Orot · As Luzes do Rav Kook

Orot HaTechiyá — Seleções II

Mais três passagens de As Luzes do Renascimento: a santidade do trabalho, a fé e o amor como a própria essência da vida, e a célebre síntese das "três forças" — o sagrado, a nação e o humano.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Orot HaTechiyá §16–18 Tradução inédita · PT-BR

Depois da abertura de Orot HaTechiyá (traduzida em O Renascimento), esta é uma seleção de três das suas passagens mais amadas. Traduzo-as do hebraico (de domínio público), buscando preservar a sua força. Por serem trechos longos e densos, condensei a redação em alguns pontos, mantendo o argumento.

§16 — O trabalho é sagrado

É evidente que o justo faz todos os seus atos em santidade, e que todas as suas ações físicas se elevam para o reparo do mundo (tikun olam). Eis o "amor ao trabalho" (melachá), cuja grandeza é tão alta que foi dado em aliança, como a Torá foi dada em aliança. Não há dúvida, então, de que a reparação do mundo e a expansão da luz sagrada se encontram em todo trabalho: cada gesto que resgata uma parte da existência do domínio do caos é algo grande e universal.

Quando há justos na geração, sobre quem a luz de D'us repousa, eles unem a sua alma à alma de toda a coletividade, e o pensamento íntimo das multidões que trabalham se une ao deles. E o lado de "maldição" que há no trabalho — o que nasce da inveja e do ódio alimentados pela luta da vida na sua forma amarga — vai-se purificando, e passa do âmbito do maldito ao do bendito: "Maior é quem desfruta do fruto do seu próprio trabalho do que o temente do Céu" (Berachot 8a).

E assim como há força para fazer fluir a santidade em todos os ofícios, há força para trazer luz sagrada a todas as línguas e a todas as ciências do mundo. Por isso os grandes justos devem orar para que a luz da bondade de D'us se estenda por todas as ciências e línguas — de modo que de todo lugar apareça a glória de D'us, e de todo lugar se espalhem os raios de luz da Torá. E quanto mais se amplie o trabalho na Terra de Israel, mais a lavoura e o ofício sairão, por meio de Israel, da sua baixeza amaldiçoada — e a vida eterna e a vida do instante se entrelaçarão num laço firme.

É notável: o Rav Kook não opõe o "sagrado" ao "trabalho", à ciência ou à cultura. Pelo contrário — ele quer que a luz divina penetre todo ofício, toda língua e toda ciência, até que "de todo lugar apareça a glória de D'us".

§17 — A fé e o amor

A fé e o amor estão sempre unidos: quando ambos brilham na alma em plenitude, e a luz de um se completa, desperta o outro com força. O ser humano não é capaz de nenhuma força espiritual com perfeição tão grande quanto a da fé e do amor — sinal de que neles repousam os fundamentos de toda a sua essência. Deles emanam todas as luzes espirituais do mundo, que iluminam todos os caminhos da vida.

הַתּוֹרָה הִיא הָאַהֲבָה, וְהַמִּצְווֹת – הָאֱמוּנָה "A Torá é o amor; e as mitsvot, a fé." Orot HaTechiyá §17

A fé e o amor são a própria vida, neste mundo e no vindouro: nada permanece vivo quando se lhe arrancam essas duas luzes. A cultura do tempo, como hoje se assenta no mundo, está construída sobre a descrença e o ódio — que negam a vida essencial; e não há como vencer essa doença senão revelando os tesouros de bem guardados na fé e no amor. A Torá e as mitsvot são os canais por onde elas fluem sempre.

Por isso ansiamos pelo renascimento da nação e da Terra: para reerguer o estado da nossa alma, para manter Israel vivo, para reavivar a fé e o amor com o vigor da Torá e das mitsvot. Pedimos, por isso, muita Torá; aspiramos a uma saúde plena e a um corpo forte; e buscamos muitas mitsvot — para termos vasos suficientes que contenham a grande luz da fé e do amor, com todo o seu deleite e toda a sua força.

§18 — As três forças: o sagrado, a nação e o humano

Talvez a passagem mais célebre desta seção. Três forças se digladiam hoje no nosso meio — e a sua guerra é mais visível na Terra de Israel. Seríamos infelizes se deixássemos essas três forças — que precisam unir-se em nós, cada uma fortalecendo a outra e contendo os exageros que a outra poderia trazer — dispersas, em rebelião umas contra as outras, divididas em campos inimigos.

הַקֹּדֶשׁ, הָאֻמָּה, הָאֱנוֹשִׁיּוּת "O Sagrado, a Nação, a Humanidade." Orot HaTechiyá §18

O Sagrado, a Nação e a Humanidade — eis as três exigências fundamentais de que toda a vida, a nossa e a de todo ser humano, se compõe; não há forma de vida humana que não seja composta das três. O Rav Kook identifica três grupos no povo: o ortodoxo, que carrega a bandeira do sagrado — pela Torá, as mitsvot e a fé; o nacional, que luta por tudo a que a aspiração nacional anseia, e que acolhe o bem que reconhece no espírito de outros povos; e o liberal, que ergue a bandeira da cultura e busca o conteúdo humano universal.

É claro — diz ele — que, num estado saudável, há necessidade das três forças juntas; e devemos sempre aspirar a esse equilíbrio, "sem falta nem excesso", em que o sagrado, a nação e o homem se unam "com amor nobre e prático". Mais ainda: cada um deve reconhecer não só o lado positivo da força do outro, mas até o valor que há no lado negativo de cada força — porque a oposição de uma à outra a põe na sua justa medida e a salva do excesso perigoso. É como o serviço difícil do Templo, a kemitsá: "que não falte e que não sobre".

"O sagrado, a nação e o homem hão de unir-se — com amor nobre e prático."

E quando colocamos o sagrado entre as três forças — cada uma cedendo às vezes para dar lugar à outra —, isso vale apenas para o lado técnico e prático do sagrado; pois a essência do sagrado supremo é o portador universal de tudo, e até esse "recolher-se" faz parte do seu serviço. A ideia divina, em si, é livre de todo limite — e quem caminha com retidão nas veredas medidas da justiça acaba conduzido, também, à amplidão sem fronteiras: "Do aperto clamei a D'us; respondeu-me com amplidão" (Tehilim 118:5).

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, OrotOrot HaTechiyá (As Luzes do Renascimento), §16–18. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. São passagens longas e densas; condensou-se a redação preservando o argumento. As notas são nossas; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.