Este é um dos textos mais ousados do Rav Kook — e dos mais racionalistas. Nele, a crítica e o ceticismo da época, que tantos lamentavam, aparecem com uma função inesperada: a de um fogo purificador que queima as ideias toscas sobre D'us. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
A escória que o exílio tolerava
A escória [as impurezas] que há na compreensão da Divindade, no temor, na fé e em tudo o que delas depende — enquanto a nação não precisa de reparar os seus modos de vida prática na sua totalidade, o dano que causam não é perceptível. Mas, uma vez chegado o tempo em que o renascimento nacional tem de vir, e a germinação real da força da salvação tem de se revelar, de imediato a escória estorva: a nação não consegue unir-se nem alcançar, na profundeza da sua vida, o segredo da sua força e as formas das suas ordens, a não ser por conceções purificadas [de'ot mezukakot] e por atos que brotam da pureza do verdadeiro conhecimento de D'us, na mais alta clareza.
Eis uma ideia tipicamente racionalista, na linha do Rambam: nem toda "fé" é igual. Há uma fé pura, nascida do verdadeiro conhecimento de D'us, e há uma fé carregada de "escória" — imagens grosseiras, supersticiosas ou infantis do divino, que se toleravam quando a vida do povo era pequena e privada, mas que se tornam um obstáculo quando o povo precisa de reerguer uma vida pública inteira. Uma nação não se reconstrói sobre ideias toscas de D'us. O renascimento exige clareza.
A força que queima o que é tosco
Esta é a razão por que uma grande força de negação se desperta nos "calcanhares do Mashiach", com enorme ousadia; e essa negação há de queimar tudo o que é embaçado [tosco, opaco] nas conceções do divino e no que delas depende, em toda a nação.
É preciso ler isto com cuidado. O Rav Kook não está a elogiar a descrença, nem a abolição da Torá. Ele faz uma distinção fundamental: entre a escória (as ideias grosseiras sobre D'us) e o núcleo (o verdadeiro conhecimento de D'us, que negação alguma alcança). A "força de negação" da época — o ceticismo, a crítica — pode queimar a casca; mas o que ela revela, ao queimá-la, é um D'us mais puro, não a ausência de D'us. E o próprio Rav Kook reconhece, no que segue, o perigo e a dor de um fogo que não distingue bem o que queima.
O grão que nenhuma negação alcança
E ainda que seja terrível ver como muitas verdades, boas virtudes, mandamentos e estatutos vão sendo, aparentemente, arrastados e arrancados pela corrente da negação, mesmo assim, no fim de tudo, tudo rebrotará em pureza e força, em santidade suprema — a partir do grão firme, puro e elevado, que negação alguma atinge. E a sua luz raiará como uma luz nova sobre Sião, numa grandeza admirável, acima de toda imaginação — uma grandeza que as forças débeis de almas cansadas, cansadas material e espiritualmente por um longo exílio e empobrecimento, sequer conseguem conceber.
O consolo está na imagem do grão. Por mais que o fogo da crítica pareça consumir verdades e preceitos, há um núcleo — o conhecimento verdadeiro de D'us — que "negação alguma atinge", porque é a própria verdade. O que parece destruição é, no fundo, uma poda: cai a casca seca, e o grão vivo brota com mais força. É a mesma esperança que o Rav Kook expressa ao ver a Torá "romper o negrume" do exílio (veja-se A Torá que Rompe o Negrume): o que sobe mais alto parece, a quem ficou para trás, ter desaparecido.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §51. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira; a passagem sobre a "negação" foi vertida com uma nota de contexto. As citações são de Yeshayahu 11:9 e da liturgia ("luz nova sobre Sião", cf. Yeshayahu 60); "calcanhares do Mashiach" provém do Talmud. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.