Orot · As Luzes do Rav Kook

Orot HaTechiyá — Seleções III

As passagens mais ousadas — e mais debatidas — do Rav Kook: a santidade oculta no renascimento secular, a "rebelião espiritual" como dor de parto, e a imagem do vinho e das borras. Traduzidas do hebraico, com o contexto que pedem.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Orot HaTechiyá §40, §43–45 Tradução inédita · PT-BR

Estas são algumas das páginas mais características — e mais controversas — do Rav Kook: a sua leitura do renascimento nacional do seu tempo, em que pioneiros muitas vezes não-religiosos reconstruíam a Terra. Ele vê nesse movimento uma dimensão oculta de santidade, sem por isso elogiar a transgressão. Traduzo do hebraico (domínio público), com notas honestas, pois são trechos facilmente mal lidos.

§40 — Primeiro a matéria, depois a luz

A primeira geração dos "calcanhares do Mashiach" (ikveta de-meshicha), no início do "fim revelado" do assentamento da Terra de Israel, prepara a matéria de Knesset Israel — e a espiritualidade, nessa fase, serve para guardar a vida interior. E quando a força material da nação se fortalecer, então se revelarão todas as suas qualidades espirituais sagradas, e a Torá, com todas as suas luzes, voltará ao seu vigor — para ser "coroa de glória na mão de D'us".

§43 — A nefesh e o ruach: cada um completa o outro

Esta é a passagem mais conhecida — e a mais delicada. O Rav Kook distingue duas dimensões da alma: a nefesh (a alma vital, do sentimento e da ação) e o ruach (o espírito, da fé e da Torá). E afirma: a nefesh dos "transgressores de Israel" desta época — aqueles que se ligam com amor às causas da coletividade, à Terra e ao renascimento da nação — é mais "consertada" do que a nefesh dos fiéis que não têm essa dedicação ativa ao bem do todo. Mas o ruach é muito mais íntegro nos tementes a D'us, guardiões da Torá e das mitsvot — ainda que neles o ímpeto de ação pelo coletivo ainda não seja tão forte.

E qual o reparo? Que Israel se torne uma só união: a nefesh dos tementes a D'us será curada pela inteireza dos "bons transgressores" no que toca ao todo; e o ruach desses será curado pela influência dos tementes a D'us e grandes na fé. Então virá uma grande luz a uns e a outros, e uma teshuvá completa ao mundo — "os Teus sacerdotes se vestirão de justiça, e os Teus piedosos exultarão" (Tehilim 132:9).

Nota — leitura honesta. Isto não diz que "o secular é superior ao religioso". É uma dialética de complementaridade: cada lado tem uma parte que falta ao outro — a devoção ativa ao coletivo e à Terra, de um lado; a integridade da fé e da Torá, do outro. O Rav Kook nomeia explicitamente o "espírito de desvario" e o dano dos atos que mancham; não elogia a transgressão. A sua visão é de unidade: a redenção integra as duas virtudes numa só alma.

§44 — A "rebelião" como dor de parto

Temos por tradição que uma rebelião espiritual virá em Eretz Israel, no período em que o renascimento da nação começar a despertar. O sossego material que chegará a uma parte do povo — que imaginará já ter alcançado toda a sua meta — diminuirá a alma; virão dias dos quais se dirá "não há neles prazer"; a aspiração aos ideais sagrados cessará, e o espírito afundará — até que venha uma tempestade e provoque uma reviravolta, e então se veja claramente que o vigor de Israel está na santidade eterna, na luz de D'us e na Sua Torá.

"O vigor de Israel está na santidade eterna — na luz de D'us e na Sua Torá."

A necessidade dessa fase, diz ele, é a volta à materialidade — que precisa renascer na nação com força, depois de tantos séculos de exílio em que lhe foram negadas a terra e a vida prática. Ao nascer, essa inclinação marcha com ímpeto e provoca tempestades — e estas são as dores do Mashiach (chevlei mashiach), que, por seus sofrimentos, hão de adoçar o mundo.

§45 — O vinho e as borras

Assim como não há vinho sem borras (shemarim), não há mundo sem os seus elementos grosseiros. E assim como as borras assentam o vinho e o preservam, também a vontade rude tem, paradoxalmente, um papel de sustentação no fluxo da vida. O exílio empobreceu a força vital da nação — e as suas "borras" diminuíram demais, a ponto de a própria existência ficar em risco por falta de uma vida concreta, enraizada na terra.

O retorno de Israel à sua terra, por sua existência essencial, é um evento necessário; e essa existência também "produz as suas borras": as energias turbulentas e a chutzpá dos calcanhares do Mashiach, cuja lembrança faz tremer o coração. São lados turvos — mas é através deles que se forma a existência clara e alegre. E o desfecho é: as borras assentam no fundo do barril, as forças rudes baixam às profundezas, e todo o seu conteúdo doloroso se dissolve. Por ora, enquanto sobem junto com o vinho — a vida da nação que desperta —, turvam-no, e os corações se agitam ao ver a fermentação; o coração só repousa ao contemplar o futuro, que segue o seu curso pelas maravilhas do "Perfeito em conhecimento".

מִי יִתֵּן טָהוֹר מִטָּמֵא? לֹא אֶחָד "Quem fará sair o puro do impuro? — o Único [D'us]." (lido pelos Sábios como: só o Um pode fazê-lo.) Iyov 14:4

Nota. A imagem das borras não santifica o mal — diz que, num momento histórico, energias rudes têm um papel de sustentação, mas que precisam assentar, e que o conteúdo doloroso se dissolverá. É uma teologia da história: o Rav Kook lê a sua geração turbulenta com paciência e esperança, confiando que o processo "vai fazendo o seu caminho" rumo à pureza.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, OrotOrot HaTechiyá (As Luzes do Renascimento), §40 e §43–45. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. São passagens densas e facilmente mal lidas; traduzidas com fidelidade e contextualizadas. As notas são nossas; eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.