Por que a Torá Oral — o Talmud, a tradição viva — parece, no exílio, tão diminuída diante da grandeza da Torá Escrita? O Rav Kook responde com uma das suas imagens mais belas: a de dois gémeos separados, que a redenção reencontrará. O que segue é uma tradução inédita ao português da seção inteira das "Luzes do Renascimento", a partir do hebraico de domínio público.
A Torá Oral precisa da terra
A nutrição da Torá Oral está, por um lado, oculta — vinda do céu —, e, por outro, revelada — vinda da terra. E é preciso que a Terra de Israel esteja edificada, e todo o Israel habitando sobre ela, ordenado em todas as suas ordens: Templo e realeza, sacerdócio e profecia, juízes e oficiais e todos os seus arranjos. Então a Torá Oral vive em todo o esplendor da sua glória, florescendo e elevando o seu botão, e unindo-se à Torá Escrita em toda a sua plena estatura.
Eis uma ideia central do Rav Kook: a Torá Oral não é um texto a mais — é a Torá viva, a que se aplica à vida real de um povo, e por isso ela precisa de um povo vivo na sua terra, com todas as suas instituições, para florescer plenamente. Uma tradição feita só de estudo abstrato, sem tribunais, sem governo, sem vida pública sobre a qual incidir, vive "encolhida". A Torá Oral floresce onde há vida nacional sobre a qual ela possa falar.
Os gémeos separados no exílio
No exílio, os gémeos foram separados: a Torá Escrita elevou-se aos cumes da sua santidade, e a Torá Oral desceu à mais funda profundeza. E, ainda assim, esta recebe uma nutrição secreta da luz da Torá Escrita — da colheita espontânea do passado [o que rebrota por si] —, suficiente para mantê-la numa vida apertada; e vai descendo e caindo dia após dia, até que, em breve, sopre o dia e venha a luz da vida, do tesouro da redenção eterna.
A figura dos "gémeos" é tocante. A Torá Escrita, no exílio, tornou-se cada vez mais sublime e reverenciada — mas também cada vez mais distante da vida concreta; e a sua gémea, a Torá Oral, que vive justamente do contato com a vida, foi minguando por falta dessa vida sobre a qual agir. As duas precisam uma da outra: sem a Escrita, a Oral não tem raiz; sem a Oral, a Escrita não toca o chão. O exílio partiu o par — e por isso ambas sofreram.
O reencontro na redenção
E Israel prosperará, plantado na sua terra, florescendo em todo o esplendor das suas ordens. Então a Torá Oral começará a crescer da profundeza das suas raízes, subindo cada vez mais alto, e a luz da Torá Escrita lançará sobre ela raios de luz de novo, "novos a cada manhã"; e os amados reunir-se-ão na morada do seu dossel [a sua chupá]. E a luz da alma do D'us vivo dos mundos, que se revela no renascimento de Israel e na elevação do seu poder, brilhará com a luz dos sete dias, sobre a luz do sol e a luz da lua juntas.
E a sua luz será reta, penetrante e atraente, de uma para a outra, respondendo à terra e ao povo com todo o fulgor da vida.
Texto: Rav Avraham Yitzchak HaCohen Kook, Orot — "Luzes do Renascimento" (Orot HaTechiyá), §50. O original hebraico é de domínio público.
Tradução inédita ao português, feita a partir do hebraico e cotejada com a base de textos do Sefaria. Traduziu-se a seção inteira. As citações são de Yeshayahu 2:3 ("de Sião sairá a Torá") e Yeshayahu 30:26 (a luz dos sete dias); a imagem da "colheita espontânea" (sefiach) ecoa Vayikrá 25 e Yeshayahu 37:30; os "amados" sob a chupá remetem ao Cântico dos Cânticos. As notas e os títulos de seção são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.