Quarta halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná exige que a korá, a viga transversal sobre a entrada do mavoi, seja larga para receber um ariach, o meio-tijolo, e também forte para recebê-lo; Rabi Yehudá se contenta com a largura. A guemará traz a baraita de Rabi Shimon, para quem basta a força sem a largura, e três decisões: Rav segue Rabi Meir, Shmuel segue Rabi Yudá, Rabi Yehoshua ben Levi segue Rabi Shimon; Rabi Shimon bar Karsana conclui que quem age por qualquer delas nada tem a temer, e Rabi Mana, que se segue os sábios. Vem então o relato de Rav, que vai a um lugar e encontra um mavoi permitido com um lechi; Rav Huna lembra a tamareira que está de pé, e Rav proíbe naquele Shabat e permite no seguinte, para que saibam que sem a tamareira é proibido transportar. A versão de Rabi Chinena conta o mesmo relato com a korá retirada e liga-o a uma dificuldade sobre o karpef, que Rabi Mana resolve. O Bavli discute esta mesma Mishná em Eruvin 13b.
Mishná: A korá deve ser larga para receber um ariach (meio-tijolo), e forte para receber um ariach. Rabi Yehudá diz: basta que seja larga, ainda que não seja forte.
“Larga para receber um ariach” etc. Ensinou-se numa baraita: Rabi Shimon diz: basta que seja forte, ainda que não seja larga. Rav Huna disse em nome de Rav: a halachá (a norma prática) é conforme Rabi Meir. Shmuel disse: a halachá é conforme Rabi Yudá. Rabi Yehoshua ben Levi disse: a halachá é conforme Rabi Shimon. Disse Rabi Shimon bar Karsana: uma vez que dizes que a halachá é conforme este e que a halachá é conforme aquele, quem faz assim não precisa se preocupar, e quem faz assim, do outro modo, não precisa se preocupar. Disse Rabi Mana: uma vez que se disse que a halachá é conforme os rabanan (os sábios), deixa-se o sábio individual e age-se conforme os rabanan.
Rav foi a um lugar. Viu um mavoi (beco) que estava permitido com um lechi (poste lateral). Deu-lhe um golpe com o bastão e o derrubou. Disse-lhe Rav Huna: a tamareira está de pé ali. Disse-lhe Rav: os olhos de Rav Huna estão postos nela, e os olhos de Rav não estão postos nela. Mas eis que eu lhes proíbo o transporte por causa da korá (viga transversal), e no Shabat seguinte lhes permito o transporte a título de lechi, para que saibam que, se a tamareira for retirada, é proibido transportar no mavoi. E há quem queira dizer: foi assim para que não pensassem conforme Rabi Yudá, pois Rabi Yudá disse: “larga, ainda que não seja forte”.
Pois Rabi Chinena não o disse assim, mas assim: Rav foi a um lugar e viu um mavoi cuja korá fora retirada, e o proibiu. Disse-lhe Rav Huna: a tamareira está de pé ali. Disse-lhe Rav: os olhos de Rav Huna estão postos nela, e os olhos de Rav não estão postos nela. Mas eis que eu lhes proíbo o transporte por causa da korá, e no Shabat seguinte lhes permito o transporte a título de lechi, para que saibam que, se a tamareira for retirada, é proibido transportar no mavoi. Há quem queira dizer: foi assim para que não pensassem conforme Rabi Yudá. Pois ensinamos ali: “Que é um karpef (cercado)? Todo aquele que está próximo da cidade, palavras de Rabi Yehudá.” E aqui ele diz assim? Disse Rabi Mana: Rabi Yudá o tratou como uma casa de moradia.
Esta é a quarta halachá do Perek Alef, Mavoi, de Massechet Eruvin. A Mishná do Yerushalmi corresponde à Mishná Eruvin 1:4 da Mishná avulsa, com pequenas diferenças: diz “larga para receber” e “forte para receber”, onde a avulsa diz “larga o bastante para receber” e “forte o bastante para receber”, com כְּדֵי nas duas vezes; e diz שֶׁאֵינָהּ בְּרִיאָה onde a avulsa diz שֶׁאֵין בְּרִיאָה. No Bavli, a Mishná de Eruvin 13b reúne numa só o que no Yerushalmi são as Mishnayot 1:3, 1:4 e 1:5, inclusive a korá de palha ou de juncos, que se considera como se fosse de metal e que no Yerushalmi abre a halachá seguinte. A halachá ocupa quatro segmentos no Sefaria: o primeiro é a Mishná, e cada um dos outros três é aqui uma seção, de 01 a 03.
A guemará começa com a baraita de Rabi Shimon, que inverte a posição de Rabi Yehudá: basta que a korá seja forte, ainda que não seja larga. Seguem-se três decisões: Rav Huna, em nome de Rav, decide conforme Rabi Meir, que Guggenheimer entende ser o autor presumido da primeira cláusula, anônima, que exige largura e força; Shmuel decide conforme Rabi Yudá; e Rabi Yehoshua ben Levi, conforme Rabi Shimon. Rabi Shimon bar Karsana conclui que, havendo decisões em mais de um sentido, quem segue qualquer delas não precisa temer; Rabi Mana responde que, como se disse que a halachá é conforme os sábios, isto é, conforme a cláusula anônima, deixa-se a opinião individual (seção 01). O relato de Rav ilustra essa decisão: um mavoi permitido com um lechi tem também uma tamareira de pé, que poderia servir de lechi; Rav proíbe o transporte naquele Shabat e o permite no seguinte, já a título de lechi, para que os moradores saibam que, sem a tamareira, o mavoi fica proibido. Outra explicação diz que Rav quis evitar que seguissem Rabi Yudá, que se contenta com a korá larga (seção 02). Rabi Chinena conta o relato de outra forma: a korá fora retirada, e Rav proibiu o mavoi. A segunda explicação, nesta versão, passa a uma dificuldade sobre Rabi Yudá: na Mishná ele define o karpef como todo cercado próximo da cidade, e aqui ele diz assim? Rabi Mana responde que Rabi Yudá tratou o lugar como casa de moradia (seção 03). Guggenheimer observa que esta parte final não tem ligação com o tema e vem de outra discussão, do capítulo 2 de Eruvin e de Beitzá, sobre o cercado em que Rabi Yehudá permite transportar quando há nele uma cisterna, uma vala ou uma caverna; a tradução segue o texto como está.
Referências conferidas no Sefaria. O Bavli traz esta Mishná em Eruvin 13b. Em Eruvin 14a, Rabba bar Rav Huna diz que a korá deve ser forte para receber um ariach, mas que os seus suportes não precisam ser fortes para receber a korá e o ariach, e Rav Chisda exige ambos; e, sobre “larga, ainda que não seja forte”, conta-se que Rav Yehudá ensinava a Chiya bar Rav, diante de Rav, essas palavras de Rabi Yehudá, e Rav lhe disse que ensinasse “larga e forte”, o que concorda com a decisão de Rav aqui; pergunta-se ainda pela tradição de Rabi Ilai, em nome de Rav, de que basta a korá larga de quatro palmos, ainda que não seja forte, e responde-se que a de quatro palmos é diferente. Em Eruvin 14a discute-se também a cláusula da korá de palha ou de juncos. Em Eruvin 15a, o Bavli traz outro relato de Rav e Rav Huna: Rav estava sentado num mavoi, com Rav Huna diante dele; enquanto o servo ia buscar um jarro de água, o lechi caiu; Rav fez sinal com a mão, e Rav Huna perguntou-lhe se não se apoiava na tamareira; Rav respondeu que não se contava com ela desde a véspera. Ali o lechi cai sozinho, e não há golpe de bastão. A citação sobre o karpef é da Mishná Beitzá 4:2, onde se lê כֹּל שֶׁסָּמוּךְ לָעִיר, onde aqui se lê כָּל שֶׁהוּא סָמוּךְ לָעִיר; e a opinião de Rabi Yehudá de que basta no cercado uma cisterna, uma vala ou uma caverna está na Mishná Eruvin 2:5 da Mishná avulsa. No capítulo 1 da Tosefta Eruvin (ed. Lieberman) não há paralelo para a exigência de que a korá seja forte nem para a opinião de Rabi Yehudá.
Leituras incertas. Na seção 01, “quem faz assim” aparece duas vezes no hebraico, e o segundo foi entendido como quem age do outro modo; e não fica claro a que decisão se refere Rabi Mana ao dizer que “se disse” que a halachá é conforme os sábios; pode ser a de Rav Huna em nome de Rav, se Rabi Meir for o autor da cláusula anônima, como entende Guggenheimer. Na seção 02, “que estava permitido com um lechi” traduz שְׁרִיתֵיהּ בְלֶיחַיָּא; Guggenheimer, seguindo o Rashba, lê בלייה, e entende que a korá estava apodrecida, e que foi ela que Rav derrubou com o bastão; a tradução segue o hebraico. “Deu-lhe um golpe” traduz יְהַב לָהּ, com pronome feminino, que não diz se o golpe foi no lechi ou na korá. “Os olhos de Rav Huna estão postos nela” traduz עֵינוֹי דְרַב חוּנָא גְבַהּ, lido como “junto dela”, isto é, Rav Huna conta com a tamareira e Rav não conta; Guggenheimer traduz “os olhos de Rav Huna são altos”. “A título de lechi” traduz מִשּׁוּם לֶחִי; e a frase “proíbo por causa da korá” foi traduzida literalmente, sem decidir se a korá era inválida ou se faltava. Na seção 03, “e aqui ele diz assim?” e “o tratou como uma casa de moradia” foram mantidos literalmente, e o referente de “aqui” e do pronome não está no texto.
Divergências entre o hebraico e o pivô inglês, em que se seguiu o hebraico. São as já indicadas: בלייה por בְלֶיחַיָּא, e “altos” por גְבַהּ. O nome רִבִּי חִינְנָא foi grafado Rabi Chinena, como em Eruvin 1:1. O nome do mestre aparece no hebraico como רַב הוּנָא na seção 01 e como רַב חוּנָא e רַב חוּנָה nas seções 02 e 03; a tradução usa Rav Huna em todas, como em Eruvin 1:1 e 1:2. Rabi Yehudá, יְהוּדָה, é grafado assim na Mishná e na citação do karpef; Rabi Yudá, יוּדָה, na guemará. A tamareira é דִּיקְלָא em aramaico e הַדֶּקֶל em hebraico, e a tradução usa a mesma palavra para ambas.
Do hebraico foram retirados apenas os rótulos de Mishná e de halachá e o marcador de folha da edição de Vilna 8a, que estava na seção 03, logo após רִבִּי חִינְנָא. O texto do Sefaria não tem marcadores numéricos nesta halachá, e nenhum foi acrescentado. Grafias anômalas foram mantidas no hebraico, como בְּרִיָיה, מִשֵׁם, יְהַוּוּן e חֲמָה.