Esta breve seção fecha o pensamento das duas anteriores sobre a geração do renascimento. Depois de explicar que a sua irreverência não é destruição (§39) e que o seu trabalho material é uma fundação sagrada (§40), o Rav Kook diz aqui de onde vem, afinal, aquela insolência — e por que ela passará. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira, a partir do hebraico de domínio público.
As almas dispersas regressam
Muitas almas, dispersas entre as nações [nidachot], voltam a Knesset Israel nos calcanhares do Mashiach [ikveta de-meshicha]; e a força de digestão [do corpo do povo] não basta, de início, para convertê-las em alimento saudável.
A imagem é fisiológica, e por isso desarmante. Almas que estiveram longas eras "entre as nações" regressam trazendo consigo formas de pensar, de sentir e de viver formadas fora. O corpo do povo ainda não consegue "digeri-las" — integrá-las plenamente à sua vida interior. Não é culpa de ninguém: é o esforço natural de um organismo que reabsorve o que andou disperso. O Rav Kook não vê traição nos que voltam diferentes; vê um processo de saúde em curso.
Uma doença passageira
E é disto que cresce a doença da chutzpá [a insolência]. Mas ela é apenas uma doença passageira.
Repare na delicadeza do diagnóstico: a insolência da geração não é apresentada como uma corrupção moral do caráter, mas como um sintoma de transição — a dificuldade momentânea de assimilar tudo o que regressa de uma só vez. E todo sintoma de transição, por definição, passa. Ao fim, aquilo mesmo que veio "de fora" deixa de ser indigesto e torna-se força:
O verso que encerra a seção transforma o problema em promessa. Aquilo que, por ora, o povo não consegue "digerir" — o saber, a energia, a cultura que as almas trazem do exílio — não será rejeitado: tornar-se-á nutrição. "Comereis a riqueza das nações." O que hoje provoca a febre da insolência é, visto de longe, o alimento de amanhã. É a mesma confiança das seções anteriores: nada do que é genuíno se perde — tudo, a seu tempo, entra no corpo vivo da nação.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §41. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. A citação que encerra o original é de Yeshayahu 61:6 ("comereis a riqueza das nações"); o regresso dos "dispersos" ecoa Yeshayahu 11:12. A expressão "calcanhares do Mashiach" [ikveta de-meshicha] é talmúdica (Sotá 49b). As expressões entre colchetes e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.