: quanto a kilayim (mistura proibida de espécies), tudo o que é menos de três tefachim é como fechado. De três até quatro tefachim, se o omed é maior que o parutz, é permitido semear ao lado, e se o parutz é maior que o omed, é proibido. De quatro tefachim até dez amot, se o omed é maior que o parutz, é permitido; se o parutz é maior que o omed, diante do omed é permitido semear, diante do parutz é proibido. Mais de dez amot: ainda que o omed seja maior que o parutz, diante do omed é permitido, diante do parutz é proibido.
Mas quanto ao Shabat, tudo o que é menos de três tefachim é como fechado. De três até quatro, e de quatro tefachim até dez amot, se o omed é maior que o parutz, é permitido transportar; se o parutz é maior que o omed, é proibido. Mais de dez amot: ainda que o omed seja maior que o parutz, é proibido.
Rabi Chananiá, Rabi Yudá ben Pazi, disseram em nome de Rabi Yochanan: não há aqui “de três até quatro”: há aqui uma pirtzá de três tefachim, mas não há aqui um lugar de quatro tefachim. Objetou Rabi Mana: e não ensinamos na Mishná: “Cerca-se com caniço”? E um caniço tem lugar de quatro? Disse-lhe: não me objetes com o caso de menos de três, pois tudo o que é menos de três é como fechado. Rabi Yossi beRabi Bun disse em nome de Rav: de qualquer modo, uma vez que o omed é maior que o parutz, é permitido.
Esta é a oitava halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná do Yerushalmi corresponde à Mishná Eruvin 1:8 da Mishná avulsa, com algumas diferenças: o Yerushalmi escreve שְׁיָירָא onde a avulsa escreve שַׁיָּרָא; שֶׁחָנָת onde a avulsa tem שֶׁחָנְתָה; בַבִּקְעָה, com artigo, onde a avulsa tem בְּבִקְעָה; כְלֵי בְהֵמָה, sem preposição, onde a avulsa tem בִכְלֵי בְהֵמָה; יְהוּ onde a avulsa tem יִהְיוּ; יְתֵירוֹת e בִּנְיָין, com yud, onde a avulsa tem יְתֵרוֹת e בִּנְיָן; פִּירְצָה onde a avulsa tem פִּרְצָה; כַפֶּתַח, com artigo, onde a avulsa tem כְפֶתַח; e יוֹתֵר מִיכָּן onde a avulsa tem יָתֵר מִכָּאן. No Bavli, a Mishná está em Eruvin 15b e lê, como o Yerushalmi, כְּלֵי בְהֵמָה, sem preposição. A halachá ocupa quatro segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros três é aqui uma seção, de 01 a 03, dividida em pares de hebraico e português: dois na seção 01, um na seção 02 e dois na seção 03.
A pergunta “para quem foi necessária” remete à Mishná 1:10 do Yerushalmi, que corresponde à Mishná Eruvin 1:10 da avulsa, em que Rabi Yossi beRabi Yudá diz que toda divisória que não é de urdidura e de trama não é divisória. Os arreios postos em fila formam uma divisória de uma só direção, e ainda assim, segundo Rav Chisdai, Rabi Yossi beRabi Yudá concorda que a caravana pode transportar dentro dela. A baraita que se segue mede o espaço entre as peças pelo tamanho da própria peça, e acrescenta que as partes em pé e as brechas devem alternar-se de um lado e do outro, de modo que não fique uma passagem aberta de lado a lado. As seções 02 e 03, que também estão no Yerushalmi Kilayim 4:2 e no Yerushalmi Sucá 1:1, resumem as medidas da divisória: o vão menor que três tefachim conta como fechado, a regra que em outras halachot se chama lavud (junção de um vão menor que três palmos); quanto a kilayim, em que a cerca separa a vinha do campo semeado, mesmo onde a brecha prevalece permite-se semear diante da parte em pé; quanto ao Shabat, a brecha maior que dez amot proíbe mesmo quando a parte em pé é maior. Rabi Yochanan elimina a faixa de três a quatro, porque um pedaço de cerca menor que quatro tefachim não é “lugar”, e assim a cerca seria toda brecha; Rabi Mana objeta com a cerca de caniços, que não têm largura de quatro, e a resposta é que entre caniço e caniço não há três tefachim, e o conjunto conta como fechado. Rav, por fim, permite em qualquer caso, desde que a soma das partes em pé seja maior que a das brechas.
Referências conferidas no Sefaria. Em Eruvin 15b, o Bavli traz a Mishná e a discussão de Rav Pappa e de Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, sobre o parutz ke’omed (a brecha igual à parte em pé), e começa a baraita da caravana que se cercou com camelos, selas, avitin, feixes, caniços e talos, desde que não haja entre camelo e camelo o espaço de um camelo, entre sela e sela o de uma sela e entre avit e avit o de um avit; em 16a, traz a baraita “resulta que dizes: três medidas nas divisórias”, menos de três, de três a quatro e de quatro a dez amot, com a regra de que o vão menor que três é para que o cabrito não passe de cabeça por ele. Em 16b, o Bavli traz a Mishná dos caniços e a de Rabi Yossi beRabi Yehudá sobre a urdidura e a trama, a palavra de Rabi Yehudá de que, em todas as divisórias do Shabat, não permitiram ao indivíduo mais que beit sata’im (área de semeadura de duas seás), e a resposta de Rav Nachman, ou de Rav Bivi bar Abaye, de que a regra só foi necessária para dar à caravana todo o espaço de que precisa; ali também a baraita em que Rabi Yossi beRabi Yehudá dá ao indivíduo e a dois beit sata’im e a três, que já são caravana, beit shesh (área de semeadura de seis seás). A Mishná Kilayim 4:4 ensina que a cerca de caniços cujos vãos não chegam a três tefachim é como divisória; que a cerca arrombada até dez amot é como uma entrada e, além disso, é proibido diante da brecha; e que, havendo muitas brechas, se a parte em pé é maior é permitido, e se a brecha é maior é proibido diante da brecha. Na Tosefta Eruvin, ed. Lieberman, a baraita da caravana está em 2:1, e não no capítulo 1: camelos, avitin, selas e caniços, entre outras coisas, e mesmo três cordas uma acima da outra, com as mesmas medidas do camelo, do avit e da sela e com três tefachim entre caniço e caniço; e em 2:5, Rabi Yehudá diz que não se amplia para o indivíduo mais que beit sata’im. Na Tosefta Kilayim, ed. Lieberman, 4:6 traz as três medidas da divisória, e 4:7 a opinião de Rabi Yossi beRabi Yehudá de que só é divisória a feita de urdidura e de trama.
Leituras incertas. Na seção 01, “para quem foi necessária esta Mishná” traduz לְמִי נִצְרְכָה, cujo sujeito o hebraico não nomeia; “e ele concorda aqui” traduz וּמוֹדֶה הוּא הָכָא, e o que ele aceita fica implícito; “almofadas de sela” traduz עֲבִיטִין, que Guggenheimer entende como tinas. Na seção 02, as unidades “tefachim” e “amot” completam os números, que o hebraico dá sem unidade; a leitura de quatro tefachim até dez amot segue a baraita do Bavli e da Tosefta. Na seção 03, “e de quatro até dez” traduz מִשְּׁלֹשָׁה וְעַד אַרְבָּעָה מֵאַרְבָּעָה וְעַד עֶשֶׂר, sem conjunção; Rabi Chananiá e Rabi Yudá ben Pazi aparecem lado a lado, sem que o hebraico diga se ambos falam ou se um transmite em nome do outro; “lugar” traduz מָקוֹם, a largura mínima de quatro tefachim para que um pedaço de cerca conte; e quem responde a Rabi Mana com “disse-lhe” não é nomeado.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. Na seção 01, o hebraico diz רִבִּי חַסְדַּיי, e Guggenheimer corrige para Rav Chisda, a partir de um fragmento da Genizá; aqui se escreve Rav Chisdai, como na halachá 1:6, onde o mesmo nome aparece como רַב חִסְדַּיי. As palavras entre parênteses no hebraico, דִּבְרֵי רִבִּי יוֹסֵה בֵּירִבִּי יוּדָה, foram riscadas pelo corretor do manuscrito de Leiden, mas estão no fragmento da Genizá, e foram traduzidas. Guggenheimer traduz בִּקְעָה como lugar de acesso difícil, segundo a sua leitura de que se trata de karmelit (domínio intermediário); aqui se traduziu “vale”, como no Bavli deste site. Na seção 03, o hebraico diz יוּדָה בֵּן פָּזִי, onde o paralelo de Kilayim diz בַּר פָּזִי e Guggenheimer escreve “bar Pazi”. Nomes: Rabi Achá traduz אָחָא; Rabi Yossi beRabi Yudá traduz יוֹסֵה בֵּירִבִּי יוּדָה; Rabi Chananiá traduz חֲנַנְיָה; Rabi Mana traduz מָנָא; e Rabi Yossi beRabi Bun traduz יוֹסֵי בֵּירִבִּי בּוּן.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá, o marcador de folha da edição de Vilna 10b, na seção 02, antes da primeira ocorrência de אִם הָעוֹמֵד, o marcador de coluna da edição de Veneza 19c, na seção 03, antes de אִם הַפָּרוּץ, e uma marca vazia de nota de Guggenheimer, na seção 03, depois de מְקוֹם אַרְבָּעָה. O texto do Sefaria não tem marcadores numéricos nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. Grafias anômalas foram mantidas no hebraico, como שֵׁלְשְׁתִי e שֵׁלֹּא, na seção 01, a abreviatura מִד׳ e הָעוּמֵד, na seção 02.