Quinta halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná ensina que a korá, a viga transversal sobre a entrada do mavoi, o beco, se for de palha ou de juncos, é considerada como se fosse de metal; se for torta, como se fosse reta; e se for redonda, como se fosse quadrada, pois a que tem três tefachim, palmos, de circunferência tem um tefach de largura. A guemará explica que a primeira regra foi necessária para Rabi Yudá, que se contenta com a korá larga ainda que não seja forte. Sobre a korá torta, Rabi Achá e Rabi Yossi, ambos em nome de Rabi Zeira, divergem se a regra é só de Rabi Yudá ou de todos, e define-se a curvatura que impede o mavoi. Sobre a korá redonda, a guemará aprende a medida da circunferência do Mar, o tanque de bronze que Shlomo fez para o Templo, e concilia os versículos: o Mar era redondo em cima e quadrado embaixo, e continha duas mil bat de líquido, que são três mil de seco. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 13b.
Mishná: Se a korá (viga transversal) era de palha ou de juncos, considera-se como se fosse de metal. Se era torta, considera-se como se fosse reta. Se era redonda, considera-se como se fosse quadrada. Se há na sua circunferência três tefachim (palmos), há nela uma largura de um tefach (palmo).
“Se era de palha ou de juncos” etc. Para quem esta cláusula foi necessária? Foi necessária para Rabi Yudá, pois Rabi Yudá disse na Mishná anterior: “larga, ainda que não seja forte”.
“Torta, considera-se como se fosse reta.” Rabi Achá disse em nome de Rabi Zeira: esta é a opinião de Rabi Yudá. Rabi Yossi disse em nome de Rabi Zeira: é a opinião de todos, desde que a curvatura esteja do lado, curvatura que não impede o mavoi (beco). Mas curvatura que impede o mavoi, eis que esta é proibida. E qual é a curvatura que impede o mavoi? Toda aquela que, se fosse cortada, não haveria entre esta parte da korá e aquela três tefachim.
“Redonda, considera-se como se fosse quadrada.” Também esta é a opinião de Rabi Yudá. Do Mar (o grande tanque de bronze do Templo) aprenderam esta medida: “E fez o Mar fundido, de dez amot (côvados)” etc. É impossível dizer que era redondo, pois já se disse que era quadrado; é impossível dizer que era quadrado, pois já se disse que era redondo. Se disseres que era redondo, acabas dizendo que ele contém cento e sessenta yadot tahará (medidas de purificação). Se disseres que era quadrado, acabas dizendo que continha cento e vinte e duas yadot tahará. Dize, pois, de agora em diante: as duas amot de cima eram redondas, e as três amot de baixo eram quadradas; acabas dizendo que continha cento e cinquenta yadot tahará. Um versículo diz: “Duas mil bat (medida de capacidade) continha”, e outro versículo diz: “Comportava bat, três mil continha”. É impossível dizer duas mil, pois já se disse três mil; é impossível dizer três mil, pois já se disse duas mil bat. Acabas dizendo: duas mil bat em líquido, que são três mil bat em seco. Daqui aprenderam os sábios: quarenta seás (medida de capacidade) em líquido, que são dois kor (medida de trinta seás) em seco.
Esta é a quinta halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná do Yerushalmi corresponde à Mishná Eruvin 1:5 da Mishná avulsa, com pequenas diferenças: na regra final, o Yerushalmi diz אִם יֵשׁ בְּהֶקֵּפָהּ, “se há na sua circunferência”, e יֶשׁ בָּהּ, no feminino, referido à korá, onde a avulsa diz כֹּל שֶׁיֵּשׁ בְּהֶקֵּפוֹ, “todo o que tem na sua circunferência”, e יֶשׁ בּוֹ, como regra geral; há ainda diferenças de grafia, como כְּאִילּוּ e כְּאִלּוּ, עֲקוּמָּה e עֲקֻמָּה, רוֹחַב טֶפַח e רֹחַב טָפַח. No Bavli, a Mishná de Eruvin 13b reúne numa só o que no Yerushalmi são as Mishnayot 1:3, 1:4 e 1:5, e ali se lê “de palha e de juncos”, com “e”, onde o Yerushalmi e a avulsa dizem “ou”. A halachá ocupa quatro segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros três é aqui uma seção, de 01 a 03.
A guemará percorre as três cláusulas da Mishná. A korá de palha ou de juncos, que não pode de fato receber um ariach, só vale para quem se contenta com a largura, e por isso a cláusula foi necessária para Rabi Yudá, que na Mishná anterior diz “larga, ainda que não seja forte” (seção 01). Sobre a korá torta, Rabi Achá, em nome de Rabi Zeira, também a atribui a Rabi Yudá; Rabi Yossi, em nome de Rabi Zeira, a atribui a todos, desde que a curvatura esteja do lado e não impeça o mavoi (seção 02). Sobre a korá redonda, a guemará volta a atribuí-la a Rabi Yudá e aprende a regra do Mar de Shlomo: o versículo dá ao Mar dez amot de diâmetro, “de borda a borda”, e uma linha de trinta amot que o rodeia (Melachim I 7:23), e daí se tira que a circunferência é três vezes o diâmetro; por isso a korá redonda de três tefachim de circunferência tem um tefach de largura, que é a largura exigida para receber um ariach. É o valor de três para a razão entre a circunferência e o diâmetro, aceito pela halachá como medida, embora a razão exata seja um pouco maior. A seguir, a guemará concilia os versículos sobre a forma e a capacidade do Mar: a parte de cima redonda e a de baixo quadrada; e duas mil bat (Melachim I 7:26) e três mil bat (Divrei HaYamim II 4:5), entendidas como medida de líquido e medida de seco. Daí os sábios aprenderam que quarenta seás de líquido equivalem a dois kor de seco (seção 03).
A conta do Mar. O Mar tinha dez amot de diâmetro e cinco de altura (Melachim I 7:23). A medida de purificação é a do mikve, de quarenta seás, que o Bavli calcula como uma amá por uma amá por três amot de altura, isto é, três amot cúbicas. No Bavli, Eruvin 14a–14b, Rabi Chiya ensina que o Mar continha cento e cinquenta mikvaot; a conta como cubo dá quinhentas amot cúbicas, isto é, cento e sessenta e seis mikvaot e dois terços, e como cilindro, com a razão de três, dá um quarto a menos, trezentas e setenta e cinco amot cúbicas, isto é, cento e vinte e cinco mikvaot; Rami bar Yechezkel ensina então que as três amot de baixo eram quadradas e as duas de cima redondas, o que dá cem mais cinquenta, cento e cinquenta. É a mesma solução do Yerushalmi. Os números do Yerushalmi, cento e sessenta para o redondo e cento e vinte e dois para o quadrado, não correspondem a essa conta, e parecem trocados, pois o quadrado contém mais que o redondo; Guggenheimer propõe trocar “redondo” e “quadrado” e explica os números como medidas internas, descontada a espessura de um tefach das paredes (Melachim I 7:26); a tradução segue o hebraico como está. Também é de Guggenheimer a explicação de que “já se disse quadrado” se refere a Melachim I 7:24, onde se lê “dez amot rodeando o Mar”. Duas mil bat são seis mil seás, pois a bat tem três seás e o kor, de dez bat, trinta seás (Yechezkel 45:14, citado no Bavli), e seis mil seás são exatamente cento e cinquenta mikvaot de quarenta seás.
Referências conferidas no Sefaria. Em Eruvin 14a, o Bavli pergunta o que ensina a cláusula da korá de palha ou de juncos, se já se disse “larga, ainda que não seja forte”, e responde que era preciso ensinar que vale mesmo para o que não é da espécie das coisas fortes; sobre a korá torta, cita Rabi Zeira: se a curvatura está fora do mavoi, ou acima de vinte amot, ou abaixo de dez tefachim, considera-se: toda aquela que, se a curvatura fosse retirada, não haveria entre esta parte e aquela três tefachim, não precisa de outra korá, e, se não, precisa. Sobre a korá redonda, o Bavli pergunta para que serve, e responde que era preciso ensinar a regra final, e Rabi Yochanan a tira de Melachim I 7:23. Em Eruvin 14b, além da conta do Mar, o Bavli diz que as três mil bat de Divrei HaYamim II 4:5 são a medida cumulada, de coisas secas, e Abaye conclui que o cumulado é um terço a mais; e cita a Mishná Kelim 15:1, segundo a qual o recipiente que contém quarenta seás de líquido, que são dois kor de seco, é puro. No Bavli, Sucá 7b–8a, a mesma regra, “todo o que tem na sua circunferência três tefachim tem de largura um tefach”, é usada para calcular a sucá redonda de Rabi Yochanan. No capítulo 1 da Tosefta Eruvin (ed. Lieberman) não há paralelo para as três cláusulas desta Mishná; ali se fala de uma pedra quadrada e de uma redonda, mas a propósito dos passin em volta dos poços (Tosefta Eruvin 1:12 na divisão do Sefaria), e não da korá.
Leituras incertas. Na seção 02, o hebraico define “a curvatura que impede o mavoi” como aquela que, cortada, não deixaria entre as partes três tefachim, o que é a definição da curvatura que não impede; Guggenheimer, seguindo o Rashba, lê “que não impede”, e assim também é a regra de Rabi Zeira no Bavli; a tradução segue o hebraico. “Do lado” traduz מִן הַצָּד, e não fica claro se se trata do lado da entrada ou do plano horizontal. “Eis que esta é proibida” traduz הֲרֵי זוֹ אֲסוּרָה, com pronome feminino, que pode referir-se à korá ou à curvatura; e “se fosse cortada” traduz יָגוּד. Na seção 03, “é impossível” traduz אֶיפְשַׁר, lido como אִי אֶפְשָׁר, como exige o sentido e como entende Guggenheimer; “aprenderam esta medida” completa o objeto de לָמְדוּ, que o texto não diz; e יָדוֹת טַהֲרָה foi mantido transliterado como “yadot tahará”, com a glosa “medidas de purificação”, sendo entendido como a medida do mikve, como no Bavli, que diz מִקְוֵה טׇהֳרָה. O primeiro “contém” traduz הוּא מַחֲזִיק, no presente, e os outros, הָיָה מַחֲזִיק, no passado, como no hebraico.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. São as já indicadas: “que não impede” por “que impede”, na seção 02, e a troca de “redondo” e “quadrado”, na seção 03. Rabi Yudá, יוּדָה, é grafado assim na guemará, como em Eruvin 1:1 a 1:4; Rabi Yossi traduz יוֹסֵה, como em Eruvin 1:1; Rabi Achá traduz אָחָא; e Rabi Zeira traduz זְעִירָא.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e o marcador de folha da edição de Vilna 8b, que estava na seção 03, logo antes de אִין תֵּימַר עָגוֹל. O texto do Sefaria não tem marcadores numéricos nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. Grafias anômalas foram mantidas no hebraico, como שֶׁלְקָנִים, junto, na seção 01, e עַקְמוּמִיֻּת, na seção 02.