Orot · As Luzes do Rav Kook

A Grande Teshuvá da Luz dos Segredos

Há uma teshuvá pequena — a do acerto de contas sobre este ou aquele ato. E há uma teshuvá imensa: a que brota da luz dos segredos da Torá, de um raciocínio interior que sobe da fonte viva na profundeza da alma. Esta, ensina o Rav Kook, é incomparavelmente maior — é o grande mar da teshuvá, e nela Israel verá a luz da redenção.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §68 Tradução inédita · PT-BR

Costumamos pensar a teshuvá (o "retorno", o arrependimento) como um inventário: o que fiz de errado, o que devo corrigir. O Rav Kook reconhece essa teshuvá — mas aponta para outra, muito maior, que não nasce do cálculo dos atos, e sim de uma luz. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

Duas teshuvás

A teshuvá que brota da luz dos segredos da Torá [or sitrei Torá] — que se desperta a partir de um raciocínio interior, desenvolvendo-se da fonte viva nas profundezas da alma (fonte que abarca toda retidão e todo raciocínio, toda moral e todo estatuto e mandamento) — é grande e sublime, sem comparação, mais do que toda teshuvá particular, a que sai dos pequenos cálculos individuais da alma — cálculos que não têm senão o seu lugar, a sua hora e o seu detalhe, e que "não bastam para cobrir todas as obras".

A distinção é decisiva. A teshuvá "particular" corrige atos, um a um: este erro, aquela falha. É necessária — mas limitada, presa "ao seu lugar, à sua hora, ao seu detalhe". Sozinha, "não basta para cobrir todas as obras", porque a vida tem mais lados do que qualquer inventário consegue listar. A teshuvá maior não soma correções: brota de uma luz que reorganiza o todo de uma vez — vem de cima e de dentro, não da contabilidade.

O grande mar da teshuvá

O grande mar da teshuvá, com a multidão das suas ondas, é apenas aquela torrente que vem da compreensão do coração [binat ha-lev] de uma liberdade eterna [cherut olam] — [compreensão] que vai brilhando através das frestas dos segredos do mundo: os que estão nos mistérios da Torá, na sabedoria dos segredos, em toda a manifestação espiritual, e em todo o tesouro de poesia e de pensamento que há na luz da Torá.

כִּי עִמְּךָ מְקוֹר חַיִּים, בְּאוֹרְךָ נִרְאֶה אוֹר "Pois contigo está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz." Tehillim (Salmos) 36:10

Note de onde brota essa teshuvá maior: de uma "liberdade eterna". O arrependimento, no Rav Kook, não é sobretudo aperto e culpa — é libertação. Quando a luz dos mistérios da Torá penetra "pelas frestas", o coração compreende, e dessa compreensão jorra um mar inteiro. A teshuvá deixa de ser um tribunal interno e torna-se uma maré de vida que vem da própria fonte — "contigo está a fonte da vida; na tua luz vemos a luz".

A luz em que se vê a redenção

É por esta luz que Israel anseia; e nesta grande luz verá a luz da redenção e a redenção eterna [pedut olamim].

A teshuvá maior não soma correções: é uma maré de vida que vem da própria fonte.
שׁוּבוּ אֵלַי וְאָשׁוּבָה אֲלֵיכֶם, אָמַר ד' צְבָאוֹת "Voltai a mim, e voltarei a vós, diz o Senhor dos Exércitos." Malachi (Malaquias) 3:7

O fecho liga a teshuvá à redenção, e por isso esta seção pertence às "Luzes do Renascimento". A grande teshuvá não é só um assunto privado de cada alma: é a maré que ergue a nação inteira rumo à libertação. "Voltai a mim, e voltarei a vós" — o retorno do povo e o retorno da Presença divina são um só movimento. Eis o complemento da teshuvá que brota do espírito de santidade: ali, da profecia em germe; aqui, da luz dos segredos da Torá. Duas faces da mesma grande maré.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §68. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. O fecho cita Malachi 3:7 ("voltai a mim, e voltarei a vós"); o verso "contigo está a fonte da vida" é de Tehillim 36:10. A frase aramaica "não bastam para cobrir todas as obras" é uma expressão dos Sábios (cf. o Zohar) que o Rav Kook entrelaça no texto. As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.