Orot · As Luzes do Rav Kook

Queimar a Escória: a negação que purifica a ideia de D'us

A escória nas nossas conceções de D'us, do temor e da fé era tolerável no exílio — mas trava o renascimento, que exige conceções purificadas, brotadas da verdadeira ideia de D'us. Por isso, ensina o Rav Kook, desperta uma força de negação que queima o que há de tosco na ideia do divino. E ainda que pareça arrastar verdades, no fim tudo rebrota puro, do núcleo firme que negação alguma alcança.

Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook (1865–1935) Orot · Luzes do Renascimento (HaTechiyá) · §51 Tradução inédita · PT-BR

Este é um dos textos mais ousados do Rav Kook — e dos mais racionalistas. Nele, a crítica e o ceticismo da época, que tantos lamentavam, aparecem com uma função inesperada: a de um fogo purificador que queima as ideias toscas sobre D'us. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.

A escória que o exílio tolerava

A escória [as impurezas] que há na compreensão da Divindade, no temor, na fé e em tudo o que delas depende — enquanto a nação não precisa de reparar os seus modos de vida prática na sua totalidade, o dano que causam não é perceptível. Mas, uma vez chegado o tempo em que o renascimento nacional tem de vir, e a germinação real da força da salvação tem de se revelar, de imediato a escória estorva: a nação não consegue unir-se nem alcançar, na profundeza da sua vida, o segredo da sua força e as formas das suas ordens, a não ser por conceções purificadas [de'ot mezukakot] e por atos que brotam da pureza do verdadeiro conhecimento de D'us, na mais alta clareza.

כִּי מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת ד', כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים "Pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar." Yeshayahu (Isaías) 11:9

Eis uma ideia tipicamente racionalista, na linha do Rambam: nem toda "fé" é igual. Há uma fé pura, nascida do verdadeiro conhecimento de D'us, e há uma fé carregada de "escória" — imagens grosseiras, supersticiosas ou infantis do divino, que se toleravam quando a vida do povo era pequena e privada, mas que se tornam um obstáculo quando o povo precisa de reerguer uma vida pública inteira. Uma nação não se reconstrói sobre ideias toscas de D'us. O renascimento exige clareza.

A força que queima o que é tosco

Esta é a razão por que uma grande força de negação se desperta nos "calcanhares do Mashiach", com enorme ousadia; e essa negação há de queimar tudo o que é embaçado [tosco, opaco] nas conceções do divino e no que delas depende, em toda a nação.

Nota de contexto

É preciso ler isto com cuidado. O Rav Kook não está a elogiar a descrença, nem a abolição da Torá. Ele faz uma distinção fundamental: entre a escória (as ideias grosseiras sobre D'us) e o núcleo (o verdadeiro conhecimento de D'us, que negação alguma alcança). A "força de negação" da época — o ceticismo, a crítica — pode queimar a casca; mas o que ela revela, ao queimá-la, é um D'us mais puro, não a ausência de D'us. E o próprio Rav Kook reconhece, no que segue, o perigo e a dor de um fogo que não distingue bem o que queima.

O grão que nenhuma negação alcança

E ainda que seja terrível ver como muitas verdades, boas virtudes, mandamentos e estatutos vão sendo, aparentemente, arrastados e arrancados pela corrente da negação, mesmo assim, no fim de tudo, tudo rebrotará em pureza e força, em santidade suprema — a partir do grão firme, puro e elevado, que negação alguma atinge. E a sua luz raiará como uma luz nova sobre Sião, numa grandeza admirável, acima de toda imaginação — uma grandeza que as forças débeis de almas cansadas, cansadas material e espiritualmente por um longo exílio e empobrecimento, sequer conseguem conceber.

אוֹר חָדָשׁ עַל צִיּוֹן תָּאִיר, וְנִזְכֶּה כֻלָּנוּ מְהֵרָה לְאוֹרוֹ "Faze brilhar uma luz nova sobre Sião, e que todos nós depressa mereçamos a sua luz." Da liturgia (bênção Yotzer Or), sobre Yeshayahu 60
A negação queima a casca; o que ela revela é um D'us mais puro.

O consolo está na imagem do grão. Por mais que o fogo da crítica pareça consumir verdades e preceitos, há um núcleo — o conhecimento verdadeiro de D'us — que "negação alguma atinge", porque é a própria verdade. O que parece destruição é, no fundo, uma poda: cai a casca seca, e o grão vivo brota com mais força. É a mesma esperança que o Rav Kook expressa ao ver a Torá "romper o negrume" do exílio (veja-se A Torá que Rompe o Negrume): o que sobe mais alto parece, a quem ficou para trás, ter desaparecido.

Sobre esta tradução

Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §51. O original hebraico é de domínio público.

Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; a passagem sobre a "negação" foi vertida com uma nota de contexto. As citações são de Yeshayahu 11:9 e da liturgia ("luz nova sobre Sião", cf. Yeshayahu 60); "calcanhares do Mashiach" provém do Talmud. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.