Esta seção responde a uma pergunta antiga: o que liga uma pessoa ao seu povo? O Rav Kook dá uma resposta que distingue Israel de toda outra nação — e que tem uma consequência ética imediata: como o vínculo é moral, cada gesto de elevação de um indivíduo fortalece o todo, e cada queda o enfraquece. Traduzo os oito capítulos do hebraico (domínio público).
Knesset Israel está fundada inteiramente sobre a base da moral divina suprema. Por isso, toda elevação moral encontrada nos seus indivíduos lhe acrescenta força; e, ao contrário, a queda moral, na medida da sua feiura, enfraquece a sua força e o vínculo dos indivíduos com o todo. É por isso que a salvação de Israel depende da teshuvá — da melhora moral no ato, no sentimento e no intelecto — diferentemente de outros povos.
Há povos cuja força de coesão é justamente uma aspiração de domínio sem ideal de justiça — e que podem, por isso, fortalecer-se até pela intensificação do mal. Não assim Israel: o vínculo dos seus indivíduos com o todo não se pode fundar em outra lei senão na lei suprema do amor ao bem mais elevado. Por isso, todo ato que brota — direta ou indiretamente — desse bem supremo fortalece a sua força; e abandoná-lo a enfraquece. E como a ideia-alma de Knesset Israel é a moralidade, toda falha moral, conforme o seu grau, afasta o indivíduo da sua ligação com a alma da nação.
Aqui está o coração da seção. A relação de Knesset Israel com os seus indivíduos é diferente de toda relação de uma coletividade nacional com os seus. Todas as coletividades nacionais dão aos seus indivíduos apenas o lado exterior da essência; a essência mesma, cada pessoa a haure da alma do Todo, da alma de D'us — não por meio da coletividade, pois esta não tem em si uma entidade divina própria. Em Israel, não: a alma dos indivíduos é haurida da fonte da Vida dos Mundos no tesouro do coletivo, e o coletivo dá alma aos indivíduos.
E os canais dessa nutrição da alma passam, em Israel, pelas mitsvot, a palavra de D'us: o grande espírito, em que repousa a luz divina, encarnou-se — desde os Patriarcas — em atos concretos que caminham com a vida. Cada indivíduo, ao cumprir as mitsvot, acrescenta luz à alma do todo, com o selo que nela imprime do que é seu; e essa ação é viva, que vivifica e acrescenta força — até que a santidade se eleva, a forma humana se enche de luz, e os mundos se enchem de alegria, "da luz da Torá e da lâmpada da mitsvá".
A verdadeira relação de cada um em Israel com a coletividade — no sentido espiritual pleno, que abarca a vida moral, espiritual e natural — precisa de nutrição constante, mais do que precisa o membro de uma nação natural para a sua ligação ao povo. As inclinações naturais não exigem tanto reforço quanto as morais, que pedem cultivo contínuo no estudo e no ato. Por isso as nações cuja existência se volta sobretudo às inclinações naturais influem nos seus indivíduos sem necessidade de nutrição especial; mas em Israel, onde o laço se volta para o lado moral e ideal, esse vínculo precisa de fortalecimento contínuo. E o melhor alimento é o estudo da Torá em todos os seus lados — incluindo o estudo histórico — e o cumprimento das mitsvot com fé profunda, iluminada pela luz do conhecimento.
Quando cresce a força material da nação, a sua alma se expande e cresce, e todos os indivíduos haurem, cada um conforme o seu canal, vida da sua fonte geral. E o que atrai o coração de cada filho é a beleza interior de Knesset Israel — a graça divina derramada sobre ela, uma suavidade suprema que nenhuma nação e nenhum indivíduo isolado consegue alcançar. Como dessa graça se estende um "fio de bondade" até cada indivíduo, é por esse pequeno fio que ele sente a beleza elevada do todo — e a ela se liga com um laço firme.
Quanto mais cresce o ruach hakodesh na nação, mais cresce o laço entre os indivíduos e o todo. E o movimento é de mão dupla: assim como a vontade divina suprema, que habita na totalidade da nação, dá da sua força o espírito sagrado aos indivíduos dignos dela, também cada indivíduo que se torna apto — pelo bem absoluto, pela moral pura, fortalecida com conhecimento — eleva a alma de toda a nação, na medida em que anseia por elevá-la, e a faz passar da potência ao ato.
Eis a grandeza ética desta visão: o indivíduo nunca está sozinho. Quando estuda, faz bondade e reza com a comunidade, ele não apenas se aperfeiçoa — participa da elevação de todo o povo, e, por assim dizer, da própria redenção.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — Orot Yisrael, seção O Indivíduo e a Coletividade (Kesher haYachid vehaKlal), capítulos 1 a 8. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Buscou-se traduzir a seção na íntegra e preservar a sua densidade; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.